Patrimônio sem povo: a cultura que não atravessa o rio
Edmundo Siqueira 01/03/2026 21:24 - Atualizado em 01/03/2026 21:40
 Construída pelos ingleses, de iniciativa privada e por ação do Barão da Lagoa Dourada, a ponte tinha o assoalho de madeira na sua construção (por isso seu apelido "de pau") e a cobrança de pedágio.
Construída pelos ingleses, de iniciativa privada e por ação do Barão da Lagoa Dourada, a ponte tinha o assoalho de madeira na sua construção (por isso seu apelido "de pau") e a cobrança de pedágio. / Reprodução
 
Quando falamos de cultura, em Campos dos Goytacazes, normalmente estamos nos referindo a um setor. Como se “cultura” fosse um guarda-chuva que abriga alguns grupos que pouco se comunicam entre si — e que, não raro, parecem separados da própria cidade. É como se esses grupos lutassem para construir uma identidade coletiva, alijados da coletividade.

Esse afastamento tem várias causas — e não cabe reduzi-lo a um único culpado. Há, sim, a responsabilidade do poder público, que não formula políticas estruturantes para a área cultural. Mas há também, em certos momentos, a postura pedante de quem se reivindica “do setor”. É um erro tentar decretar, de cima para baixo, o que tem ou não valor cultural — ou mesmo histórico. Essas definições nascem das vivências coletivas e, para fazerem sentido, precisam ser orgânicas.

As defesas preservacionistas obedecem a uma lógica não mercadológica: busca-se preservar elementos materiais e imateriais mesmo quando eles não geram lucro. A premissa é simples — há outros valores em jogo na proteção desses bens. E, quando um imóvel é tombado, ele passa, em tese, por avaliações de relevância histórica e cultural.

Em Campos, há bens tombados nas esferas federal, estadual e municipal.

Tomemos, porém, o exemplo do Solar dos Airizes. Há enorme relevância histórica e cultural em um prédio que atravessou o ciclo do açúcar, a escravidão, as grandes fazendas de Campos que funcionavam como núcleos de educação e saúde, entre outras nuances. Além disso, foi residência da família Lamego, que produziu obras fundamentais para compreender a formação de toda a região.

E então vem a pergunta que muitas vezes evitamos encarar: para que, concretamente, serviria sua preservação? Quantas pessoas seriam impactadas por seu restauro? E, uma vez restaurado, qual vocação o imóvel assumiria — que instituição abrigaria, que uso público sustentaria, que projeto o manteria vivo?
Solar dos Airizes, tombado pelo Iphan em 1940.
Solar dos Airizes, tombado pelo Iphan em 1940. / Foto: César Ferreira (PMCG)


Em Campos, essas perguntas seguem sem resposta — por falta de planejamento do poder público, pela baixa iniciativa do empresariado local e, sobretudo, pela dificuldade de transformar patrimônio e cultura em vida cultural de verdade: contínua, diversa, acessível e conectada à cidade.

A ponte de pau: quando o símbolo cede

Neste início de março, Campos atravessa mais uma cheia do Rio Paraíba do Sul. Além das populações ribeirinhas e das fazendas, um patrimônio histórico foi afetado: a “ponte de pau” — ou “ponte do meio” —, cujo nome oficial é Barcelos Martins (veja matéria da Folha aqui).

Foi a primeira ponte erguida em Campos, em 1873, para ligar o distrito de Guarus à chamada “pedra” da cidade. Construída por ingleses, por iniciativa privada e por ação do Barão da Lagoa Dourada, a ponte tinha assoalho de madeira — daí o apelido “de pau” — e chegou a ter cobrança de pedágio.

Nesta cheia, um dos pilares principais cedeu. O estado crítico é visível: pilares deteriorados, desgaste acumulado e sinalização insuficiente. Servindo à passagem de motos, bicicletas e pedestres, a histórica ponte ameaça ruir.
Ponte Barcelos Martins, março 2026.
Ponte Barcelos Martins, março 2026. / Reprodução


Se o Paraíba a levar de vez, será mais do que uma perda material: será o símbolo de uma cidade que não cuida de seus elementos memorialistas — que são também elementos de construção cultural — e que não sabe integrar sua população. Não há mais pedágio para transitar entre as margens do rio, mas persiste um distanciamento social severo.

E isso afeta, diretamente, os projetos culturais e as decisões de uso dos patrimônios materiais.
Um Solar dos Airizes abrigando um museu seria frequentado pela enorme população de Guarus, de Santo Eduardo ou de Ururaí? O público que deveria justificar restauros — e uma exploração comercial responsável do patrimônio — deveria vir justamente de onde historicamente se esteve à margem das iniciativas de restauro, de programação e de acesso.

Mercado Municipal: patrimônio escondido, uso desorganizado

Outro exemplo é o Mercado Municipal: um patrimônio histórico que permanece escondido e desconhecido de parte relevante da população campista. De um lado, uma feira de peixes e legumes feita para ser temporária, mas que dura décadas. De outro, um camelódromo mal planejado, que resolve um problema imediato criando outro de longo prazo.

A proposta de transferir a feira para uma praça subutilizada nos fundos da rodoviária central encontra resistência de alguns desses “grupos culturais” de Campos, que parecem não perceber que o público predominante do Mercado não é do centro, mas sim, em larga medida, de outros distritos. E uma nova localização — se pensada com acesso, infraestrutura e dignidade — atenderia perfeitamente ao funcionamento da feira e ao fluxo de compradores e trabalhadores.

A dicotomia entre “preservar vivências sociais” e “mudar a feira de lugar” não se sustenta quando se observa o conjunto, com a abertura e requalificação do prédio histórico, com um projeto de uso dos espaços. Desde que a mudança seja bem planejada.

Foto: Rodrigo Silveira
Sem transporte, não há cultura sustentável e acessível


O gargalo que une patrimônios históricos, pontes, mercados e iniciativas culturais é o transporte público. Em um município com mais de 4.000 km², transporte é condição elementar para ampliar público, garantir acessibilidade e permitir que “a cidade” exista como tal, com circulação, encontros e direito de acesso.

A estrutura atual é deficiente e cara, com baixa integração de modais, horários pouco compatíveis com a vida real e linhas que não organizam a mobilidade de forma racional entre distritos e área central. Cultura, assim, vira evento para quem mora perto, tem carro ou pode pagar, ou isolado em distritos. 

Sem ônibus com frequência e previsibilidade, sem rotas que conectem distritos às áreas de equipamentos culturais, sem integração tarifária e sem planejamento territorial, qualquer política cultural nasce manca. E a cultura continua “um setor”, e não um campo de vida coletiva. 

Discute-se restauração sem discutir circulação e fala-se em museu sem falar em acesso e amplitude de público. Há diversas iniciavas culturais em Campos, em todos os cantos do município, de enorme relevância e qualidade. O problema está na interação e no acesso. O que Campos não tem — ou ainda não construiu — é um sistema que transforme cultura em hábito e em pertencimento.

E, quando pertencimento falta, o patrimônio não “morre” de uma vez, acaba apodrecendo devagar, como ponte com pilar cedendo — até que a próxima cheia leve o resto.

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