O futuro no feed, o passado no fax - uma conversa rápida com uma IA
17/08/2025 | 18h27
Reprodução/Autor desconhecido

Quem é Felca? O que é adultização? De onde veio isso? É sério que o secretário de Defesa dos EUA compartilhou um vídeo contra o voto feminino? Mais um caso de espancamento de mulher? Não é possível. Um turista britânico dopado em Ipanema? Isso foi quando mesmo? Um fortão-cristão-conservador matou um gari a tiros?

A informação sempre foi um poder. A comunicação também. Em tempos de redes sociais e inteligências artificiais, esses dois elementos humanos não deixaram de ser — pelo contrário. Mas em excesso, a informação pode perder a efetividade.

Recebemos uma enxurrada de informações a cada vez que rolamos a tela em nosso celular. E assim como em outros tempos, uma fonte confiável tem muito valor. Quando nos deparamos com um vídeo “viral”, é preciso verificar a sua veracidade, e buscar a confirmação em redes de comunicação que verificam, checam e muitas vezes ouvem diretamente os envolvidos é fundamental para saber o que de fato aconteceu.

O problema é que é cada vez mais rápida a difusão da informação, chegando a cada vez mais pessoas e são produzidas por qualquer pessoa com um celular na mão e uma ideia — muitas vezes danosa — na cabeça. A praça pública se expandiu e está acessível em qualquer lugar.

A cada semana, novos temas ganham atenção de uma enormidade de pessoas e o assunto que nasce normalmente de vídeos e postagens no Youtube, X, ou Instagram domina as discussões e pauta muitas vezes o noticiário. Em algumas dessas “viralizações”, o resultado pode ser proveitoso, como no caso do influenciador Felca, que conseguiu jogar um canhão de luz na exploração infantil em ambiente digital. Outras vezes, o resultado é difamatório, falso, cruel ou intencionalmente comercial.

Resolvi conversar sobre isso com uma das inteligências artificiais mais conhecidas: o ChatGPT. Comecei a “conversa” dizendo qual era minha ideia, e que iria fazer perguntas a partir de temas que dizem respeito diretamente a ela, ao ChatGPT. Portanto, esperava parcialidade e, ao que parece, ela está presente na conversa.

Ela já quis me fornecer a conversa pronta, sugerindo as minhas perguntas e já ofertando as respostas, e ainda me perguntando se queria receber tudo já editado, pronto para publicação. Não deixei. Disse que queria eu mesmo perguntar. Ela aceitou, a contragosto, senti. Ou pelo menos com algum deboche eletrônico. E, não sei se também por isso, foi bastante direta — e por vezes irônica — nas respostas.

Acompanhe:


Edmundo Siqueira — Resolvi perguntar para você, ChatGPT — e já começo pelo que não quer calar: a internet é a causa ou a consequência desse mundo tão rápido, tão líquido, tão… instável?

ChatGPT — É como perguntar se o trovão causa o raio ou se o raio causa o trovão. A internet nasceu de causas antigas — ciência, guerra, curiosidade — e agora produz consequências que mudam as próprias causas. É um círculo. Ou uma espiral, se preferir o drama.

Edmundo —Espiral é bom, dá mais vertigem. Mas me diga: as redes sociais são as culpadas por essa pressa toda ou só amplificam o que já éramos?

ChatGPT — Elas amplificam. A rede não inventou o ser humano apressado, vaidoso, curioso ou cruel. Só colocou um microfone e um telão na praça. Antes, a fofoca morria na esquina; agora, cruza o oceano antes que você acabe o café.

Edmundo — Então a culpa não é do algoritmo?

ChatGPT — O algoritmo é como aquele garçom que só serve o prato que sabe que você vai pedir. Ele não decide seu apetite, mas vive de repeti-lo.

Edmundo — E a política, onde entra nessa história? Porque a sensação é que a tecnologia por vezes avança em velocidades maiores que a política pode acompanhar.

ChatGPT — A tecnologia corre na velocidade da curiosidade humana. A política, na velocidade da desconfiança humana. O atraso é estrutural: leis, consensos, interesses. Enquanto o celular muda de modelo a cada ano, a Constituição muda a cada geração — e, às vezes, a contragosto.

Edmundo — Então estamos condenados a viver nesse descompasso?

ChatGPT — Condenados não, adaptados. O problema é que a adaptação nunca é igual para todos. Enquanto alguns surfam na onda da inovação, outros ainda estão aprendendo a nadar.

Edmundo — E o social? As desigualdades, o preconceito, o atraso mental?

ChatGPT — Esses são fósseis emocionais. Resistiram à imprensa, ao rádio, à TV e agora resistem à internet. Mas a diferença é que, hoje, eles se mostram com clareza digital — e isso incomoda.

Edmundo — Então, no fim, o que a internet mudou?

ChatGPT — Ela não mudou o que somos. Mudou a escala, o alcance e a velocidade com que mostramos quem somos.

Edmundo — Em outras palavras, o futuro chega pela notificação do celular…

ChatGPT — …e o passado ainda despacha pelo fax.
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Purismo no Palácio: a cultura de Campos e sua mania de deixar tudo como está
03/08/2025 | 18h36
Héllen Souza - 31/07/2020 - PMCG

O purismo pode ser entendido como a vontade de manter algo em seu estado natural, puro. Nas artes, foi um movimento que buscava uma pintura sem subjetividades; pura, portanto.

No meio cultural de Campos, o purismo se manifesta. Basta um olhar — e ouvidos — mais atento às discussões em torno do caso do Mercado Municipal (esse fica para uma outra publicação, de discussão igualmente urgente e necessária) e do Palácio da Cultura para ver defesas apaixonadas para que tudo permaneça como está, ou volte a estados originais impossíveis de serem reproduzidos novamente.

Arquitetonicamente, o Palácio da Cultura é uma construção sacralizada. Os traços modernistas do arquiteto Francisco de Assis Leal ergueram um monumento circundado por jardins projetados por Burle Marx. O prédio é protegido pelo Conselho de Preservação do Patrimônio Arquitetônico Municipal (Coppam) desde 2013.

Simbolicamente, o Palácio possui um enorme valor afetivo, memorialista e de pertencimento ao campista. Abrigou a icônica Biblioteca Nilo Peçanha e foi palco de inúmeros eventos culturais. E guarda o Pantheon, onde estão depositados os restos mortais de personagens históricos da cidade. Nasceu no governo Rockefeller de Lima, que escolheu a antiga Praça da Bandeira — no coração da Pelinca — como terreno. Um local que, surpreendentemente aos olhos de hoje, era pouco frequentado e sem grande comércio ao redor.

O Palácio sempre foi palco de cultura, mas se elitizou. E sua localização acompanhou esse processo. Embora a cultura seja, por definição, plural e democrática, Campos historicamente manteve seus espaços culturais restritos, falando para um público específico e produzida por grupos pertencentes a esse mesmo público.

O fechamento do Palácio da Cultura parece ter incomodado menos que as propostas para sua reabertura. Desde 2014, as melancólicas portas fechadas escondem a omissão do poder público e a ausência de projetos para retirá-lo do abandono (veja aqui). A primeira proposta de reabertura dividia o Palácio em dois: metade seria ocupada por um “Centro Municipal de Inovação”; a outra metade abrigaria a Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), com espaço para exposições e a volta da Biblioteca Nilo Peçanha — física e digital.

Na ocasião, por decisão da 4ª Vara Cível de Campos, a obra seria custeada como medida compensatória pela demolição de um prédio histórico na Rua 13 de Maio, onde funcionava o Casarão do Clube do Chacrinha, entre 2012 e 2013, demolido sem autorização dos órgãos competentes.

Mas, por mais omissão do poder público e rejeição da proposta pelo setor cultural — não determinante, mas influente em um governo impopular —, o Palácio permaneceu fechado. Como segue até hoje.

Rodrigo Silveira - Folha1
A proposta atual é semelhante. Com previsão de obras concluídas até o fim de 2025, a ideia é que o Palácio abrigue o Centro Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação (Cetec), além da FCJOL, a Escola de Formação de Educadores Municipais (Efem), os programas Mais Ciência, Startup Campos, Economia Criativa, e a reabertura da Biblioteca Municipal (veja matéria da Folha aqui).


Novamente, parte do setor cultural reage. E há um ponto legítimo nesse incômodo: quando o “cultural” se torna um adjetivo decorativo, o risco de o Palácio da Cultura virar palco de tudo, menos da cultura, é real. É razoável se preocupar com o esvaziamento simbólico e funcional do espaço.

O problema é quando a crítica se torna automática. O purismo cultural, diante da realidade atual do prédio, da Pelinca e de Campos, soa deslocado. Permitir que o local seja compartilhado e plural não é abandonar o compromisso com a cultura. Pelo contrário: é a chance de renovar esse compromisso. Cultura não é altar, é movimento. O que seria esse compromisso estrutural? Garantir programação permanente, orçamento definido, curadoria técnica, política pública transparente. Do contrário, resta apenas o aluguel de um prédio bonito para eventos ocasionais com carpetes vermelhos e figurões em paletós gastos.


O que se espera de um espaço cultural? Qual a razão de ser da produção artística e cultural numa cidade tão carente dessas expressões? Se a resposta estiver no público — e não apenas nos produtores —, abrir o Palácio para manifestações diversas é garantir que ele esteja vivo, pulsante, habitado. O tipo de ocupação deve ser debatido, sim. Mas manter como está parece ser a pior das opções.

Ocupar o Palácio da Cultura é urgente. Mas não com abraços em colunas nem faixas improvisadas na calçada. É preciso ocupá-lo com ideias, com arte, com gente. E se o prédio virou palácio demais e cultura de menos, talvez o erro não esteja nas propostas — mas no silêncio de quem, em nome de preservar, prefere deixar morrer.
Em Campos, a cultura precisa de teto, mas sobretudo de alma, que sempre foi visível por aqui, mas que precisa se reencontrar e abandonar vaidades. 
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Diplomacia à Moda da Casa: um patriota, dois hambúrgueres e o Brasil de cabeça pra baixo
01/08/2025 | 19h27


O deputado brasileiro e o lobista americano escolheram uma mesa de canto, onde poderiam conversar com mais tranquilidade. O dono do restaurante, em Georgetown, veio recebê-los e sugeriu a especialidade da casa; os clientes aceitaram a sugestão, e dois enormes hambúrgueres com batatas fritas logo seriam servidos.

— Estou aqui representando os interesses do Brasil — começou a conversa o deputado, num inglês de sotaque texano sem razão de ser —, e lá estamos sofrendo muito, my friend.

— Mas o que está acontecendo de tão sério, deputado?

— Sabe o Irã? A Venezuela? Então, vivemos um regime parecido por lá.

— Até onde sei, o Brasil tem uma democracia relativamente sólida — o lobista começou a se irritar e pensou se deveria mesmo ter aceitado a reunião.

— Sólida só se for para os comunistas. Lá tá cheio deles.

— Saímos da Guerra Fria há um tempo, congressista.

— Olha só, vou direto ao ponto: colocaram uma tornozeleira eletrônica no meu pai. Tem um careca lá que não vai sossegar enquanto não prender ele. Precisamos fazer alguma coisa — o deputado abaixa a cabeça e cobre com as mãos.

Dizem que o filho pródigo sempre causa problemas. O filho do ex, ao contrário, recebe a herança do pai e vai aos Estados Unidos com paletó apertado e ideologia frouxa. Viaja com uma missão nobre: convencer parlamentares norte-americanos de que seu pai está sendo perseguido, que a democracia brasileira virou ditadura e que o Supremo Tribunal Federal é mais autoritário que o regime do Irã.

É um samba do filho doido com inglês ruim. O presidente americano, alaranjado de raiva contra o mundo — crush político do clã que o deputado pertence —, impôs um tarifaço de 50% contra produtos brasileiros, e o deputado adorou. Circula entre gabinetes estrangeiros agradecendo pela punição. A lógica é simples e insana: quanto pior para o Brasil, melhor para a família. O patriotismo, nesse caso, é uma peça de ficção — só funciona quando cabe nos interesses pessoais.

— O presidente já autorizou o tarifaço, deputado. Entra em vigor em pouco tempo. O que mais vocês querem?

— Tarifaço? — o deputado levanta a cabeça com raiva — deixaram de fora 700 produtos! E agora adiou! Com que cara vou ficar com meus fãs, digo, compatriotas? O presidente vai ficar com fama de arregão, e eu de idiota.

— Calma, deputado. Pelo que sei, sua fama já é essa no Brasil. Sem ofensa. Mas vamos lá: foi o que deu para fazer. Foram pressões de todo lado, e o pessoal da laranja até entrou com um processo.

— Eu não sei mais o que fazer…

O garçom, com a paciência de quem já serviu diplomatas bêbados e congressistas em férias, pousa os hambúrgueres sobre a mesa. O cheiro de bacon e fritura preenche o silêncio constrangedor entre o deputado e o lobista. O deputado continua:

— Precisamos endurecer mais com o Brasil, entende? O povo precisa sentir na pele o que é uma ditadura de verdade. Só assim vão valorizar meu pai.

O lobista, agora mais interessado nas batatas do que na conversa, decide encerrar:

— Deputado, talvez vocês pudessem começar valorizando o próprio país.

Eduardo levanta da mesa. Limpa os cantos da boca com o guardanapo de papel e ajeita o paletó. Olha em volta como se esperasse aplausos, ou uma live. Não encontra nada além de pratos sujos.

Porque, no fundo, a missão era essa: posar de vítima num país estrangeiro, se fazer de mártir em uma democracia que ainda o tolera e, principalmente, manter o sobrenome no noticiário. O Brasil que espere — com tarifaço, com inflação, com diplomacia sendo varrida do mapa por um deputado que age como influencer de extrema direita num tour de ressentimento.

— Você veio aqui para me ofender? — o deputado mantém-se de pé ao lado da mesa. — Eu sou um patriota! Um patriota, taokey?! Estou aqui para salvar meu país das mãos do careca e do barbudo.

— Não estou aqui para te ofender, deputado. Sente-se, por favor. Não faça uma cena. Coma seu hambúrguer, a carne está ótima — ainda tá vindo do seu país. E sobre o careca, como você chama, já aplicamos a Lei Magnitsky. Espera mais o quê de nós?

— Um plano da CIA para terminar o que começamos lá no Brasil.

— Deputado, não ache que o mundo é um filme de espionagem. As coisas são mais complexas — o lobista morde o lanche, e o ketchup suja seu rosto.

— Eu vou embora.

— Para o Brasil?

— Não! Não posso voltar pra lá.

O deputado sai sem se despedir. O lobista não esboça qualquer reação e continua seu lanche. Antes de deixar o restaurante, uma olhada pela vitrine no pouco cabelo que tem, e pensa que vai ficar totalmente careca em pouco tempo. Lá fora, a bandeira dos Estados Unidos tremula no alto de um prédio. Ele a observa com um misto de devoção e inveja.

— Um dia seremos assim — sussurra para si mesmo, enquanto pede um carro por aplicativo.

E assim seguimos, com o ex-presidente de tornozeleira e o filho girando mundo com o GPS moral desconfigurado. É a nova diplomacia do Brasil: um hambúrguer, uma mentira — e a bandeira brasileira, de cabeça pra baixo.
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O coturno que amava um All Star: Bolsonaro, Trump e a Síndrome da Caserna Americana
17/07/2025 | 16h27

Quando o USS Nashville, cruzador da marinha americana, despontou no horizonte visível dos militares brasileiros, a emoção não foi disfarçada — esperavam na base naval do Rio de Janeiro oficiais, praças e autoridades do governo. A máquina de guerra atracou e dela desceu o Chefe do Estado-Maior dos EUA, General George Marshall.

A vinda de Marshall marcou o início de um profundo processo de americanização do Exército Brasileiro. A partir da década de 1930, diversos acordos de cooperação militar e de defesa mútua operacionalizaram uma reconversão doutrinária: do modelo francês para o norte-americano. Havia interesses dos dois lados: o Brasil podia aprender e se aliar a uma potência militar em ascensão; os EUA, por sua vez, consolidavam sua influência no quintal sul.
A formação dos militares — os mesmos que hoje comandam as Forças Armadas brasileiras — foi moldada nessa base americanizada. Com a Segunda Guerra, a doutrina dos EUA foi rapidamente consolidada, com missões de observação, cursos e a experiência da Força Expedicionária Brasileira (FEB) lutando ao lado dos norte-americanos.

O ex-presidente Jair Bolsonaro e o bolsonarismo, que ascendeu com ele ao poder, possuem três pilares evidentes: o militarismo, a religião e a reafirmação de uma classe média ressentida, com forte traço masculino. No campo militar, os Estados Unidos são referência maior — e daí nasce uma admiração quase patológica de Bolsonaro por Donald Trump, um presidente que personifica todas essas bases.

A paixão não correspondida
Em entrevista recente ao Poder360 (veja aqui), Bolsonaro não escondeu o afeto:

— Eu sou apaixonado por ele (Trump), pelo povo americano, pela política americana, pelos Estados Unidos. Eu nunca neguei isso desde meu tempo de garoto. O Trump sempre soube disso. Ele me tratava como um irmão.
Donald Trump e Bolsonaro, ideologia e admiração
Donald Trump e Bolsonaro, ideologia e admiração / Reprodução/O Globo


A confissão merecia trilha sonora: “estranho seria se eu não me apaixonasse por você”, como canta Nando Reis em All Star. A canção é sobre um amor idealizado, distante — desses que machucam mais pela ausência do que pela presença. Serve como luva. Bolsonaro construiu com Trump uma devoção unilateral, mesmo nos momentos em que foi ignorado. Era como o eu lírico da canção, que sente que o outro “vive bem sem mim”.

Curiosamente, a música, embora brasileira, carrega no título o nome de um símbolo da cultura pop americana. O All Star, como tênis, virou ícone global. E como todo símbolo importado, foi abrasileirado, reinterpretado — e banalizado. O amor político de Bolsonaro por Trump também passa por isso: uma mistura de All Star com coturno genérico, moldado ao gosto de um Brasil conservador e, sobretudo, carente de autoestima internacional.

Como na música, o amado (Trump) não retribui com a mesma intensidade. A relação, assimétrica, virou quase um constrangimento público. O problema é que esse amor — ridicularizado por uns e venerado por outros — moldou parte da política externa e interna do país. E ainda contamina, como vírus, o imaginário de muita gente que acredita que, vestindo o tênis certo, ganha um passaporte simbólico para o "primeiro mundo".

O tarifaço e a liberdade condicional de Bolsonaro
Trump anunciou um tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros — aço, alumínio e uma alíquota geral. O pacote deve entrar em vigor em 1º de agosto. Oficialmente, a justificativa é “proteger a indústria americana”. Mas a motivação política é clara: retaliação à regulação das redes digitais e à “perseguição” que Bolsonaro estaria sofrendo no Brasil.

Politicamente, foi um tiro no pé. A direita rachou. Tarcísio de Freitas tentou mediar com os EUA e foi atacado por Eduardo Bolsonaro, que atua como um tipo de lobista informal do pai em Washington. A coluna Ponto Final, da Folha da Manhã (veja aqui), cravou: “Até aqui, todas as mudanças advindas da ameaça do tarifaço de Trump são ruins à direita brasileira”.

O gesto revela o que já se suspeitava: para parte do bolsonarismo, patriotismo é apenas retórica. Quando se trata de agradar ao ídolo estrangeiro, não há pátria, soberania ou dignidade que resistam.

Anticomunismo, doutrina e golpes
Embora o exército americano mantenha distanciamento da política interna, há fartas evidências do seu papel em influenciar golpes em países latino-americanos. O Brasil não é exceção. Em 1964, documentos hoje abertos mostram o apoio logístico e político dos EUA ao golpe militar — e antes disso, o famoso Plano Cohen, usado como pretexto em 1937 para implantar o Estado Novo, também surfava na onda do anticomunismo internacional.

USS Nashville
USS Nashville / Reprodução
A doutrina militar americana reforçou uma visão deformada da democracia: para muitos oficiais brasileiros, a democracia só existe quando os militares vigiam. A Guerra Fria intensificou esse delírio. A ideia de que os quartéis devem ser o “poder moderador” nunca saiu de moda entre os saudosistas de farda. Como se a pólvora, sozinha, soubesse o que fazer com os votos.

A aproximação militar entre Brasil e Estados Unidos não moldou apenas táticas e armamentos. Moldou também doutrinas, visões de mundo, e a ideia — herdada e distorcida — de que Forças Armadas são fiadoras da democracia, mesmo quando se afastam dela. O contato com os americanos reforçou, em muitos oficiais brasileiros, uma crença intervencionista: de que era preciso barrar inimigos internos, reais ou inventados, com tanques nas ruas e censura nos jornais.

Com a Guerra Fria, o anticomunismo virou dogma. A identificação da caserna com o Ocidente cristão, o militarismo e o conservadorismo moral ganhou roupagem doutrinária. O resultado foi a elevação do fardado à condição de “poder moderador” — um papel que a Constituição jamais conferiu, mas que segue vivo no imaginário de quem ainda não desfez as malas de 1964.
Bolsonaro é a materialização da síndrome da caserna tropicalizada. Seu amor por Trump não é só pessoal — é histórico, doutrinário, quase genético. O All Star da juventude virou farda; e o sonho americano, delírio. Só que o tempo passou. E, enquanto Trump finge que não conhece mais o “irmão brasileiro”, Bolsonaro segue esperando que um navio de guerra volte à Baía de Guanabara — trazendo, quem sabe, uma saudade de 1930. Ou uma caixa de tênis número 42.
 
*Com informações do artigo "Ensino de pós-graduação no Brasil: as Ciências Militares", de Rafael Soares P. da Cunha e Eduardo Xavier F. Glaser Migon, e "Oficiais do Exército Brasileiro nos EUA: experiência, memória e incorporação seletiva de ideias nas décadas de 1930 e 40", de Eduardo Munhoz Svartma, para ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza, 2009.
 
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José do Patrocínio: o voo da ave preta
13/07/2025 | 13h19
Arquivo Nacional
Havia algo de simbólico — apesar de triste — no fim do campista José do Patrocínio em Inhaúma, bairro da Zona Norte do Rio, próximo a Del Castilho e Pilares. Inhaúma vem do tupi ña'un, que significa “ave preta”. Patrocínio era exatamente isso: uma ave preta que insistiu em voar nos tempos perversos da escravidão. E conseguiu alçar seu voo mais alto pelas mãos de sua amiga, Isabel.

Depois da abolição, Patrocínio ainda queria voar. Mesmo com dificuldades financeiras, e longe dos jornais e do poder, resolveu construir, no final do século 19, o “Santa Cruz”: um dirigível de 45 metros. Isso depois de importar o primeiro automóvel a vapor ao Brasil. O Santa Cruz não saiu do chão, mas o projeto mostra claramente o caráter visionário do abolicionista, escritor, jornalista e farmacêutico: um homem que jamais se resignou ao chão.

José do Patrocínio nasceu em 1853, numa fazenda em Lagoa de Cima, no distrito de Ibitioca, em Campos dos Goytacazes. A maneira que ele foi gerado reflete a formação do Brasil, e também a história de Campos, como recebedora de um grande número de escravizados: Patrocínio é filho de um padre branco e uma escravizada negra (a sua história é mesmo afeita à simbolismos). Sua mãe, Justina do Espírito Santo, era uma jovem escrava mina (etnia de Gana) de quinze anos. O pai, João Carlos Monteiro, era vigário da paróquia de Campos dos Goytacazes, e um orador conceituado no âmbito sacro.

Mesmo nascendo livre — embora não tivesse a paternidade reconhecida pelo padre —, Patrocínio viveu sua infância presenciando todo tipo de abuso contra o povo negro escravizado na fazenda do pai. Talvez tenha sido essa realidade paradoxal que levou Patrocínio a carregar por toda vida um forte senso de justiça social.
Patrocínio e o escritor Olavo Bilac
Patrocínio e o escritor Olavo Bilac / Arquivo


Formado em Farmácia em 1874, Patrocínio nunca exerceu a profissão. Sua verdadeira vocação se manifestava nas palavras — primeiro em Os Ferrões (1875), depois na Gazeta de Notícias, onde iniciou, em 1879, a campanha abolicionista de forma mais ferrenha. Em 1881, já à frente da Gazeta da Tarde, fundou a Confederação Abolicionista, ao lado de Joaquim Nabuco e André Rebouças, defendendo a abolição ampla, imediata e sem indenização.

A palavra e a espada de José

O romancista e político inglês Edward Bulwer-Lytton, contemporâneo de século de Patrocínio, escreveu uma peça histórica: “Cardinal Richelieu”. No enredo, Richelieu, ministro-chefe do rei Luís XIII, descobre um plano para matá-lo, mas como padre ele é incapaz de pegar em armas contra seus inimigos. Seu pajem (uma espécie de ajudante de ordens medieval), François, aponta:

— Mas agora, ao seu comando estão outras armas, meu bom Senhor!

Richelieu concorda:

— A caneta é mais poderosa que a espada. Tire a espada; os Estados podem ser salvos sem ele!

Teria sido a primeira vez que o famoso ditado “A caneta é mais poderosa que a espada” foi escrito. A luta de Patrocínio era travada nas trincheiras da intelectualidade, da literatura e do jornalismo — mas por vezes escolheu a espada no lugar da pena: viajou ao Nordeste, ajudou na fuga de escravizados e organizou comícios que inflamavam massas — algo que seus cronistas lembram como oratória inflamada.

Criou (embora há divergências entre historiadores sobre a autoria de Patrocínio) ainda a Guarda Negra, composta por negros libertos fiéis ao império, para protegê-la — uma instituição incomum, vista por uns como milícia, por outros como irmandade.

As contradições, a República e Isabel, a redentora
Princesa Isabel
Princesa Isabel / Arquivo Nacional


A Guarda Negra representou a maior contradição de Patrocínio. Uma república parecia ser o modelo que o Brasil precisava, traria desenvolvimento, democracia e independência dos colonizadores. Derrubar o Império, porém, era impossível para José do Patrocínio.

A abolição — de direito, mais que de fato — aconteceu, realmente, pelas mãos do Império, em 13 de maio de 1888, pela “redentora” princesa Isabel. E em um gesto (mais uma vez) simbólico, Patrocínio beijou as mãos de Isabel após a assinatura da Lei Áurea.

Patrocínio era um homem de dois mundos naquele momento. Embora um defensor — talvez o maior deles — da abolição, não queria ver o Império expulso do Brasil aos pontapés. Não pelo rei, a quem tinha desprezo, mas pela gratidão e admiração que tinha por Isabel. A lei que ela assinou, no prédio do Senado, no centro do Rio, decretava que, a partir de sua publicação, nenhuma pessoa preta poderia permanecer escravizada no Brasil. Os homens e mulheres acorrentados seriam libertos.

Patrocínio sabia que o simples ato de Isabel não resolveria a exclusão e a violência, mas ficou extasiado vendo a princesa encarando os senadores — que eram todos homens — e usando seu poder para abolir aquele sistema perverso. Isabel era uma mulher de pele rosada, estatura baixa, com olhos azuis profundos e determinados, que lhe conferiam um ar de mandona; como de fato era.

No dia da assinatura, o Senado estava cheio e o movimento abolicionista movimentava todos no Rio de Janeiro. O “campo da cidade”, que mais tarde seria conhecido como “campo de Santana”, ficou repleto de curiosos. Os Senadores se acomodaram no interior do Palácio Conde dos Arcos — o prédio de quatro pavimentos formava uma ponta de flecha na perspectiva de quem entrava nele, onde Patrocínio entrou, minutos depois de Isabel, mesmo não sendo ele alguém que poderia entrar ali em dia de sessão. Mas foi convidado pessoalmente pela princesa, em reconhecimento ao fato de que poucas pessoas no país mereciam mais do que ele ver aquela lei ser assinada.

A sala da sessão seguia o padrão inglês de parlamento. Galerias circundavam uma espécie de arena, onde no centro ficavam duas mesas dispostas frente a frente; uma ao pé do grupo governista e outra do oposicionista, como se delimitasse e representasse cada grupo de senadores. Exatamente como uma arena, ou um estádio. As discussões daquele dia eram resultado de movimentos anteriores, e seria ali apenas uma formalidade para concluir o que já estava acordado. Abertos os trabalhos, Isabel pediu seu direito; queria usar de imediato a Fala do Trono e abolir a escravidão no Brasil (esse é um trecho do livro “As Asas de Um Dirigível”, com lançamento previsto para 2026).

O exílio e o fim

Por sua devoção à Isabel e à defesa do Império, Patrocínio entrou em rota de colisão com os republicanos, com luta armada, pela Guarda Negra e no apoio em outras revoltas que aconteciam no país. Mas, como se sabe, o Império foi derrubado e os republicanos estariam no poder do Brasil em pouco tempo depois da assinatura da abolição. E Patrocínio foi exilado no Amazonas.

Patrocínio consegue voltar alguns anos depois ao solo carioca, mas não deixou de ser persona non grata. Não conseguiu retomar o prestígio do Cidade do Rio — jornal que havia fundado em 1887 —, e politicamente manteve-se exilado.

José do Patrocínio coloca um ponto final em sua história em 29 de janeiro de 1905, em meio a uma crônica que escrevia sobre os direitos dos animais, sendo vítima de tuberculose. Seu funeral atraiu milhares de pessoas. A ave preta, moradora de Inhaúma, nascida em Lagoa de Cima, sucumbiu. O vento, antes cúmplice, não segurou seu mais seu voo. A pena de Patrocínio, leve demais para o chão, pesada, demais para o tempo, dançou sozinha no fim.

Bibi
Bibi / Arquivo Nacional
A história de amor e familiar de José do Patrocínio é deveras interessante, mas seus detalhes ficarão para outro artigo. Em resumo, teve cinco filhos com Maria Henriqueta Sena (Dona Bibi): dois faleceram ainda na infância, e Tinon (que desapareceu), Maceu e Zeca, este também jornalista como o pai.


Se o leitor aceitar um último simbolismo, Bibi era branca, e o casamento enfrentou resistência, especialmente do pai dela, o capitão Emiliano Rosa Sena, que mais tarde acabou cedendo aos encantos do genro o ajudou a comprar um jornal.

Patrocínio encarna o que há de mais rico em nossa memória comunitária, no Brasil, e especialmente campista, onde ele nasceu. Um homem que uniu emoção e ação, passado e futuro, com a coragem de sonhar alto — literalmente — ao construir seu próprio balão, o dirigível Santa Cruz.

Nem todo voo precisa de céu. Alguns precisam apenas de coragem.
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A República dos Memes: entre o riso e a manipulação
06/07/2025 | 21h18
Parte da política no Brasil e no mundo é feita de memes — talvez parte significativa da comunicação política, hoje, esteja baseada em vídeos, fotos ou animações virais com um toque de humor, em geral ácido.

O termo meme parece novo, mas surgiu em 1976, no livro O Gene Egoísta, do biólogo Richard Dawkins. É um trocadilho: mimesis — que significa imitação, em grego — e gene. Para ter algum tipo de eficácia, o meme precisa se multiplicar, precisa ser capaz de contaminar a tela de quem está recebendo a ponto de fazer a pessoa compartilhar, e assim contaminar outra pessoa. É a centralidade da vida de um vírus: precisa viralizar.

Mas, uma vez viral, o meme é capaz de fazer estragos — ou de produzir os efeitos que o criador quis. Existem pessoas especializadas nesse assunto e com estratégias muito bem desenhadas para que um meme ganhe vida e contamine o maior número de pessoas possível. Os memes não são ingênuos como às vezes parecem, e por trás deles está um bocado de inteligência artificial e humana.

O meme não precisa da realidade para viver. Basta que a ideia seja vendida de forma com que as pessoas acreditem ou, pelo menos, não questionem. Se fez rir, é ainda melhor.

Há exemplos célebres de memes políticos bem-sucedidos. Um dos mais famosos é uma montagem com o rosto do presidente russo Vladimir Putin maquiado, tendo ao fundo uma bandeira com as cores do arco-íris. Apelidado de “Putin drag queen”, o meme tornou-se símbolo da luta contra a homofobia no país. Por aqui, o perfil “Dilma Bolada”, no Twitter e Facebook, conseguiu suavizar a imagem da ex-presidente Dilma Rousseff. Não foi suficiente para impedir o impeachment — também não se pode atribuir tanto poder aos memes —, mas ajudou a reposicionar sua imagem entre parte do eleitorado.
Ilustração de Vladimir Putin popularizada durante as manifestações em favor dos direitos LGBT na Rússia em 2013


O ex-presidente Bolsonaro era um meme ambulante. Com frases de efeito, ideias desconexas e grosserias constantes, produzia material farto tanto para a oposição quanto para os aliados, provando que um meme também pode ser eficaz ao se comunicar com um público específico, imune a qualquer argumento contrário. Em episódio recente, Bolsonaro decidiu dar um recado em inglês de cima de um trio elétrico. Se não bastasse a pronúncia sofrível, as palavras não faziam sentido. O vídeo viralizou e se transformou em uma infinidade de memes. A maioria jocosa, mas, para alguns, o efeito foi o de ver um político corajoso e autêntico.

Na disputa memética mais recente, o governo Lula III vem sentindo um gostinho de vitória que há muito não experimentava. O personagem criado com IA para o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta — “Hugo Nem se Importa” — conseguiu comunicar, com eficácia simbólica e narrativa, que o Congresso tem agido em defesa das parcelas mais ricas da sociedade. A disputa gira em torno da taxação do IOF, mas a batalha principal está em outro campo: o do imaginário público.

Porque, em tempos de redes sociais, a política deixou de ser apenas projeto de país — tornou-se uma disputa de símbolos, frames, viralizações. Quem comanda a linguagem do meme, comanda parte do debate público. E, no final, o que pode parecer apenas uma piada, pode ser, na verdade, a vitória de uma ideia.

Governar, no Brasil, é também meme. Rir é um ato político. E compartilhar, às vezes, é escolher um lado.
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Golpes, julgamentos e vértices móveis
13/06/2025 | 21h32
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O debate sobre o ativismo judicial no Brasil se intensificou na última década, especialmente diante da atuação do Supremo Tribunal Federal e da herança da Lava-Jato. A controvérsia tem fundamento: é possível perceber excessos em ações do poder que julga, e operações dos órgãos de repressão sob seu guarda-chuva — como exemplo, a citada Lava-Jato — resultaram em pessoalidades e interesses políticos evidentes. Porém, assim como é preciso entender o “homem e suas circunstâncias” — frase do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) —, torna-se necessário pensar o mesmo das instituições e dos poderes.

Desde que John Locke e Barão de Montesquieu — figuras-chave do Iluminismo e da teoria política — pensaram o Estado como uma estrutura onde há necessária separação entre os poderes, defende-se a ideia de equilíbrio. É preciso que haja limitações para exercer o poder, e também que diferentes estruturas concentrem atividades com princípios distintos para que o poder possa ser efetivamente exercido. Um jogo que deve ser equilibrado, pelo menos em democracias.

No sistema tripartite, o judiciário, o executivo e o legislativo formam um equilíbrio de vértices móveis, onde o protagonismo de um poder pode se inclinar conforme o peso das circunstâncias; vértices que não podem ser estáticos. A depender das circunstâncias, esse “triângulo” deve inclinar-se para que a base esteja sustentada por poderes submetidos a um outro de ponto mais elevado. E essa posição deve ser invertida caso mude as circunstâncias novamente; não há supremacia de poderes numa democracia, o que precisa acontecer é alternância.

Além da tripartição dos poderes, deve existir hierarquia e equilíbrio de forças dentro de cada um. O órgão máximo de um poder não pode decidir sozinho, ele precisa, além de se submeter às leis constitucionais, entender que faz parte de uma estrutura maior, onde o poder deriva da coletividade e sempre deve ser exercido através de representações colegiadas. O Senado interfere no Supremo, assim como o Supremo pode interferir no governo executivo. Em um jogo de forças complexo, a democracia se consolida quando decisões podem ser alvo de contestação.

Quando se contestam julgamentos e as penas definidas a partir deles, não se pode contestar a legitimidade do poder judiciário em fazê-lo, e sim os indivíduos que estão investidos em togas e funções públicas, sob pena de subverter os mesmos princípios que se pretende mostrar maculados. Um juiz exerce seu poder primeiro — de julgar — revestido de prerrogativas conferidas por um acordo social onde liberdades e direitos são limitadas em nome do interesse coletivo — onde o próprio juiz está inserido. Portanto, seus julgamentos não podem ser isentos de contestação. Quanto mais acima da pirâmide, mais necessário se faz o equilíbrio para manter-se nessa posição.

Mas existe uma diferença fundamental entre equilíbrio e revanchismo. Na relação entre Senado e Supremo, por exemplo, trata-se de movimentos dos vértices de poder, onde os excessos são punidos, quando estes são praticados por indivíduos. Caso um juiz supremo esteja sob o escrutínio de senadores, não se pode confundi-lo com o órgão colegiado que ele faz parte. Nesse caso, não está em julgamento o Supremo, e sim decisões proferidas por seus integrantes, no interior de sua complexa engrenagem institucional.

Cabe ao Supremo o julgamento de uma trama golpista que visava subverter por completo a democracia e a ordem institucional vigente. Cabe aos julgadores do topo da pirâmide determinar — após julgamento feito com observação de todas as garantias — quais serão as punições dos indivíduos envolvidos na tentativa de golpe. Para que a ameaça de golpe de Estado tenha alguma gravidade e possibilidade de dano, ela deve ter sido arquitetada por representantes de grupos com forte poderio armado, que podem ser formados fora das estruturas democráticas, ou por integrantes do alto escalão dos poderes constituídos. A estrutura do Estado não sofre ameaça caso seja atacada por organizações ou pessoas sem essas características, uma vez que o acordo social delegou ao Estado o uso da força e da coerção.
Julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) da trama golpista, onde estão acusados políticos, militares e um ex-presidente da República.
Julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) da trama golpista, onde estão acusados políticos, militares e um ex-presidente da República.


A condenação dos responsáveis por atentarem contra o Estado Democrático de Direito é legítima e necessária. Mas nenhum poder pode se cristalizar sobre o trauma de um golpe frustrado. Passado o julgamento, a democracia só estará verdadeiramente protegida se os vértices do poder voltarem a se mover. Um Supremo fortalecido pelo enfrentamento do extremismo deve seguir submetido ao controle constitucional, como qualquer órgão republicano.

O Senado, ao exercer sua função fiscalizadora, deve fazê-lo em nome da legalidade — e não da vingança. E o Executivo, apesar de eleito, não pode confundir maioria com soberania. A saúde democrática não se mede pela rigidez das instituições, mas por sua capacidade de flexionar-se sem romper.

Sob ataque, a democracia precisa sim se proteger. E o peso de circunstâncias excepcionais, como as vividas nos últimos anos, pode momentaneamente inclinar a pirâmide democrática — mas ela precisa voltar a se equilibrar. O poder que se fixa, mesmo em nome da democracia, deixa de ser equilíbrio — e começa a ser dominação.
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As coisas que a casa escuta
01/06/2025 | 11h59
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O quadro de natureza morta vai ficando mais visível, antes disforme pelos olhos lacrimejantes por acordar de pouco. Levanto a contragosto, me arrasto até o banheiro, passo um café forçado. Não ponho a mesa, levo apenas uma xícara esfumaçante e um biscoito desses de água e sal. Outros elementos da casa vão ficando mais nítidos na mesa de café; olho para as paredes e tento me alegrar, procuro sentimentos de antes, agora estáticos em porta retratos. Há na parede da sala outras obras de arte, e tento alguma profundidade em cores abstratas. Talvez fosse possível caso fossem pintadas à mão, mas a superficialidade atrás do vidro me deixa desencantado.

A casa que existia na minha memória era maior, mais movimentada e barulhenta. Havia sempre sons vindos da cozinha — vidros e louças se tocando; de água correndo também. Ouvia minha mãe reclamar dos cachorros, às vezes sozinha, outras me gritando para ajudar. A mim, ou ao meu irmão mais velho. A menina, do meio, ouvia e punha a mesa de vez em quando. Era uma família tradicional, com papéis definidos. O homem trabalhava, a mulher cuidava da casa e da prole. Igreja aos domingos. Assuntos proibidos. Estudo em dia, mesada para sair aos fins de semana.

Via meu pai, ainda vivo, lendo o jornal; papel físico, folhas amareladas, barulho e pigarro quando as páginas eram viradas. Isso acontecia mais aos domingos. Nos dias de semana saía cedo, despedia-se da mamãe enquanto ela lavava a louça. Não era um pai presente, mas sua ausência era sempre sentida. Principalmente por minha mãe e meu irmão, que sempre o procurava na arquibancada nos jogos de futebol e campeonatos de arte marcial. Minha irmã e eu estávamos mais envolvidos em experiências lúdicas; simulações de programas de TV ou salas de aula improvisadas no quintal.

Memórias que ficaram embaçadas ao ver meu filho entrar pela sala, sonolento, esfregando os olhos e sentando ao meu lado à mesa de café, ainda com apenas uma xícara. Esfrego seus cabelos e pergunto o que quer comer. Ele nega e mantém a cara de sono. Talvez o garoto tenha mais memórias com o avô que eu tenho. Com a idade, meu pai foi se transformando e os netos conseguiram aproveitá-lo com outra postura perante a vida — mais amorosa, mais dedicada à família e mais leve.

“Pai, o vovô sempre morou aqui?”, ele perguntou, também olhando para os porta-retratos. “Sempre. Gosta desta casa?”, continuo. A conversa que seguimos me mostrou que as crianças tinham apenas boas memórias da casa. Confirmou minha suspeita que percepções diferentes se dão sobre o mesmo local e contexto. Paredes e portas de madeira podem significar acolhimento ou abafamento, a depender da experiência. Barulhos na cozinha podem ser afetivos, ou prenúncios de choro abafado. Os cachorros latindo lembram brincadeiras no quintal do mesmo modo que podem recordar agitação por algum perigo iminente.

Estamos na mesma mesa que tomei café da manhã durante a infância e adolescência. Não voltava com frequência depois de adulto, talvez por algum bloqueio inconsciente. Mas sempre que teimava em contrariar as estratagemas da minha cabeça, gostava de estar ali. Meu pai invariavelmente também sentava-se à mesa nessas ocasiões. Talvez para ele eu ainda era o mesmo menino sonolento que vejo agora diante de mim. Talvez meu filho sempre será também, mesmo já homem feito. Gostava da conversa e pelas risadas mútuas ele também gostava. Algumas vezes me olhava com orgulho, em outras, reprovação. Política, motos e cavalos divergiam no gosto, mas sempre eram aprendizados irrevelados. Dinheiro e lembranças de família eram temas conflituosos, sempre. Evitávamos.

Meu pai faleceu há algumas horas. Minha mãe partiu antes dele, como sempre quis. Não sei se por pensar que não resistiria à saudade ou simplesmente por medo da solidão. Ele foi o único homem que ela se relacionou amorosamente. Mesmo que meu pai nunca tenha reconhecido, a partida dela o adoeceu; deprimiu. Quando o corpo demonstra fraqueza ou doenças, normalmente os pensamentos já foram comprometidos por angústias e dores repetidas.

O velório começará às onze. A casa já começa a transmitir outros barulhos. Outros cômodos começam a se abrir; familiares acordando, escovando os dentes e conversando baixo. Minha irmã dormiu no antigo quarto dela, eu quis dormir no quarto do papai. Meu irmão não veio, disse ter ficado preso em compromissos de trabalho. Sentimos sua falta. A casa estava cheia de gente. Apesar do pesar, parecia uma festa colorida, mas truncada. A falta de um dos filhos seria registrado no caderno de frustrações de meu pai — ele estaria anotando, mesmo enquanto plasma.

Já são quase dez e meia. Enquanto mudo a roupa no quarto, buscando algo de meu pai para vestir, o som do abrir das velhas portas do armário embutido dele me trazem lembranças dos bons momentos. Sorrio. Na cama, o celular acende. É uma mensagem de meu irmão: “estou indo”; respondo perguntando se queria que o esperasse em casa. Demonstro uma frieza de quem já sabia que ele não deixaria de estar presente. Digo que estamos felizes de voltar, todos, à antiga casa. “Não consigo, irmão”. Respeito. Lembranças diferentes de ambiências iguais.
*Conto ficcional.
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Da cana ao Guanabara: a vocação política de Campos sempre com olhos para a capital
25/05/2025 | 18h52
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Campos dos Goytacazes foi uma vila importante do Império, e depois, em 1835, uma cidade importante para a província do Rio de Janeiro. A importância econômica e política era tamanha que houve chances reais de Campos ser a capital — a “civilização do açúcar”, como definiu Alberto Lamego, era uma terra próspera e lutava por reconhecimento regional e nacional.

Mas os ventos políticos sopraram para outro lado. O mesmo Decreto que criou a província do Rio de Janeiro, deu nascimento à cidade de Campos dos Goytacazes, mas transferiu a capital para Niterói (o Rio era a capital do Brasil). Campos, que já havia pertencido ao Espírito Santo, perdeu a disputa pela centralidade da província fluminense por vários fatores, mas a ausência de representação na Assembleia não estava entre eles.

Até a República (1889), os representantes de Campos eram maioria no legislativo provincial. O Brasil que nascia a partir do fim do Império passou por transformações econômicas, sociais e políticas significativas e Campos foi perdendo espaço para outras regiões do Estado, como o Vale do Paraíba (pela produção de Café) e pelo entorno urbanizado do Rio de Janeiro, que se mantinha como capital do país.
E Campos?
Niterói se manteve como a capital do Estado até a fusão do Estado da Guanabara com o Rio de Janeiro, em 1975 — A cidade-estado da Guanabara surgiu como solução política após a transferência da capital para Brasília, ainda sob o governo Juscelino Kubitschek, para manter o Rio de Janeiro como território autônomo. E Campos?

Em todos os movimentos que o Estado do Rio de Janeiro passou na combalida história brasileira, desde 1808, quando a chegada da Família Real lusitana desembarcou em terras fluminenses, Campos foi figura de proa. Já era uma vila economicamente importante, tinha condições geográficas interessantes e construía sua urbanidade. A questão parece ser que Campos sempre esteve no papel de fornecedora da capital. Fornecia açúcar, água, recursos humanos e servia de entreposto. Servia para suprir, mas não para comandar.
Marc Ferrez. Ilha de Boa Viagem, c. 1880, Niterói, Rio de Janeiro / Acervo IMS

Diferente de outros estados, como São Paulo, o interior do Rio não passou por um processo de industrialização robusto. As usinas campistas pararam no tempo, e as cidades menores do norte e noroeste fluminenses não se desenvolveram para formar zonas industriais e comerciais importantes. Os olhos do Rio sempre estiveram voltados para a capital e seu entorno imediato.

Politicamente pelo menos, Campos, apesar de ter perdido a chance de ser capital do Estado, nunca deixou de tentar reassumir algum protagonismo político. Essa ambição se reconfigurou ao longo do tempo: deixou de ser uma disputa territorial e tornou-se uma busca por influência no tabuleiro do poder fluminense. No final dos anos 1990, o então deputado federal Anthony Garotinho venceu a disputa pelo Palácio Guanabara e levou com ele a esperança de que Campos, enfim, ocupasse um centro de decisões. O governo Garotinho, com todas as suas polêmicas, tentou conferir alguma relevância ao interior, mas acabou se rendendo à capital e ao enorme colégio eleitoral da baixada.

Agora, mais de duas décadas depois, a cidade assiste ao possível avanço de outro nome de seu território rumo ao governo estadual. Rodrigo Bacellar, atual presidente da Alerj e figura de articulação hábil, aparece como candidato natural ao Palácio Guanabara. A história se repete, mas em outro tempo. Bacellar representa uma nova geração, mais pragmática e menos simbólica, que aposta no poder por meio da governabilidade, não da retórica. Se chegar ao cargo, será legítimo perguntar: o que isso significará para Campos?

Talvez, diferente do que se imaginava no século XIX, o poder político não precise mais de sede geográfica, mas de projetos que incluam de fato o interior fluminense. A cidade que já sonhou em ser capital talvez deva hoje sonhar em não ser apenas um feudo eleitoral. Afinal, se a história não soube premiá-la com a capitalidade, ainda pode ensiná-la a exigir centralidade nos rumos do Estado.
*
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Ensaio sobre a sobrevivência do patrimônio histórico
19/05/2025 | 20h23
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Manter um patrimônio histórico de pé — seja ele material ou imaterial — é uma obrigação? Responder afirmativamente pode ser a primeira reação do leitor, principalmente daquele que tem algum tipo de ligação com a cultura, em suas mais diversas formas. Mas será essa a resposta da maioria das pessoas?

Tomemos o caso de Campos dos Goytacazes como exemplo. Indubitavelmente é uma cidade histórica: participante ativa da economia do Brasil quando ainda era colônia de Portugal, berço de personagens relevantes e um dos primeiros lugares do país a contar com energia elétrica, imprensa, livraria e transporte ferroviário. Não faltam elementos, ainda presentes na cidade, não apenas para comprovar toda essa história, mas também compondo a paisagem diária das pessoas. No campo imaterial, o conhecimento acumulado por séculos — produzido na miscigenação entre indígenas, escravizados e portugueses — reflete-se em doces, danças, religiosidade, linguagem e comportamento. Portanto, era de se esperar que existisse, entre os campistas, um sentimento de pertencimento ou, sendo ainda mais otimista, um sentimento de orgulho pela história da cidade.

Mas não é o que se percebe. Não há envolvimento da população com os patrimônios — salvo em grupos sociais específicos —, tampouco se vê problematização sobre seus usos e origens, que em geral fazem parte de uma história de exploração de pessoas escravizadas. Um canal artificial urbano histórico, o segundo maior do planeta, corta o centro da cidade e o seu bairro mais valorizado, mas passa despercebido pela maioria. Chamado de valão, o canal Campos–Macaé nada mais representa para a população do que um depositário de esgoto e um obstáculo físico à travessia da avenida. Fechá-lo, ao que tudo indica, não causaria grande comoção popular; pelo contrário.

Mas por que isso acontece? Antes de culpar a apatia da população ou o desconhecimento sobre a existência e o significado dos patrimônios, é preciso compreender os processos que levaram ao descaso — não apenas da população, mas também de pessoas com poder de mando, investidas em cargos públicos, sejam legislativos ou executivos, que pouco fizeram para proteger os bens históricos. Revelam, assim, o mesmo desconhecimento e a mesma apatia.

Proteger para quê?

A proteção pela proteção não se mostra eficaz. Proteger para quê? Restaurar com dinheiro público sob qual justificativa? Com qual finalidade de uso? Atingindo quantas pessoas? Com que tipo de acessibilidade e de democratização do espaço? Caso essas perguntas não sejam respondidas, manter de pé um patrimônio torna-se uma imposição de uma elite intelectual ou cultural que, muitas vezes, tampouco tem respostas para tais indagações.

Saindo um pouco de Campos, temos um exemplo exitoso de uso de patrimônios históricos na capital, Rio de Janeiro: Theatro Municipal, Igreja da Candelária, Arcos da Lapa, Forte de Copacabana, Cais do Valongo, Real Gabinete Português de Leitura — todos são utilizados e valorizados pela população carioca e por um intenso fluxo turístico. Embora tenham realidades distintas, tanto Campos quanto o Rio precisam lidar com os espólios de sua própria história, e decidir se agem ou se omitem.
Theatro Municipal - centro do Rio de Janeiro
Theatro Municipal - centro do Rio de Janeiro / Prefeitura do Rio de Janeiro (RioTur)


De volta à realidade campista, observamos que patrimônios significativos pertencem a pessoas físicas, associações religiosas ou classistas e outros tipos de representação da iniciativa privada. Não há óbice à restauração de patrimônios por particulares, mesmo que falem à coletividade. Pelo contrário: é obrigação legal dos proprietários zelar pelo bem. Mas a realidade mostra que, além de dispendiosa, a preservação exige planejamento e ações de longo prazo, com conhecimentos técnicos específicos. A exploração econômica de um patrimônio histórico é possível e desejável em alguns casos, mas depende de investimentos e está sujeita a regras que muitas vezes inviabilizam o projeto — o que leva a iniciativa privada a não assumir tais riscos.

Cabe a quem proteger?

Partindo-se do princípio de que um patrimônio histórico deve ser preservado por seu valor cultural, memorialístico, artístico ou educativo — mesmo que não haja clamor popular por sua manutenção —, caberia ao poder público promover seu restauro e conservação. Ora, se um bem material merece, pelos motivos citados, perpetuar-se no tempo para que a coletividade possa desfrutá-lo, nada mais justo que seja ela própria a arcar com os custos.

O canal Campos–Macaé já citado pode cumprir funções como recurso hídrico, auxiliar na saúde pública, servir de modal de transporte e outras funções que uma obra de tais características possa abarcar. Isso é algo que se torna palpável à população e, portanto, justifica ações públicas. Mas tomemos o exemplo de um solar do século XIX, localizado às margens de uma rodovia federal, distante do centro de Campos e pertencente a particulares (família Lamego). Conhecido como Solar dos Airizes, o local foi moradia do geógrafo, escritor e pesquisador Alberto Lamego e abrigou uma vasta biblioteca e pinacoteca, que atraíram visitas ilustres.
Inicío das obras de sobrecobertura no Solar dos Airizes
Inicío das obras de sobrecobertura no Solar dos Airizes / Prefeitura de Campos dos Goytacazes


Hoje, o solar encontra-se em estado lastimável, deteriorado pelo tempo e pelo abandono. Possuindo tombamento federal, os herdeiros foram impedidos de vendê-lo ou demolí-lo, e compelidos a preservá-lo. Na prática, o solar foi completamente abandonado. Algumas ações pontuais tentaram adiar sua ruína, e uma ação judicial foi promovida pelo Ministério Público — a quem compete constitucionalmente a defesa do patrimônio histórico, como bem difuso. A Justiça entendeu que a família não tinha condições de manter o imóvel e condenou a Prefeitura de Campos a restaurá-lo integralmente e lhe conferir uso.

O valor do Solar dos Airizes é inquestionável — não apenas por sua arquitetura e por representar parte da história da região, mas também pela imaterialidade cultural e artística que abrigou. É, também, um bem educativo: erguido com mão de obra escravizada, revela, em sua forma e distribuição espacial, como a sociedade campista e brasileira convivia com a escravidão — e dela se beneficiava economicamente. Mas esse valor é comunicado à população? Os elementos que o tornam único dialogam com a maioria das pessoas?

A resposta a essas perguntas está diretamente ligada à ação ou omissão do poder público. Embora “agradar ao público” não seja a finalidade dos poderes constituídos, é necessário que o valor de um bem protegido seja reconhecido pela população — ou, ao menos, por parcela significativa dela. Quando permanece restrito aos nichos acadêmicos e culturais, um patrimônio perde sua razão de existir, pois perde a capacidade de exercer um papel educativo e transformador coletivo.

Não se trata, porém, de medir a importância histórica de um patrimônio por sua popularidade, mas é necessário que ele tenha significado — e, ainda mais importante: uso. O Theatro Municipal, no Rio de Janeiro, tem significado e uso, e dialoga com uma parte significativa da cidade. Embora ainda elitizado, caso entrasse em processo de abandono, não passaria despercebido — nem pela população, nem pelo poder público, tampouco pela iniciativa privada, que veria ali uma oportunidade de investimento. O mesmo não se aplica ao Solar dos Airizes. Estaria a diferença na relevância histórica dos imóveis ou no uso que possuem?

Prefeitura de Campos dos Goytacazes
Como proteger?

A proteção ao patrimônio histórico não é apenas material. Os instrumentos legais hoje existentes, como o tombamento, não garantem sua preservação. A forma mais eficiente de garantir a sobrevivência de um patrimônio — em Campos, no Rio, no Brasil e no mundo — é conferindo-lhe uso.

Usar um patrimônio não significa necessariamente lucrar com ele. Um museu não precisa dar lucro, pois serve como abrigo de itens, documentos e informações que a coletividade reconhece como importantes. No entanto, um museu pode e deve servir de espaço para exposições e eventos com retorno financeiro, atuando com cultura e arte.

A palavra-chave para a sobrevivência de um patrimônio é parceria, seja ela público-privada ou não. No exemplo do Solar dos Airizes, não se pode imaginar sua sobrevivência sustentável sem que um uso lhe seja conferido. Esse uso pode envolver a iniciativa privada, valendo-se da obrigação do poder público em restaurar o bem e oferecendo, em contrapartida, empregos, desenvolvimento econômico e turístico, e colaboração na manutenção do imóvel.

É possível, assim, percorrer um caminho inverso da preservação: salvar primeiro, dar sentido depois. A partir do momento em que um uso planejado e coerente com as especificidades do bem é colocado em prática e comunicado à população, as vivências ali geradas criam memórias coletivas e senso de pertencimento.

Salvar um patrimônio é, antes de tudo, uma escolha política e cultural. Escolhe-se preservar não apenas uma edificação, mas a memória que ela carrega e os significados que pode produzir. Em vez de esperar que o sentimento de pertencimento brote espontaneamente da população, talvez devêssemos construí-lo a partir do uso, do acesso, da partilha e da vivência. Um patrimônio vivo não é o que apenas permanece em pé, mas o que se faz presente na vida das pessoas. O Solar dos Airizes, como exemplo ilustrativo, ainda pode cumprir esse papel — se houver coragem para restaurá-lo e inteligência para devolvê-lo à cidade.
Reprodução.
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Sobre o autor

Edmundo Siqueira

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