Quarenta dias no escuro: o Museu Histórico e a quarentena habitual da cultura campista
Edmundo Siqueira 03/02/2026 12:21 - Atualizado em 03/02/2026 13:07
Interior do Museu Histórico de Campos, com aspecto de abandono e sem energia, em imagem gerada por inteligência artificial.
Interior do Museu Histórico de Campos, com aspecto de abandono e sem energia, em imagem gerada por inteligência artificial. / Imagem feita a partir de IA


A Peste Negra foi uma pandemia que dizimou ao menos um terço da população europeia e que, em diferentes surtos ao longo dos séculos, atingiu em cheio a histórica cidade do comércio e das artes: Veneza, um dos principais portos e rotas comerciais da Europa. Ali, os barcos precisavam cumprir 40 dias de isolamento como medida profilática para a contenção da peste — e é nesse contexto que surge o termo “quarentena”, que hoje não se refere, necessariamente, a um período específico.

O Museu Histórico de Campos atravessa uma quarentena de 40 dias sem energia elétrica, após o furto de cabos de cobre ocorrido em 25 de dezembro. A instituição museística, única administrada pelo município, está em risco, assim como seu importante acervo, durante todo esse período.

“A falta de iluminação apropriada e de controle climático compromete a integridade física das obras, contrariando as boas práticas museológicas e as normas de preservação do patrimônio histórico e artístico (...) impede o atendimento ao público visitante, prejudica o cumprimento da agenda institucional de exposições, visitas educativas e ações culturais, além de impactar diretamente os agentes culturais da cidade que utilizam o museu como espaço para o desenvolvimento de suas atividades, projetos e eventos”, disse Graziela Escocard, diretora do Museu.

De quem é a responsabilidade?

O reparo dos danos causados pelo furto não é de responsabilidade da concessionária de energia, a Enel, no caso do Museu. A Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), como responsável pela administração do Museu, deve acionar a Superintendência de Iluminação Pública para que execute a reposição dos equipamentos e restabeleça a energia no local.

No habitual jogo de empurra da prefeitura de Campos, principalmente no que diz respeito aos equipamentos culturais, o Museu permanece 40 dias no escuro. A FCJOL, embora tenha status de secretaria, não possui a estrutura orçamentária e de pessoal para funcionar adequadamente, e depende permanentemente do apoio — não raro negado — de outros órgãos municipais.

Consultada, a FCJOL diz que solicitou urgência e que aguarda o reparo para após o carnaval: “eles (Sup. Iluminação Pública) já providenciaram a parte de documentação, estão no processo de abertura orçamentária para reposição de energia elétrica do Museu, esse é o andamento atual”, disse Fernando Machado, vice-presidente da Fundação.

A cultura no escuro e no fim da fila
 
Solar Visconde de Araruama, no centro da cidade, tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) em 23 de julho de 1987, que se tornou sede do Museu da cidade.  Através da Lei Municipal nº 8.300, de 10 de maio de 2012, foi criado o Museu Histórico de Campos dos Goytacazes, entregue à população no dia 29 de junho daquele mesmo ano.
Solar Visconde de Araruama, no centro da cidade, tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) em 23 de julho de 1987, que se tornou sede do Museu da cidade. Através da Lei Municipal nº 8.300, de 10 de maio de 2012, foi criado o Museu Histórico de Campos dos Goytacazes, entregue à população no dia 29 de junho daquele mesmo ano. / Antônio Filho - Folha1


Em cidades que se pretendem minimamente civilizadas, museus não podem permanecer no escuro por semanas. Não se trata apenas de iluminação, mas de responsabilidade institucional com a memória, com o patrimônio público e com o direito da população ao acesso à cultura.

Ademais, há a fragilidade de segurança e do acervo. O tempo e a temperatura, no caso de acervos históricos, não são detalhes, mas elementos determinantes para sua preservação e acessibilidade. Mantê-los 40 dias sem energia é um abandono inaceitável sob qualquer critério cultural. Em relação à segurança da instituição, do acervo e dos funcionários, a situação se mostra evidentemente frágil e impossibilita o monitoramento por câmeras, além de impor condições insalubres para quem trabalha no Museu.

Em Veneza, a quarentena protegia a cidade da morte. Em Campos, a quarentena do Museu expõe o quanto a cultura segue tratada como um corpo estranho, isolado, à espera de que o problema desapareça sozinho. Mas a história ensina: quando a luz não volta a tempo, o dano já foi feito — e, por vezes, mostra-se irreversível.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Edmundo Siqueira

    [email protected]