Subdesenvolvimento romântico
Edmundo Siqueira 11/06/2023 18:11 - Atualizado em 11/06/2023 18:32
*
David Drew Zingg era um repórter fotográfico nascido em New Jersey. Trabalhava para as revistas Life e Vogue. Veio para o Brasil cobrir a regata oceânica Buenos Aires-Rio, no final dos anos 1950. Naquela ocasião, teve a oportunidade de assistir um dos primeiros shows da Bossa Nova, na boate Bon Gourmet, em Copacabana. Se encantou profundamente com a magia cadenciada de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto, a ponto de vir morar no Rio e depois em São Paulo. Zingg foi um dos principais responsáveis pelo Concerto de Bossa Nova no Carnegie Hall, de Nova York, em 1962.

“David, o Brasil não é para principiantes”. Esse foi o alerta dado por Tom Jobim, em voz ritmada, ao repórter da Vogue quando este lhe confidenciou suas pretensões de mudança de continente.

O maestro tentava mostrar que o Brasil não era apenas aquilo que ele viu na Bon Gourmet, e sim um país repleto de contradições — ao mesmo tempo que um regime de exceção se desenvolvia a passos largos para acabar com qualquer ideal democrático que se construía, nascia o de mais genial em música, arte, literatura, cinema, jornalismo e teatro que pôde se produzir por aqui.
 Frank Sinatra e Antônio Carlos Jobim
Frank Sinatra e Antônio Carlos Jobim / Courtesy of Frank Sinatra Enterprises


As contradições do Brasil não são para principiantes, de fato. Depois do regime ditatorial de 64, Fernando Henrique e Lula usaram a social-democracia para formar uma coalizão de esquerda e centro-direita, essencialmente. Com esse acordo, FH estabilizou o país e Lula incluiu alguns milhões de brasileiros no jogo democrático e econômico. A reeleição de Dilma Rousseff e os movimentos de rua de 2013 — as chamadas Jornadas de Junho, uma Primavera Árabe à brasileira — fertilizaram a extrema-direita, e com um empurrãozinho de conjunturas internacionais, Bolsonaro ascendeu de um polemista do baixo clero à presidência da República.

Além de contraditório, o país retrocede. O ódio freudiano nutrido na classe média contra as classes populares, externado em atos falhos na comparação de aeroportos com rodoviárias (Lilian Aragão, mulher de Renato Aragão, o Didi, comparou os aeroportos com rodoviárias: ‘parece rodoviária, né, gente?’) e críticas da ida de empregadas domésticas à Disney (Paulo Guedes, ex-ministro de Bolsonaro, disse que dólar alto era bom: 'empregada doméstica estava indo para Disney, uma festa danada!'), aliado ao crescimento de igrejas evangélicas com base na Teologia da prosperidade, deram a popularidade que Bolsonaro precisava e a fidelidade quase bovina de alguns seguidores.
Reprodução/Mídia Ninja


A insatisfação com os rumos econômicos do segundo governo Dilma e sua incapacidade de articulação com o Congresso, para além do ódio de classes cultivado e do cenário de saturação com o populismo petista, possibilitaram que a Nova República atravessasse outro processo de impeachment. Inevitavelmente, novas e severas rachaduras apareceram na democracia brasileira.

Semana de 22, Bossa de 60, Ditadura de 64 e Lula de 23
Os últimos 100 anos do Brasil foram de transições. A Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, tentou trabalhar uma nova imagem do país, que buscava entender ou retratar a transição de uma realidade eminentemente rural para grandes centros urbanos cheios de fábricas e problemas. A partir de uma estética inovadora inspirada nas vanguardas europeias, a Semana marcou a cultura do país.

Nos anos 1950-60 vieram as colheitas do que foi plantado em 22. O Brasil começava a se descobrir enquanto nação, e criava identidades próprias no futebol, na música, nas praias do Rio, no poder econômico de Sampa, nas riquezas amazônicas e na descoberta do cerrado com a construção de uma capital moderna e única, concebida por Oscar Niemeyer e disposta em forma de avião, com sua fuselagem no Eixo Monumental, com suas avenidas amplas, parques e a Praça dos Três Poderes.

Uma transição forçada e violenta afundou o país em mais de 20 anos de ditadura. Foi preciso reconstruir todas as bases de 22, colocadas em artigos na Constituição de 1988. A Nova República que se formou daí é tão problemática quanto transformadora — e outra transição. O SUS foi criado, um complexo sistema de educação foi iniciado, um continental território se integrou em alguma medida, o agronegócio se transformou em uma indústria de ponta e o 7º lugar das maiores economias do mundo foi alcançado.

O que não se conseguiu resolver e se mantém como fonte de muitos dos problemas estruturais do país é a desigualdade. A vida urbana se constituiu em miséria, violência, falta de estrutura, sistema educacional e prisional falidos e saúde precária. Se não bastasse, o mundo viveu a pior pandemia de nossa era e um regime de desinformação e ódio culminou em mais uma tentativa de golpe de Estado no último dia 8 de janeiro.
Lula III - mais do mesmo ou outra transição?
Lula III - mais do mesmo ou outra transição? / Agência Brasil


Para a nova transição que não apenas o Brasil mas o mundo atravessa, a alternativa que restou ao país escolher entre a manutenção da extrema-direita ou a volta ao poder de um líder popular e populista que tentaria promover outra conciliação de classes — e outra transição, mas essa essencialmente democrática. Embora o Lula III até agora tenha apresentado ‘mais do mesmo’, reedições de programas como Brasil Sorridente, Farmácia Popular, merenda escolar e o Bolsa Família conseguem promover impactos gigantescos e transversais no país. E buscam atenuar a desigualdade como mal originário.

O país de Tom Jobim rejeita principiantes por sua própria complexidade, mas começa a perceber que a fórmula de 1994-2006 não funciona mais. Incentivar carros populares movidos a combustão, explorar petróleo na Amazônia e apoiar ditaduras da América Latina não ajudam, em nada, um país que precisa — urgentemente — de uma nova transição tecnológica e informacional.

Para isso, será preciso se valer da boa estrutura tecnológico-científica que o Brasil possui (excelentes universidades e a Fiocruz, por exemplo), transformar espaços como a Amazônia e Pantanal em centros da economia do conhecimento. Além disso, promover infraestrutura fora do Sudeste e do Sul em hospitais qualificados, UTIs, estradas, portos e ferrovias modernas, desistindo de um subdesenvolvimento romântico imposto ao Nordeste.

Para que na Bossa Nova atual do mundo — o 5G e as Inteligências Artificiais — não sejamos apenas principiantes.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Edmundo Siqueira

    [email protected]