Eu sou feliz
21/01/2017 | 18h47
Eu sou feliz
Cândida Albernaz
Gosto de andar sem rumo. Mais ainda quando consigo não pensar. Bem, sei que é uma contradição porque se digo que não penso, já o estou fazendo. Penso que não penso... Deixa para lá!
Minha filha, Lívia, avisou com o dedo apontado para meu rosto, que vai acabar me internando. Exagerada! Sempre foi assim. Puxou a mim. Igualzinha e nem percebe.
O exagero me atrai. Vivo tudo muito. Falo alto, gesticulo demais e dou gargalhada fora de hora, segundo alguns.
Outro dia estava no velório de uma amiga, que nem era tanto assim porque descobri que ela e meu marido, Otávio, que Deus o conserve ao lado dele, tiveram um caso. Bem na minha cara. Pensa que discuti? Que nada. Fui à casa dela e na maior calma avisei: se chegar perto do Otávio de novo, te dou uma coça que não vai sobrar dente nessa boca cheia de batom. Depois fui embora sorrindo. Sou educada. Ela sumiu lá de casa.
Como dizia antes, no tal velório, comecei a rir alto e todos olharam. Estava lembrando a cara que fez quando passou por mim na rua e levantei a mão como se fosse bater nela. Não é que a dita cuja encostou o corpo no muro e mostrou pavor nos olhos? Achou que eu fosse realmente dar um tapa naquele rostinho falso.
Sou da paz. Não gosto de briga. Só me imponho.
Em um dos aniversários do meu filho, chorei muito quando vi a vela acesa derretendo. Imaginei o quanto ela poderia estar sofrendo sumindo daquela forma. Os convidados acharam que eu me emocionara com o fato dele estar completando mais um ano. Minha filha compreendeu na hora o que acontecia e olhou com raiva. Falou entre dentes para que só eu entendesse: LOUCA! Não deu outra! Do choro comecei a gargalhar. Achei muito engraçado o que ela fez.
Louca! Imagine se sou louca. Apenas quando sinto, demonstro. Não escondo minhas vontades.
Se quero ficar pelada, porque sinto calor, tiro a roupa. E foi o que fiz no dia em que algumas amigas de Lívia lanchavam lá em casa. Preparei com o maior carinho. Modéstia à parte, cozinho bem. Arrumei a mesa e chamei as garotas. Elas riam, conversavam, comiam o bolo, os biscoitos, a torta, tudo feito por mim. Quando entrei na sala, pararam imediatamente de falar e arregalaram os olhos. Olhei uma por uma e comecei a rir. Estavam estranhas com a boca aberta e a cara de espanto.
Lívia levantou e me arrastou para o quarto. Por que você está nua? Eu respondi: Senti calor, preparando tanta coisa gostosa para vocês. Pediu que não saísse dali até que todas fossem embora. Ela tinha choro escorrendo no rosto. Não gosto nem um pouco quando fica assim. Apesar dos quinze anos, ainda é meu bebê.
Não entra na minha cabeça eu não poder fazer o que desejo. Todos deviam poder fazer o que querem. Fica tão mais divertido...
Otávio, que Deus chamou há dois anos, nunca perdeu a paciência. Era um homem bom, apesar do que fez. Conversava muito comigo e sempre falava que eu era como uma criança e crianças não têm maldade.
Só aconteceu uma vez, quando chamou um colega do escritório de contabilidade em que trabalhava, para jantar conosco. Única vez.
Esse amigo levou a namorada e eu mesma fiz nossa comida. Depois que acabamos, sentamos na sala. A mulher, uma chata, discursava sobre cabelos, unhas, as dela eram imensas, sobre como estava feliz em não fazer nada porque o namorado não permitia. Queria que se dedicasse inteiramente a ele. Pensava em nunca ter filhos, porque não se aceitava gorda. Acordar à noite? Deixar os seios flácidos? Nunquinha. Fiquei ouvindo aquele blá blá blá e pensei que se pudesse, teria mais uns três filhos. Eu não frequentava salão. Fazia a unha em casa e meu cabelo estava uma tristeza. Foi então que reparei que ela jogava aquela cabeleira loura e brilhante de um lado para o outro. Não pensei duas vezes. Fui ao quarto, peguei a tesoura e antes que percebessem, parei atrás dela e cortei um bom pedaço. Falei que era para eu lembrar que devia cuidar do meu. Bonito...
Ela deu um pulo da cadeira e começou a gritar. Foi uma confusão. Até hoje não entendo o porquê. Aquilo ia ou não ia crescer outra vez?
Acho melhor voltar para casa. Caminhei demais, devo estar longe.
A lua está linda e a noite fresca. Acabei de resolver que vou dormir aqui mesmo. A grama está seca e vou ter o privilégio de fechar os olhos observando um monte de estrelas.
Pensam que sou maluca. O que sou mesmo é feliz.
13/12/2011
Compartilhe
Mesa de bilhar
21/01/2017 | 18h47
Mesa de bilhar
O dia hoje estava mais quente do que de costume.
O suor escorria da testa para o pescoço e daí para dentro do seu uniforme verde, que a mulher não tivera tempo de lavar.
Há uma semana a filha mais velha mantinha uma tosse que não parava. Não dormia nem deixava que os outros dormissem.
A casa pequena com dois quartos, banheiro e cozinha, mal acomodava sua família e a do irmão.
Quando Antônio escreveu avisando que vinha com a mulher e um casal de filhos, para a cidade, tentou dizer que não seria fácil. Preferiu vir assim mesmo. Explicou que a fábrica de alumínio onde trabalhava fechou, muitos ficaram desempregados, inclusive ele. Há quase um ano viviam com o salário de manicure da mulher. Não suportava mais.
Já morava ali, e resolveu acomodar o irmão que agora trabalhava como vigia numa construção e podia dividir com ele o aluguel.
De manhã, notou que sua mulher estava com os olhos inchados de cansaço por não dormir. Levara a filha ao posto de saúde, fora medicada, mas não via melhora.
Tinham duas meninas que eram sua paixão. Aos domigos costumavam sair os quatro. Pegavam um ônibus e desciam na praça onde havia alguns brinquedos e podiam brincar sem que precisasse pagar por eles. Elas riam e sempre achavam alguma novidade para mostrar. Ou algum pássaro que viam, ou uma nova maneira de empurrar o balanço, ou ainda como corriam rápido.
Na saída, comprava um saco de pipoca para cada uma e voltavam para casa. Encontrava o irmão acordando. Esperava que se ajeitasse e saíam os dois para uma pelada, antes de sentar no bar que ficava no próximo quarteirão. Ali havia uma mesa de bilhar disputadíssima pelos homens da região. E algumas garotas também. A mulher reclamou com ele qundo soube que umas e outras iam ali. Não deu conversa, era homem e precisava se distrair. Trabalhava pesado como pedreiro a semana inteira.
No último domingo apareceram uns caras diferentes para jogar. Não moravam na área e ninguém os conhecia. Eram bons e ganharam de todos. Levaram o dinheiro e ainda olharam feio para Oswaldo que havia bebido além da conta, como sempre, e chamou os tais de ladrões. Os dois não gostaram mas foram embora rindo, esfregando o bolso da calça, onde haviam guardado a grana que ganharam.
Preferia que não voltassem, mas estavam ali há meia hora, quando chegaram com mais um amigo. Foram em direção de Oswaldo e um deles perguntou se não queria uma revanche. O amigo que emendara a bebedeira do dia anterior, aceitou na hora e ainda disse que esses filhos da puta agora vão ver o que é jogar. Semana passada me pegaram desprevenido. Chamou o companheiro que estava com ele que se negou dizendo sentir cheiro de confusão. A palavra certa para Antônio se achar estimulado. Topou fazer uma dupla com Oswaldo.
Ficou olhando para o irmão mas não disse nada. Antônio sempre gostou de uma disputa. E de confusão também.
Quando chegou a vez deles, as coisas pareciam tranquilas. Até que começaram a perder. Oswaldo que mal se aguentava, foi ficando irritado. Disse que estavam trapaceando, que mexeram na bola quando virou-se para pegar cerveja. Que não era bobo e não ia deixar dois ladrões de merda fazerem-no de trouxa.
O terceiro que viera hoje pela primeira vez, abraçou Oswaldo e disse que precisava de mais uma, aquilo era só um jogo.
Continuou observando o irmão que ria, como se não estivesse percebendo o clima em volta. Sabia o que isso queria dizer. Aquele risinho prendendo os lábios significava que sua paciência estava a zero
A partida terminava quando seu parceiro resolveu enfiar o dedo na cara de um deles e dizer que não pagaria aposta nenhuma porque não era idiota.
Foi imediato. Oswaldo recebeu um soco e um filete de sangue começou a escorrer da sobrancelha. Foi a deixa para que o bar inteiro entrasse na briga.
Tentou falar alguma coisa, mas a cadeira que recebeu nas costas fez com que mudasse de idéia.
O barulho que ouviram foi seguido de silêncio geral.
Seu irmão estava no chão. Os três caras, apontando uma arma, foram até o caixa, pegaram tudo o que encontraram e saíram nas motos estacionadas na rua.
Na barriga de Antônio podia-se ver a mancha vermelha que aumentava rapidamente.
Alguém ligou e chamou uma ambulância.
E aí, meu irmão? Os médicos já estão chegando.
Se preocupa não, estou bem. Só queria que avisasse a mulher que não faço mais isso. Tinha prometido a ela, mas sabe como é, não fujo de briga e nem posso ver uma.
Está tudo bem.
Eu sei, eu sei.
A cabeça de Antônio, que se apoiava em seu colo, foi ficando mole, até que pendeu para um lado.
Fantasia de carnaval
21/01/2017 | 18h47
Fantasia de Carnaval Aquele era o seu carnaval. Trabalhara um bocado durante todo o ano para conseguir participar. Não era a escola de samba pela qual torcia, não era nem mesmo a segunda colocada como objeto de desejo, mas naquele ano seria a escola de seu coração: “Escola de Samba do Boi Tampinha”.
O nome no início soara meio ridículo, agora, já o adorava.
Era pequena, de um bairro simples, mas quando a bateria começava a tocar ninguém se lembrava de onde dormia, vivia ou dos problemas que tinham. Todos os corações batiam juntos: tum, tum, tururu, tum, tum. E todos os passos surgiam num mesmo rítmo com cada um sorrindo o riso arreganhado e orgulhoso, igual em todas as bocas. As que possuíam ou não algum dente.
Quando chegava ao galpão onde ensaiavam, sentia-se importante. Olhava em volta aquele alvoroço e ia direto ao cara do isopor que vendia cerveja e pedia a sua.
A energia que vinha dali o alimentava. Sempre quisera participar de um desfile, mas nunca conseguira o dinheiro. Este ano, não. Juntara o suficiente para pagar sua fantasia.
Já avisara aos amigos: “Tô esperando vocês na avenida. E quero aplausos, quero assovios e quando passar quero ouvir: É o Beirinha. Dá-lhe Beirinha!”.
“E as garotas então! Quando virem esse negão sambando, com o gingado que tenho... Vai chover mulher”.
Os amigos riam das histórias de Beirinha e sabiam que este era o sonho dele. Desde muito só falava nisso.
Até Jéssica, sua garota, não aguentava mais aquele assunto. Na verdade o que ela queria mesmo era falar sobre o casamento dos dois. Namoravam há cinco anos e o Beirinha, ou melhor, o José Inácio nunca se decidia.
Não gostava de chamá-lo pelo apelido. “Com um nome tão lindo... José Inácio.” Quando o conhecera, ele fazia segurança de uma escola. Estava bonito ali, fazendo uma corda humana com outros caras. Mas ele se destacava. Era muito alto e forte. Ela contou que na hora imaginou aquelas mãos enormes segurando-a com força. Sorriu então e quando olhou, viu que ele a olhava e sorria também.
Terminando o desfile, foi andando para a saída e sentiu duas mãos na cintura. Já ia reclamar quando dentes muito brancos lhe sorriam enquanto ele se apresentava: “Sou o José Inácio, e você?” ”Jéssica”, disse com uma voz dengosa que o conquistou na hora.
A partir dali estavam sempre juntos e então aos poucos foi conhecendo-o melhor.
Soube logo depois que o carnaval era sua paixão. Todos os anos trabalhava como segurança de alguma escola e quando acabava voltava à sua função normal de limpar as ruas, era lixeiro.
Jéssica estava feliz por ele, afinal conseguiria entrar sambando no chão com a fantasia comprada. Sua ala vinha logo depois da bateria.
Saíra do barraco de José Inácio há pouco. Seu negão estava lindo. Sabia que ia ter problema com umas folgadas, mas aquele homem pertencia a ela.
Era cedo ainda e o grupo dele ia se reunir antes e nessa concentração ela não entrava.
Foi para casa se ajeitar devagar. Tinha tempo. As ruas estavam movimentadas com o ir e vir das pessoas que já começavam a guardar lugar nas arquibancadas. Sua cidade era pequena, mas quando chegava o carnaval, havia tanta gente na rua que não sabia como cabiam ali.
Estava chegando à casa quando ouviu um assovio. Olhou para trás e viu três caras parados na esquina. Usavam máscaras. Aquelas bem feias que costumam assustar as crianças.
“Oi, Jéssica! E o Beirinha?”. Não reconheceu a voz e mesmo assim sorriu para eles que se aproximaram.
Deviam ser alguns amigos já que sabiam seu nome e o de José Inácio.
Cercaram-na dançando, impedindo que entrasse em casa.
“Vamos, quer um golinho? Tome que é para animar”.
Ela começou a achar esquisito o jeito deles. “Quem são vocês? Vamos, tirem as máscaras. Não estou gostando da brincadeira”.
“Olhem só, a gostosa quer ver a gente. Não dá Jéssica. Aliás, não entendo o que você viu no Beirinha. Fede a podre o tempo inteiro, você merece coisa melhor!” “Por favor, parem. Vocês já conseguiram me assustar. Essa brincadeira está ficando chata”.
“Ih! Vai fazer beicinho. Anda, abre logo a porta de casa”. Dizendo isso, puxou a bolsa que ela segurava e tirando a chave abriu a porta empurrando-a para o interior.
O som de música de carnaval vinha do botequim da esquina, onde algumas pessoas dançavam.
Dentro da casa, Jéssica conhecia uma nova face da vida. Com os olhos fechados, ela se sujeitava à vontade dos três, que riam e derramavam cachaça em seu rosto, “para que se soltasse mais”.
Na avenida, Beirinha desfilava orgulhoso sua fantasia. No ponto em que combinara com Jéssica de jogarem beijo um para o outro, não a viu. Desconcentrou-se um pouco procurando, esticando bem o pescoço para tentar encontrá-la. Será que não entendeu direito onde eles haviam combinado?
Seguiu em frente, o sorriso voltou a seu rosto. Sambava como nunca. Sambava para ele. Sambava com o coração na boca. Era o seu carnaval.
Cândida Albernaz
A vida segue
21/01/2017 | 18h47
A vida segue
Cândida Albernaz
Passou pela porta da cozinha correndo. Os pés descalços, acostumados com o chão duro, nem sentiam as pequenas pedras em que pisava.
O caixote ainda estava lá, no cantinho da varanda como deixara no dia anterior. Havia colocado um pano em cima, para proteger de qualquer eventual friagem noturna.
Descobrindo, viu os pintinhos que piscavam os olhos sem parar.
A mãe chamou para tomar café. Gritou de volta se poderia levar os dois com ele.
- Nada disso. Deixa aí e venha se arrumar. Tem escola agora. Na volta, na volta...
Escondido dela pegou cada um e deu um beijo, acomodando-os em seguida no mesmo lugar.
Aquele dia ia longe. Os bichinhos não tiveram muito tempo de vida e sua mãe também não.
Mulher fraca de saúde morrera cedo.
O pai, depois disso, saiu da cidade com o filho mais velho e deixou que a avó cuidasse dele.
Recordava-se ter chorado muitas e muitas vezes. Pediu ao pai que o levasse com eles, não reclamaria de nada, seria obediente, estudaria sem que precisasse de castigo, o que pedisse.
Ajoelhado em frente ao filho, para que suas cabeças ficassem próximas, afirmou que seria uma questão de tempo.
- Daqui a alguns dias ficaremos os três juntos.
Quando o viu sair com a mala na mão seguido do irmão, acreditou que logo se encontrariam. Um ano passou até que voltasse a estar com eles.
No dia de retornar da casa do pai, este o abraçou e não prometeu nada. Implorou que o trouxesse para morar com eles. Foi a última vez que fez esse pedido. Foi a última vez que chorou.
Viam-se nas férias de julho e janeiro.
Na época em que conheceu a mulher ainda eram estudantes. Faziam residência quando ela anunciou a gravidez. Não pensou duas vezes para propor que se casassem.
Moraram com a avó por um período. Aquela avó de braços gigantes que era capaz de acolher o mundo em seu colo.
O pai casou com alguém da cidade onde vivia e só por uma vez perguntou se ele gostaria de morar com eles. Não, respondeu firme. Não mais. Não havia chance para esquecer, perdoar ou se adaptar.
Anos depois mesmo reconhecendo-se no adulto que era, sentia que o corte feito entre eles não fecharia.
Não foi sua a escolha de ficar quando a mãe se foi. Não foi ele quem decidiu ser deixado por eles.
Mas depois que a primeira filha nasceu sua existência pareceu adquirir sentido. Vivia para a garota.
Soube de uma nova gravidez na mesma semana em que a avó fora internada. Não conheceu a segunda bisneta.
***
Há um ano a mulher saiu de casa levando com ela suas filhas. Durante esse tempo, passou a ver as meninas em dias estabelecidos.
Não se acostumou. E não se acostumaria.
A casa vazia dos risos e gritos das crianças o ensurdecia.
Vivia mais uma vez com o que sobrara.
Arrumou uma caixa de sapatos e colocou ali os dois pintinhos de olhar engraçado. Cobriu com uma pequena toalha. Já conseguia imaginar a expressão das duas quando a descobrissem. Olhariam para ele com olhos de sorriso. Não saberiam se o abraçavam ou cuidavam dos pequenos animais. Ele tinha certeza de que estaria com cara de bobo, absorvendo cada momento.
Só era preciso seguir em frente.
21-11/2011
Comichão
21/01/2017 | 18h47
Comichão
O parque àquela hora já estava escuro. Caminhava com pressa, fazendo o mesmo percurso de todos os dias. Hoje não seria diferente. Algumas pessoas passavam correndo, outros de bicicleta. Com a pasta debaixo do braço, seguia em frente tentando não reparar muito ao redor.
Algumas garotas conversavam próximas a um banco e uma delas, a mais linda de todas, sorriu para ele quando passou. Retribuiu com timidez baixando os olhos e mais adiante voltou a cabeça olhando para trás. Elas agora riam alto. Imaginou se não foi algum comentário feito sobre ele. Talvez o achassem ridículo.
Chegando à casa ligou a televisão e foi ao banheiro lavar as mãos. Entrando na cozinha lavou-as de novo. Tinha esta mania. Quando chegava, lavava-as pelo menos umas dez vezes. Sempre achava que ainda estavam sujas.
Como em todas as noites, jantou enquanto com o controle remoto procurava um programa que o agradasse, leu o jornal e antes de dormir agachou-se no chão esticando as pernas, colocando o peso do corpo nos braços que se estendiam e abaixavam numa série de flexões seguidas de abdominais. Depois tomou um banho e olhou-se no espelho. Gostava de se olhar e observar os músculos, pois se sentia forte após o término dos exercícios.
E só então foi dormir.
Sempre fora metódico. Não gostava de mudanças, nem mesmo no trabalho. Ocupava o mesmo cargo há muitos anos, mas estava satisfeito. Não almejava mais do que isso. As pessoas já o conheciam e sabia como lidar com elas. Era educado e não chamava muita atenção para si mesmo.
Só o incomodava aquele comichão que de vez em quando sentia. Era uma espécie de inquietação que o fazia ficar ansioso e desejar coisas que o assustavam. Quando as idéias vinham na cabeça, costumava segurá-la com as mãos apertando-a, chegando algumas vezes a bater com a mesma na parede. Então pegava a caixa de remédios e tomava a dose dobrada, sentando-se e esperando sentir um torpor que acalmava a mente.
Essa sensação estava voltando cada vez com mais frequência. Tinha que ir ao doutor de novo. Não se lembrava mais da última vez que fora.
Dia seguinte, o trabalho tomou seu tempo fazendo com que não pensasse nas idéias da noite anterior. No final da tarde o comichão recomeçou. Trancou-se no banheiro e bateu com a cabeça na parede uma, duas, três vezes para ver se afastava aquela sensação.
Na hora da saída pegou seu caminho de sempre. Hoje estava mais escuro. Olhou o céu e o viu carregado de nuvens.
Lá estava a garota do outro dia. Reparou então que ela era loura, miúda e não estava acompanhada. Passou por ela e sorriu. Desta vez não pareceu reconhecê-lo, pois não respondeu com outro sorriso.
Diminuiu o passo e esperou que o ultrapassasse.
Foi seguindo-a, um pouco afastado.Ela parou e sentou num banco. Parecia olhar o vazio enquanto acendia um cigarro. Imaginou que talvez estivesse triste.
Ficou observando por algum tempo e vendo que o lugar estava ficando deserto, aproximou-se:
- Boa noite. Tem um cigarro?
Sem olhar para ele, ofereceu-lhe a carteira.
Tirou um e imaginou se por acaso havia ficado invisível. Sentou-se no banco ao lado dela fazendo com que realmente o notasse. Percebeu nela a intenção de levantar, mas antes que o fizesse, segurou sua mão livre jogando o cigarro fora e com a outra mão apertou as têmporas onde começava a sentir novamente a pressão.
Ela tentou se soltar, mas a segurava com força. Notou que ia gritar, então tapou sua boca e virou-a de costas de forma que o corpo agora era preso por uma espécie de abraço. Ela se debatia, mas não sabe como arranjara tal força nos braços, que ficara impossível se livrar dele.
A cabeça formigava. Lembrou do riso dela no dia anterior, com certeza para menosprezá-lo diante das amigas. E hoje fizera pior agindo como se não o reconhecesse. Cadela! Ia ver se alguma vez mais o esqueceria! Seus olhos arregalavam-se enquanto sentia o aperto da garganta.
Nunca mais riria dele.
O corpo dela foi ficando mole em seus braços até que arriou no chão.
Ajoelhou-se e ficou olhando-a. Possuía um rosto bonito. Tinha uma pinta do lado da boca que não havia notado antes.
A cabeça parou de doer.
Olhou em volta e não viu ninguém. Arrastou-a para trás do banco e limpando as mãos na roupa, seguiu seu caminho até em casa.
Ligou a tv e foi direto ao banheiro. Lavou as mãos e tornou a lavar. Várias vezes.
Esquentou o jantar e leu o jornal. Hoje não sentia a cabeça doer, sentia-se tranquilo. Era tão bom quando estava sereno...
Por essa vez...
21/01/2017 | 18h47
Por essa vez...
Cândida Albernaz
Reconheceu o som seco e alto. Sentiu as pernas fraquejarem. Olhou a escada que o separava do andar superior...
* * *
Todas as vezes que a mulher estava de plantão, era ele quem ficava com os filhos. Isso acontecia semana sim, semana não.
Ela era enfermeira e adorava a profissão. Mesmo quando chegava à casa exausta ou triste porque perdia um dos doentes dos quais ajudava a cuidar, tinha sempre algo bom para contar.
Para ele, aqueles sábados eram especiais, tinha os filhos de forma integral.
Tomavam o café da manhã juntos e se fizesse sol, iam à praia. Quando havia algum parque de diversões ou circo na cidade, levava os dois e riam como se tivessem a mesma idade.
Era um sujeito caseiro, bebia pouco e tinha paixão por futebol. No temperamento, seu maior defeito era não suportar a idéia de se sujeitar ou se achar impotente diante de um fato ou alguém.
Foi quando houve o assalto na loja de ferramentas que possuía, que resolveu comprar uma arma. Levaram o dinheiro do caixa e peças que vendia. O prejuízo nem fora tão grande, mas a sensação do revólver apontado para sua cabeça e a condição impossível de revidar, fez com que ficasse exasperado. Tinha certeza de que se tivesse um igual ao deles, teria colocado os caras para correr.
Contou à mulher, que depois de ouvir afirmou que ele devia agradecer por não ter sido machucado ou até mesmo morto. Agradecer coisa nenhuma! Devia era ter acabado com os dois. Um tiro na cara de cada um!
No dia seguinte ao entrar no trabalho, já havia adquirido a sua.
* * *
Reconheceu o som seco e alto. Sentiu as pernas fraquejarem. Olhou a escada que o separava do andar superior...
Da porta do quarto, viu a gaveta onde deixava a arma, aberta. Lembrou da mulher pedindo que ele tirasse aquilo dali, porque “qualquer dia desses acontece uma desgraça”. Sempre alegou que se queria defender a família, precisava que ficasse perto dele. Durante o dia, estando em casa, colocava-a em cima do armário. Só ao deitar, guardava na mesinha ao lado da cama. Mas esta não foi a primeira vez que se esqueceu de retirar.
Os filhos não estavam ali e foi para o quarto deles. O garoto estava caído no chão, com uma expressão assustada e ainda tinha nas mãos a arma que disparara. A irmã chorava ao lado da cama, apontando para a parede, onde a bala entrara.
Pegou da mão do menino enquanto sentia o corpo amolecer como se não suportasse o próprio peso. Puxou os dois para perto dele e abraçou-os.
Mais tarde depois que lancharam, colocou-os para dormir.
Quando a mulher chegasse pela manhã, teria que contar o que houve e sabia que iria escutar um bocado.
A verdade é que não aconteceu nada. Podia, é claro, mas não aconteceu.
Essa noite colocaria embaixo do travesseiro e prometeu a si mesmo não se esquecer de guardar bem no alto quando levantasse.
Durante o café, explicou à mulher o ocorrido e ouviu tudo o que ela tinha para falar.
No final, avisou que tomaria cuidado, mas não se desfaria de nada.
Nesse momento a filha chegou perto da mãe, que perguntou “onde está seu irmão?”
Ela olhou na direção do pai e colocando a mão em volta da boca quase sussurrou; “não briga com ele, porque irmão me pediu segredo. Mas eu vou contar só para você...”
- Onde está seu irmão?
- Pai, ele achou o revólver embaixo do travesseiro e disse que ia brincar de pegar ladrão com o Augusto, nosso vizinho. Saiu agora mesmo. Acho que você estava no banheiro...
7-11-2011
Ontem e hoje
21/01/2017 | 18h47
Ontem e hoje
Cândida Albernaz
É incrível reconhecer você nos cabelos brancos que jamais havia visto.
Não percebo o tempo passar a cada vez que olho em seus olhos, mesmo se fico tantos anos sem vê-lo.
Continuo sentindo o coração acelerar enquanto as mãos suam e da boca não sai nada além de um formal você está bem? A vontade de disparar perguntas sobre passado e presente se perde na insegurança de não saber o que dizer.
* * *
O dia hoje foi cansativo, aliás, como a maioria deles. Se não fosse por ter certeza de que chegaria a casa e veria os meninos, acho que enfartaria. Não sei como fui parar no meio da discussão de Henrique com a recepcionista nova. Eu e minha eterna mania de sair defendendo quem acho que precisa de ajuda.
Pudera, o safado está atrás dela, e como a garota não quer nada com ele, a persegue. Conheço bem o tipo, em casa diz amém à mulher, e no trabalho se aproveita da autoridade do cargo que exerce.
* * *
Os olhos negros se escondem atrás de óculos que nunca soube você precisasse usar. Se fecho os olhos, o tempo não passou quando o escuto falar meu nome.
Marina para você. Alberto para mim. Marina que fugiu com medo do que sentia. Agora teme não ter tempo para fazer que você entenda que nunca quis algo passageiro. Marina que não sabe como dizer que sempre foi amor em todas as vezes que o viu e não se aproximou.
* * *
Ainda bem que Miguel não chegou. Detesta quando não estou. Nossa, que bagunça. Sempre que trazem amigos para casa, fazem esta zona.
Já falei que não quero ninguém aqui enquanto ainda não estiver, mas fingem que não escutam. Acho que fui ficando liberal demais. Quando crianças eu os controlava com o olhar, agora, nem falando por horas consigo convencê-los de algo.
Pensei em assistir a um filme com eles e pedir uma pizza. Que nada, pela altura do som, posso esquecer o cineminha em casa.
* * *
A vida corre e escorre carregando possibilidades de encontros nunca realizados.
Sou capaz de senti-lo mesmo distante, quando uma música tocada no rádio do carro, me remete a uma época onde beijos molhados de lágrimas e toques que pareciam choques fazendo um grudar ao outro sem a mínima possibilidade de se desprender.
Sou piegas quando me lembro de você.
* * *
Vou tomar um banho. Embaixo da água morna, relaxo. Ela tem um poder especial para mim.
Eu, Henrique e outra colega montamos o laboratório há dois anos. Está dando certo. Fizemos um investimento alto que deixou-nos preocupados, mas valeu a pena. Nossas responsabilidades aumentaram, mas o dinheiro também.
* * *
Casei, mudei minha vida. Formei uma família como a maioria de minhas amigas. Você já fez e refez a sua. Mesmo assim fiquei presa a um passado que ainda me dói.
Quero que pare de me olhar por olhar, quero que me veja e enxergue o medo de nunca mais encontrá-lo. Quero que escute através da minha pele a vontade de me misturar a você nos tornando um só.
* * *
Miguel chegou. Acabo de ouvir a porta bater. Deve estar irritado, o que é comum ultimamente. Vou pedir algo para comermos e me enfiar embaixo do lençol. Não quero discutir hoje, já estou com a cabeça cheia. Vai entrar aqui reclamando dos meninos. Antes vai dar uma de bom pai e brincar com todos como se tivesse a idade deles. Eu é que vou escutar sobre o que ele realmente acha do que os filhos estão fazendo. Há algum tempo não nos entendemos mais. Às vezes sinto saudades.
* * *
Às vezes sinto saudades.
O convite
21/01/2017 | 18h47
O convite
Cândida Albernaz
Não imaginou ir tão longe. Nem mesmo imaginou ser possível. Àquela altura, fizera sua opção. Agiu como considerou necessário.
Sentou na cadeira de forro estampado, ela mesma escolheu o tecido. Queria tons alegres, onde sobressaísse o vermelho. Lembrou do dia em que chegou à casa com a sacola e tirando-o de dentro dela, foi cobrindo o assento e o encosto para ter a noção de como ficaria. Os dois adoraram o efeito. Resolveu que a colocaria mais próximo à janela, porque ali a luz dava vida à estampa.
Ria fácil naqueles dias. Fase de descobertas: só as boas.
* * *
O envelope que recebera pelo correio era grande e antes mesmo de abrir, tinha a certeza de que era um convite.
Tentou imaginar quem conhecia fora da cidade em que vivia desde que nasceu. Olhou o remetente e não o reconheceu. Achou que devia haver qualquer engano, mas era seu nome e endereço que constava na frente.
Abrindo, viu que era um convite de casamento. Demorou um pouco para entender que conhecia um dos noivos.
* * *
Eram claros os olhos que a encaravam. Talvez verdes. A distância impedia a certeza. Mas o sorriso, que enxergava perfeitamente, provocava duas covas em cada lado do rosto. Gostou daquele efeito que transformava o homem em menino.
Conversaram muito naquela primeira noite. Soube que ele era de fora, e havia sido transferido por período indeterminado. Saboreou a palavra. De qualquer forma, morava a poucos quilômetros dali. Falou que costumava ir para casa todos os fins de semana, mas agora que a conhecera... Palavras por dizer sempre a atraíram, principalmente se vinham acompanhadas de um beijo.
Não demorou a que, com sua autorização, ele se instalasse em seu apartamento.
* * *
Quase um ano depois, quando ele precisou voltar, falavam-se diariamente, vinha vê-la todas as semanas, depois de quinze em quinze dias, até que levou dois meses sem aparecer.
Não quis procurar por ele imediatamente, e depois de algum tempo achou que tinha orgulho suficiente para não precisar correr atrás de ninguém.
O convite trazia a data do casamento: em uma semana.
Havia tempo não chorava, mas não conseguiu controlar. Três dias trancada no quarto sem falar ou ver alguém. Mal se reconhecia no espelho quando resolveu se ajeitar para sair.
Voltou ao trabalho sabendo o que faria. A decisão provocou um sentimento de tranquilidade, parecendo não ser dela a perda que vivia.
Sairia bem cedo no sábado.
* * *
Quando ele a buscava no trabalho, caminhavam de mãos dadas até uma sorveteria e entre risadas, dividiam num beijo, aquele creme gelado e de sabores diferentes.
Tinham prazer no que é comum, cinema, estar junto, jantares, estar junto, supermercado, estar junto, percorrer a cidade de bicicleta. Juntos.
Habituara-se a que ele adivinhasse o que queria sem que necessitasse dizer nada.
Acreditou que eram um do outro.
* * *
Diante daquela mulher, que parecia tão jovem, despejou detalhes do que viveram. Coisas que ele dizia, presentes que dava e ganhava, passeios que faziam, datas que comemoravam. Falou ainda do quanto riam programando um futuro que jamais aconteceria.
Não se preocupasse, porque voltaria para sua cidade. Não tentaria falar com ele. Nunca. Não havia o que dizer.
Ela poderia fazer o que quisesse com tudo o que estava ouvindo. Casasse com aquele homem e fosse muito feliz. Ou não.
Primeiro vieram lágrimas e então soluços que a garota não controlava. Não sentiu pena. Não podia. Preferia que fosse ele à sua frente carregado de culpa e emoção. Mas não era.
A cerimônia estava marcada para dali a quatro horas. O salão de cabeleireiro estava cheio e algumas amigas se aproximaram quando viram que a noiva chorava.
O que está acontecendo? O que você fez com ela?
Virou-se e saiu daquele lugar. Na rua, soltou um suspiro fundo, como se só então conseguisse respirar.
Não soube quem mandou o convite. Não importava.
Não se julgava, porque não conseguia sentir. Entrou no carro e dirigiu de volta para casa.
Estava escuro quando chegou. Não procuraria saber o que acontecera após sua saída.
Fechou uma porta que não pensava abrir de novo.
Certo ou errado? E daí?
Levantou-se da cadeira e resolveu deitar. Enfim conseguiria dormir. Há dias não sabia o que era isso.
25-10-11
Haja paciência
21/01/2017 | 18h47
Haja paciência
Cândida Albernaz
- Você vem ou não?
- Estou indo.
- Por que precisa demorar tanto?
- Quase pronta!
- Droga! É sempre a mesma coisa. Começo a me arrumar quando você parece estar acabando e não tem jeito.
- Só um pouquinho mais. Vou ficar linda para você.
- Hum!
- E pare de resmungar. Não vê que assim me atrapalha?
- Nem reclamar posso.
- Fica quietinho aí. Só falta o batom.
- Quando você diz isso é porque ainda está começando a passar esse monte de coisa na cara.
- Não seja grosseiro. O resultado é ótimo.
- Acho que vou tomar um uísque para relaxar.
- Espera aí! Beber não!
- Como assim: beber não!
- E não fique imitando meu jeito de falar.
- Você enrola o quanto quer e eu bebo o uísque que quero.
- Você sabe que esse uisquezinho seu, puxa outro e outro. Quando chegarmos, já vai estar mais para lá do que para cá.
- Culpa sua se isso acontecer. Por que não ficou pronta na hora que combinamos?
- Eu tentei você sabe.
- Sei que ficou de conversa com sua amiga, dando conselhos de que roupa deveria colocar.
- É isso que dá ter uma mulher de bom gosto. As amigas ligam para pedir opinião sobre o que vestir.
- E o assunto foi esticando para o José Antônio.
- Você é maldoso. Sabe que ela é louca por ele. Estava triste.
- Aposto que sei o motivo. Triste porque ele resolveu viajar com a mulher.
- Não gosto que fale de minhas amigas.
- Além de tudo, esse cara é um chato. Adora contar vantagens. Tem o melhor carro, a melhor viagem, faz o melhor negócio e as mulheres estão todas atrás dele.
- Não seja tão irritado.
- A única mulher que fica atrás dele, é essa sua amiga, que não consegue nem mesmo enxergar que o perfeito tem uma barriga que sempre chega antes dele.
- Ela o ama.
- Deve amar mesmo, para suportar escutar; eu tenho, eu faço, eu posso... E vou pegar minha bebida.
- Espere querido. Estou acabando. Agora é só o perfume. Qual você prefere?
- Qualquer um. Combinamos de sair às dez horas. São onze.
- Quase prontinha!
- Nossa reserva já era! Vamos ter que ficar esperando por alguma mesa sabe-se lá por quanto tempo.
- Não se preocupe amor. Pedi a minha amiga que nos esperasse lá.
- A Mariana vai com a gente?
- Precisando m-u-i-t-o de companhia.
- Não acredito que vou passar a noite de sábado ouvindo alguém falar do José Antônio. Porque ela não consegue entrar em outro tema.
- Precisando desabafar.
- Mas não podia ser quando vocês duas saíssem? Tem que rolar esse papo quando eu e você combinamos um jantar?
- Precisando de ajuda.
- E eu precisando de uma dose.
- Espere aí... Olha só o que fez? Virou a bebida de uma só vez.
- E estou partindo para a segunda.
- Pronto. Em pé na porta, linda para você. A chave do carro está comigo.
- Pois agora, vou acabar meu uísque sentado aqui no sofá.
- Não faz isso...
- Já fiz. Quer um também?
- Sabe que detesto álcool.
- Não adianta amarrar a cara. Estou esperando por você há mais de uma hora.
- Mas não gosto quando bebe antes de sairmos.
- Também não prefiro sair com sua amiga quando ela está carente.
- Você sempre achou Mariana simpática.
- E ainda acho. Quando ela está animada, rindo das coisas, contando histórias boas de ouvir.
- Mas ela está...
-... Precisando! Já sei.
- Promete que vai ter paciência. Só hoje.
- Vamos ver. Se ela tiver conseguido uma boa mesa...
- Não beba tão rápido!
- Se você falar mais alguma palavra sobre, vou tomar a garrafa inteira.
- Começou a ficar de mau humor.
- Só mais uma coisa. Se ela ameaçar chorar na mesa, levanto e vou embora.
- Ela não vai fazer isso. Vamos logo.
- E se começar a elogiar esse tal de José Antônio, mando ela se tratar.
- Está bem, está bem. Vamos embora.
- Seu telefone está chamando.
- É a Mariana. Fala querida, está no restaurante?
- Pelo menos isso.
- Ele terminou com você? Não chora Mariana. Estamos chegando aí.
- Não acredito! Meu sábado...
18/10/11
Um mundo só seu
21/01/2017 | 18h45
Um mundo só seu
Cândida Albernaz
O cabelo encarapinhado tinha uma cor indefinida, entre o amarelo e o encardido. Talvez fosse uma cabeça toda branca se a vida tivesse oferecido algo melhor.
Forrou a beirada da calçada com um papel pardo e ali colocou o prato de alumínio. Pegou a colher plástica de um rosa transparente, recolheu o feijão com arroz e cheirou. Balançou a cabeça em sinal de aprovação e comeu. Os pés para fora do meio fio calçavam uma sandália marrom com tiras grossas, lembrando um calçado masculino.
Quando um carro parou a seu lado, pegou outro pedaço de papel e tentou proteger da poeira cobrindo parcialmente a refeição.
Era uma mulher de estatura baixa, com olhos apertados como se sorrisse todo o tempo. Talvez o excesso de rugas em volta dele causasse o efeito.
Um rapaz ainda jovem se aproximou e perguntou se ela gostaria de ir para casa. Casa? Estou em casa. Não quer se sentar também? Se preferir, divido meu almoço com você. Não é muito, mas está gostoso.
Ele faz uma cara de repulsa e pede mais uma vez que ela o siga.
Não escutou ou fingiu que não. Pegou o prato e jogou na lixeira que estava na esquina. Voltou demonstrando estranheza que o rapaz estivesse ali ainda.
Abaixou sem dificuldade, limpou a colher no papel que usara antes e guardou na sacola plástica que havia deixado ao lado.
Olhou para ele e disse que precisava de paz. E é na rua que vai conseguir? Como uma mendiga?
Sorriu de um jeito conformado e saiu andando.
Tentou segurar seu braço, mas como uma força que não parecia ter, soltou-se dele.
O rapaz desistiu e foi para o outro lado da rua. Parou, encostou o corpo no muro de uma casa e ficou olhando. Notou que ela resmungava baixinho. Sabia o que falava: muxoxos e palavrões contra ele.
Sempre que a mãe tinha essas crises, ninguém conseguia segurar. Ia para a rua odiando tudo e todos dentro de casa. Então ele ou a irmã se revezavam na vigília. Não costumava durar muito porque arranjavam um jeito de colocar, enquanto ela se distraía, um calmante na bebida que tomava.
Fora internada algumas vezes, mas voltava tão triste e abatida que resolveram não fazer mais.
Ela foi mudando aos poucos e não se deram conta, ou a importância necessária, até a primeira escapada.
Procuraram pela mãe como loucos e a encontraram com mais duas pessoas, deitada num chão sujo e dividindo o cobertor de alguém.
O pai havia morrido há alguns anos, e na mesma época perdera um irmão em um acidente. A mãe, apesar do sofrimento, continuou a levar a vida adiante. Transformou-se numa mulher triste, quieta, de poucas palavras.
Ainda na calçada oposta, observava enquanto ela conversava com um e outro que passava, rindo sozinha quando imaginava ver ou ouvir algo divertido.
Estava cansado e pensou que desta vez a manteria por um bom tempo à base de remédios. Com eles ela ficaria deitada ou dormindo mais. Não suportava quando a via com aquele aspecto de demência, mas tinha medo de perdê-la para sempre um dia.
Parece que vai parar na praça agora. Deve sentar um pouco. Talvez seja a chance para aproximar e colocar o sedativo. Poderia falar com ela novamente, pois tinha a certeza de que nem mesmo lembraria que estivera com ele há pouco.
Viu que havia uma lanchonete ali perto. Compraria um sorvete e misturaria o medicamento. Nunca vira a mãe recusar um sorvete. Sempre gostara. Com ou sem crise.
Quando chegou perto e ofereceu a ela, imaginou ver um pequeno brilho em seus olhos e a boca abriu com um enorme sorriso. Como uma criança gulosa devorou aquele creme gelado.
Não demorou muito para que ela recostasse a cabeça em seu ombro e se deixasse levar...
09/10/2011.
Sobre o autor
Candida Albernaz
[email protected]
Arquivos
- Março 2026
- Fevereiro 2026
- Janeiro 2026
- Dezembro 2025
- Novembro 2025
- Outubro 2025
- Setembro 2025
- Agosto 2025
- Julho 2025
- Junho 2025
- Maio 2025
- Abril 2025
- Março 2025
- Fevereiro 2025
- Janeiro 2025
- Dezembro 2024
- Novembro 2024
- Outubro 2024
- Setembro 2024
- Agosto 2024
- Julho 2024
- Junho 2024
- Maio 2024
- Abril 2024
- Março 2024
- Fevereiro 2024
- Janeiro 2024
- Dezembro 2023
- Novembro 2023
- Outubro 2023
- Setembro 2023
- Agosto 2023
- Julho 2023
- Junho 2023
- Maio 2023
- Abril 2023
- Março 2023
- Fevereiro 2023
- Janeiro 2023
- Dezembro 2022
- Novembro 2022
- Outubro 2022
- Setembro 2022
- Agosto 2022
- Julho 2022
- Junho 2022
- Maio 2022
- Abril 2022
- Março 2022
- Fevereiro 2022
- Janeiro 2022
- Dezembro 2021
- Novembro 2021
- Outubro 2021
- Setembro 2021
- Agosto 2021
- Julho 2021
- Junho 2021
- Maio 2021
- Abril 2021
- Março 2021
- Fevereiro 2021
- Janeiro 2021
- Dezembro 2020
- Novembro 2020
- Outubro 2020
- Setembro 2020
- Agosto 2020
- Julho 2020
- Junho 2020
- Maio 2020
- Abril 2020
- Março 2020
- Fevereiro 2020
- Janeiro 2020
- Dezembro 2019
- Novembro 2019
- Outubro 2019
- Setembro 2019
- Agosto 2019
- Julho 2019
- Junho 2019
- Maio 2019
- Abril 2019
- Março 2019
- Fevereiro 2019
- Janeiro 2019
- Dezembro 2018
- Novembro 2018
- Outubro 2018
- Setembro 2018
- Agosto 2018
- Julho 2018
- Junho 2018
- Maio 2018
- Abril 2018
- Março 2018
- Fevereiro 2018
- Janeiro 2018
- Dezembro 2017
- Novembro 2017
- Outubro 2017
- Setembro 2017
- Agosto 2017
- Julho 2017
- Junho 2017
- Maio 2017
- Abril 2017
- Março 2017
- Fevereiro 2017
- Janeiro 2017
- Dezembro 2016
- Novembro 2016
- Outubro 2016
- Setembro 2016
- Agosto 2016
- Julho 2016
- Junho 2016
- Maio 2016
- Abril 2016
- Março 2016
- Fevereiro 2016
- Janeiro 2016
- Dezembro 2015
- Novembro 2015
- Outubro 2015
- Setembro 2015
- Agosto 2015
- Julho 2015
- Junho 2015
- Maio 2015
- Abril 2015
- Março 2015
- Fevereiro 2015
- Janeiro 2015
- Dezembro 2014
- Novembro 2014
- Outubro 2014
- Setembro 2014
- Agosto 2014
- Julho 2014
- Junho 2014
- Maio 2014
- Abril 2014
- Março 2014
- Fevereiro 2014
- Janeiro 2014
- Dezembro 2013
- Novembro 2013
- Outubro 2013
- Setembro 2013
- Agosto 2013
- Julho 2013
- Junho 2013
- Maio 2013
- Abril 2013
- Março 2013
- Fevereiro 2013
- Janeiro 2013
- Dezembro 2012
- Novembro 2012
- Outubro 2012
- Setembro 2012
- Agosto 2012
- Julho 2012
- Junho 2012
- Maio 2012
- Abril 2012
- Março 2012
- Fevereiro 2012
- Janeiro 2012
- Dezembro 2011
- Novembro 2011
- Outubro 2011
- Setembro 2011
- Agosto 2011
- Julho 2011
- Junho 2011
- Maio 2011
- Abril 2011
- Março 2011
- Fevereiro 2011
- Janeiro 2011
- Dezembro 2010
- Novembro 2010
- Outubro 2010
- Setembro 2010
- Agosto 2010
- Julho 2010
- Junho 2010
- Maio 2010
- Abril 2010
- Março 2010
