O convite
O convite
Cândida Albernaz
Não imaginou ir tão longe. Nem mesmo imaginou ser possível. Àquela altura, fizera sua opção. Agiu como considerou necessário.
Sentou na cadeira de forro estampado, ela mesma escolheu o tecido. Queria tons alegres, onde sobressaísse o vermelho. Lembrou do dia em que chegou à casa com a sacola e tirando-o de dentro dela, foi cobrindo o assento e o encosto para ter a noção de como ficaria. Os dois adoraram o efeito. Resolveu que a colocaria mais próximo à janela, porque ali a luz dava vida à estampa.
Ria fácil naqueles dias. Fase de descobertas: só as boas.
* * *
O envelope que recebera pelo correio era grande e antes mesmo de abrir, tinha a certeza de que era um convite.
Tentou imaginar quem conhecia fora da cidade em que vivia desde que nasceu. Olhou o remetente e não o reconheceu. Achou que devia haver qualquer engano, mas era seu nome e endereço que constava na frente.
Abrindo, viu que era um convite de casamento. Demorou um pouco para entender que conhecia um dos noivos.
* * *
Eram claros os olhos que a encaravam. Talvez verdes. A distância impedia a certeza. Mas o sorriso, que enxergava perfeitamente, provocava duas covas em cada lado do rosto. Gostou daquele efeito que transformava o homem em menino.
Conversaram muito naquela primeira noite. Soube que ele era de fora, e havia sido transferido por período indeterminado. Saboreou a palavra. De qualquer forma, morava a poucos quilômetros dali. Falou que costumava ir para casa todos os fins de semana, mas agora que a conhecera... Palavras por dizer sempre a atraíram, principalmente se vinham acompanhadas de um beijo.
Não demorou a que, com sua autorização, ele se instalasse em seu apartamento.
* * *
Quase um ano depois, quando ele precisou voltar, falavam-se diariamente, vinha vê-la todas as semanas, depois de quinze em quinze dias, até que levou dois meses sem aparecer.
Não quis procurar por ele imediatamente, e depois de algum tempo achou que tinha orgulho suficiente para não precisar correr atrás de ninguém.
O convite trazia a data do casamento: em uma semana.
Havia tempo não chorava, mas não conseguiu controlar. Três dias trancada no quarto sem falar ou ver alguém. Mal se reconhecia no espelho quando resolveu se ajeitar para sair.
Voltou ao trabalho sabendo o que faria. A decisão provocou um sentimento de tranquilidade, parecendo não ser dela a perda que vivia.
Sairia bem cedo no sábado.
* * *
Quando ele a buscava no trabalho, caminhavam de mãos dadas até uma sorveteria e entre risadas, dividiam num beijo, aquele creme gelado e de sabores diferentes.
Tinham prazer no que é comum, cinema, estar junto, jantares, estar junto, supermercado, estar junto, percorrer a cidade de bicicleta. Juntos.
Habituara-se a que ele adivinhasse o que queria sem que necessitasse dizer nada.
Acreditou que eram um do outro.
* * *
Diante daquela mulher, que parecia tão jovem, despejou detalhes do que viveram. Coisas que ele dizia, presentes que dava e ganhava, passeios que faziam, datas que comemoravam. Falou ainda do quanto riam programando um futuro que jamais aconteceria.
Não se preocupasse, porque voltaria para sua cidade. Não tentaria falar com ele. Nunca. Não havia o que dizer.
Ela poderia fazer o que quisesse com tudo o que estava ouvindo. Casasse com aquele homem e fosse muito feliz. Ou não.
Primeiro vieram lágrimas e então soluços que a garota não controlava. Não sentiu pena. Não podia. Preferia que fosse ele à sua frente carregado de culpa e emoção. Mas não era.
A cerimônia estava marcada para dali a quatro horas. O salão de cabeleireiro estava cheio e algumas amigas se aproximaram quando viram que a noiva chorava.
O que está acontecendo? O que você fez com ela?
Virou-se e saiu daquele lugar. Na rua, soltou um suspiro fundo, como se só então conseguisse respirar.
Não soube quem mandou o convite. Não importava.
Não se julgava, porque não conseguia sentir. Entrou no carro e dirigiu de volta para casa.
Estava escuro quando chegou. Não procuraria saber o que acontecera após sua saída.
Fechou uma porta que não pensava abrir de novo.
Certo ou errado? E daí?
Levantou-se da cadeira e resolveu deitar. Enfim conseguiria dormir. Há dias não sabia o que era isso.
25-10-11