Por essa vez...
candida 10/11/2011 02:21
Por essa vez...                                                                                                   Cândida Albernaz Reconheceu o som seco e alto. Sentiu as pernas fraquejarem. Olhou a escada que o separava do andar superior... *  *  * Todas as vezes que a mulher estava de plantão, era ele quem ficava com os filhos. Isso acontecia semana sim, semana não. Ela era enfermeira e adorava a profissão. Mesmo quando chegava à casa exausta ou triste porque perdia um dos doentes dos quais ajudava a cuidar, tinha sempre algo bom para contar. Para ele, aqueles sábados eram especiais, tinha os filhos de forma integral. Tomavam o café da manhã juntos e se fizesse sol, iam à praia. Quando havia algum parque de diversões ou circo na cidade, levava os dois e riam como se tivessem a mesma idade. Era um sujeito caseiro, bebia pouco e tinha paixão por futebol. No temperamento, seu maior defeito era não suportar a idéia de se sujeitar ou se achar impotente diante de um fato ou alguém. Foi quando houve o assalto na loja de ferramentas que possuía, que resolveu comprar uma arma. Levaram o dinheiro do caixa e peças que vendia. O prejuízo nem fora tão grande, mas a sensação do revólver apontado para sua cabeça e a condição impossível de revidar, fez com que ficasse exasperado. Tinha certeza de que se tivesse um igual ao deles, teria colocado os caras para correr. Contou à mulher, que depois de ouvir afirmou que ele devia agradecer por não ter sido machucado ou até mesmo morto. Agradecer coisa nenhuma! Devia era ter acabado com os dois. Um tiro na cara de cada um! No dia seguinte ao entrar no trabalho, já havia adquirido a sua. *  *   * Reconheceu o som seco e alto. Sentiu as pernas fraquejarem. Olhou a escada que o separava do andar superior... Da porta do quarto, viu a gaveta onde deixava a arma, aberta. Lembrou da mulher pedindo que ele tirasse aquilo dali, porque “qualquer dia desses acontece uma desgraça”. Sempre alegou que se queria defender a família, precisava que ficasse perto dele. Durante o dia, estando em casa, colocava-a em cima do armário. Só ao deitar, guardava na mesinha ao lado da cama. Mas esta não foi a primeira vez que se esqueceu de retirar. Os filhos não estavam ali e foi para o quarto deles. O garoto estava caído no chão, com uma expressão assustada e ainda tinha nas mãos a arma que disparara. A irmã chorava ao lado da cama, apontando para a parede, onde a bala entrara. Pegou da mão do menino enquanto sentia o corpo amolecer como se não suportasse o próprio peso. Puxou os dois para perto dele e abraçou-os. Mais tarde depois que lancharam, colocou-os para dormir. Quando a mulher chegasse pela manhã, teria que contar o que houve e sabia que iria escutar um bocado. A verdade é que não aconteceu nada. Podia, é claro, mas não aconteceu. Essa noite colocaria embaixo do travesseiro e prometeu a si mesmo não se esquecer de guardar bem no alto quando levantasse. Durante o café, explicou à mulher o ocorrido e ouviu tudo o que ela tinha para falar. No final, avisou que tomaria cuidado, mas não se desfaria de nada. Nesse momento a filha chegou perto da mãe, que perguntou “onde está seu irmão?” Ela olhou na direção do pai e colocando a mão em volta da boca quase sussurrou; “não briga com ele, porque irmão me pediu segredo. Mas eu vou contar só para você...” - Onde está seu irmão? - Pai, ele achou o revólver embaixo do travesseiro e disse que ia brincar de pegar ladrão com o Augusto, nosso vizinho. Saiu agora mesmo. Acho que você estava no banheiro...                                                                                               7-11-2011

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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