Eu sou feliz
Eu sou feliz
Cândida Albernaz
Gosto de andar sem rumo. Mais ainda quando consigo não pensar. Bem, sei que é uma contradição porque se digo que não penso, já o estou fazendo. Penso que não penso... Deixa para lá!
Minha filha, Lívia, avisou com o dedo apontado para meu rosto, que vai acabar me internando. Exagerada! Sempre foi assim. Puxou a mim. Igualzinha e nem percebe.
O exagero me atrai. Vivo tudo muito. Falo alto, gesticulo demais e dou gargalhada fora de hora, segundo alguns.
Outro dia estava no velório de uma amiga, que nem era tanto assim porque descobri que ela e meu marido, Otávio, que Deus o conserve ao lado dele, tiveram um caso. Bem na minha cara. Pensa que discuti? Que nada. Fui à casa dela e na maior calma avisei: se chegar perto do Otávio de novo, te dou uma coça que não vai sobrar dente nessa boca cheia de batom. Depois fui embora sorrindo. Sou educada. Ela sumiu lá de casa.
Como dizia antes, no tal velório, comecei a rir alto e todos olharam. Estava lembrando a cara que fez quando passou por mim na rua e levantei a mão como se fosse bater nela. Não é que a dita cuja encostou o corpo no muro e mostrou pavor nos olhos? Achou que eu fosse realmente dar um tapa naquele rostinho falso.
Sou da paz. Não gosto de briga. Só me imponho.
Em um dos aniversários do meu filho, chorei muito quando vi a vela acesa derretendo. Imaginei o quanto ela poderia estar sofrendo sumindo daquela forma. Os convidados acharam que eu me emocionara com o fato dele estar completando mais um ano. Minha filha compreendeu na hora o que acontecia e olhou com raiva. Falou entre dentes para que só eu entendesse: LOUCA! Não deu outra! Do choro comecei a gargalhar. Achei muito engraçado o que ela fez.
Louca! Imagine se sou louca. Apenas quando sinto, demonstro. Não escondo minhas vontades.
Se quero ficar pelada, porque sinto calor, tiro a roupa. E foi o que fiz no dia em que algumas amigas de Lívia lanchavam lá em casa. Preparei com o maior carinho. Modéstia à parte, cozinho bem. Arrumei a mesa e chamei as garotas. Elas riam, conversavam, comiam o bolo, os biscoitos, a torta, tudo feito por mim. Quando entrei na sala, pararam imediatamente de falar e arregalaram os olhos. Olhei uma por uma e comecei a rir. Estavam estranhas com a boca aberta e a cara de espanto.
Lívia levantou e me arrastou para o quarto. Por que você está nua? Eu respondi: Senti calor, preparando tanta coisa gostosa para vocês. Pediu que não saísse dali até que todas fossem embora. Ela tinha choro escorrendo no rosto. Não gosto nem um pouco quando fica assim. Apesar dos quinze anos, ainda é meu bebê.
Não entra na minha cabeça eu não poder fazer o que desejo. Todos deviam poder fazer o que querem. Fica tão mais divertido...
Otávio, que Deus chamou há dois anos, nunca perdeu a paciência. Era um homem bom, apesar do que fez. Conversava muito comigo e sempre falava que eu era como uma criança e crianças não têm maldade.
Só aconteceu uma vez, quando chamou um colega do escritório de contabilidade em que trabalhava, para jantar conosco. Única vez.
Esse amigo levou a namorada e eu mesma fiz nossa comida. Depois que acabamos, sentamos na sala. A mulher, uma chata, discursava sobre cabelos, unhas, as dela eram imensas, sobre como estava feliz em não fazer nada porque o namorado não permitia. Queria que se dedicasse inteiramente a ele. Pensava em nunca ter filhos, porque não se aceitava gorda. Acordar à noite? Deixar os seios flácidos? Nunquinha. Fiquei ouvindo aquele blá blá blá e pensei que se pudesse, teria mais uns três filhos. Eu não frequentava salão. Fazia a unha em casa e meu cabelo estava uma tristeza. Foi então que reparei que ela jogava aquela cabeleira loura e brilhante de um lado para o outro. Não pensei duas vezes. Fui ao quarto, peguei a tesoura e antes que percebessem, parei atrás dela e cortei um bom pedaço. Falei que era para eu lembrar que devia cuidar do meu. Bonito...
Ela deu um pulo da cadeira e começou a gritar. Foi uma confusão. Até hoje não entendo o porquê. Aquilo ia ou não ia crescer outra vez?
Acho melhor voltar para casa. Caminhei demais, devo estar longe.
A lua está linda e a noite fresca. Acabei de resolver que vou dormir aqui mesmo. A grama está seca e vou ter o privilégio de fechar os olhos observando um monte de estrelas.
Pensam que sou maluca. O que sou mesmo é feliz.
13/12/2011