Haja paciência
Haja paciência
Cândida Albernaz
- Você vem ou não?
- Estou indo.
- Por que precisa demorar tanto?
- Quase pronta!
- Droga! É sempre a mesma coisa. Começo a me arrumar quando você parece estar acabando e não tem jeito.
- Só um pouquinho mais. Vou ficar linda para você.
- Hum!
- E pare de resmungar. Não vê que assim me atrapalha?
- Nem reclamar posso.
- Fica quietinho aí. Só falta o batom.
- Quando você diz isso é porque ainda está começando a passar esse monte de coisa na cara.
- Não seja grosseiro. O resultado é ótimo.
- Acho que vou tomar um uísque para relaxar.
- Espera aí! Beber não!
- Como assim: beber não!
- E não fique imitando meu jeito de falar.
- Você enrola o quanto quer e eu bebo o uísque que quero.
- Você sabe que esse uisquezinho seu, puxa outro e outro. Quando chegarmos, já vai estar mais para lá do que para cá.
- Culpa sua se isso acontecer. Por que não ficou pronta na hora que combinamos?
- Eu tentei você sabe.
- Sei que ficou de conversa com sua amiga, dando conselhos de que roupa deveria colocar.
- É isso que dá ter uma mulher de bom gosto. As amigas ligam para pedir opinião sobre o que vestir.
- E o assunto foi esticando para o José Antônio.
- Você é maldoso. Sabe que ela é louca por ele. Estava triste.
- Aposto que sei o motivo. Triste porque ele resolveu viajar com a mulher.
- Não gosto que fale de minhas amigas.
- Além de tudo, esse cara é um chato. Adora contar vantagens. Tem o melhor carro, a melhor viagem, faz o melhor negócio e as mulheres estão todas atrás dele.
- Não seja tão irritado.
- A única mulher que fica atrás dele, é essa sua amiga, que não consegue nem mesmo enxergar que o perfeito tem uma barriga que sempre chega antes dele.
- Ela o ama.
- Deve amar mesmo, para suportar escutar; eu tenho, eu faço, eu posso... E vou pegar minha bebida.
- Espere querido. Estou acabando. Agora é só o perfume. Qual você prefere?
- Qualquer um. Combinamos de sair às dez horas. São onze.
- Quase prontinha!
- Nossa reserva já era! Vamos ter que ficar esperando por alguma mesa sabe-se lá por quanto tempo.
- Não se preocupe amor. Pedi a minha amiga que nos esperasse lá.
- A Mariana vai com a gente?
- Precisando m-u-i-t-o de companhia.
- Não acredito que vou passar a noite de sábado ouvindo alguém falar do José Antônio. Porque ela não consegue entrar em outro tema.
- Precisando desabafar.
- Mas não podia ser quando vocês duas saíssem? Tem que rolar esse papo quando eu e você combinamos um jantar?
- Precisando de ajuda.
- E eu precisando de uma dose.
- Espere aí... Olha só o que fez? Virou a bebida de uma só vez.
- E estou partindo para a segunda.
- Pronto. Em pé na porta, linda para você. A chave do carro está comigo.
- Pois agora, vou acabar meu uísque sentado aqui no sofá.
- Não faz isso...
- Já fiz. Quer um também?
- Sabe que detesto álcool.
- Não adianta amarrar a cara. Estou esperando por você há mais de uma hora.
- Mas não gosto quando bebe antes de sairmos.
- Também não prefiro sair com sua amiga quando ela está carente.
- Você sempre achou Mariana simpática.
- E ainda acho. Quando ela está animada, rindo das coisas, contando histórias boas de ouvir.
- Mas ela está...
-... Precisando! Já sei.
- Promete que vai ter paciência. Só hoje.
- Vamos ver. Se ela tiver conseguido uma boa mesa...
- Não beba tão rápido!
- Se você falar mais alguma palavra sobre, vou tomar a garrafa inteira.
- Começou a ficar de mau humor.
- Só mais uma coisa. Se ela ameaçar chorar na mesa, levanto e vou embora.
- Ela não vai fazer isso. Vamos logo.
- E se começar a elogiar esse tal de José Antônio, mando ela se tratar.
- Está bem, está bem. Vamos embora.
- Seu telefone está chamando.
- É a Mariana. Fala querida, está no restaurante?
- Pelo menos isso.
- Ele terminou com você? Não chora Mariana. Estamos chegando aí.
- Não acredito! Meu sábado...
18/10/11