Ontem e hoje
candida 03/11/2011 00:58
Ontem e hoje                                                                                                           Cândida Albernaz             É incrível reconhecer você nos cabelos brancos que jamais havia visto.             Não percebo o tempo passar a cada vez que olho em seus olhos, mesmo se fico tantos anos sem vê-lo.             Continuo sentindo o coração acelerar enquanto as mãos suam e da boca não sai nada além de um formal você está bem? A vontade de disparar perguntas sobre passado e presente se perde na insegurança de não saber o que dizer.    *     *     *             O dia hoje foi cansativo, aliás, como a maioria deles. Se não fosse por ter certeza de que chegaria a casa e veria os meninos, acho que enfartaria. Não sei como fui parar no meio da discussão de Henrique com a recepcionista nova. Eu e minha eterna mania de sair defendendo quem acho que precisa de ajuda.             Pudera, o safado está atrás dela, e como a garota não quer nada com ele, a persegue. Conheço bem o tipo, em casa diz amém à mulher, e no trabalho se aproveita da autoridade do cargo que exerce.    *     *     *             Os olhos negros se escondem atrás de óculos que nunca soube você precisasse usar. Se fecho os olhos, o tempo não passou quando o escuto falar meu nome.             Marina para você. Alberto para mim. Marina que fugiu com medo do que sentia. Agora teme não ter tempo para fazer que você entenda que nunca quis algo passageiro. Marina que não sabe como dizer que sempre foi amor em todas as vezes que o viu e não se aproximou.    *     *     *             Ainda bem que Miguel não chegou. Detesta quando não estou. Nossa, que bagunça. Sempre que trazem amigos para casa, fazem esta zona.             Já falei que não quero ninguém aqui enquanto ainda não estiver, mas fingem que não escutam. Acho que fui ficando liberal demais. Quando crianças eu os controlava com o olhar, agora, nem falando por horas consigo convencê-los de algo.             Pensei em assistir a um filme com eles e pedir uma pizza. Que nada, pela altura do som, posso esquecer o cineminha em casa.  *     *     *               A vida corre e escorre carregando possibilidades de encontros nunca realizados.             Sou capaz de senti-lo mesmo distante, quando uma música tocada no rádio do carro, me remete a uma época onde beijos molhados de lágrimas e toques que pareciam choques fazendo um grudar ao outro sem a mínima possibilidade de se desprender.             Sou piegas quando me lembro de você.    *     *     *             Vou tomar um banho. Embaixo da água morna, relaxo. Ela tem um poder especial para mim.             Eu, Henrique e outra colega montamos o laboratório há dois anos. Está dando certo. Fizemos um investimento alto que deixou-nos preocupados, mas valeu a pena. Nossas responsabilidades aumentaram, mas o dinheiro também.  *     *     *               Casei, mudei minha vida. Formei uma família como a maioria de minhas amigas. Você já fez e refez a sua. Mesmo assim fiquei presa a um passado que ainda me dói.             Quero que pare de me olhar por olhar, quero que me veja e enxergue o medo de nunca mais encontrá-lo. Quero que escute através da minha pele a vontade de me misturar a você nos tornando um só.  *     *     *             Miguel chegou. Acabo de ouvir a porta bater. Deve estar irritado, o que é comum ultimamente. Vou pedir algo para comermos e me enfiar embaixo do lençol. Não quero discutir hoje, já estou com a cabeça cheia. Vai entrar aqui reclamando dos meninos. Antes vai dar uma de bom pai e brincar com todos como se tivesse a idade deles. Eu é que vou escutar sobre o que ele realmente acha do que os filhos estão fazendo. Há algum tempo não nos entendemos mais. Às vezes sinto saudades.   *     *     *               Às vezes sinto saudades.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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