A vida segue
A vida segue
Cândida Albernaz
Passou pela porta da cozinha correndo. Os pés descalços, acostumados com o chão duro, nem sentiam as pequenas pedras em que pisava.
O caixote ainda estava lá, no cantinho da varanda como deixara no dia anterior. Havia colocado um pano em cima, para proteger de qualquer eventual friagem noturna.
Descobrindo, viu os pintinhos que piscavam os olhos sem parar.
A mãe chamou para tomar café. Gritou de volta se poderia levar os dois com ele.
- Nada disso. Deixa aí e venha se arrumar. Tem escola agora. Na volta, na volta...
Escondido dela pegou cada um e deu um beijo, acomodando-os em seguida no mesmo lugar.
Aquele dia ia longe. Os bichinhos não tiveram muito tempo de vida e sua mãe também não.
Mulher fraca de saúde morrera cedo.
O pai, depois disso, saiu da cidade com o filho mais velho e deixou que a avó cuidasse dele.
Recordava-se ter chorado muitas e muitas vezes. Pediu ao pai que o levasse com eles, não reclamaria de nada, seria obediente, estudaria sem que precisasse de castigo, o que pedisse.
Ajoelhado em frente ao filho, para que suas cabeças ficassem próximas, afirmou que seria uma questão de tempo.
- Daqui a alguns dias ficaremos os três juntos.
Quando o viu sair com a mala na mão seguido do irmão, acreditou que logo se encontrariam. Um ano passou até que voltasse a estar com eles.
No dia de retornar da casa do pai, este o abraçou e não prometeu nada. Implorou que o trouxesse para morar com eles. Foi a última vez que fez esse pedido. Foi a última vez que chorou.
Viam-se nas férias de julho e janeiro.
Na época em que conheceu a mulher ainda eram estudantes. Faziam residência quando ela anunciou a gravidez. Não pensou duas vezes para propor que se casassem.
Moraram com a avó por um período. Aquela avó de braços gigantes que era capaz de acolher o mundo em seu colo.
O pai casou com alguém da cidade onde vivia e só por uma vez perguntou se ele gostaria de morar com eles. Não, respondeu firme. Não mais. Não havia chance para esquecer, perdoar ou se adaptar.
Anos depois mesmo reconhecendo-se no adulto que era, sentia que o corte feito entre eles não fecharia.
Não foi sua a escolha de ficar quando a mãe se foi. Não foi ele quem decidiu ser deixado por eles.
Mas depois que a primeira filha nasceu sua existência pareceu adquirir sentido. Vivia para a garota.
Soube de uma nova gravidez na mesma semana em que a avó fora internada. Não conheceu a segunda bisneta.
***
Há um ano a mulher saiu de casa levando com ela suas filhas. Durante esse tempo, passou a ver as meninas em dias estabelecidos.
Não se acostumou. E não se acostumaria.
A casa vazia dos risos e gritos das crianças o ensurdecia.
Vivia mais uma vez com o que sobrara.
Arrumou uma caixa de sapatos e colocou ali os dois pintinhos de olhar engraçado. Cobriu com uma pequena toalha. Já conseguia imaginar a expressão das duas quando a descobrissem. Olhariam para ele com olhos de sorriso. Não saberiam se o abraçavam ou cuidavam dos pequenos animais. Ele tinha certeza de que estaria com cara de bobo, absorvendo cada momento.
Só era preciso seguir em frente.
21-11/2011