Mesa de bilhar
candida 08/12/2011 00:25
Mesa de bilhar
                  O dia hoje estava mais quente do que de costume.                 O suor escorria da testa para o pescoço e daí para dentro do seu uniforme verde, que a mulher não tivera tempo de lavar.                 Há uma semana a filha mais velha mantinha uma tosse que não parava. Não dormia nem deixava que os outros dormissem.                 A casa pequena com dois quartos, banheiro e cozinha, mal acomodava sua família  e a do irmão.                 Quando Antônio escreveu avisando que vinha com a mulher e um casal de filhos, para a cidade, tentou dizer que não seria fácil. Preferiu vir assim mesmo. Explicou que a fábrica de alumínio onde trabalhava fechou, muitos ficaram desempregados, inclusive ele. Há quase um ano viviam com o salário de manicure da mulher. Não suportava mais.                 Já morava ali, e resolveu acomodar o irmão que agora trabalhava como vigia numa construção e podia dividir com ele o aluguel.                 De manhã, notou que sua mulher estava com os olhos inchados de cansaço por não dormir. Levara a filha ao posto de saúde, fora medicada, mas não via melhora.                 Tinham duas meninas que eram sua paixão. Aos domigos costumavam sair os quatro. Pegavam um ônibus e desciam na praça onde havia alguns brinquedos e podiam brincar sem que precisasse pagar por eles. Elas riam e sempre achavam alguma novidade para mostrar. Ou algum pássaro que viam, ou uma nova maneira de empurrar o balanço, ou ainda como corriam rápido.                 Na saída, comprava um saco de pipoca para cada uma e voltavam para casa. Encontrava o irmão acordando. Esperava que se ajeitasse e saíam os dois para uma pelada, antes de sentar no bar que ficava no próximo quarteirão. Ali havia uma mesa de bilhar disputadíssima pelos homens da região. E algumas garotas também. A mulher reclamou com ele qundo soube que umas e outras iam ali. Não deu conversa, era homem e precisava se distrair. Trabalhava pesado como pedreiro a semana inteira.                 No último domingo apareceram uns caras diferentes para jogar. Não moravam na área e ninguém os conhecia. Eram bons e ganharam de todos. Levaram o dinheiro e ainda olharam feio para Oswaldo que havia bebido além da conta, como sempre, e chamou os tais de ladrões. Os dois não gostaram mas foram embora rindo, esfregando o bolso da calça, onde haviam guardado a grana que ganharam.                 Preferia que não voltassem, mas estavam ali há meia hora, quando chegaram com mais um amigo. Foram em direção de Oswaldo e um deles perguntou se não queria uma revanche. O amigo que emendara a bebedeira do dia anterior, aceitou na hora e ainda disse que esses filhos da puta agora vão ver o que é jogar. Semana passada me pegaram desprevenido. Chamou o companheiro que estava com ele que se negou dizendo  sentir cheiro de confusão. A palavra certa para Antônio se achar estimulado. Topou fazer uma dupla com Oswaldo.                 Ficou olhando para o irmão mas não disse nada. Antônio sempre gostou de uma disputa. E de confusão também.                 Quando chegou a vez deles, as coisas pareciam tranquilas. Até que começaram a perder. Oswaldo que mal se aguentava, foi ficando irritado. Disse que estavam  trapaceando, que mexeram na bola quando virou-se para pegar cerveja. Que não era bobo e não ia deixar dois ladrões de merda fazerem-no de trouxa.                 O terceiro que viera hoje pela primeira vez, abraçou Oswaldo e disse que precisava de mais uma, aquilo era só um jogo.                 Continuou observando o irmão que ria, como se não estivesse percebendo o clima em volta. Sabia o que isso queria dizer. Aquele risinho prendendo os lábios significava que sua paciência estava a zero                 A partida terminava quando seu parceiro resolveu enfiar o dedo na cara de um deles e dizer que não pagaria aposta nenhuma porque não era idiota.                 Foi imediato. Oswaldo recebeu um soco e um filete de sangue começou a escorrer da sobrancelha. Foi a deixa para que o bar inteiro entrasse na briga.                 Tentou falar alguma coisa, mas a cadeira que recebeu nas costas fez com que mudasse de idéia.                 O barulho que ouviram foi seguido de silêncio geral.                 Seu irmão estava no chão. Os três caras, apontando uma arma, foram até o caixa, pegaram tudo o que encontraram e saíram nas motos estacionadas na rua.                 Na barriga de Antônio podia-se ver a mancha vermelha que aumentava rapidamente.                 Alguém ligou e chamou uma ambulância.                 E aí, meu irmão? Os médicos já estão chegando.                 Se preocupa não, estou bem. Só queria que avisasse a mulher que não faço mais isso. Tinha prometido a ela, mas sabe como é, não fujo de briga e nem posso ver uma.                 Está tudo bem.                 Eu sei, eu sei.                 A cabeça de Antônio, que se apoiava em seu colo, foi ficando mole, até que pendeu para um lado.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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