Comichão
candida 16/11/2011 22:08
Comichão                               O parque àquela hora já estava escuro. Caminhava com pressa, fazendo o mesmo percurso de todos os dias. Hoje não seria diferente. Algumas pessoas passavam correndo, outros de bicicleta. Com a pasta debaixo do braço, seguia em frente tentando não reparar muito ao redor.                         Algumas garotas conversavam próximas a um banco e uma delas, a mais linda de todas, sorriu para ele quando passou. Retribuiu com timidez baixando os olhos e mais adiante voltou a cabeça olhando para trás. Elas agora riam alto. Imaginou se não foi algum comentário feito sobre ele. Talvez o achassem ridículo.                         Chegando à casa ligou a televisão e foi ao banheiro lavar as mãos. Entrando na cozinha lavou-as de novo. Tinha esta mania. Quando chegava, lavava-as pelo menos umas dez vezes. Sempre achava que ainda estavam sujas.                         Como em todas as noites, jantou enquanto com o controle remoto procurava um programa que o agradasse, leu o jornal e antes de dormir agachou-se no chão esticando as pernas, colocando o peso do corpo nos braços que se estendiam e abaixavam numa série de flexões seguidas de abdominais. Depois tomou um banho e olhou-se no espelho. Gostava de se olhar e observar os músculos, pois se sentia forte após o término dos exercícios.                         E só então foi dormir.                         Sempre fora metódico. Não gostava de mudanças, nem mesmo no trabalho. Ocupava o mesmo cargo há muitos anos, mas estava satisfeito. Não almejava mais do que isso. As pessoas já o conheciam e sabia como lidar com elas. Era educado e não chamava muita atenção para si mesmo.                         Só o incomodava aquele comichão que de vez em quando sentia. Era uma espécie de inquietação que o fazia ficar ansioso e desejar coisas que o assustavam. Quando as idéias vinham na cabeça, costumava segurá-la com as mãos apertando-a, chegando algumas vezes a bater com a mesma na parede. Então pegava a caixa de remédios e tomava a dose dobrada, sentando-se e esperando sentir um torpor que acalmava a mente.                         Essa sensação estava voltando cada vez com mais frequência. Tinha que ir ao doutor de novo. Não se lembrava mais da última vez que fora.                         Dia seguinte, o trabalho tomou seu tempo fazendo com que não pensasse nas idéias da noite anterior. No final da tarde o comichão recomeçou. Trancou-se no banheiro e bateu com a cabeça na parede uma, duas, três vezes para ver se afastava aquela sensação.                         Na hora da saída pegou seu caminho de sempre. Hoje estava mais escuro. Olhou o céu e o viu carregado de nuvens.                         Lá estava a garota do outro dia. Reparou então que ela era loura, miúda e não estava acompanhada. Passou por ela e sorriu. Desta vez não pareceu reconhecê-lo, pois não respondeu com outro sorriso.                         Diminuiu o passo e esperou que o ultrapassasse.                         Foi seguindo-a, um pouco afastado.Ela parou e sentou num banco. Parecia olhar o vazio enquanto acendia um cigarro. Imaginou que talvez estivesse triste.                         Ficou observando por algum tempo e vendo que o lugar estava ficando deserto, aproximou-se:                         - Boa noite. Tem um cigarro?                         Sem olhar para ele, ofereceu-lhe a carteira.                         Tirou um e imaginou se por acaso havia ficado invisível. Sentou-se no banco ao lado dela fazendo com que realmente o notasse. Percebeu nela a intenção de levantar, mas antes que o fizesse, segurou sua mão livre jogando o cigarro fora e com a outra mão apertou as têmporas onde começava a sentir novamente a pressão.                         Ela tentou se soltar, mas a segurava com força. Notou que ia gritar, então tapou sua boca e virou-a de costas de forma que o corpo agora era preso por uma espécie de abraço. Ela se debatia, mas não sabe como arranjara tal força nos braços, que ficara impossível se livrar dele.                         A cabeça formigava. Lembrou do riso dela no dia anterior, com certeza para menosprezá-lo diante das amigas. E hoje fizera pior agindo como se não o reconhecesse. Cadela! Ia ver se alguma vez mais o esqueceria! Seus olhos arregalavam-se enquanto sentia o aperto da garganta.                         Nunca mais riria dele.                         O corpo dela foi ficando mole em seus braços até que arriou no chão.                         Ajoelhou-se e ficou olhando-a. Possuía um rosto bonito. Tinha uma pinta do lado da boca que não havia notado antes.                         A cabeça parou de doer.                         Olhou em volta e não viu ninguém. Arrastou-a para trás do banco e limpando as mãos na roupa, seguiu seu caminho até em casa.                         Ligou a tv e foi direto ao banheiro. Lavou as mãos e tornou a lavar. Várias vezes.                         Esquentou o jantar e leu o jornal. Hoje não sentia a cabeça doer, sentia-se tranquilo. Era tão bom quando estava sereno...

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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