Comichão
Comichão
O parque àquela hora já estava escuro. Caminhava com pressa, fazendo o mesmo percurso de todos os dias. Hoje não seria diferente. Algumas pessoas passavam correndo, outros de bicicleta. Com a pasta debaixo do braço, seguia em frente tentando não reparar muito ao redor.
Algumas garotas conversavam próximas a um banco e uma delas, a mais linda de todas, sorriu para ele quando passou. Retribuiu com timidez baixando os olhos e mais adiante voltou a cabeça olhando para trás. Elas agora riam alto. Imaginou se não foi algum comentário feito sobre ele. Talvez o achassem ridículo.
Chegando à casa ligou a televisão e foi ao banheiro lavar as mãos. Entrando na cozinha lavou-as de novo. Tinha esta mania. Quando chegava, lavava-as pelo menos umas dez vezes. Sempre achava que ainda estavam sujas.
Como em todas as noites, jantou enquanto com o controle remoto procurava um programa que o agradasse, leu o jornal e antes de dormir agachou-se no chão esticando as pernas, colocando o peso do corpo nos braços que se estendiam e abaixavam numa série de flexões seguidas de abdominais. Depois tomou um banho e olhou-se no espelho. Gostava de se olhar e observar os músculos, pois se sentia forte após o término dos exercícios.
E só então foi dormir.
Sempre fora metódico. Não gostava de mudanças, nem mesmo no trabalho. Ocupava o mesmo cargo há muitos anos, mas estava satisfeito. Não almejava mais do que isso. As pessoas já o conheciam e sabia como lidar com elas. Era educado e não chamava muita atenção para si mesmo.
Só o incomodava aquele comichão que de vez em quando sentia. Era uma espécie de inquietação que o fazia ficar ansioso e desejar coisas que o assustavam. Quando as idéias vinham na cabeça, costumava segurá-la com as mãos apertando-a, chegando algumas vezes a bater com a mesma na parede. Então pegava a caixa de remédios e tomava a dose dobrada, sentando-se e esperando sentir um torpor que acalmava a mente.
Essa sensação estava voltando cada vez com mais frequência. Tinha que ir ao doutor de novo. Não se lembrava mais da última vez que fora.
Dia seguinte, o trabalho tomou seu tempo fazendo com que não pensasse nas idéias da noite anterior. No final da tarde o comichão recomeçou. Trancou-se no banheiro e bateu com a cabeça na parede uma, duas, três vezes para ver se afastava aquela sensação.
Na hora da saída pegou seu caminho de sempre. Hoje estava mais escuro. Olhou o céu e o viu carregado de nuvens.
Lá estava a garota do outro dia. Reparou então que ela era loura, miúda e não estava acompanhada. Passou por ela e sorriu. Desta vez não pareceu reconhecê-lo, pois não respondeu com outro sorriso.
Diminuiu o passo e esperou que o ultrapassasse.
Foi seguindo-a, um pouco afastado.Ela parou e sentou num banco. Parecia olhar o vazio enquanto acendia um cigarro. Imaginou que talvez estivesse triste.
Ficou observando por algum tempo e vendo que o lugar estava ficando deserto, aproximou-se:
- Boa noite. Tem um cigarro?
Sem olhar para ele, ofereceu-lhe a carteira.
Tirou um e imaginou se por acaso havia ficado invisível. Sentou-se no banco ao lado dela fazendo com que realmente o notasse. Percebeu nela a intenção de levantar, mas antes que o fizesse, segurou sua mão livre jogando o cigarro fora e com a outra mão apertou as têmporas onde começava a sentir novamente a pressão.
Ela tentou se soltar, mas a segurava com força. Notou que ia gritar, então tapou sua boca e virou-a de costas de forma que o corpo agora era preso por uma espécie de abraço. Ela se debatia, mas não sabe como arranjara tal força nos braços, que ficara impossível se livrar dele.
A cabeça formigava. Lembrou do riso dela no dia anterior, com certeza para menosprezá-lo diante das amigas. E hoje fizera pior agindo como se não o reconhecesse. Cadela! Ia ver se alguma vez mais o esqueceria! Seus olhos arregalavam-se enquanto sentia o aperto da garganta.
Nunca mais riria dele.
O corpo dela foi ficando mole em seus braços até que arriou no chão.
Ajoelhou-se e ficou olhando-a. Possuía um rosto bonito. Tinha uma pinta do lado da boca que não havia notado antes.
A cabeça parou de doer.
Olhou em volta e não viu ninguém. Arrastou-a para trás do banco e limpando as mãos na roupa, seguiu seu caminho até em casa.
Ligou a tv e foi direto ao banheiro. Lavou as mãos e tornou a lavar. Várias vezes.
Esquentou o jantar e leu o jornal. Hoje não sentia a cabeça doer, sentia-se tranquilo. Era tão bom quando estava sereno...