Fantasia de carnaval
candida 01/12/2011 00:32
 
                                        Fantasia de Carnaval                                                                                                                                                                                                                                       Aquele era o seu carnaval. Trabalhara um bocado durante todo o ano para conseguir participar. Não era a escola de samba pela qual torcia, não era nem mesmo a segunda colocada como objeto de desejo, mas naquele ano seria a escola de seu coração: “Escola de Samba do Boi Tampinha”.                         O nome no início soara meio ridículo, agora, já o adorava.                         Era pequena, de um bairro simples, mas quando a bateria começava a tocar ninguém se lembrava de onde dormia, vivia ou dos problemas que tinham. Todos os corações batiam juntos: tum, tum, tururu, tum, tum. E todos os passos surgiam num mesmo rítmo com cada um sorrindo o riso arreganhado e orgulhoso, igual em todas as bocas. As que possuíam ou não algum dente.                         Quando chegava ao galpão onde ensaiavam, sentia-se importante. Olhava em volta aquele alvoroço e ia direto ao cara do isopor que vendia cerveja e pedia a sua.                         A energia que vinha dali o alimentava. Sempre quisera participar de um desfile, mas nunca conseguira o dinheiro. Este ano, não.  Juntara o suficiente para pagar sua fantasia.                         Já avisara aos amigos: “Tô esperando vocês na avenida. E quero aplausos, quero assovios e quando passar quero ouvir: É o Beirinha. Dá-lhe Beirinha!”.                         “E as garotas então! Quando virem esse negão sambando, com o gingado que tenho... Vai chover mulher”.                         Os amigos riam das histórias de Beirinha e sabiam que este era o sonho dele. Desde muito só falava nisso.                         Até Jéssica, sua garota, não aguentava mais aquele assunto. Na verdade o que ela queria mesmo era falar sobre o casamento dos dois. Namoravam há cinco anos e o Beirinha, ou melhor, o José Inácio nunca se decidia.                         Não gostava de chamá-lo pelo apelido. “Com um nome tão lindo... José Inácio.” Quando o conhecera, ele fazia segurança de uma escola. Estava bonito ali, fazendo uma corda humana com outros caras. Mas ele se destacava. Era muito alto e forte. Ela contou que na hora imaginou aquelas mãos enormes segurando-a com força. Sorriu então e quando olhou, viu que ele a olhava e sorria também.                         Terminando o desfile, foi andando para a saída e sentiu duas mãos na  cintura. Já ia reclamar quando dentes muito brancos lhe sorriam enquanto ele se apresentava: “Sou o José Inácio, e você?” ”Jéssica”, disse com uma voz dengosa que o conquistou na hora.                         A partir dali estavam sempre juntos e então aos poucos foi conhecendo-o melhor.                         Soube logo depois que o carnaval era sua paixão. Todos os anos trabalhava como segurança de alguma escola e quando acabava voltava à sua função normal de limpar as ruas, era lixeiro.                         Jéssica estava feliz por ele, afinal conseguiria entrar sambando no chão com a fantasia comprada. Sua ala vinha logo depois da bateria.                         Saíra do barraco de José Inácio há pouco. Seu negão estava lindo. Sabia que ia ter problema com umas folgadas, mas aquele homem pertencia a ela.                         Era cedo ainda e o grupo dele ia se reunir antes e nessa concentração ela não entrava.                         Foi para casa se ajeitar devagar. Tinha tempo. As ruas estavam movimentadas com o ir e vir das pessoas que já começavam a guardar lugar nas arquibancadas. Sua cidade era pequena, mas quando chegava o carnaval, havia tanta gente na rua que não sabia como cabiam ali.                         Estava chegando à casa quando ouviu um assovio. Olhou para trás e viu três caras parados na esquina. Usavam máscaras. Aquelas bem feias que costumam assustar as crianças.                         “Oi, Jéssica! E o Beirinha?”. Não reconheceu a voz e mesmo assim sorriu para eles que se aproximaram.                         Deviam ser alguns amigos já que sabiam seu nome e o de José Inácio.                         Cercaram-na dançando, impedindo que entrasse em casa.                         “Vamos, quer um golinho? Tome que é para animar”.                         Ela começou a achar esquisito o jeito deles. “Quem são vocês? Vamos, tirem as máscaras. Não estou gostando da brincadeira”.                         “Olhem só, a gostosa quer ver a gente. Não dá Jéssica. Aliás, não entendo o que você viu no Beirinha. Fede a podre o tempo inteiro, você merece coisa melhor!”               “Por favor, parem. Vocês já conseguiram me assustar. Essa brincadeira está ficando chata”.                         “Ih! Vai fazer beicinho. Anda, abre logo a porta de casa”. Dizendo isso, puxou a bolsa que ela segurava e tirando a chave abriu a porta empurrando-a para o interior.                         O som de música de carnaval vinha do botequim da esquina, onde   algumas pessoas dançavam.                         Dentro da casa, Jéssica conhecia uma nova face da vida. Com os olhos fechados, ela se sujeitava à vontade dos três, que riam e derramavam cachaça em seu rosto, “para que se soltasse mais”.                         Na avenida, Beirinha desfilava orgulhoso sua fantasia. No ponto em que combinara com Jéssica de jogarem beijo um para o outro, não a viu. Desconcentrou-se um pouco procurando, esticando bem o pescoço para tentar encontrá-la. Será que não entendeu direito onde eles haviam combinado?                         Seguiu em frente, o sorriso voltou a seu rosto. Sambava como nunca. Sambava para ele. Sambava com o coração na boca. Era o seu carnaval.                                                                                               Cândida Albernaz

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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