Epidemia de Suicídios entre os policiais: nossos "heróis anônimos" estão doentes...
04/10/2019 | 01h13
Um assunto delicado como esse (suicídio de policiais) demanda uma abordagem diferente daquela tradicionalmente utilizada para se falar e compreender a origem dos grandes problemas sociais. Por isso, sua atenção e concentração devem também buscar a remota origem do tema que vou lhes apresentar resumidamente, a seguir, com uma pequena base doutrinária, mas de fácil entendimento. Leiam tranquilos. Sei que não estou escrevendo para os juristas, mas para a população angustiada por mudanças efetivas e pela harmonização da sociedade. Sigamos juntos nessa análise e aceitem esse pequeno desafio intelectual.
A dificuldade enfrentada pelos criminalistas pátrios remonta há época do Império do Brasil, em que existia uma imensa dificuldade na formulação do conceito de delito, tendo em vista a exagerada aproximação metodológica com o Código Criminal de 1830, fazendo menção ao jurista italiano Cesare Beccaria a fim de criticar a dificuldade de fixação conceitual para o referido diploma legal que até hoje ainda apresenta severas falhas. Agora imagine isso potencializado ao longo de décadas no controle da criminalidade e na definição da Política de Segurança Pública. É um completo caos que fez emergir a "doutrina negativa" das chamadas "autoridades policiais", alimentando a burocracia e a ineficácia dos procedimentos investigatórios com baixa ou inexpressiva resolutividade dos atos criminosos na persecução penal.
O maior obstáculo desse sistema de ciclo incompleto da ação policial criado no período colonial que permanece até hoje com a mesma estrutura ideológica é a negatividade ética do elemento moral, tendo um duplo condicionamento para o ato delituoso da ação humana que seria a perturbação da ordem social e a violação da lei moral, sendo que essa classificação binária concentra uma enorme contradição: o delito é uma ação antijurídica que infringe preceitos da ética. É constituído por dois elementos básicos: a agressão social e a reação sancionatória.
Calma... calma, muita calma nessa hora, Pessoal. Vou explicar a vocês esse preceito da teoria criminal em palavras populares: isso significa dizer que os nossos representantes políticos seguem na contramão da história mundial relativo as diretrizes para a Segurança Pública e iludem os cidadãos com discursos enganosos dizendo que o problema da criminalidade e da impunidade vão ser resolvidos quando houverem penas mais rígidas e chegam a propor “50 anos de cadeia” para o crime de homicídio ou quaisquer outros delitos graves. Mas essas propostas de “expansionismo penal” e “redução da maioridade penal” que tem forte ressonância social são um claro atestado de desespero e angústia da população, porque não se tem a coragem de identificar qual a verdadeira causa da violência: o falido modelo de investigação criminal, as estruturas arcaicas das corporações policiais e o baixo índice de resolutividade dos crimes, gerando a impunidade.
Infelizmente, ainda estamos longe de resolver o problema dos elevados níveis de violência urbana e rural, da qualificação e valorização dos operadores de segurança pública e da harmonização da sociedade brasileira. As decisões governamentais insistem em repetir a mesma fórmula política fracassada: carros potentes, armas modernas e computadores mirabolantes que são entregues aos representantes dos órgãos policiais em grandiosos eventos de mídia, mas mantendo uma estrutura “medieval”, injusta e ineficiente das corporações que atuam em ciclo incompleto da ação policial, com gestão administrativa deficitária, estrutura de cargos inadequados que competem entre si, submetidos às danosas interferências políticas em visíveis conflitos de competência e vácuos constitucionais que esperam ser sanados com o falacioso discurso da integração entre os órgãos policiais ou da famosa atividade de inteligência da polícia.
São muitos os aventureiros políticos que apresentam fórmulas milagrosas e inócuas para o controle da criminalidade e transformam a Segurança Pública e seus operadores em verdadeiro “laboratório” de experiências desastrosas ou inócuas, jogando pelo “ralo da irresponsabilidade” os valores orçamentários sempre escassos que, em primeira visão parecem medicamentos potentes, mas em realidade são venenos extremamente fatais. Essas medidas desproporcionais e sem fundamento criminológico demonstram o completo desespero de um povo que não consegue escolher adequadamente e confiar em seus representantes parlamentares que demonstram estarem preocupados apenas com seus próprios interesses, embora o discurso geral seja outro.
Nesse contexto dramático, surge a epidemia dos suicídios entre os operadores da Segurança Pública, demonstrando claramente uma realidade que os administradores não querem admitir: a polícia brasileira está doente. Nossos heróis precisam urgentemente de atenção, tratamento e acompanhamento psicológico, sob pena de autodestruição de todas as categorias policiais gerando a desestabilização das instituições democráticas e a falência da república.
É preciso modernizar toda a estrutura da Segurança Pública, valorizar os profissionais de todas as corporações policiais, dar-lhes apoio psicológico, social, médico, odontológico, jurídico (pasmem vocês, eles não tem e nunca tiveram), além de atribuir-lhes salários justos e dignos para o exercício de uma profissão que requer pessoas extremamente vocacionadas e avessas ao “exibicionismo” patético (estatal ou pessoal) que somente lhes expõem a vida à vingança privada dos criminosos.
A dissimulação dessa problemática é tão séria que governantes e administradores públicos utilizam-se de atitudes aparentemente simpáticas como a excessiva entrega de certificados e medalhas por meio de uma exagerada “glamorização” da atividade policial em ato ilusório e mesquinho que não celebra os verdadeiros "policiais de rua", aqueles que estão doentes de tanto trabalharem “sob pressão” e contraem enfermidades mentais que são agravadas pela atividade de polícia e a péssima gestão dos órgãos policiais.
Muitos desses profissionais convivem anos e anos com a doença silenciosa, sem que a administração pública tome medida eficaz de apoio social e tratamento do servidor, acentuando- se ainda mais a problemática com a instauração de processos disciplinares, em muitos casos originados na dependência química ou decorrente dos sintomas ocasionados pela doença mental. Ao invés disso, premiam sempre os mais influentes e bem relacionados com a elite administrativa, proporcionando-lhe cursos escolhidos e boas viagens à serviço, ficando as atividades mais árduas para os demais, aí incluídos todos os policiais doentes ainda não declarados oficialmente e de difícil constatação meramente visual.
Em contraponto a isso, as atitudes individualistas de autopromoção em busca da fama imediata a qualquer preço promovida por diversos indivíduos da categoria, também não estão comprometidas com o pensamento coletivo ou querem entender serem assuntos diversos e preferem esquecer os inúmeros casos de suicídios resultantes de assédio moral ininterrupto e silencioso durante a atividade profissional diária.
Somente a ética policial, sem censura, mas consciente, comprometida com a coletividade, poderá estancar as exageradas postagens irreais em redes sociais que misturam e estampam a imagem da corporação por meio de fotografias sensuais, roupas sociais elegantes associadas a trajes operacionais, armamentos sofisticados e robustos como se fossem “brinquedos” pessoais, aeronaves e viaturas policiais ilustrando a vaidade de suas figuras inexperientes, criando imagens glamorosas e fictícias daquilo que não é o cotidiano de todos os policiais brasileiros.
Isso é uma lástima. Mas tais atitudes inescrupulosas não se encaixam com profissionais verdadeiramente experientes nessa atividade laboral extremamente perigosa que se
estende ao descanso particular e as horas de folga com a família (ou alguém acha que criminoso não monitora a futura vítima pela Web). É necessário e urgente agir em prol da consciência coletiva das categorias de operadores da Segurança Pública, deixando a vaidade excessiva para as outras profissões como cantores, artistas, modelos e jogadores de futebol. Isso não se integra adequadamente à vida policial. É necessária uma atitude diária discreta na vida pessoal e profissional, prezando sempre pela própria saúde física e mental, mantendo uma vida familiar equilibrada que preserve a paz espiritual do profissional de Segurança Pública. Queira ser sempre o “herói anônimo” que a sociedade ansiosamente espera da conduta ética e digna de seus guardiões da paz. Mas se qualquer situação ou momento, por uma fração de segundo, for insustentável ou minimamente perceptível continuar caminhando, procure imediatamente apoio psicológico e considere-se em “missão cumprida”.
Roberto Darós é Advogado Criminalista, Mestre em Direito Processual Penal (UFES), Professor de Pós-Graduação em Ciências Penais e Segurança Pública (UVV), Especialista em Ciência Policial e Investigação Criminal na Escola Superior da Polícia Federal (ESP/ANP/PF).
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Política de confrontos
29/09/2019 | 01h32
Fernando Frazão/Agência Brasil
Fernando Frazão/Agência Brasil
No final de semana passado mais uma criança foi morta por disparo de arma de fogo em uma comunidade carioca. Ela estava dentro de uma Kombi, no Complexo do Alemão, a caminho de casa, quando foi atingida nas costas por um tiro. Segundo policiais militares que estavam no local houve um confronto com traficantes no momento em que a kombi passava, versão contestada por testemunhas que estavam no local. As armas dos policiais foram recolhidas para exame, mas peritos da Polícia Civil afirmaram que não será possível identificar de onde partiu o projétil em razão de sua fragmentação. Foi a quinta criança morta em razão de confrontos em comunidades no Rio de Janeiro.
Desde sua campanha o governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel afirmava que teria tolerância zero com narcotraficantes e que daria liberdade para que as polícias enfrentassem os criminosos onde estivessem. Em sintonia com o discurso do presidente Jair Bolsonaro, essa fala teve grande aceitação e apoio, o que acabou por eleger a ambos. Já como governador, Witzel cumpriu sua promessa e deu total apoio às forças policiais.
Segundo dados do ISP (Instituto de Segurança Pública) do estado do Rio de Janeiro, autarquia do governo, de janeiro a agosto deste ano, 1249 pessoas foram mortas por intervenção de agentes de segurança, um aumento de 16,2% frente ao mesmo período de 2018, quando 1075 pessoas foram mortas. São números que chamam a atenção, porém, para contrapor as críticas a essa escalada no número de mortes em ações policiais, o governo afirma que essas ações tem ajudado a reduzir diversos índices de crimes. Nesse mesmo período 2717 pessoas foram vítimas de homicídio, uma queda de 21,5% em comparação ao mesmo período de 2018.
Não há ainda estudos que comprovem essa vinculação entre o número de pessoas mortas em operações policiais e diminuição do número de homicídios, mas está claro que o governador irá manter essa política. Ninguém pode acusa-lo de mentir, pois desde sua campanha ele sempre afirmou que esse seria seu projeto para a segurança pública e a maioria da população escolheu esse caminho. O que não pode ser aceito é a morte de inocentes como “efeito colateral” dessa linha de ação. Autoridades públicas tem o dever de preservar a vida das pessoas e a cada inocente morto, nossa crença em um futuro melhor diminui.
 
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Admirada por muitos, mas doente por dentro
21/09/2019 | 01h35
No último dia 17, terça feira, mais um policial federal cometeu suicídio, aumentando para 33 o número de policiais federais que tiraram a própria vida nos últimos dez anos. Estudioso, primeiro colocado no seu curso de formação, mestre, doutor, excelente profissional, professor universitário e integrante de um dos órgãos mais admirados pela população brasileira. Uma vida que parecia perfeita, mas que na verdade escondia mais um policial doente. O que levou José Ricardo Ventura Correa a se matar na sede regional da Polícia Federal no Rio de Janeiro?
Não é uma pergunta cuja resposta seja fácil. Há vários fatores que podem ter concorrido para o trágico desfecho, mas sem medo de errar podem ser citados o péssimo ambiente de trabalho e a ausência de acompanhamento psicológico e psiquiátrico dos policiais. Em estudo realizado por psicólogas da Universidade de Brasília em 2012, a pedido do Sindicato dos Policiais Federais do Distrito Federal (Sindpol-DF), foram entrevistados centenas de policiais federais da ativa e os números encontrados apresentavam um panorama alarmante.
Segundo relatório apresentado, 50% dos entrevistados apresentaram sintomas de quadro depressivo, 43% relataram desesperança quanto ao futuro, 83% dos agentes se sentiam desvalorizados profissionalmente, 74% sentiam indignação, 46% tinham sentimentos de raiva, 39% de inutilidade, 18% sentiam medo e 21% tinham ideias suicidas. As pesquisadoras concluíram que esses dados eram resultado de um ambiente de trabalho caracterizado pelo assédio moral e terror psicológico, além de “transformar as relações interpessoais no ambiente de trabalho em fontes concretas de destruição da cidadania e dignidade humana”.
Com o objetivo de contribuir para a elaboração de medidas que melhorassem o péssimo quadro apresentado no estudo, os dirigentes do Sindpol-DF apresentaram o relatório para os gestores da Polícia Federal. Porém, segundo os sindicalistas, nada de relevante foi feito desde então, enquanto isso, vidas de policiais são perdidas e famílias destruídas. Uma polícia admirada por muitos, mas doente por dentro. Se não forem adotadas medidas urgentes, o órgão corre o risco de se transformar em um “cemitério de vivos”.
No vídeo abaixo comento o assunto.
 
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Uma guerra com mortos de todos os lados
14/09/2019 | 17h36
(Fernando Frazão/Agência Brasil)
(Fernando Frazão/Agência Brasil)
Essa semana o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou a 13 edição do anuário brasileiro de segurança pública. Neste ano foram compilados e analisados dados relativos a ocorrências criminais e atividades correlatas no ano de 2018. Em um aspecto geral os dados apresentados mostram uma ligeira melhora em vários índices de crimes, mas mantém o quadro aterrorizante que mostra a deficiência dos governos em dar uma resposta adequada para o tema.
Todo ano, quando ocorre a divulgação do anuário, o dado que mais chama atenção da mídia e da população é o impressionante número de homicídios. Ano após ano o Brasil tem batido recordes de número de mortes violentas intencionais, mas no último ano o quadro parece ter mudado. Com relação ao ano de 2017 houve uma queda de 10.8% no número de mortes violentas intencionais, o que levou o país ao mesmo patamar de 2013, com uma taxa de 27.5 mortes a cada 100 mil habitantes. Porém o número ainda é muito alto. Em 2018 foram 57.341 mortes violentas intencionais.
Outro dado importante que chamou a atenção foi a redução no número de policiais mortos, com uma queda de 8% em relação a 2017. Com um total de 343 policiais mortos em 2018 e 75% deles vítimas quando estavam fora de serviço, fica claro como esses profissionais estão expostos à violência. Muitos foram vítimas de latrocínio, que é o roubo seguido de morte, abatidos após serem identificados como policias, mesmo sem ter ocorrido qualquer reação.
Mas os policiais não são somente vítimas, outro dado coletado e apresentado foi de que 11% do total de mortes violentas intencionais no país foram causadas pelas forças policiais. 6.220 pessoas foram mortas em ações policiais, o que representou um aumento de 19,6% em comparação ao ano anterior.
O que os dados mostram é que a população brasileira convive com uma guerra onde policiais matam e também são mortos, onde uma juventude é morta no meio dessa batalha porque são a grande maioria das vítimas. Mais de 70% das vítimas tem entre 15 e 29 anos de idade e a cada ano perdemos mais uma geração de jovens. Até quando a atuação dos governos irá se limitar a incentivar o combate? É preciso evitar que as armas cheguem aos criminosos. É necessário investigar quem lucra com essa guerra. É urgente salvar nossos jovens.
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Fim dos gastos com formação policial
11/09/2019 | 00h47
A proposta de Lei Orçamentária para 2020 eliminou a previsão de gastos com formação policial, que incluem despesas com cursos presenciais e à distância dos policiais brasileiros, uma das marcas da Secretaria Nacional de Segurança Pública nos últimos anos e que já capacitou milhares de policiais no país todo. Em 2019, o valor previsto já era baixo, de cerca de R$ 19 milhões. Para 2020, o Governo zerou o orçamento para essa subfunção. Sem qualificação o investimento nas nossas polícias irá se restringir a armas e viaturas. Uma fórmula que já comprovou não ser eficaz.
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Uma gestão moderna para nossas polícias
07/09/2019 | 15h59
Há muito tempo o ambiente corporativo já trata de forma diferenciada questões relativas a rotinas de trabalho da área de gestão de pessoas. Enquanto as primeiras estão ligadas a procedimentos executados no dia a dia pelos funcionários, a gestão de pessoas tem como finalidade obter o melhor desempenho possível do funcionário, dando o melhor retorno possível para a corporação. Esse modelo leva em consideração que o principal ativo de uma corporação é seu corpo de funcionários e que investir no desenvolvimento deles é valorizar o próprio patrimônio da empresa. Promoção, remuneração e qualificação são ferramentas usadas seguindo a lógica de desenvolver ao máximo o potencial das pessoas.
Desde 1998 com a reforma administrativa implantada no governo FHC a administração pública tem tentado adaptar ao serviço público esses conceitos provenientes do mundo corporativo, porém mais de duas décadas depois, ainda há muita resistência quanto a isso. As instituições policiais tem se mostrado como as mais resistentes a mudanças. Gerir uma força policial não é o mesmo que gerir uma empresa privada, mas a administração das instituições policiais parou no tempo. Na sua grande maioria não há uma política de gestão de talentos e ferramentas como promoção em carreira, remuneração por produtividade e qualificação constante não são utilizadas como formas de desenvolver os profissionais. Por todo o país a gestão de recursos humanos nas polícias se restringe às rotinas de trabalho, com estruturas antiquadas e engessadas. Não há formação de lideranças, as reciclagens se resumem a atualização de rotinas de trabalho e dificilmente há incentivos para que o profissional busque qualificação fora das instituições policiais. Essa falta de gestão tem levado os policiais a ficarem extremamente desmotivados. Sem perspectivas de ascensão ou valorização por produtividade, muitos acabam optando por fazer somente o necessário.
A melhoria do serviço prestado por nossas polícias passa necessariamente pela modernização da gestão de talentos e pessoas dentro das organizações. É preciso identificar, reconhecer e incentivar os talentos através de programas internos. Processos de promoção em carreiras únicas e desenvolvimento de lideranças devem ser pensados e estruturados para que aqueles mais preparados cheguem às posições de chefia. É preciso preparar os nossos policiais para que prestem o melhor serviço possível, mas para tal precisamos modernizar as instituições policias, presas ao passado e resistentes às mudanças.
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STF decide que guardas municipais não tem direito à aposentadoria especial
03/09/2019 | 11h55
Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiram que os guardas municipais não têm direito à aposentadoria especial. No entendimento deles, a eventual exposição a situações de risco não representa a atividade do guarda como sendo expressamente perigosa. Ou seja, apesar de estarem em risco em determinadas ocasiões, para os ministros isso não justifica uma equiparação a outras forças policiais em termos de aposentadoria.
O recurso julgado confirmou a decisão em primeira instância do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) na ação de um guarda do município de Jundiaí, no interior daquele estado. No recurso ele alegou que a aposentadoria especial dos guardas municipais pode ser concedida com base no "fundamento de prejuízo à saúde ou à integridade física", previsto no artigo 40 da Constituição Federal.
Essa decisão afeta diretamente cerca de 120 mil guardas municipais de todo o país, muitos inclusive atuando diretamente na segurança pública, seja em unidades especiais ou em apoio a outras instituições. Como cobrar uma atuação desses profissionais na segurança pública quando o próprio STF afirma que a atividade deles não é perigosa?
Pelo jeito a única forma de resolver esse problema será através da via legislativa, com a inclusão expressa dos guardas municipais entre os agentes que tem direito à aposentadoria especial, reconhecendo assim o que já ocorre na maioria dos municípios brasileiros.
 
 
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Suicídio de policiais, um tabu que deve ser debatido
02/09/2019 | 11h11
Pesquisa feita junto a policiais federais
Pesquisa feita junto a policiais federais
Essa semana chamou atenção uma pesquisa divulgada pelo GEPESP (Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção). Segundo os dados levantados pelos pesquisadores entre 2017 e 2018 mais do que dobrou o número de policiais que se mataram no país. Em 2017 ocorreram 28 casos de suicídios e no ano seguinte esse número subiu para 67, uma alta de 140%. Para esse estudo foram incluídos agentes de segurança pública das diversas polícias estaduais e federais.
Com relação aos números de 2018, o levantamento apontou que a maioria das vítimas era do sexo masculino, com idade média de 39 anos e muitos eram policiais operacionais, dos mais diversos setores. As armas de fogo foram o meio mais utilizado para o ato e metade das ocorrências aconteceu em casa. Porém os números reais podem ser muito maiores do que os encontrados nessa pesquisa.
Em uma pesquisa realizada em 2015, também pelo GEPESP, 18.007 policiais de todo o país responderam a um questionário online sobre o tema. Nas respostas 3.225 afirmaram que já haviam cogitado se matar e que 650 deles haviam tentado, sendo que quase metade não informou a ninguém sobre a tentativa. Esse quadro afeta até as instituições consideradas de maior prestígio como a Polícia Federal. Sonho de muitos que desejam ser policiais, o ambiente interno da instituição policial mais admirada do país repete o cenário encontrado nas pesquisas. Entre 1999 e 2018, 47 policiais e delegados cometeram suicídio, o que daria uma taxa de suicídios 9 vezes maior do que a média da população, segundo dados do Ministério da Saúde.
Em um ambiente de trabalho onde a busca por ajuda pode ser entendida como fraqueza, fragilidade e incompetência, os agentes de segurança pública acabam entrando em quadros de depressão e estresse pós-traumático, situações que podem ser gatilhos para o suicídio. O problema é que apesar desse diagnóstico e dos números apresentados, a questão dos suicídios entre policiais não é tratada como um tema de agenda pública, o que atrapalha a formulação de políticas públicas e institucionais para tratar dos problemas de saúde mental.
Um governo que afirma ter a segurança pública como prioridade, deve entender que os profissionais de segurança pública são pessoas, não apenas números, e, para que possam cumprir seus objetivos devem receber o apoio adequado do Estado e de suas instituições. A sociedade não quer uma polícia doente.
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Um outro desfecho
24/08/2019 | 18h33
Na última terça-feira, 20 de agosto de 2019, novamente o país se viu diante das televisões para acompanhar ao vivo o desenrolar de um sequestro de ônibus com passageiros. Quase 20 anos após aquele fatídico 12 de junho de 2000, a população novamente estava aflita com a ocorrência na ponte Rio-Niterói. As cidades estavam paradas e a apreensão de muitos era saber se seriam cometidos os mesmos erros que levaram à morte de uma refém ou se dessa vez o desfecho seria outro.
O cenário era diferente. Por ocorrer em uma ponte, diferente do outro que ocorreu em uma rua da zona sul da cidade do Rio de Janeiro, o cerco ao local foi feito de forma muito mais eficaz evitando que curiosos se aproximassem do ônibus. Muito diferente do anterior, onde pessoas circulavam sem problemas no local do crime. Outro fator era que a polícia estava muito mais preparada para uma ocorrência do tipo. Seja pela análise dos erros cometidos anteriormente, seja pela preparação para atuação nos grandes eventos que ocorreram na cidade do Rio de Janeiro, as equipes policiais estavam muito bem preparadas para atuar em situações como essa.
Protocolos de atuação foram seguidos à risca, negociadores tentaram fazer com que o sequestrador se rendesse durante horas, psicólogas estavam no cenário auxiliando a traçar um perfil do criminoso, policiais buscavam informações sobre o que ocorria dentro do ônibus e ao mesmo tempo atiradores de elite, os famosos “snipers” se posicionavam para um disparo se a ordem fosse dada. O cenário estava posto e o comandante da ação sabia o que deveria ser feito, mas isso tudo poderia ter dado errado se tivesse ocorrido alguma ingerência política, o que não ocorreu. A atuação do governador durante a ocorrência foi exemplar, se portando como um governante deve se portar. Deu total autonomia aos policiais para atuarem de forma técnica, confiando no preparo e treinamento deles para resolver a situação.
. Após a negociação se esgotar sem sucesso e com a possibilidade do sequestrador colocar fogo no ônibus, o comando autorizou os atiradores de elite a efetuarem o disparo quando tivessem essa possibilidade, e o final é conhecido por todos. Todos os reféns foram resgatados ilesos, o criminoso foi neutralizado e a cidade se recuperou de um trauma. Os policiais saíram fortalecidos e graças à autonomia dada pelo governador ficou claro que em novos casos do tipo o resultado será sempre no interesse das vítimas e da sociedade, nunca do criminoso.
 No vídeo abaixo comento detalhes da ação.
 
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Compartilhamento da violência
17/08/2019 | 18h05
Jovens brigam em frente à escola
Jovens brigam em frente à escola
Nessa semana um crime que ocorreu em Manaus/AM foi notícia em todo o país e chamou a atenção pela forma como aconteceu. Uma jovem, cujo pai tinha uma amante, foi ao encontro desta para brigar, e mesmo cercadas de várias pessoas, nada foi feito para evitar o confronto. Ao invés de impedir a agressão, os presentes sacaram seus telefones celulares para filmar o embate e depois compartilhar nas redes sociais. Enquanto filmavam, a jovem agredida foi derrubada e bateu violentamente a cabeça no chão, momento no qual alguns dos presentes resolveram intervir, mas não havia mais tempo, a jovem acabou não resistindo.
Não foi um caso isolado. Todos os dias nas redes sociais proliferam vídeos de brigas, agressões, crimes e maus tratos. Confrontos são incentivados nas saídas das escolas, emboscadas são preparadas para agredir e humilhações ensaiadas. Tudo por um compartilhamento, por uma desejada “viralização” do vídeo. Animais são mortos e torturados enquanto outros filmam e devido à sensação de impunidade, muitas vezes os autores sequer escondem suas identidades.
Qual foi o momento em que as pessoas perderam a empatia com o próximo? Quando foi que a visibilidade própria passou a ser mais importante que o sofrimento do outro? São questões que devem ser debatidas por especialistas e estudiosos do comportamento humano. A violência sempre existiu, muitos afirmam ser inerente ao ser humano, mas a divulgação imediata e a busca pelo reconhecimento têm levado o problema a outros níveis.
O problema é que o que deveria ser considerado um desvio comportamental está se tornando um problema de segurança pública. Incentivados pela impunidade e pela visibilidade concedida pelas redes sociais, muitos deixaram de ser meros espectadores e passaram a ser incentivadores de atividades que muitas vezes são consideradas crimes segundo a legislação. Não se pode cobrar empatia e compaixão, mas o respeito às leis vigentes deve sim ser cobrado. Aqueles que incentivam a prática de crimes não podem ser tratados como observadores e devem sim ser punidos na medida de suas participações.
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Sobre o autor

Roberto Uchôa

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