MST conquista o Assentamento Cícero Guedes, na antiga Usina Cambahyba
23/08/2023 12:57 - Atualizado em 23/08/2023 14:35
Ocupação em Cambahyba (Fotos: Genilson Pessanha)
Ocupação em Cambahyba (Fotos: Genilson Pessanha)
O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) publicou no Diário Oficial da União desta quarta-feira (23), portaria que cria Projeto de Assentamento Cícero Guedes, em Campos. A área de 1.319,8148 hectares foi desapropriada em 2021, pela Justiça Federal, e destinada a assentar famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que lutam pelo local desde 1998, quando um decreto presidencial considerou as terras improdutivas, por não cumprir função social.
O Assentamento Cícero Guedes está localizado na terras onde funcionou a antiga Usina Cambahyba. O local chegou a ser alvo de denúncias de crimes praticados durante a ditadura militar. Em 2014, o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, também apontou indícios de uso dos fornos da usina como local onde 12 corpos de vítimas da Ditadura Militar teriam sido incinerados.
Em junho deste ano, a Justiça Federal de Campos condenou o ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) do Espírito Santo, Cláudio Antônio Guerra, a sete anos de prisão, em regime semiaberto, pelo crime de ocultação de cadáver no período da ditadura militar. Cláudio foi investigado com base em seu próprio livro "Memórias de Uma Guerra Suja", no qual confessou ter recolhido os corpos de 12 pessoas e os levados para serem incinerados entre 1973 e 1975. Segundo a investigação, os corpos teriam sido incinerados na antiga Usina Cambahyba, em Campos. No local, foram incinerados os corpos dos presos políticos Ana Rosa Kucinski Silva, Armando Teixeira Frutuoso, David Capistrano da Costa, Eduardo Collier Filho, Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira, João Batista Rita, João Massena Melo, Joaquim Pires Cerveira, José Roman, Luís Inácio Maranhão Filho, Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto e Wilson Silva. Fernando Augusto era pai de Felipe Santa Cruz, ex-presidente da OAB-Nacional.

“A história da Usina Cambahyba é a expressão da formação da grande propriedade e da exploração da força de trabalho e do meio ambiente no Brasil. É uma história de violência marcada pela resistência dos trabalhadores e trabalhadoras”, afirma uma nota assinada pela direção do MST, em 2021, quando o movimento ocupou as terras pela última vez, ocasião em que deram nome ao assentamento.
Com toda a história em relação à usina e aos assentamentos, assim como a desvalorização dos produtores e trabalhadores rurais, o desejo do Sindicato Rural de Campos é que tudo ocorra conforme a lei. "Eu espero que o Governo Federal dê a assistência necessária e que tudo ocorra conforme a lei. A gente deseja que quem é dono de terra receba o valor e o pessoal que é assentado receba condição para trabalhar. O que o Sindicato Rural deseja é isso", declarou o presidente do sindicato, Ronaldo Bartholomeu dos Santos Júnior. 

Homenagem - Cícero Dias, líder do MST em Campos, e foi assassinado, em 26 de janeiro de 2013, com mais de dez tiros nas costas e cabeça, próximo ao Assentamento Oziel Alvez.

Alagoano, Cícero passou por uma infância de condições precárias, fome e trabalho infantil. Partiu para Campos, em busca de melhores condições, onde trabalhou nos canaviais e chegou a trabalhar nas obras da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), como operário da construção civil.
Mesmo depois de conquistar sua terra, após participar do primeiro assentamento do local, ele permaneceu fortalecendo o movimento pela reforma agrária.
Com informações da Agência Brasil

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