Até a independência oficial do Brasil, em 1822, os atuais norte e noroeste fluminenses situavam-se no Distrito dos Campos Goitacás, parte da capitania do Rio de Janeiro. Campos era a sede desse distrito. A partir dessa vila e de São João da Barra, processou-se o desbravamento dos sertões que cercavam as duas vilas. Da capitania de Minas Gerais também partiu a iniciativa de conquistar as imensas florestas que vicejavam no atual noroeste fluminense.
O mais próximo sertão de Campos e São João da Barra era o de Cacimbas, abrangendo a parte norte da restinga de Paraíba do Sul e terrenos de tabuleiros entre os rios Guaxindiba e Itabapoana. Antes mesmo de um desbravamento efetivo desse sertão, as terras já tinham donos, como assinala o mapa de Manoel Martins do Couto Reis (1785). Uma obra pioneira para o desbravamento foi a abertura do canal de Cacimbas, na terceira década do século XIX. Com ele, o desmatamento foi avassalador nesse sertão, que também era conhecido como Sertão do Nogueira. Passou a ser conhecido, até pouco tempo, como Sertão de São João da Barra. Na segunda metade do século XIX, a grande freguesia de Santo Antônio (hoje Guarus) foi dividida em mais três: Morro do Coco, São Francisco de Paula e São Sebastião.
O sertão do Muriaé já estava sendo colonizado por lavouras, gado e engenhos, como relata Antonio Muniz de Souza em 1828. Em 1840, foi aberto o canal da Onça para a obtenção de lenha e madeira. Uma parte do sertão do Muriaé também era conhecido por sertão da Onça. O vale do Muriaé serviu tanto a colonos de estilo europeu quanto a comerciantes que transitavam entre Minas Gerais e Campos. O mesmo aconteceu com o rio Itabapoana. Partindo de Guarus e de Minas Gerais, foram criados os núcleos de Cachoeiras do Muriahé, Italva e Itaperuna.
O sertão do Paraíba ganhou grande impulso colonizador com a abertura da estrada Minas-Campos em 1808. São Fidélis já existia no final do século XVIII e tinha ligação com Campos e Cantagalo. Na esteira da nova estrada, foram fundados Santo Antônio de Pádua, Miracema, Aperibé, Itaocara e Cambuci. Seus nomes originais não são mencionados aqui para facilitar a compreensão do leitor.
O sertão do Imbé foi colonizado pela vertente interior da Serra do Mar. Além de São Fidélis como ponto avançado na parte baixa da serra, pioneiros europeus avançaram também por Nova Friburgo. Santa Maria Madalena foi um marco na colonização da montanha. Logo adiante desse sertão, pela vertente atlântica, estendia-se o Sertão do Macabu. A colonização dele a partir de Macaé foi mais intensa. Assim como os rios Itabapoana, Muriaé e Pomba serviram de eixo para a interiorização por caminhos de terra, ferrovias e rodovias, o rio Macabu também cumpriu o mesmo papel.
Em 1785, Manoel Martins do Couto Reis registrava, em seu famoso relatório, a freguesia de São Salvador, onde se situava a vila do mesmo nome, atual Campos, a freguesia de São João, hoje São João da Barra, a freguesia de Santo Antônio, hoje Guarus, a freguesia de São Gonçalo, hoje Goitacazes, a freguesia de Capivari, hoje Quissamã, e a freguesia de Nossa Senhora das Neves, hoje Conceição de Macabu.
A hierarquia dos núcleos urbanos foi imposta pelos portugueses ao Brasil: curato, freguesia, vila e cidade. Não era necessário subir degrau por degrau. O Rio de Janeiro, por exemplo, começou logo como cidade, mas só a Coroa podia fundar cidades.
No que seria a região norte fluminense, a colonização inicial foi promovida por povos indígenas. Eles partiram da zona serrana, com todas as impenetráveis florestas e sua fauna selvagem, na visão dos europeus. Os próprios indígenas eram vistos como selvagens perigosos pelos portugueses. Partindo das terras altas, os indígenas atingiram as planícies. Os colonos estranhos fizeram o caminho oposto, colonizando as terras baixas e conquistando as terras altas, partindo do litoral para o interior. Inclusive em Minas Gerais.
No caminho, foram eliminando as florestas, a fauna nativa e os povos indígenas. O controle cabia aos portugueses e a seus descendentes já nascidos no Brasil. Os africanos, importados como escravos, acompanhavam seus donos. Mas nesse processo entraram também italianos, alemães, franceses, libaneses e até japoneses e chineses.
E o sertão de Quimbira, ao sul da lagoa de Cima? É o assunto do próximo artigo.