Com júri nada-popular, justiça decide inocentar principal suspeito de assassinar Cícero Guedes
07/11/2019 | 19h04
Campos viveu nesta quinta-feira mais uma página triste de sua história marcada pelo latifúndio.
MST RJ
Hoje ocorreu na comarca de Campos dos Goytacazes o julgamento de José Renato Gomes de Abreu, acusado de ser o mandante do assassinato de Cícero, em janeiro de 2013, na ocupação das terras da Usina Cambaiba.
Cícero Guedes, que fugiu do trabalho escravo em Alagoas, veio para Campos, onde começou a trabalhar no corte da cana-de-açúcar, até se juntar com sua família ao MST. Não demorou para naturalmente se tornar uma liderança. Era um homem de trato simples, carismático e amado por todos.
Zé Renato, apontado por diversas testemunhas como mandante do assassinato, tentava obter o controle do acampamento Luís Maranhão, foi jagunço da Usina Cambaiba e ainda, segundo as testemunhas, possuía ligação com o tráfico de drogas e já havia ameaçado Cícero diversas vezes.
Entretanto, o que chamou a atenção neste julgamento foi a composição do júri que em menos de 10 minutos decidiu por absolver Zé Renato.
Para o Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, tratava-se de um tribunal do júri histórico. Mas o que se viu foi um júri composto majoritariamente por jovens que deviam ter entre 18 e 25 anos, todos brancos, desprovidos de experiência na realidade rural, provavelmente todos de classe média e estudantes de direito em universidades privadas da cidade.
Para a Justiça, talvez não importe a homogeneidade na composição deste júri. Afinal, possui seus critérios para isto.
Mas para os presentes não foi difícil identificar como estes jovens estudantes foram facilmente cooptados pela arguição da defesa, como se estivessem em uma sala de aula.
Ignoraram os relatos de testemunhas centrais, até mesmo do próprio delegado do caso, dando o direito da dúvida a um réu que sequer conseguiu manter a coerência e a consistência de seu relato, se contradizendo por diversas vezes durante o julgamento.
Talvez não seja a justiça burguesa que fará justiça ao nome de Cícero Guedes.
Talvez não seja a justiça burguesa que desvendará o mandante do assassinato de Marielle e Anderson.
Tampouco essa justiça burguesa que libertará Lula ou inocentará Rafael Braga.
Porque talvez essa justiça não nos caiba.
No entanto, a luta sempre nos coube.
E como Cícero Guedes sempre nos ensinou: “Cansar? Nunca!”.
A luta por justiça para Cícero não acaba por aqui.
Ela continua nas ruas, nos bairros, no nosso campo dos Campos dos Goytacazes, marcado com sangue derramado pelo latifúndio.
Cícero Guedes:
PRESENTE!
 "O risco que corre o pau, corre o machado. Não há o que temer..."
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O governo do cinismo: em ano marcado por censuras, cinema é tema da redação do ENEM 2019
03/11/2019 | 18h28
Após afirmar, ainda no fim de 2018, que fiscalizaria a prova e a escolha do tema da redação do ENEM, Bolsonaro deixa claro que seu cinismo ainda não encontrou limites.
Reprodução da internet
No fim do ano passado, fomos surpreendidos (nem tanto) com uma declaração de Jair Bolsonaro, à época ainda não empossado, que iria evitar quaisquer temas que considerasse polêmicos para o governo, como por exemplo temas relacionados à “ideologia de gênero.”
Supondo que Bolsonaro tenha participado da escolha do tema deste ano, conforme prometido, o governo deixou claro que de fato não se importa com os rumos da produção de conteúdo audiovisual no Brasil, uma vez que não considera polêmico cortar 43% dos recursos do audiovisual brasileiro, impor uma intervenção na Agência Nacional de Cinema (Ancine), censurar filmes e ainda assim propor como tema a “democratização do acesso ao cinema”.
Bolsonaro tentou escolher o tema que mais blindaria o governo em meio a tantos escândalos.
Não percebeu que não pode haver democratização do acesso ao cinema no Brasil sem incentivos reais e consistentes à produção do audiovisual brasileiro.
Lotar salas de cinema apenas para acompanhar heróis da “Marvel” ou qualquer outra produção financiada pelos grandes capitais hollywoodianos apequena a soberania e a cultura do Brasil, criando um povo marcado como gado, sem identidade.
Em um governo que prega austeridade como via de regra, as palavras “democratização” e “acesso” soam como hipocrisia.
A normalidade imposta a escolha de um tema tão sensível com tamanha desfaçatez é similar ao cinismo do mesmo presidente que poucos dias atrás afirmou ter ocultado provas da justiça na investigação do assassinato de Marielle Franco.
O tema do ENEM 2018 nos alertava sobre os riscos do uso indevido de dados privados na internet, mecanismo que permitiu - de forma ilícita -, por exemplo, a ascensão da campanha de Bolsonaro nas redes.
Se Bolsonaro não gostou do último tema e esperava se blindar com este, ainda não conhece (e no que depender de seu intelecto jamais conhecerá) a real proposta de uma prova como o ENEM, um dos maiores acertos dos governos do PT na pasta da Educação.
Muito mais que um exame, o ENEM tem este poder de, muito além de avaliar nosso ensino médio e permitir acesso às nossas universidades, levantar debates nacionais e muitas das vezes contra o interesse das grandes corporações, do governo e suas conveniências.
O ENEM, este sim, pode utilizar as palavras “democratização” e “acesso” sem receio algum, pois permitiu que jovens e adultos das periferias e comunidades mais longínquas acessassem o ensino superior, antes marcado pela segregação dos vestibulares.
Estejamos alertas: após a repercussão da prova de hoje, o cinismo de Bolsonaro pode levar a ele a ideia de por fim, de vez, a uma prova como o ENEM.
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Reorganização do PT em Campos promete agitar bastidores de 2020
04/09/2019 | 23h43
Neste domingo (08) eleições internas deverão definir a próxima executiva e direção da legenda no município
Militância petista em Campos
O PED (processo de eleições diretas do PT) ocorrerá em todo o território nacional no próximo dia 08 e marcará um momento decisivo para o partido que possui o maior número de diretórios permanentes do Brasil, em cerca de 3 mil cidades. A luta pela liberdade do presidente Lula ganha contornos cada vez mais intensos com a divulgação das mensagens vazadas entre Sérgio Moro e procuradores do MP. Soma-se a isto o desastroso governo bolsonaro, que em seus primeiros meses de mandato já acumula rejeição recorde e coleciona escândalos, além dos mais severos ataques a direitos sociais, à educação, ao meio ambiente e ao desenvolvimento de ciência e tecnologia.
O PT deve se preparar para este PED com a certeza que cada vez mais o povo compreende os riscos do governo bolsonaro. Os dados da última pesquisa DataFolha apontam: se as eleições fossem hoje, Bolsonaro perderia para Fernando Haddad.
Em Campos, o partido compreende de maneira similar a disputa do município. Estas eleições são primordiais para a reorganização do partido, que há mais de uma década não tem figurado como protagonista na cidade, nem no estado, mas que pode se desenhar como via alternativa e popular para as polarizações historicamente colocadas no município.
Muito deste apagamento que o PT sofreu nos últimos anos se deve a conduções suspeitas e antidemocráticas do atual presidente estadual do partido, Washington Quaquá, ex-prefeito de Maricá. Quaquá ficou marcado pela defesa intransigente das políticas de conciliação, distantes da real síntese do partido e por sua associação direta ao PMDB, posturas que levaram o PT a uma posição de coadjuvante no estado e deixou dezenas de diretórios e candidaturas desassistidas no interior nos últimos anos.
Mas o cenário é de novos tempos para o PT no Rio de Janeiro. Quaquá tem a continuidade de seu grupo fortemente ameaçada pelo advogado e ex-deputado federal Wadih Damous, candidato de oposição que promete colocar o partido de volta às ruas, principalmente no interior. Wadih é ex-presidente da OAB-RJ e presidiu a Comissão Estadual da Verdade. É advogado do presidente Lula e conta com o apoio de amplos setores do partido, na capital e no interior.
E é neste cenário que o PT Campos pode depositar ainda mais confiança. O partido prepara para assumir a presidência do partido na cidade um de seus quadros mais experientes, Odisseia Carvalho, professora, sindicalista e ex-vereadora, que terá condições de assumir a tarefa de preparar as negociações e o caminho para 2020.
No entanto, se na presidência deverá assumir uma conhecida de longa data da política local, a chapa inscrita está repleta de novidades.
O PT passa por uma de suas maiores renovações na cidade de Campos, contando com a presença de dezenas de jovens organizados, em especial mulheres jovens, que prometem tomar pra si o compromisso de reconduzir o PT ao protagonismo no município. Esta renovação se deu principalmente a partir do ano de 2016, um dos mais difíceis para a história do partido, mas que marcou o ressurgimento de uma importante juventude organizada.
Para retornar com força total, o PT prepara para 2020 uma expressiva nominata para disputar o legislativo municipal, que deverá surpreender muita gente e contar com as mais diversas representações. Mulheres, jovens, negros, petroleiros, professores, estudantes, advogados, acadêmicos, ambientalistas e lideranças de bairro são alguns dos perfis que o PT apresentará para a população de Campos, carente de referências populares compromissadas com o trabalhador.
Internamente o PT já aposta na composição de um bloco de esquerda com outros partidos para disputar a prefeitura em 2020. As eleições deste dia 08 serão primordiais para definir os próximos passos na planície goitacá do maior partido de esquerda da América Latina.
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Raul e Rosana consolidam vantagem em eleição e evidenciam sentimento de defesa da UENF
04/09/2019 | 05h44
Dupla se destaca e larga na frente com forte votação entre os estudantes.
Nesta terça-feira ocorreram as eleições para escolha da nova reitoria da UENF. Na universidade do terceiro milênio de Darcy Ribeiro, quem despontou foi a chapa composta pelos professores Raul Palácio e Rosana Rodrigues.
Raul e Rosana caminham para o segundo turno com considerável vantagem, alcançando 42% dos votos válidos, enquanto as chapas concorrentes, num episódio histórico e improvável, empataram com 28,52% cada. As chapas que empataram são compostas pelos professores Medina e Rodrigo / Carlão e Juraci.
A comissão eleitoral, presidida pelo professor Sérgio Arruda, indica que a decisão da chapa que concorrerá ao segundo turno com Raul e Rosana deverá ocorrer somente nesta quarta-feira, de acordo com os critérios de desempate estabelecidos pelo edital da eleição. Há que se salientar e parabenizar o incansável e dedicado trabalho desta comissão, composta por professores, técnicos e estudantes, que se debruçaram por mais de 6 horas na apuração dos votos.
Vale destacar também o expressivo desempenho de Raul e Rosana entre os estudantes, que deram à chapa 651 votos, mais que o dobro da segunda colocada na preferência dos discentes, que obteve 315 votos. Os estudantes da UENF se encontram num momento chave para a escolha do novo reitor, que deverá se dedicar nos próximos anos a pautas prioritárias para o corpo discente, como a moradia estudantil, a creche universitária e a implementação do auxílio-moradia.
Num momento tão grave para a ciência no Brasil, com diversos cortes promovidos pelo governo Bolsonaro em programas e instituições essenciais para as universidades e para o avanço tecnológico, como o CNPq e a Capes, o desempenho expressivamente positivo da chapa aponta para o resgate do sentimento de defesa da UENF, que nos últimos anos também foi duramente atacada pelo governo estadual e contou com os professores Raul e Rosana ocupando as trincheiras não somente do enfrentamento, mas também as institucionais, que por vezes se mostraram mais difíceis e sacrificantes.
A eleição teve um total de 1868 votos válidos, sendo 250 votos de docentes, 405 votos de técnicos e 1213 de discentes. Foram contabilizados 10 votos brancos e 26 votos nulos.
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Arnaldo aproxima Caio da turma bolsonarista e se distancia de vez da realidade
14/08/2019 | 22h42
Movimentação deixa claro que o caminho para a esquerda campista em 2020 é a unidade, através da composição de um forte bloco partidário.
Foto: Genilson Pessanha - Folha 1
Foto: Genilson Pessanha - Folha 1
A última semana foi marcada por uma articulação pra lá de risível entre algumas peças da política campista. O ex-prefeito de Campos, Dr. Arnaldo Vianna, decidiu reaproximar seu filho Caio, que se define como um jovem progressista, de Gil Vianna, que na eleição passada foi vice na chapa de Caio e hoje é o nome da família Bolsonaro na cidade.
Em Campos, assim como em muitas cidades do país, o compromisso ideológico nunca foi uma coisa levada muito a sério nas eleições municipais. A movimentação de Arnaldo não causa espanto uma vez que o mesmo já apoiou figuras como Geraldo Pudim na cidade.
Mas a questão aqui é que já há algum tempo Caio namora a possibilidade de costurar uma articulação do PDT com os partidos de esquerda da cidade, em especial com o Partido dos Trabalhadores (PT), que ainda reserva um considerável tempo de campanha e militância organizada em Campos, principalmente nas universidades com a juventude e em importantes sindicatos.
Em junho deste ano, o senador Flávio Bolsonaro declarou o deputado estadual Gil Vianna como “comandante” do PSL em Campos e candidato da família para as eleições de 2020. Flávio é o filho de Jair que, segundo o MP, possuía uma organização criminosa que movimentava milhões em seu gabinete, através do desaparecido Fabrício Queiroz. 
Gil Vianna disse ser motivo de orgulho compor o PSL, partido responsável pela condução do maior desmonte social do país, que tem atacado o direito à aposentadoria, ameaçado a pesquisa científica e o acesso ao ensino superior, conduzido uma desastrosa política ambiental e protagonizado as mais vergonhosas declarações através de Jair Bolsonaro.
Arnaldo parece não identificar que a massa que elegeu Bolsonaro tem rapidamente se dissolvido. Quer atrelar seu filho a uma turma delirante, sustentada pelas fake news, que apesar de ainda ser muito barulhenta e conseguir aglutinar parte da classe média, têm demonstrado nas manifestações de apoio a Bolsonaro em Campos que não conseguem reunir mais que 120 pessoas após os últimos escândalos como a “Vaza-Jato”, enquanto as manifestações em defesa da educação e contra a reforma da previdência movimentaram milhares de pessoas, muitos que já abandonaram o barco do bolsonarismo.
Caio se mostrava como um potencial candidato à polarização Diniz x Garotinho, mas a que depender de suas articulações, está fadado a ser mais um candidato sem compromisso popular e que vive à sombra de seus antepassados políticos. Se esta movimentação de acordo com a turma bolsonarista se confirmar, perde qualquer possibilidade de diálogo com o campo progressista.
Cabe aos partidos de esquerda em Campos reconhecerem o momento que está colocado: somente a composição de um bloco em unidade pode apontar soluções para superar nossa ainda gritante desigualdade, em uma cidade marcada pelo peso do sobrenome e pela influência dos “donos do poder”. Inverter esta ordem e se firmar como uma terceira via real, com capacidade de ameaça, exige trabalho árduo e organização de longo prazo, no entanto, tendo em vista a tática adotada pelos nomes se colocam como alternativa à polarização, talvez o resultado não esteja tão distante.
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Gilberto Gomes

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