Sobre a ponte, olhos à frente ou no celular, aquele é mais um pedaço de rua que liga um a outro lugar, não havendo curiosidade pela janela que incite mover os olhos desatentos no curto percurso feito de carro, a pé ou de bicicleta.
Notada ou não, a vastidão movediça das águas esteve sempre ali, a segregar a cidade, a deslocar as distâncias, a cortar ao meio a malha urbana que se formara paulatinamente ao redor. Cercado de prédios e ruas e árvores, o rio permanece oculto em suas margens, gigante não notado a habitar silenciosamente cada rotina.
Com isso, o imenso flume é apenas paisagem – mais um elemento a servir de referência nas localizações endereçadas. Numa vivência mais interessada, vai além: o Paraíba é sustento do pescador, esporte pro remador, diversão pro saltador.
O porém fica para as exceções: o acúmulo de água a espremer o rio pelas margens faz dele um evento. Deixa de ser paisagem para ser especulação. Novidade que movimenta o buchicho de quem não encontra ocupação mais interessante e vai para a beira-rio assistir à cheia do Paraíba.
Apoiados no dique ou mesmo espalhados pela calçada, os olhos curiosos passam a ver o que talvez nunca tenham notado, filmando o rio para compartilhar nas redes sociais e chamar ainda mais atenção para os acontecimentos fluviais, na contemplação da estranheza, do que está prestes a acontecer no cais.
Ou seria a iminência dos desastres que provoca os comentários e faz do rio influenciador natural-digital enquanto famílias perdem suas casas e ruas são fechadas por alagamento? Fato é que, entre a beleza e o perigo, as pessoas querem manter os olhos fixos para ver algo acontecer, na expectativa de qualquer centímetro elevado desencadear o transbordo.
E os dias passam, o nível das águas retorna ao patamar da tranquilidade, e o Paraíba do Sul, que leva na correnteza lendas e acontecimentos e traços de cidades inteiras, volta ao esquecimento paisagístico para quem só o nota em tempos de cheia.
Texto escrito em 13 de janeiro de 2022
*Ronaldo Junior tem 25 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
Ao apontar para todos os lados, irresoluto, o indivíduo - pluripartido - expõe verborragicamente o tanto do que sua limitada visão consegue identificar ao redor. Desse olhar, surge o grito entusiasmado pelo que consegue ver, passando até a querer antever os liames com crenças mirabolantes de quem vai muito além da própria realidade, passando à ficção.
Ao redor, os outros admiram a audácia daquele que aponta e grita e diz o que pensa, na liberdade insana de supor o porvir de cada um, tal qual profeta, mago ou filósofo que expressa o que ninguém teve o destemor de dizer.
De início, alguns chegaram a questionar, torcer o nariz, perguntar quais eram as credenciais do homem para falar tudo aquilo. Em qual faculdade se formou? Em quais teorias se baseou? Mas logo uma voz calou as dúvidas ao dizer que não eram necessárias credenciais para questionar o sistema e ver o mundo de um jeito inovador. Isso era coisa de sábio, diziam.
De fato, trata-se de uma sabedoria peculiar, baseada na surrealidade dos fatos e nas coisas que não existem, mas esse é o encanto.
O indivíduo passa como audacioso por sua forma determinada de expressar o que pensa. Corajoso bravo indócil rebelde indomesticável, justamente porque diz o que passa pelo que vê. Mas sua limitada visão não percebe ao certo o que corre ao redor, então ele fica apenas com o que percebe de relance e propaga suas opiniões.
Os que ouvem, atônitos, passam a crer estar diante de um especialista. Tanta segurança para proferir as próprias verdades não pode ostentar uma mente vazia. Quem, em sã consciência, daria a cara à tapa para dizer insanidades? Tudo o que ele diz só pode ser verdade.
Aquele homem prostrado no meio de todos, repleto de ideias que soam absurdas, deve ter alguma razão para colecionar desafetos e semear aparentes ilusões, pensam os ouvintes ainda não convencidos.
No porém das poucas virtudes, os passantes são magnetizados pelo encantamento do homem estupidificado pelo que reconhece ao redor - mãos sobre a boca, ora a apontar, ora a expressar pleno contentamento com o que seus olhos registram. Ele grita como se o mundo fosse uma enorme e terrível novidade.
Ele chega a dizer o que será daquele local, como viverão aquelas pessoas e até quem governará no futuro. Sabem as teorias ensinadas na escola? Bobagem para ludibriar tolos, a verdade é mais plana do que se pensa. Tudo dito com a certeza insensata do instante irrefletido.
O mundo ao redor é um choque, uma avassaladora gama de acontecimentos com os quais é difícil conviver. Então ele cria uma atmosfera sob a qual prefere respirar, um reino encantado em que as regras são ditadas conforme suas visões encíclicas e sincópicas.
De inverdade em inverdade, ele se faz verossímil. De entusiasmo em entusiasmo, ele se faz influenciador dos que também cismam em não se contentar com a realidade, vivendo a ficção como forma de rebeldia.
Mas a vida se faz cinematógrafo aos olhos, projetando fatos viscerais de maneira inclemente, colocando em dúvida tantas inverdades e tantos questionamentos - gerando outros em substituição -, o que faz com que o homem comece a hesitar em suas certezas - dentro de si, nunca para os outros.
É então que ele se vê encurralado entre suas pilhas de falsas realidades, percebendo que não consegue mais fugir daquela narrativa fútil com que se engambelou a vida inteira, sobrando-lhe tão somente a palavra para dizer e alguns ouvidos atentos para ouvir qual será a próxima revolução.
Sua reação seria dar um passo atrás? Jamais. O ego e o tempo não permitiriam tal movimento. Mais vale tachar de idiotas aqueles que leem o mundo de forma diversa, bradando que a liberdade de expressão permite a discordância - por mais desleal e insana que seja.
Contra argumentos, não há fato que vença, ele postulou outro dia.
O legado restante é que um conjunto de palavras bonitas formadas por uma filosofia meia-boca só aponta - um a um - a quais idiotas a ideia se refere desde o início. Havendo nisso apenas a coragem de ignorar completamente tudo que se passa ao redor para ouvir apenas as vozes da própria cabeça.
Então a mão que apontava, no início, voltou-se a apontar para o próprio peito, na incredulidade automática de acusar alguém de algo incabível. Não há sequer reflexão, não há verdade passado futuro que dê lastro para a imensidão de sandices alastradas.
E o desejo dos que o cercam é que o engajamento permaneça na estupidez de viver a própria narrativa construída, na firme certeza de que não há nada mais conveniente que prove o contrário. Pois, para cada fim do mundo, haverá um vidente repleto de razão, assim como, para cada pensamento imbecil, haverá alguém para dizer: tem razão!
Afinal, cada qual tem seus próprios sábios e tratados e ideólogos. Na ausência de visões próprias, cada um se baseia na crença dos que inventam algo para crer.
*Ronaldo Junior tem 25 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
Centro de Campos dos Goytacazes, foto de 2018.
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Ronaldo Junior
Não havendo paralelismo que encontrasse, ele firmava suas posições no cruzamento de realidades, na predisposição a incertezas e na crueza repentina das relações espontâneas.
Suas saídas cotidianas e intempestivas faziam de seu silêncio um esclarecimento sobre a personalidade abrupta que o dominava: buscava capturar momentos com a câmera de seu celular a fim de desenredar o que havia por trás dos transeuntes que faziam as horas úteis do Calçadão em seu ir e vir.
A mulher cheia de sacolas carregava o filho, aos tropeções, pelo braço. O vendedor gritava suas ofertas ao vento enquanto passava com seu passo pesado. O engravatado, cara amarrada, caminhava relutante sob o sol. O casal carregava, um de cada lado, a TV de 55 polegadas. A mulher, saltos ritmados na pedra portuguesa, caminhava lentamente até o banco.
Tudo acontecia na simultaneidade das pressas guiadas pelo compasso cronológico que dissipava todo o movimento tão logo o sol se pusesse. E ele permanecia sentado no banco fingindo digitar em seu telefone enquanto fotografava os passantes. Uma vez, quase tivera sua atuação descoberta quando um homem de meia idade – frequentador habitual da área – perguntara, do nada, o que ele fazia com a câmera aberta.
Mas uma desculpa qualquer bastara, sem maiores repercussões.
Chegava em casa após um dia inteiro de fotos de pessoas aleatórias para abrir uma a uma na tela do computador e criar narrativas – factuais? – sobre a vida das pessoas que por ele passaram ao longo do dia.
Preenchia sua realidade com ficções alheias, pois, saindo de si, era muitos. Não tinha nome que limitasse suas possibilidades, preenchendo-se dos que por ele passavam ao longo de tardes inteiras cercado por ruídos e cheiros e acontecimentos repentinos que tomavam sua atenção no relance do centro da cidade.
Em seu solitário perfil na rede social, alimentava-se de postar algumas das fotos com legendas que recriavam o inimaginável: mazelas, desejos, histórias pregressas e até genealogias epopeicas eram atributos dos personagens desconhecidos percorridos por sua aflição de viver vidas outras.
Flâneur da virtualidade, deixava-se vagar por outras vivências no passatempo de extraviar a sua própria pelos caminhos. Na multidão digital, encontrava sua extensão a perscrutar certezas pendulares na recusa plena de estar só.
De nada adiantava segui-lo. Seus rastros eram insuficientes para guiar um mero curioso pelo labirinto de seus pensamentos, pois cada elemento de sua personalidade fora esquartejado e espalhado categoricamente pelos cantos da cidade, na sola dos sapatos e na atenção dispersa dos passantes que não o percebem.
*Ronaldo Junior tem 25 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com