Antimundo
Ronaldo Junior 29/01/2022 14:01 - Atualizado em 29/01/2022 14:27
Fonte: Pixabay
Ao apontar para todos os lados, irresoluto, o indivíduo - pluripartido - expõe verborragicamente o tanto do que sua limitada visão consegue identificar ao redor. Desse olhar, surge o grito entusiasmado pelo que consegue ver, passando até a querer antever os liames com crenças mirabolantes de quem vai muito além da própria realidade, passando à ficção.

Ao redor, os outros admiram a audácia daquele que aponta e grita e diz o que pensa, na liberdade insana de supor o porvir de cada um, tal qual profeta, mago ou filósofo que expressa o que ninguém teve o destemor de dizer.

De início, alguns chegaram a questionar, torcer o nariz, perguntar quais eram as credenciais do homem para falar tudo aquilo. Em qual faculdade se formou? Em quais teorias se baseou? Mas logo uma voz calou as dúvidas ao dizer que não eram necessárias credenciais para questionar o sistema e ver o mundo de um jeito inovador. Isso era coisa de sábio, diziam.

De fato, trata-se de uma sabedoria peculiar, baseada na surrealidade dos fatos e nas coisas que não existem, mas esse é o encanto.

O indivíduo passa como audacioso por sua forma determinada de expressar o que pensa. Corajoso bravo indócil rebelde indomesticável, justamente porque diz o que passa pelo que vê. Mas sua limitada visão não percebe ao certo o que corre ao redor, então ele fica apenas com o que percebe de relance e propaga suas opiniões.

Os que ouvem, atônitos, passam a crer estar diante de um especialista. Tanta segurança para proferir as próprias verdades não pode ostentar uma mente vazia. Quem, em sã consciência, daria a cara à tapa para dizer insanidades? Tudo o que ele diz só pode ser verdade.

Aquele homem prostrado no meio de todos, repleto de ideias que soam absurdas, deve ter alguma razão para colecionar desafetos e semear aparentes ilusões, pensam os ouvintes ainda não convencidos.

No porém das poucas virtudes, os passantes são magnetizados pelo encantamento do homem estupidificado pelo que reconhece ao redor - mãos sobre a boca, ora a apontar, ora a expressar pleno contentamento com o que seus olhos registram. Ele grita como se o mundo fosse uma enorme e terrível novidade.

Ele chega a dizer o que será daquele local, como viverão aquelas pessoas e até quem governará no futuro. Sabem as teorias ensinadas na escola? Bobagem para ludibriar tolos, a verdade é mais plana do que se pensa. Tudo dito com a certeza insensata do instante irrefletido.

O mundo ao redor é um choque, uma avassaladora gama de acontecimentos com os quais é difícil conviver. Então ele cria uma atmosfera sob a qual prefere respirar, um reino encantado em que as regras são ditadas conforme suas visões encíclicas e sincópicas.

De inverdade em inverdade, ele se faz verossímil. De entusiasmo em entusiasmo, ele se faz influenciador dos que também cismam em não se contentar com a realidade, vivendo a ficção como forma de rebeldia.

Mas a vida se faz cinematógrafo aos olhos, projetando fatos viscerais de maneira inclemente, colocando em dúvida tantas inverdades e tantos questionamentos - gerando outros em substituição -, o que faz com que o homem comece a hesitar em suas certezas - dentro de si, nunca para os outros.

É então que ele se vê encurralado entre suas pilhas de falsas realidades, percebendo que não consegue mais fugir daquela narrativa fútil com que se engambelou a vida inteira, sobrando-lhe tão somente a palavra para dizer e alguns ouvidos atentos para ouvir qual será a próxima revolução.

Sua reação seria dar um passo atrás? Jamais. O ego e o tempo não permitiriam tal movimento. Mais vale tachar de idiotas aqueles que leem o mundo de forma diversa, bradando que a liberdade de expressão permite a discordância - por mais desleal e insana que seja.

Contra argumentos, não há fato que vença, ele postulou outro dia.

O legado restante é que um conjunto de palavras bonitas formadas por uma filosofia meia-boca só aponta - um a um - a quais idiotas a ideia se refere desde o início. Havendo nisso apenas a coragem de ignorar completamente tudo que se passa ao redor para ouvir apenas as vozes da própria cabeça.

Então a mão que apontava, no início, voltou-se a apontar para o próprio peito, na incredulidade automática de acusar alguém de algo incabível. Não há sequer reflexão, não há verdade passado futuro que dê lastro para a imensidão de sandices alastradas.

E o desejo dos que o cercam é que o engajamento permaneça na estupidez de viver a própria narrativa construída, na firme certeza de que não há nada mais conveniente que prove o contrário. Pois, para cada fim do mundo, haverá um vidente repleto de razão, assim como, para cada pensamento imbecil, haverá alguém para dizer: tem razão!

Afinal, cada qual tem seus próprios sábios e tratados e ideólogos. Na ausência de visões próprias, cada um se baseia na crença dos que inventam algo para crer.


*Ronaldo Junior tem 25 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com

Escreve aos sábados no blog Extravio.

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    Professor e membro da Academia Campista de Letras. Neste blog: Entre as ideias que se extraviam pelos dias, as palavras são um retrato do cotidiano.