A vida que a gente não escolhe
21/01/2017 | 18h42
A vida que a gente não escolhe         Cândida Albernaz  A barriga ocultava parte da bermuda preta. O chão estava coberto de lama a sua volta, mas isso não parecia incomodar.  Segurando a mangueira verde, direcionava o jato no menino que corria fingindo fugir da água fria. Riam pai e filho naquele domingo em que o sol tentava fazer derreter tudo o que estivesse abaixo dele.  Gostava dos dias em que o pai tinha o riso arreganhado no rosto e costumava observar como a barriga dele subia e descia nesses momentos.  Ele era um homem alto, gordo, com mãos que considerava imensas e um bom humor que só se abalava quando discutia com a mãe. Nunca vira o pai batendo boca com qualquer outra pessoa. Amável e educado, apesar de sua aparência mostrar o contrário.  A mãe, o oposto. Vivia zangada, reclamava de tudo, dizia que não havia sonhado com essa vida para ela. Queria ter saído daquela cidadezinha pobre e principalmente daquele bairro imundo. Tinha o hábito de culpar o marido por não conseguir nada melhor do que ser mecânico. Que mulher sonha em ter um marido sujo de graxa? E ainda por cima que não podia levá-la a nenhum lugar decente? Não nascera para aquela vida. Vivia resmungando.  Tinha pena e raiva da mãe. Perdia todo o seu tempo querendo o que jamais poderia ter. Quer dizer, parte do tempo, porque no resto dele, bebia.  Quando os dois brigavam, quase sempre era porque ela havia enchido a cara. O pai então vasculhava a casa e encontrava garrafas escondidas em todo canto. Ultimamente desenterrara algumas no quintal.  Apesar do problema ser sério, ria quando o pai bancava o cão farejador procurando as bebidas. Cachaça, a maioria, ela não tinha dinheiro para comprar coisa melhor.  Quando encontrava, retirava a tampa da garrafa e despejava o líquido no vaso sanitário. A mãe enlouquecia e gritava todos os palavrões que conhecia. O marido nem ligava e continuava jogando tudo fora.  Numa das vezes ela deu um tapa nele. Para nunca mais. Quando viu os olhos do pai, teve medo. E ela também.  Segurou a mão da mulher e aproximou-a do rosto, fazendo com que batesse em si mesma com força. Em seguida, soltou e ela saiu correndo até o quarto. Da sala dava para ouvir seus soluços. Não se recordava da mãe ter agredido o pai de novo.  Os períodos em que ela desistia de beber eram quase perfeitos. Servia o almoço e o jantar sempre na hora, acompanhava as festas e reuniões da escola. Afirmava que o marido era o melhor homem do mundo e que não havia menino que pudesse dar mais orgulho a sua mãe do que ele. Essa abstinência durava no máximo dois ou três meses.  Houve uma vez em que ficou um ano sem colocar álcool na boca. Foi logo depois do tal tapa. Tiveram paz e achou que seria para sempre.  Então um dia ela demorava mais do que normal. Ele já havia feito o dever da escola, o pai colocou a comida para os dois e então sentou na cadeira da sala e ficou olhando para-o-relógio-para-a-porta-para-o-relógio-para-a-porta-para-o-relógio-para-a-porta e nada da mulher chegar.  Sabiam o que provavelmente acontecera e ele rezava baixinho para que ela tivesse se machucado no caminho, ou quem sabe poderia estar num hospital sem poder avisar, ou fora assaltada...  Não foi o que aconteceu. Às dez horas da noite, ela irrompeu pela porta, cambaleando e rindo da cara dos “dois otários”. O marido foi para fora, abriu o portão e saiu. Ele continuou parado, com medo de se mexer e ela se virar contra ele. Quando estava assim, qualquer ação poderia ser interpretada do jeito dela. E na maioria esse jeito era agressivo para o lado do filho.  Mas não encostou nele. Foi direto para o quarto, deitou na cama com a roupa que estava e apagou.  Ouviu quando ela e o pai conversaram no dia seguinte. Jurou que não repetiria e que fraquejara porque a patroa reclamou com ela sobre uma jarra que quebrara sem querer e avisou que descontaria o valor de seu salário.  Claro que ela bebeu no outro dia, e no outro e no outro.  Durante o banho de mangueira eles pareciam ser únicos no mundo. Almoçariam mais tarde, a comida que a mãe deixou pronta antes de sair. Avisou que ia visitar a mãe dela.  Eles sabiam que a casa da avó ficava do lado oposto para o qual ela se dirigiu.  Sabiam também que quando ela retornasse, ficaria olhando para eles com aquele olhar embaçado e um sorriso demente na boca. Não xingava mais ou gritava, o que era um alivio.  Na manhã seguinte, ficaria trancada no quarto por muito tempo e ao entrar na sala notariam que a cara estava inchada de chorar.  Tinha pena do pai, pena dele mesmo. Da mãe, sentia uma raiva triste que apertava o peito e fazia com que baixasse os olhos quando ela estava por perto.
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Continuo esperando
21/01/2017 | 18h42
     Continuo esperando                                                                             Cândida Albernaz O colorido das roupas chamava a atenção. Lilás, azul, verde e o amarelo que predominava. O mesmo tom de amarelo que usava. A diferença entre ele e os outros era a alegria. Uns se acotovelavam, outros levantavam os braços sinalizando para algum colega onde estavam e riam do próprio alvoroço. Todos os dias quando o ônibus chegava no horário da escola, a cena se repetia. Sempre era o último a entrar e passava pelos colegas até achar no fundo, um banco vago onde pudesse sentar. Enquanto percorria o corredor interminável ouvia cochichos e risinhos abafados. Sabia que eram para ele e fixava os olhos no chão com mais força. Todos ali dentro o conheciam. Alguns estudavam em sua turma. Outro dia, a professora pediu que escrevessem uma redação sobre o que gostavam de fazer nos fins de semana. Parecia provocação. Não havia ninguém naquela cidade que não soubesse que seu pai estava preso há um ano. E o porquê. Ele e a avó pegavam uma condução toda semana e iam visitá-lo no presídio. Odiava aquele lugar. Odiava seu pai. Quando disse à avó que não voltaria mais lá, recebeu uma bofetada e em seguida uma ordem: vá se trocar. Não havia o que discutir, só obedecer. Chegavam naquele ambiente sujo e o pai quando o via, puxava-o pelo braço apertando-o contra o peito. Sentia o cheiro do sabão barato que não era muito diferente do que usava. Ficavam quietos enquanto sua avó falava sem parar. Inventava que era um ótimo aluno e que a professora o elogiava. Dizia que o outro filho, seu irmão mais velho, mandava um abraço e prometia que da próxima vez viria com eles. Muito ocupado, o irmão. O pai fingia acreditar e tentava sorrir, o que no final lembrava uma estranha careta. Na semana passada, notou que faltava um dente bem na frente, quando o pai tentou dar um desses sorrisos. A avó também percebeu. Ninguém falou nada, mas sabiam que o pai devia ter se metido em mais uma briga. Em casa, no outro dia, ouviu a avó falar com seu tio que tinha medo de que um dia o filho aparecesse morto. Ele pensou que podia ser bem feito para o pai. Pelo menos, não precisaria mais visitá-lo ou olhar na cara dele. Aliás, naquela família não se fala sobre o que aconteceu. Finge-se que as coisas ruins evaporam. Como sua mãe. Apenas sumiu e não se fala mais nela. Quando chegou à casa, há um ano, encontrou o pai na porta da sala com uma faca na mão. Perguntou o que houve e não teve resposta. A única coisa que repetia: vagabunda, vagabunda... Correu até a cozinha e viu a mãe no chão. Ouviu seu nome e foi até ela: Não fiz nada... Por que meu filho?... Por quê?... Chamou o vizinho para ajudá-lo, mas quando a ambulância chegou estava morta. A mãe falara por várias vezes que “qualquer dia esse maldito me mata”. Ela sabia e ele também. Por isso, depois da escola nunca ficou para brincar com os colegas. Tentava chegar o mais cedo que podia achando que assim conseguiria protegê-la. O ônibus parou e todos desceram em frente ao colégio. Sempre ficava lá dentro sentado até que o motorista gritasse com ele para que saísse. Obedecia, como sempre. O percurso até a sala de aula parecia não ter fim. A sensação que tinha era de espera. Esperava que os dias passassem, que as pessoas esquecessem, que a avó morresse, que o pai saísse da cadeia. Então ele faria o mesmo caminho dos fins de semana. A diferença é que ninguém iria visitá-lo e não faria questão. O pai, este estaria fazendo companhia a sua mãe. Do mesmo jeito.
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Para nunca mais
21/01/2017 | 18h42
Para nunca mais          Cândida Albernaz    Ainda ama seus dentes brancos na boca larga que quando sorri, parece iluminar o mundo.  Sente falta dos dedos longos e do corpo magro que quando a abraça faz com que se sinta menina outra vez.  Adora o jeito de passar as mãos no cabelo farto e preto e principalmente de sua voz quando fala tentando entender os por quês do que acontece e não tem como explicar. Tão diferentes no tempo e na vida vivida.  Não sabia para que relembrar isso agora.  Claro que a foto que reviu hoje, onde ele com a pele morena do sol a que se expôs, porque gosta do mar, contrastando com a bata branca aberta no peito foi o motivo. O rosto demonstrando mais idade do que realmente tinha. E a boca, sempre fora sua boca o que a seduziu.  Não devia ter satisfeito a vontade de abrir páginas do passado. Agora os pensamentos antes tão controlados não obedeciam ao que tentava exigir deles. Voavam livres por sua cabeça, sem comando algum.  Não sabia quantas vezes estiveram juntos ou quantas se falaram. Ele com o jeito de não aceitar recusas, não se importando em implorar atenção, fez com que se entregasse sem perceber.   *    *    *  A cozinheira perguntou o que fazer para o almoço. Comer? Nossa, a cabeça estava longe. Decidiu que preparasse um peixe no forno com uma salada e o que mais imaginasse. Pensasse em algo por ela.  Dormiu demais. Ou de menos. É tarde e só agora resolveu sair do quarto. Uma noite mal sonhada. O peito parecia que não ia desacelerar nunca.  O comprimido para relaxar e um livro fez com que voltasse a dormir.    *    *    *  Naquela noite em que, segundo ele, fizera uma proposta irrecusável para ela de pegar a estrada para estarem sozinhos e estiveram sentados na cozinha de sua casa, conversando por horas, ela ficou pensando em tudo o que podia ter feito ou dito e não teve coragem.  Por duas vezes ao beber a água que colocou no copo, deixou que escorresse pelo queixo, respingando no decote do vestido. Absorvia o que ele falava e isso a distraiu. Queria ter só mais uma chance de estar lá e fazer o que imaginou.      *    *    *  Precisava achar a chave do carro. Certeza de que havia deixado sobre a mesa antes de deitar. Chegaria mais atrasada ainda no consultório. A secretária ligou avisando que duas pacientes a esperavam.  Claro que só podia estar dentro da bolsa. Onde mais?  Avisou que almoçaria tarde. Deixasse a comida pronta e se demorasse, esquentaria quando voltasse.      *    *    *  E o beijo impaciente antes de abrir a porta da sala? Não queriam demonstrar a falta que fizeram um para o outro, todos aqueles dias que ficaram sem se ver, mas a respiração ofegante não deixava esconder.  O vício de estar junto, do toque, da boca entre os cabelos, cravando os dentes na nuca... Bendito e maldito vício! Ficou entranhado na pele. Da alma ela tirou ou achou que sim. Que falta fazia no vazio das noites aqueles olhos negros que buscavam conhecer corpo e mente.   *    *    *  A secretária a seguiu com a agenda lotada de horários marcados pelas pacientes. Na sala de espera, quatro mulheres responderam seu cumprimento de bom dia com impaciência. Pediria desculpas a cada uma delas e se concentraria em seu trabalho.  Abençoada agenda que não a deixaria pensar. Até boa parte do dia esqueceria o cheiro e o jeito de andar que a perseguia.   *    *    *  Foi embora da mesma forma que entrou em sua vida. Numa noite qualquer. Ou teria sido num dia qualquer?  Combinaram que seria assim. Em algum momento deixariam de se falar ou se ver. Sem explicações, sem pedidos de volta, sem aviso. Esqueceram que não bastava, necessitavam também deixar de se querer. Precisava não querer mais. De qualquer forma, não importava. Ficou na boca o gosto. Na cama vazia a vontade. Nos olhos o desejo. Mas seria assim por enquanto. Confiava no tempo que levaria para longe o que agora parecia sentir para sempre.  Bendito tempo. Maldito tempo. Abençoado tempo.
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Não dá para voltar atrás
21/01/2017 | 18h42
Não dá para voltar atrás          Cândida Albernaz  Enquanto caminhava não parava de pensar. Olhou para um lado e outro, não vinha carro e atravessou a rua. Deixou o seu na garagem de casa. Queria andar um pouco. Só não imaginava que o sol estivesse tão forte àquela hora. Oito horas da manhã  e esse calor. Parou na banca de jornal e comprou um. Deixou de ler por algum tempo. Falavam sempre sobre os mesmos assuntos e passou a se entristecer com as matérias sobre as tragédias que se sucediam. Não se recordava quando começou a ficar tão emotivo. Talvez a idade tivesse uma parcela de culpa.  Diante de uma vitrine, viu seu reflexo no vidro. O cabelo no alto da cabeça começava a rarear e uma barriga que tinha certeza, não poderia ser sua, marcava a camisa de malha. Abaixou para amarrar o cordão do tênis, quando notou que o laço havia sido desfeito. Um par de sapatos femininos parou à sua frente. Olhou para o alto, mas o reflexo do sol não deixou que identificasse quem era. Levantou e deu de cara com dois olhos grandes e um sorriso que pensava ter esquecido.  - Jairo!  Fechou os olhos por segundos.  - Ei! O que há? Não me reconhece?  Claro que a reconhecia. Luciana. O tempo não havia passado para ela. Em compensação, tinha certeza de que para ele... Lembrou que tinha um pequeno furo na costura da gola. Não se preocupou com o que ia usar. Não havia nenhuma reunião marcada para a parte da manhã e estava um pouco cansado. Pegou uma malha velha e vestiu.  Na última vez em que se viram, ele mantinha o corpo forte, com braços e pernas musculosos. E essa porcaria de cabelo, ainda não havia caído tanto.  - Como vai, Luciana? Pela cidade?  E pelo jeito perdeu toda a inteligência também. Não conseguia falar nada que não fosse óbvio. Se ela permanecia ali parada, é evidente que estava na cidade.  Sentiu-se ridículo diante daquela mulher bem vestida, com uma saia branca acima do joelho, mostrando parte das pernas e a pele bronzeada. Continuava chamando atenção.  - Deixe de ser formal comigo. Afinal, vivemos parte de nossas vidas juntos.  Fez tanto esforço para esquecer e em questão de minutos tudo voltava.  - Você está muito calado. Venha, vamos tomar alguma coisa na lanchonete da esquina. Estamos precisando, tenho certeza. Com esse calor... Que cara é essa? Parece estar vendo fantasma...   E riu alto, jogando a cabeça para trás, como sempre fazia. O cabelo preto, continuava usando na altura do ombro. Gostava de enfiar seus dedos nele e puxá-los para trás quando a beijava. Ela gemia baixinho pela pequena dor provocada.  Seguiu-a enquanto ela falava que estava ali acompanhando o marido que viera para um congresso.  -...sobre implante, você sabe. Vai dar uma palestra a respeito.  Sabia perfeitamente que o sujeito com quem ela se casara, era um bam-bam-bam na área de odontologia. Mas ele também era bom no que fazia. Sua agência de publicidade possuía as maiores contas da cidade  Sentaram e ela pediu dois sucos de laranja com cenoura.  - Acho que ainda lembro o que você gosta.  Não avisou que sua preferência para sucos havia mudado.  A auto confiança de Luciana continuava a mesma, e demonstrava segurança ao falar. E foi o que fez. Falou de suas viagens, da filha que agora morava no exterior, do trabalho de publicitária, o qual largara para ficar com o tempo livre, porque se sentia bem acompanhando e cuidando do marido.  Imaginou onde escondeu o talento que possuía. Foi na faculdade que Jairo e ela se conheceram e quando se formaram, abriu a agência e levou-a com ele. Foram dez anos morando e trabalhando juntos. Fizeram grandes negócios. O poder de criação dela era incrível.  Também viajavam muito. Fins de semana na praia onde descansavam e planejavam o futuro. Queriam filhos, mas teriam que esperar. Precisavam crescer na profissão primeiro.  Necessitaram contratar novos funcionários e foi aí que apareceu Carla. Loura, baixinha, com um corpo e uma boca que mexiam com os homens. As duas desde o início tiveram antipatia mútua. Fingiu não perceber.  Numa das noites em que avisou à Luciana que chegaria mais tarde porque tinha um jantar com um cliente, não esperava que ela aparecesse na agência.  Ele e Carla, nus na sala de reuniões. Não havia o que explicar. Ela o olhou de um jeito doído que jamais deixou de lembrar. Tentou conversar, falou que fora um impulso, não aconteceria novamente, mandaria a garota embora, mas que o perdoasse.  Continuaram ainda por três meses e no fim desse tempo, ela avisou que havia recebido uma proposta de emprego em outra cidade, em outro estado. Aceitou e não cumpriria o aviso, pois se comprometera a começar em dois dias.  - E nós dois?  O mesmo olhar que viu naquela noite se repetiu.  - Não existe mais nós dois.  Agora a ouvindo falar sobre sua vida com tanta empolgação, sentiu uma pontada de inveja daquele homem.  Jairo também se casou e teve dois filhos que moravam com a mãe. Separou-se da primeira mulher e vivia um novo relacionamento, contou.  - Eu sei.  Quando a olhou surpreso por ver que ela sabia coisas sobre sua vida, explicou:  - Alguém me contou.  - Quem?  - Não me lembro mais.  Seus olhos se firmaram e viu nos dela que não era bem assim. Soube naquele minúsculo instante que não o esquecera.  Ela empurrou a cadeira para trás e levantando, avisou que precisava ir. O marido já devia estar esperando. Almoçariam antes que ele voltasse para uma nova palestra.  - Por que não nos vemos mais tarde então? - ele perguntou.  - Não posso. Quero encontrar alguns amigos e volto ainda hoje para São Paulo.  Imaginou ter visto nela, o olhar antigo, aquele que o perseguia.  Luciana sorriu e deu dois beijos em seu rosto. Na rua, parado, acompanhou seus passos até que ela virou-se e deu adeus com a mão.  Jairo caminhou para o lado oposto. O calor ficou insuportável. Resolveu pegar um táxi para voltar para casa. Desistiu de caminhar. O corpo parecia ter um peso impossível de carregar.         14/2/2011.
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Pode ser sempre noite
21/01/2017 | 18h42
Pode ser sempre noite        Cândida Albernaz  Esse sol em excesso confunde minha visão. Aliás, meus pensamentos também. Por que tanta claridade? E essa risada que vem da rua? Vou deixar as janelas fechadas hoje de novo. Não devia ter vindo morar nessa casa onde a luz passa pelos vidros. Boas mesmo são aquelas janelas de madeira pesada que cobrem qualquer luminosidade ou som.  A família ainda não sabe onde estou vivendo, afastei-me de todos. Gostavam de dar conselhos; você precisa procurar ajuda, você fica muito só, você não gosta de nada, você quase não fala mais... você, você, você.  Por que não se preocupam com eles próprios? Nunca suportei que  me dissessem o que devo ou não fazer. Sei que estou rabugento, mas deve ser a idade. Perdi a paciência com todos. E com tudo também.  Preciso ficar em casa sozinho, e por isso não conhecem este endereço. Caso contrário fariam uma romaria até aqui. Houve uma época em que achava bom a casa cheia, com música baixa, é claro, e família reunida. Não tive filhos. Não podia e recusei  adotar. Lúcia insistiu por muito tempo, mas fui irredutível. Não teria meu sangue, não seria meu.  Acho que foi isso que fez com que ela mudasse tanto. Às vezes ficava triste, pelos cantos. No início eu perguntava o que estava acontecendo, mas como a resposta era sempre a mesma, desisti. Brigávamos constantemente por isso.  Os sobrinhos costumavam nos visitar e ela fazia comidas especiais, organizava passeios e brincava como se fosse um deles. Reconheço que tinha jeito com crianças. Eu sempre fui rigoroso e sério. Gosto de tudo em seu lugar. Nunca fui paciente com alvoroço e desordem, mas apesar de não participar das brincadeiras, observava.  As irmãs dela e meu irmão, Gustavo, estavam sempre conosco. Lúcia preparava almoço aos domingos e convidava todos. O único problema era quando vinham com a conversa sobre adoção. Sua mulher é louca para ser mãe, você seria um bom pai. Difícil  entender porque as pessoas acham que podem opinar na vida dos outros. Não me intrometo na de ninguém e espero o mesmo.  Quando Lúcia veio contar que havia conhecido alguém, fiquei olhando-a e ouvindo suas explicações como se não fosse comigo. Meu irmão, o senhor sabe tudo, disse que entrei em choque.  Não tive culpa, aconteceu. Conheci na escola onde dou aulas. Professor como eu. Ficamos amigos, me desabafava com ele. Conversávamos e fomos nos aproximando cada vez mais. Você não me escuta, mal nos falamos, pouco nos tocamos e cansei de pedir a você uma criança. Seríamos mais unidos, estou certa disso. E você mais alegre.  Lúcia torcia as mãos e andava pela sala enquanto falava.  Estou grávida e amo você.  Não me mexi. Continuei olhando-a. Recordo de ter pensado mais tarde, sentado no mesmo lugar, que não a estava vendo. Só ouvindo como uma voz que vinha de longe. Distante daquela sala.  Então ela parou diante de mim e pediu que dissesse alguma coisa. E eu falei: arrume suas coisas e saia daqui. Ou saio eu.  Não pegou nada naquele momento. Foi embora chorando e voltou no dia seguinte. Eu estava na cozinha tomando café, quando entrou dizendo que precisávamos conversar.  Olhei em seus olhos pela última vez: separei algumas coisas e volto amanhã às dezesseis horas para pegar o resto. Não quero que esteja aqui. Não quero conversar, menos ainda ouvir sua voz. Não diga que me ama, porque não amo mais você. Avise à sua família que jamais quero vê-los. Pode ficar com a casa. Essa rua para mim deixou de existir. Não desejo mal nem bem a você. Está morta.  Levantei, lavei a xícara que usei, sequei com a toalha de prato e guardei no armário.  Não consigo lembrar como foi no dia seguinte, quando voltei para pegar minhas coisas. Sei que estão comigo.  Saía pouco, e depois disso, até o pouco acabou. Sobrinhos e cunhada desistiram de me ver. Eu os tratava mal e pedia que me deixassem em paz. Não me arrependo. Prefiro ficar sem ninguém perturbando.  Como pouco e pela reação de Gustavo quando esteve comigo, emagreci bastante. Tenho sentido algumas dores no peito e dormência no braço.  Quando não estou trabalhando com as traduções, leio, assisto jornais na televisão ou fico quieto sentado numa cadeira, sem pensar. Adquiri o hábito de não pensar. É quase como dormir acordado.  Talvez Gustavo encontre esse lugar qualquer dia desses. Espero que não.               7/2/2011.
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Espera
21/01/2017 | 18h42
     Espera                                  Quanto tempo se passara desde que os vira pela última vez? Não sabia.                                  Estava pronta. Cortara o cabelo, pediu que alguém fizesse suas unhas e colocou um bonito vestido. Sentada na poltrona com a mala a seu lado, esperava que viessem buscá-la. Aprendera a controlar a ansiedade, conseguindo não olhar o relógio nem uma vez. Apenas observava o jardim através da janela, onde o vento fazia balançar as folhagens das árvores.                                    Sempre que se sentava ali, sentia paz. Mesmo quando era dia de chuva. Aquela janela parecia um quadro onde às vezes a tela era trocada.                                    O senhor Jorge veio chamá-la para que andasse um pouco, mas não queria. Guardava sua energia para quando as crianças chegassem e exigissem dela toda a atenção. Sentia saudades das brincadeiras que fazia com os filhos. Brincavam sempre: era cabra-cega, pique - esconde... Adorava jogar bola com os garotos. Sempre gostara de ficar com eles. O coração doía com a lembrança. Estava pensando... Será que eles ainda iam querer fazer essas brincadeiras com ela? Sua cabeça estava um pouco confusa. Não conseguia lembrar direito qual a idade deles.                                    Algumas vezes ficava quieta sem pensar em nada, só olhando a sua volta, pois pensar lhe trazia recordações que faziam seus olhos derramarem água.                                    O senhor Jorge se aproximava de novo, desta vez chamando-a para comer. Venha, coma alguma coisa e depois volta para cá.                                    Olhava-o enquanto sorria. Ele não entendia que não sentia fome. Sentia saudade. E depois, o marido quando chegasse a levaria para comer em algum lugar. Quem sabe, no seu restaurante favorito? Há tanto tempo não ia lá! Começava a ter fome só em lembrar-se da “galinha ao molho pardo” que preparavam. Era seu prato predileto Aposto que já havia feito reserva para os dois e os filhos. Sim, porque caso contrário não encontrariam lugar, vivia cheio.                                    Passou a mão no cabelo já branco, ajeitando uma mecha imaginária. Estava tranqüila e sentia-se bem. Também, há muito esperava por esse dia. O dia de voltar para casa. Sua cama, sua TV em frente à cadeira, sua jarra sempre com flores... Nunca a deixava vazia, quando as flores começavam a murchar, trocava-as por outras.                                    Nossa! Lá vinha o senhor Jorge. Já estava começando a ficar aborrecida com ele. Insistia para que saísse dali. Será que queria seu lugar? Sua poltrona em frente à janela? Olhou-o com desconfiança. Já estava começando a ficar preocupada. Se ele conseguisse tirá-la dali, de que adiantaria ter se arrumado toda? As crianças chegariam e não a veriam.                                     Estava escurecendo lá fora e percebia que as luzes do jardim começavam a se acender.                                    Ficara pronta cedo demais, mas é que não queria deixá-los esperando. Seu marido não era impaciente, mas nunca gostara que ninguém a esperasse.                                    Talvez fosse melhor pedir que alguém ligasse para ver se já haviam saído de casa. Talvez as crianças estivessem muito sujas das brincadeiras e então demoravam no banho. Talvez seu marido estivesse com algum problema no trabalho, e por isso se atrasara. Talvez, talvez.                                    Acabaram de acender as luzes da sala. Será que ia chover? Por isso escurecera tão rapidamente?                                    Poxa, lá vem ele, e dessa vez não estava sozinho. As duas meninas vestidas de branco se aproximaram e enquanto uma ajudava-a a se levantar, a outra lhe oferecia um comprimido e um pouco de água. Vamos senhora, já é noite, passou o dia sentada aí, nem mesmo quis comer. Tome seu remedinho, vai lhe dar tranqüilidade. Ficaria sonolenta e queria estar bem acordada quando chegassem. Sem querer, jogou o copo longe, e duas mãos então a seguraram com firmeza, enquanto outras a forçavam a se levantar.                                    Senhora, já é tarde e precisa se alimentar e dormir. Não quero! Meus filhinhos vão chegar, e meu marido se atrasou um pouco, mas está vindo buscar-me. Nós vamos almoçar todos juntos e depois vão me levar para casa. Que saudade, meu Deus! Que saudade da minha casa! Não me toquem, deixem-me aqui!                                    O comprimido já fora engolido à força, e suas pernas não lhe obedeciam mais. Sentia ser carregada até o quarto.                                    Talvez amanhã. Amanhã acordaria bem cedo, se arrumaria e sentaria na sua poltrona em frente à janela, de onde se podia ver o jardim e aí então, suas crianças chegariam.                                    Há tantos anos espera por isso... Amanhã conseguiria voltar para casa.
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Somos iguais?
21/01/2017 | 18h42
                                Somos iguais?                                                                                                 Cândida Albernaz Sentada na varanda, a bacia plástica cheia de roupas entre as pernas. Com as mãos na água ia puxando peça por peça e esfregando vigorosamente. Do cabelo preso num coque com um grampo, fios rebeldes se soltavam. As costas doíam, mas não adiantava reclamar. Cresceu naquele lugar, apaixonou-se, casou-se e continuava ali. Nunca esperou muito mais que isso. A filha sentada na calçada comia um pedaço de pão e segurava a caneca de café. O nariz escorria e de vez em quando um acesso de tosse fazia com que ela se levantasse e com olhos preocupados segurava a menina no colo. Tentara levar ao médico no dia anterior, mas não conseguiu que fossem atendidas. A garota tossiu a noite inteira, a respiração dela ficava cada vez mais difícil. Quando terminasse de lavar a roupa, levaria a filha ao posto de saúde. Hoje só sairia de lá se fosse consultada, resolvera. O marido não estava em casa, foi jogar sinuca com outros, que como ele, estavam desempregados.  Há dois meses sem trabalho e o esforço que fazia para conseguir um serviço era pouco. Não conseguia entender aquele homem ainda jovem, com saúde, ser tão irresponsável. Ela trabalhava numa casa de família e quando tinha com quem deixar a filha, arrumava o que fazer aos domingos e feriados para ganhar um extra. Quando reclamava com ele, dizia que ia se esforçar mais, mas que emprego estava difícil. E depois não era homem de aceitar fazer qualquer coisa, tinha uma profissão: era pintor e pintar era o que  sabia fazer. No último emprego, na fase de acabamento do prédio, discutiu com o chefe de obras. O outro foi dizer que o serviço estava mal feito e queria que pintasse um dos apartamentos mais uma vez.  Durante a discussão, enfiou a mão na cara do tal, e quando conseguiram separar os dois, foi demitido. Ultimamente ela vinha sentindo-se mais cansada, e não era cansaço no corpo, era dentro dela mesma. Deu para pensar na época em que era garota, morando numa daquelas casas sem reboco, onde, quando chovia, ficava alagada. Recordava-se da mãe, sempre com um lenço na cabeça, lavando roupa para fora, cuidando dos quatro filhos e envelhecida.  Não se lembrava de algum dia sua mãe ter sido jovem. Sempre que pensava nela era como em uma mulher mais velha. Quando conheceu Jonas, sabia que sua vida não seria muito diferente da que a mãe levava, mas havia o amor, e o amor enfeita tudo. Com a filha no colo, parou em frente ao pequeno espelho do banheiro, parecia ver sua mãe refletida nele. Cada dia se assemelhava mais a ela. A ruga em volta dos olhos, o sorriso cansado, só faltava o lenço para esconder o cabelo mal cuidado. A tosse da filha fez com que voltasse a realidade. Deu um banho na menina, vestiu-a e deixou-a sentada na cama enquanto também se lavava. Na saída, olhou para o bar onde o marido estava e de longe fez sinal para que soubesse onde levava a menina. Ele veio até as duas: Quer ajuda?Não precisa. Está bem, quando chegar passe aqui e me diz o que o médico falou. O beijo rápido na boca estava longe de ser o que precisava. Talvez um abraço, ou quem sabe, só um carinho no rosto; melhor ainda, sem perguntar nada: vou com você para que não se sinta sozinha. Caminhou até o ponto de ônibus. A filha dormira um pouco. Olhou seu rostinho e não pôde deixar de pensar que um dia ela também seria mãe, amaria algum Jonas e se pareceria ao olhar no espelho, com a avó que nem chegou a conhecer.
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Desculpe
21/01/2017 | 18h42
               Desculpe                                                                Cândida Albernaz   A sala de poucos móveis estava escura. Apenas um pequeno abajur iluminava o local. Sentado na poltrona predileta, decidia se deveria ou não acender um charuto. Marta não gosta de vê-lo fumando. Sempre implica e o faz desistir.          Trouxera uma caixa da última viagem que fizeram à Paris. Ainda se lembrava da mulher e ele entrando na pequena lojinha no Marais. Saíram dali e enquanto ela tomava um sorvete, ele saboreava seu charuto. Era um dia de sol, bem diferente de hoje, quando precisava manter as janelas fechadas para que a chuva não molhasse tudo.          Marta acabou de entrar jogando-se no sofá. Parece cansada. Ultimamente percebera que estava mais impaciente, talvez estivesse exigindo muito dela. - As crianças foram para a escola? Ela apenas olhava-o sem responder. - Estou preocupado com o Marcos, não gosto desse novo amigo com quem tem saído. Não me parece muito honesto. Deve ter puxado ao pai que todos sabem é um caloteiro. Outro dia vi nosso filho dando dinheiro a ele. Perguntei o porquê de estar fazendo isso e desconversou. Acredito que tenha emprestado e aposto que nunca mais vai ver a cor do mesmo. Parecia que o rosto dela se fechava como se uma sombra passasse. Virou-se para não olhar para ele. Não queria conversa. Isso o entristecia. Sempre gostara de saber o que tinha para dizer. Era sensata e lhe dava bons conselhos. Até sobre os negócios costumava ouvir sua opinião. Isso agora faz tempo, no momento não queria falar com ele, só escutar. Achava que nunca se acostumaria quando ela resolvia agir assim. Levantou e dirigindo-se até sua mulher, passou as mãos em seus cabelos. Usava-os curtos acima do ombro. Dizia sentir muito calor, por isso preferia cortá-los desta forma. Ela mal o olhou enquanto a tocava, sabia que estava magoada com algo que fizera. Não imaginava o quê. Também não adiantava perguntar por que não queria responder. Sentou outra vez, resolvendo lembrar-se de coisas boas vividas por eles. Quem sabe assim ela voltaria a ser como antes? Falou sobre outras viagens, festas que realizaram juntos, o nascimento dos filhos, isto sempre a emocionava, e do quanto a amava. - Já sei o que faremos. Voltaremos a Paris ainda este ano e levaremos nossos filhos. Sei o quanto sente saudades deles quando viajamos. Não serei egoísta querendo você só para mim. Vamos, me dê um sorriso. Preciso que me perdoe seja lá do que for. Ele agora andava de um lado para o outro impaciente. Não continha mais sua irritação por ela não emitir nenhum tipo de reação a toda aproximação que tentava. Gesticulava em frente a Marta, que não se dignava a olhá-lo. Já não pedia mais seu perdão. Exigia. Atrás dele, segurando-o pelo braço, Augusto pedia para que se acalmasse. -Tome seu remédio. O senhor hoje está muito agitado. Com a ajuda de outro enfermeiro, conseguiu medicá-lo e fazer com que se deitasse. Ainda tentou avisá-los que iam machucar Marta, colocando-o em cima dela daquele jeito. -Falando sozinho de novo. Talvez o doutor tenha que aumentar a dose. A cada dia ele parece mais nervoso. O medicamento estava fazendo efeito. Antes de fechar os olhos, viu que Marta o olhava e sentiu que ela tentava tranqüilizá-lo. Aceitou suas desculpas. Quando acordasse conversariam.
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Olhar perdido
21/01/2017 | 18h42
Olhar perdido                        Cândida Albernaz             - E então, como está meu tio? - Vai ficar bem apesar da idade. Setenta e dois anos, não é? Ele me parece forte. A garota que veio com vocês precisa ser operada. O caso dela é delicado. - Coitada da Alzira. Estava no carona e foi o lado em que o carro bateu. A vida não tem sido fácil para ela. - Preciso de alguns dados. Você, o que é da garota? - Dela, nada. - Sabe pelo menos o nome completo e a idade? - Alzira da Silva. Dezoito anos. - Vocês estavam indo... - Para a casa do meu tio. Eu ia passar a noite lá. Fomos a Casemiro comprar uns bois. Eu trabalho com ele, na fazenda. O tio tem umas terras para o lado de São Fidélis. Não tá mal de vida, não. - E a menina, é sobrinha também? - Não senhora. Que sobrinha, que nada. É mulher dele. - Sei... - Eles vivem juntos há quatro anos. - ... - Acha que é muito jovem, né?  Que nada. Já está ficando velha para o gosto do tio. Ele nunca fica com elas depois que fazem vinte. Mania, sei lá. - Mas como se conheceram? - Como todas as outras. Ele já foi casado umas dez vezes, mais ou menos. A primeira, que era a irmã do meu pai, casou com ele quando tinha quinze anos. Morreu aos vinte e cinco no parto. Desde aquela época, não vejo meu tio sozinho. Mas os casamentos dele não duram muito. - Quantos filhos ele tem? - Só dois, que foi com minha tia. As outras ele não deixa engravidar. Diz que não gosta de mulher buchuda, fica feia. - Mas a Alzira estava grávida. - Então ela escondeu... Porque se o tio descobre, a criança não vinga. - Perdeu o bebê. Estava com quatro meses. - Bem que hoje vi quando ele reclamou que ela estava comendo muito e ficando gorda. - Ele ia mandar tirar? - Claro. Tem um lugar aí onde o tio leva as meninas. Diz que se elas têm filhos, além da trabalheira, param de ter tempo para cuidar dele. Fala também que o corpo deixa de ser o mesmo. - Onde moram os pais de Alzira? - Numa roça perto daqui. São pobres por demais. O pai tá desempregado faz tempo. Só a mãe dela é quem trabalha. Cinco filhos, doutora. - Então seu tio se ofereceu para cuidar deles... - Isso mesmo. A senhora já conhece a história, né? Botou os olhos na menina e disse que queria para ele. Tava casado com outra na época. Mandou a garota de volta para casa, que nisso ele faz questão: não fica com duas ao mesmo tempo. Depois disso saiu atrás de convencer os pais de Alzira. - E a que estava com ele, não reclamou? Vai embora e pronto? - Não é bem assim. Ele continua cuidando dela. Manda dinheiro todo mês. Não é muito, mas também não passa fome. Sempre faz desse jeito. A família das meninas acaba ficando amiga dele, porque o tio não é de cuspir no prato que comeu. - Você não está sentindo nada, não é mesmo? Todos os exames feitos deram bons resultados. É só ficar em observação por algumas horas. Amanhã recebe alta. - Doutora? - Sim? - Se meu tio sabe que a Alzira mentiu, não fica mais com ela. Tenho pena. De todas as meninas com quem ele amigou, a Alzira é a mais triste. Vive pelos cantos com o olhar bem longe. - Não posso esconder. - Se ele a manda de volta com raiva, não vai querer ajudar. E o tempo que ela levou casada para garantir o futuro da família? - Vou ver o que posso fazer. - Faltam só dois anos para ele dispensar a Alzira. - Vamos ver. - Doutora? - ... - O meu tio não pode ter mais filho faz um ano. Um probleminha que teve. - Mas a Alzira estava grávida. Tem certeza? - Meu, doutora. O bebê devia ser meu. A bobona não contou nada. - Você e ela... - Pois é, se meu tio descobre, bota nós dois para correr ou coisa pior. Já mandou matar um que se engraçou com uma das meninas dele. - ... - Ela tem um olhar tão perdido, a gente vivia conversando, daí... Doutora, ele vai desgraçar com nossa vida.
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Só entre os dois
21/01/2017 | 18h42
Só entre os dois                                                         Cândida Albernaz          - Pai, dessa vez está indo por outra estrada, não é?          - Claro que não. Você não viu porque dormia.          - Passamos por aquela fazenda cheia de bois?                                                 - Ham, ham.          - Eu não vi. – os olhos encheram-se de água.          - Querida, eles também estavam dormindo. Mas quando voltarmos prometo que estarão lá.          Olhou pelo retrovisor e viu que a filha havia esquecido o assunto. Seus olhos buscavam um pássaro branco que passou voando próximo deles.          A mulher dormia com a cabeça pendendo hora para um lado hora para outro. A boca entreaberta emitia um ruído baixo, parecido com um gargarejo. Quando acordasse, reclamaria do pescoço dolorido. Sorriu. Lembrou-se de quando era criança e do enorme carro que o pai dirigia com orgulho. Ele e suas duas irmãs sentavam no banco traseiro disputando a janela, até que a mãe mandava que os três se calassem. Ela não era uma mulher com muita saúde, o coração vivia pregando susto nos dois. O pai tinha cuidados especiais com a mulher, como se fosse uma criança. Sua avó dizia que “você a mima demais, parece que ela é a filha”.          Quando iam para o sítio, ela passava a maior parte do tempo dormindo, enquanto seu pai saía com os filhos a alimentar bichos, ordenhar vacas, o que fazia com que rissem muito, já que não era uma tarefa fácil e costumavam se atrapalhar. O ponto alto ficava por conta do momento em que montavam os cavalos e disputavam (meio devagar, é verdade), quem chegava primeiro ao lugar combinado. Estes dias no sítio costumavam ser perfeitos, a não ser quando a avó e a mãe discutiam. Ela exigia da filha uma disposição que esta dizia não ter. Ficou muito tempo com dúvidas de que a doença seria uma desculpa para não tomar parte de nada ou realmente a impedia.          Dependiam do pai para quase tudo. Algumas vezes durante os passeios no sítio, paravam sob uma árvore e conversavam. Ele então explicava que se a mãe deles não participava do que faziam, era porque não agüentava.          Sua irmã certa vez perguntou por que ela nunca os abraçava e ele falou: “não tenham dúvida sobre o amor dela por vocês. Tem um jeito diferente de pensar, acha que não devem se apegar tanto a ela, para não sofrerem, mas os ama muito”.          Não entendeu aquela história de se apegar e sofrer, mas não perguntou nada.          Foi no sítio que os abandonou. Naquela época estava muito fraca e a viagem havia se tornado um grande esforço. As confusões dela com sua avó, já haviam deixado de acontecer há muito. As duas conversavam e por diversas vezes ele viu a avó sair do quarto e ao fechar a porta, colocar a mão na boca para tentar impedir o choro, onde as lágrimas corriam soltas. Saía dali assustado, mas logo esquecia o fato, quando encontrava suas irmãs tentando agarrar uma galinha que fugia batendo as asas e cacarejando em desespero.          Numa tarde, enquanto almoçavam o pai levantou-se e foi ver se a mãe queria comer. Ela não se alimentara desde que acordara. Todos ouviram um chamado abafado e enquanto a avó os abraçava, o avô entrou no quarto e soltou um gemido alto, som que nunca esqueceu.          Continuaram indo para o sítio, mas todos os adultos pareciam ter envelhecido de repente.          Hoje era ele quem cuidava dos poucos animais que havia ali. O avô e a avó não viviam mais e o pai costumava acompanhá-los nessas pequenas viagens.          Não contara a ninguém, mas pouco antes daquele almoço, entrara no quarto da mãe e vira que o rosto dela demonstrava dor. Quando ia sair, para não incomodá-la, ouviu a voz fraca chamando-o. Aproximou-se da cama e ela pediu que deitasse a seu lado. Disse que estava sujo, mas obedeceu. A mãe abraçou-o com uma força que achou não possuía.          Sem olhar para ela, aproveitou-se daquela chance que não se lembrava de ter acontecido antes e fechou os olhos ficando os dois enlaçados por um longo tempo. Ainda hoje o cheiro da mãe, misturado ao dos medicamentos que usava, o acompanham. Sorri quando o sente, porque aquele momento raro foi sua despedida. Só entre os dois.
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Candida Albernaz

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