Espera
Espera
Quanto tempo se passara desde que os vira pela última vez? Não sabia.
Estava pronta. Cortara o cabelo, pediu que alguém fizesse suas unhas e colocou um bonito vestido. Sentada na poltrona com a mala a seu lado, esperava que viessem buscá-la. Aprendera a controlar a ansiedade, conseguindo não olhar o relógio nem uma vez. Apenas observava o jardim através da janela, onde o vento fazia balançar as folhagens das árvores.
Sempre que se sentava ali, sentia paz. Mesmo quando era dia de chuva. Aquela janela parecia um quadro onde às vezes a tela era trocada.
O senhor Jorge veio chamá-la para que andasse um pouco, mas não queria. Guardava sua energia para quando as crianças chegassem e exigissem dela toda a atenção. Sentia saudades das brincadeiras que fazia com os filhos. Brincavam sempre: era cabra-cega, pique - esconde... Adorava jogar bola com os garotos. Sempre gostara de ficar com eles. O coração doía com a lembrança. Estava pensando... Será que eles ainda iam querer fazer essas brincadeiras com ela? Sua cabeça estava um pouco confusa. Não conseguia lembrar direito qual a idade deles.
Algumas vezes ficava quieta sem pensar em nada, só olhando a sua volta, pois pensar lhe trazia recordações que faziam seus olhos derramarem água.
O senhor Jorge se aproximava de novo, desta vez chamando-a para comer. Venha, coma alguma coisa e depois volta para cá.
Olhava-o enquanto sorria. Ele não entendia que não sentia fome. Sentia saudade. E depois, o marido quando chegasse a levaria para comer em algum lugar. Quem sabe, no seu restaurante favorito? Há tanto tempo não ia lá! Começava a ter fome só em lembrar-se da “galinha ao molho pardo” que preparavam. Era seu prato predileto Aposto que já havia feito reserva para os dois e os filhos. Sim, porque caso contrário não encontrariam lugar, vivia cheio.
Passou a mão no cabelo já branco, ajeitando uma mecha imaginária. Estava tranqüila e sentia-se bem. Também, há muito esperava por esse dia. O dia de voltar para casa. Sua cama, sua TV em frente à cadeira, sua jarra sempre com flores... Nunca a deixava vazia, quando as flores começavam a murchar, trocava-as por outras.
Nossa! Lá vinha o senhor Jorge. Já estava começando a ficar aborrecida com ele. Insistia para que saísse dali. Será que queria seu lugar? Sua poltrona em frente à janela? Olhou-o com desconfiança. Já estava começando a ficar preocupada. Se ele conseguisse tirá-la dali, de que adiantaria ter se arrumado toda? As crianças chegariam e não a veriam.
Estava escurecendo lá fora e percebia que as luzes do jardim começavam a se acender.
Ficara pronta cedo demais, mas é que não queria deixá-los esperando. Seu marido não era impaciente, mas nunca gostara que ninguém a esperasse.
Talvez fosse melhor pedir que alguém ligasse para ver se já haviam saído de casa. Talvez as crianças estivessem muito sujas das brincadeiras e então demoravam no banho. Talvez seu marido estivesse com algum problema no trabalho, e por isso se atrasara. Talvez, talvez.
Acabaram de acender as luzes da sala. Será que ia chover? Por isso escurecera tão rapidamente?
Poxa, lá vem ele, e dessa vez não estava sozinho. As duas meninas vestidas de branco se aproximaram e enquanto uma ajudava-a a se levantar, a outra lhe oferecia um comprimido e um pouco de água. Vamos senhora, já é noite, passou o dia sentada aí, nem mesmo quis comer. Tome seu remedinho, vai lhe dar tranqüilidade. Ficaria sonolenta e queria estar bem acordada quando chegassem. Sem querer, jogou o copo longe, e duas mãos então a seguraram com firmeza, enquanto outras a forçavam a se levantar.
Senhora, já é tarde e precisa se alimentar e dormir. Não quero! Meus filhinhos vão chegar, e meu marido se atrasou um pouco, mas está vindo buscar-me. Nós vamos almoçar todos juntos e depois vão me levar para casa. Que saudade, meu Deus! Que saudade da minha casa! Não me toquem, deixem-me aqui!
O comprimido já fora engolido à força, e suas pernas não lhe obedeciam mais. Sentia ser carregada até o quarto.
Talvez amanhã. Amanhã acordaria bem cedo, se arrumaria e sentaria na sua poltrona em frente à janela, de onde se podia ver o jardim e aí então, suas crianças chegariam.
Há tantos anos espera por isso... Amanhã conseguiria voltar para casa.