Espera
candida 03/02/2011 20:06
     Espera                                  Quanto tempo se passara desde que os vira pela última vez? Não sabia.                                  Estava pronta. Cortara o cabelo, pediu que alguém fizesse suas unhas e colocou um bonito vestido. Sentada na poltrona com a mala a seu lado, esperava que viessem buscá-la. Aprendera a controlar a ansiedade, conseguindo não olhar o relógio nem uma vez. Apenas observava o jardim através da janela, onde o vento fazia balançar as folhagens das árvores.                                    Sempre que se sentava ali, sentia paz. Mesmo quando era dia de chuva. Aquela janela parecia um quadro onde às vezes a tela era trocada.                                    O senhor Jorge veio chamá-la para que andasse um pouco, mas não queria. Guardava sua energia para quando as crianças chegassem e exigissem dela toda a atenção. Sentia saudades das brincadeiras que fazia com os filhos. Brincavam sempre: era cabra-cega, pique - esconde... Adorava jogar bola com os garotos. Sempre gostara de ficar com eles. O coração doía com a lembrança. Estava pensando... Será que eles ainda iam querer fazer essas brincadeiras com ela? Sua cabeça estava um pouco confusa. Não conseguia lembrar direito qual a idade deles.                                    Algumas vezes ficava quieta sem pensar em nada, só olhando a sua volta, pois pensar lhe trazia recordações que faziam seus olhos derramarem água.                                    O senhor Jorge se aproximava de novo, desta vez chamando-a para comer. Venha, coma alguma coisa e depois volta para cá.                                    Olhava-o enquanto sorria. Ele não entendia que não sentia fome. Sentia saudade. E depois, o marido quando chegasse a levaria para comer em algum lugar. Quem sabe, no seu restaurante favorito? Há tanto tempo não ia lá! Começava a ter fome só em lembrar-se da “galinha ao molho pardo” que preparavam. Era seu prato predileto Aposto que já havia feito reserva para os dois e os filhos. Sim, porque caso contrário não encontrariam lugar, vivia cheio.                                    Passou a mão no cabelo já branco, ajeitando uma mecha imaginária. Estava tranqüila e sentia-se bem. Também, há muito esperava por esse dia. O dia de voltar para casa. Sua cama, sua TV em frente à cadeira, sua jarra sempre com flores... Nunca a deixava vazia, quando as flores começavam a murchar, trocava-as por outras.                                    Nossa! Lá vinha o senhor Jorge. Já estava começando a ficar aborrecida com ele. Insistia para que saísse dali. Será que queria seu lugar? Sua poltrona em frente à janela? Olhou-o com desconfiança. Já estava começando a ficar preocupada. Se ele conseguisse tirá-la dali, de que adiantaria ter se arrumado toda? As crianças chegariam e não a veriam.                                     Estava escurecendo lá fora e percebia que as luzes do jardim começavam a se acender.                                    Ficara pronta cedo demais, mas é que não queria deixá-los esperando. Seu marido não era impaciente, mas nunca gostara que ninguém a esperasse.                                    Talvez fosse melhor pedir que alguém ligasse para ver se já haviam saído de casa. Talvez as crianças estivessem muito sujas das brincadeiras e então demoravam no banho. Talvez seu marido estivesse com algum problema no trabalho, e por isso se atrasara. Talvez, talvez.                                    Acabaram de acender as luzes da sala. Será que ia chover? Por isso escurecera tão rapidamente?                                    Poxa, lá vem ele, e dessa vez não estava sozinho. As duas meninas vestidas de branco se aproximaram e enquanto uma ajudava-a a se levantar, a outra lhe oferecia um comprimido e um pouco de água. Vamos senhora, já é noite, passou o dia sentada aí, nem mesmo quis comer. Tome seu remedinho, vai lhe dar tranqüilidade. Ficaria sonolenta e queria estar bem acordada quando chegassem. Sem querer, jogou o copo longe, e duas mãos então a seguraram com firmeza, enquanto outras a forçavam a se levantar.                                    Senhora, já é tarde e precisa se alimentar e dormir. Não quero! Meus filhinhos vão chegar, e meu marido se atrasou um pouco, mas está vindo buscar-me. Nós vamos almoçar todos juntos e depois vão me levar para casa. Que saudade, meu Deus! Que saudade da minha casa! Não me toquem, deixem-me aqui!                                    O comprimido já fora engolido à força, e suas pernas não lhe obedeciam mais. Sentia ser carregada até o quarto.                                    Talvez amanhã. Amanhã acordaria bem cedo, se arrumaria e sentaria na sua poltrona em frente à janela, de onde se podia ver o jardim e aí então, suas crianças chegariam.                                    Há tantos anos espera por isso... Amanhã conseguiria voltar para casa.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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