Pode ser sempre noite
Pode ser sempre noite
Cândida Albernaz
Esse sol em excesso confunde minha visão. Aliás, meus pensamentos também. Por que tanta claridade? E essa risada que vem da rua? Vou deixar as janelas fechadas hoje de novo. Não devia ter vindo morar nessa casa onde a luz passa pelos vidros. Boas mesmo são aquelas janelas de madeira pesada que cobrem qualquer luminosidade ou som.
A família ainda não sabe onde estou vivendo, afastei-me de todos. Gostavam de dar conselhos; você precisa procurar ajuda, você fica muito só, você não gosta de nada, você quase não fala mais... você, você, você.
Por que não se preocupam com eles próprios? Nunca suportei que me dissessem o que devo ou não fazer. Sei que estou rabugento, mas deve ser a idade. Perdi a paciência com todos. E com tudo também.
Preciso ficar em casa sozinho, e por isso não conhecem este endereço. Caso contrário fariam uma romaria até aqui. Houve uma época em que achava bom a casa cheia, com música baixa, é claro, e família reunida. Não tive filhos. Não podia e recusei adotar. Lúcia insistiu por muito tempo, mas fui irredutível. Não teria meu sangue, não seria meu.
Acho que foi isso que fez com que ela mudasse tanto. Às vezes ficava triste, pelos cantos. No início eu perguntava o que estava acontecendo, mas como a resposta era sempre a mesma, desisti. Brigávamos constantemente por isso.
Os sobrinhos costumavam nos visitar e ela fazia comidas especiais, organizava passeios e brincava como se fosse um deles. Reconheço que tinha jeito com crianças. Eu sempre fui rigoroso e sério. Gosto de tudo em seu lugar. Nunca fui paciente com alvoroço e desordem, mas apesar de não participar das brincadeiras, observava.
As irmãs dela e meu irmão, Gustavo, estavam sempre conosco. Lúcia preparava almoço aos domingos e convidava todos. O único problema era quando vinham com a conversa sobre adoção. Sua mulher é louca para ser mãe, você seria um bom pai. Difícil entender porque as pessoas acham que podem opinar na vida dos outros. Não me intrometo na de ninguém e espero o mesmo.
Quando Lúcia veio contar que havia conhecido alguém, fiquei olhando-a e ouvindo suas explicações como se não fosse comigo. Meu irmão, o senhor sabe tudo, disse que entrei em choque.
Não tive culpa, aconteceu. Conheci na escola onde dou aulas. Professor como eu. Ficamos amigos, me desabafava com ele. Conversávamos e fomos nos aproximando cada vez mais. Você não me escuta, mal nos falamos, pouco nos tocamos e cansei de pedir a você uma criança. Seríamos mais unidos, estou certa disso. E você mais alegre.
Lúcia torcia as mãos e andava pela sala enquanto falava.
Estou grávida e amo você.
Não me mexi. Continuei olhando-a. Recordo de ter pensado mais tarde, sentado no mesmo lugar, que não a estava vendo. Só ouvindo como uma voz que vinha de longe. Distante daquela sala.
Então ela parou diante de mim e pediu que dissesse alguma coisa. E eu falei: arrume suas coisas e saia daqui. Ou saio eu.
Não pegou nada naquele momento. Foi embora chorando e voltou no dia seguinte. Eu estava na cozinha tomando café, quando entrou dizendo que precisávamos conversar.
Olhei em seus olhos pela última vez: separei algumas coisas e volto amanhã às dezesseis horas para pegar o resto. Não quero que esteja aqui. Não quero conversar, menos ainda ouvir sua voz. Não diga que me ama, porque não amo mais você. Avise à sua família que jamais quero vê-los. Pode ficar com a casa. Essa rua para mim deixou de existir. Não desejo mal nem bem a você. Está morta.
Levantei, lavei a xícara que usei, sequei com a toalha de prato e guardei no armário.
Não consigo lembrar como foi no dia seguinte, quando voltei para pegar minhas coisas. Sei que estão comigo.
Saía pouco, e depois disso, até o pouco acabou. Sobrinhos e cunhada desistiram de me ver. Eu os tratava mal e pedia que me deixassem em paz. Não me arrependo. Prefiro ficar sem ninguém perturbando.
Como pouco e pela reação de Gustavo quando esteve comigo, emagreci bastante. Tenho sentido algumas dores no peito e dormência no braço.
Quando não estou trabalhando com as traduções, leio, assisto jornais na televisão ou fico quieto sentado numa cadeira, sem pensar. Adquiri o hábito de não pensar. É quase como dormir acordado.
Talvez Gustavo encontre esse lugar qualquer dia desses. Espero que não.
7/2/2011.