Não dá para voltar atrás
candida 16/02/2011 23:11
Não dá para voltar atrás          Cândida Albernaz  Enquanto caminhava não parava de pensar. Olhou para um lado e outro, não vinha carro e atravessou a rua. Deixou o seu na garagem de casa. Queria andar um pouco. Só não imaginava que o sol estivesse tão forte àquela hora. Oito horas da manhã  e esse calor. Parou na banca de jornal e comprou um. Deixou de ler por algum tempo. Falavam sempre sobre os mesmos assuntos e passou a se entristecer com as matérias sobre as tragédias que se sucediam. Não se recordava quando começou a ficar tão emotivo. Talvez a idade tivesse uma parcela de culpa.  Diante de uma vitrine, viu seu reflexo no vidro. O cabelo no alto da cabeça começava a rarear e uma barriga que tinha certeza, não poderia ser sua, marcava a camisa de malha. Abaixou para amarrar o cordão do tênis, quando notou que o laço havia sido desfeito. Um par de sapatos femininos parou à sua frente. Olhou para o alto, mas o reflexo do sol não deixou que identificasse quem era. Levantou e deu de cara com dois olhos grandes e um sorriso que pensava ter esquecido.  - Jairo!  Fechou os olhos por segundos.  - Ei! O que há? Não me reconhece?  Claro que a reconhecia. Luciana. O tempo não havia passado para ela. Em compensação, tinha certeza de que para ele... Lembrou que tinha um pequeno furo na costura da gola. Não se preocupou com o que ia usar. Não havia nenhuma reunião marcada para a parte da manhã e estava um pouco cansado. Pegou uma malha velha e vestiu.  Na última vez em que se viram, ele mantinha o corpo forte, com braços e pernas musculosos. E essa porcaria de cabelo, ainda não havia caído tanto.  - Como vai, Luciana? Pela cidade?  E pelo jeito perdeu toda a inteligência também. Não conseguia falar nada que não fosse óbvio. Se ela permanecia ali parada, é evidente que estava na cidade.  Sentiu-se ridículo diante daquela mulher bem vestida, com uma saia branca acima do joelho, mostrando parte das pernas e a pele bronzeada. Continuava chamando atenção.  - Deixe de ser formal comigo. Afinal, vivemos parte de nossas vidas juntos.  Fez tanto esforço para esquecer e em questão de minutos tudo voltava.  - Você está muito calado. Venha, vamos tomar alguma coisa na lanchonete da esquina. Estamos precisando, tenho certeza. Com esse calor... Que cara é essa? Parece estar vendo fantasma...   E riu alto, jogando a cabeça para trás, como sempre fazia. O cabelo preto, continuava usando na altura do ombro. Gostava de enfiar seus dedos nele e puxá-los para trás quando a beijava. Ela gemia baixinho pela pequena dor provocada.  Seguiu-a enquanto ela falava que estava ali acompanhando o marido que viera para um congresso.  -...sobre implante, você sabe. Vai dar uma palestra a respeito.  Sabia perfeitamente que o sujeito com quem ela se casara, era um bam-bam-bam na área de odontologia. Mas ele também era bom no que fazia. Sua agência de publicidade possuía as maiores contas da cidade  Sentaram e ela pediu dois sucos de laranja com cenoura.  - Acho que ainda lembro o que você gosta.  Não avisou que sua preferência para sucos havia mudado.  A auto confiança de Luciana continuava a mesma, e demonstrava segurança ao falar. E foi o que fez. Falou de suas viagens, da filha que agora morava no exterior, do trabalho de publicitária, o qual largara para ficar com o tempo livre, porque se sentia bem acompanhando e cuidando do marido.  Imaginou onde escondeu o talento que possuía. Foi na faculdade que Jairo e ela se conheceram e quando se formaram, abriu a agência e levou-a com ele. Foram dez anos morando e trabalhando juntos. Fizeram grandes negócios. O poder de criação dela era incrível.  Também viajavam muito. Fins de semana na praia onde descansavam e planejavam o futuro. Queriam filhos, mas teriam que esperar. Precisavam crescer na profissão primeiro.  Necessitaram contratar novos funcionários e foi aí que apareceu Carla. Loura, baixinha, com um corpo e uma boca que mexiam com os homens. As duas desde o início tiveram antipatia mútua. Fingiu não perceber.  Numa das noites em que avisou à Luciana que chegaria mais tarde porque tinha um jantar com um cliente, não esperava que ela aparecesse na agência.  Ele e Carla, nus na sala de reuniões. Não havia o que explicar. Ela o olhou de um jeito doído que jamais deixou de lembrar. Tentou conversar, falou que fora um impulso, não aconteceria novamente, mandaria a garota embora, mas que o perdoasse.  Continuaram ainda por três meses e no fim desse tempo, ela avisou que havia recebido uma proposta de emprego em outra cidade, em outro estado. Aceitou e não cumpriria o aviso, pois se comprometera a começar em dois dias.  - E nós dois?  O mesmo olhar que viu naquela noite se repetiu.  - Não existe mais nós dois.  Agora a ouvindo falar sobre sua vida com tanta empolgação, sentiu uma pontada de inveja daquele homem.  Jairo também se casou e teve dois filhos que moravam com a mãe. Separou-se da primeira mulher e vivia um novo relacionamento, contou.  - Eu sei.  Quando a olhou surpreso por ver que ela sabia coisas sobre sua vida, explicou:  - Alguém me contou.  - Quem?  - Não me lembro mais.  Seus olhos se firmaram e viu nos dela que não era bem assim. Soube naquele minúsculo instante que não o esquecera.  Ela empurrou a cadeira para trás e levantando, avisou que precisava ir. O marido já devia estar esperando. Almoçariam antes que ele voltasse para uma nova palestra.  - Por que não nos vemos mais tarde então? - ele perguntou.  - Não posso. Quero encontrar alguns amigos e volto ainda hoje para São Paulo.  Imaginou ter visto nela, o olhar antigo, aquele que o perseguia.  Luciana sorriu e deu dois beijos em seu rosto. Na rua, parado, acompanhou seus passos até que ela virou-se e deu adeus com a mão.  Jairo caminhou para o lado oposto. O calor ficou insuportável. Resolveu pegar um táxi para voltar para casa. Desistiu de caminhar. O corpo parecia ter um peso impossível de carregar.         14/2/2011.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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