Não dá para voltar atrás
Não dá para voltar atrás
Cândida Albernaz
Enquanto caminhava não parava de pensar. Olhou para um lado e outro, não vinha carro e atravessou a rua. Deixou o seu na garagem de casa. Queria andar um pouco. Só não imaginava que o sol estivesse tão forte àquela hora. Oito horas da manhã e esse calor.
Parou na banca de jornal e comprou um. Deixou de ler por algum tempo. Falavam sempre sobre os mesmos assuntos e passou a se entristecer com as matérias sobre as tragédias que se sucediam. Não se recordava quando começou a ficar tão emotivo. Talvez a idade tivesse uma parcela de culpa.
Diante de uma vitrine, viu seu reflexo no vidro. O cabelo no alto da cabeça começava a rarear e uma barriga que tinha certeza, não poderia ser sua, marcava a camisa de malha. Abaixou para amarrar o cordão do tênis, quando notou que o laço havia sido desfeito. Um par de sapatos femininos parou à sua frente. Olhou para o alto, mas o reflexo do sol não deixou que identificasse quem era. Levantou e deu de cara com dois olhos grandes e um sorriso que pensava ter esquecido.
- Jairo!
Fechou os olhos por segundos.
- Ei! O que há? Não me reconhece?
Claro que a reconhecia. Luciana. O tempo não havia passado para ela. Em compensação, tinha certeza de que para ele... Lembrou que tinha um pequeno furo na costura da gola. Não se preocupou com o que ia usar. Não havia nenhuma reunião marcada para a parte da manhã e estava um pouco cansado. Pegou uma malha velha e vestiu.
Na última vez em que se viram, ele mantinha o corpo forte, com braços e pernas musculosos. E essa porcaria de cabelo, ainda não havia caído tanto.
- Como vai, Luciana? Pela cidade?
E pelo jeito perdeu toda a inteligência também. Não conseguia falar nada que não fosse óbvio. Se ela permanecia ali parada, é evidente que estava na cidade.
Sentiu-se ridículo diante daquela mulher bem vestida, com uma saia branca acima do joelho, mostrando parte das pernas e a pele bronzeada. Continuava chamando atenção.
- Deixe de ser formal comigo. Afinal, vivemos parte de nossas vidas juntos.
Fez tanto esforço para esquecer e em questão de minutos tudo voltava.
- Você está muito calado. Venha, vamos tomar alguma coisa na lanchonete da esquina. Estamos precisando, tenho certeza. Com esse calor... Que cara é essa? Parece estar vendo fantasma...
E riu alto, jogando a cabeça para trás, como sempre fazia. O cabelo preto, continuava usando na altura do ombro. Gostava de enfiar seus dedos nele e puxá-los para trás quando a beijava. Ela gemia baixinho pela pequena dor provocada.
Seguiu-a enquanto ela falava que estava ali acompanhando o marido que viera para um congresso.
-...sobre implante, você sabe. Vai dar uma palestra a respeito.
Sabia perfeitamente que o sujeito com quem ela se casara, era um bam-bam-bam na área de odontologia. Mas ele também era bom no que fazia. Sua agência de publicidade possuía as maiores contas da cidade
Sentaram e ela pediu dois sucos de laranja com cenoura.
- Acho que ainda lembro o que você gosta.
Não avisou que sua preferência para sucos havia mudado.
A auto confiança de Luciana continuava a mesma, e demonstrava segurança ao falar. E foi o que fez. Falou de suas viagens, da filha que agora morava no exterior, do trabalho de publicitária, o qual largara para ficar com o tempo livre, porque se sentia bem acompanhando e cuidando do marido.
Imaginou onde escondeu o talento que possuía. Foi na faculdade que Jairo e ela se conheceram e quando se formaram, abriu a agência e levou-a com ele. Foram dez anos morando e trabalhando juntos. Fizeram grandes negócios. O poder de criação dela era incrível.
Também viajavam muito. Fins de semana na praia onde descansavam e planejavam o futuro. Queriam filhos, mas teriam que esperar. Precisavam crescer na profissão primeiro.
Necessitaram contratar novos funcionários e foi aí que apareceu Carla. Loura, baixinha, com um corpo e uma boca que mexiam com os homens. As duas desde o início tiveram antipatia mútua. Fingiu não perceber.
Numa das noites em que avisou à Luciana que chegaria mais tarde porque tinha um jantar com um cliente, não esperava que ela aparecesse na agência.
Ele e Carla, nus na sala de reuniões. Não havia o que explicar. Ela o olhou de um jeito doído que jamais deixou de lembrar. Tentou conversar, falou que fora um impulso, não aconteceria novamente, mandaria a garota embora, mas que o perdoasse.
Continuaram ainda por três meses e no fim desse tempo, ela avisou que havia recebido uma proposta de emprego em outra cidade, em outro estado. Aceitou e não cumpriria o aviso, pois se comprometera a começar em dois dias.
- E nós dois?
O mesmo olhar que viu naquela noite se repetiu.
- Não existe mais nós dois.
Agora a ouvindo falar sobre sua vida com tanta empolgação, sentiu uma pontada de inveja daquele homem.
Jairo também se casou e teve dois filhos que moravam com a mãe. Separou-se da primeira mulher e vivia um novo relacionamento, contou.
- Eu sei.
Quando a olhou surpreso por ver que ela sabia coisas sobre sua vida, explicou:
- Alguém me contou.
- Quem?
- Não me lembro mais.
Seus olhos se firmaram e viu nos dela que não era bem assim. Soube naquele minúsculo instante que não o esquecera.
Ela empurrou a cadeira para trás e levantando, avisou que precisava ir. O marido já devia estar esperando. Almoçariam antes que ele voltasse para uma nova palestra.
- Por que não nos vemos mais tarde então? - ele perguntou.
- Não posso. Quero encontrar alguns amigos e volto ainda hoje para São Paulo.
Imaginou ter visto nela, o olhar antigo, aquele que o perseguia.
Luciana sorriu e deu dois beijos em seu rosto. Na rua, parado, acompanhou seus passos até que ela virou-se e deu adeus com a mão.
Jairo caminhou para o lado oposto. O calor ficou insuportável. Resolveu pegar um táxi para voltar para casa. Desistiu de caminhar. O corpo parecia ter um peso impossível de carregar.
14/2/2011.