Só entre os dois
candida 30/12/2010 19:12
Só entre os dois                                                         Cândida Albernaz          - Pai, dessa vez está indo por outra estrada, não é?          - Claro que não. Você não viu porque dormia.          - Passamos por aquela fazenda cheia de bois?                                                 - Ham, ham.          - Eu não vi. – os olhos encheram-se de água.          - Querida, eles também estavam dormindo. Mas quando voltarmos prometo que estarão lá.          Olhou pelo retrovisor e viu que a filha havia esquecido o assunto. Seus olhos buscavam um pássaro branco que passou voando próximo deles.          A mulher dormia com a cabeça pendendo hora para um lado hora para outro. A boca entreaberta emitia um ruído baixo, parecido com um gargarejo. Quando acordasse, reclamaria do pescoço dolorido. Sorriu. Lembrou-se de quando era criança e do enorme carro que o pai dirigia com orgulho. Ele e suas duas irmãs sentavam no banco traseiro disputando a janela, até que a mãe mandava que os três se calassem. Ela não era uma mulher com muita saúde, o coração vivia pregando susto nos dois. O pai tinha cuidados especiais com a mulher, como se fosse uma criança. Sua avó dizia que “você a mima demais, parece que ela é a filha”.          Quando iam para o sítio, ela passava a maior parte do tempo dormindo, enquanto seu pai saía com os filhos a alimentar bichos, ordenhar vacas, o que fazia com que rissem muito, já que não era uma tarefa fácil e costumavam se atrapalhar. O ponto alto ficava por conta do momento em que montavam os cavalos e disputavam (meio devagar, é verdade), quem chegava primeiro ao lugar combinado. Estes dias no sítio costumavam ser perfeitos, a não ser quando a avó e a mãe discutiam. Ela exigia da filha uma disposição que esta dizia não ter. Ficou muito tempo com dúvidas de que a doença seria uma desculpa para não tomar parte de nada ou realmente a impedia.          Dependiam do pai para quase tudo. Algumas vezes durante os passeios no sítio, paravam sob uma árvore e conversavam. Ele então explicava que se a mãe deles não participava do que faziam, era porque não agüentava.          Sua irmã certa vez perguntou por que ela nunca os abraçava e ele falou: “não tenham dúvida sobre o amor dela por vocês. Tem um jeito diferente de pensar, acha que não devem se apegar tanto a ela, para não sofrerem, mas os ama muito”.          Não entendeu aquela história de se apegar e sofrer, mas não perguntou nada.          Foi no sítio que os abandonou. Naquela época estava muito fraca e a viagem havia se tornado um grande esforço. As confusões dela com sua avó, já haviam deixado de acontecer há muito. As duas conversavam e por diversas vezes ele viu a avó sair do quarto e ao fechar a porta, colocar a mão na boca para tentar impedir o choro, onde as lágrimas corriam soltas. Saía dali assustado, mas logo esquecia o fato, quando encontrava suas irmãs tentando agarrar uma galinha que fugia batendo as asas e cacarejando em desespero.          Numa tarde, enquanto almoçavam o pai levantou-se e foi ver se a mãe queria comer. Ela não se alimentara desde que acordara. Todos ouviram um chamado abafado e enquanto a avó os abraçava, o avô entrou no quarto e soltou um gemido alto, som que nunca esqueceu.          Continuaram indo para o sítio, mas todos os adultos pareciam ter envelhecido de repente.          Hoje era ele quem cuidava dos poucos animais que havia ali. O avô e a avó não viviam mais e o pai costumava acompanhá-los nessas pequenas viagens.          Não contara a ninguém, mas pouco antes daquele almoço, entrara no quarto da mãe e vira que o rosto dela demonstrava dor. Quando ia sair, para não incomodá-la, ouviu a voz fraca chamando-o. Aproximou-se da cama e ela pediu que deitasse a seu lado. Disse que estava sujo, mas obedeceu. A mãe abraçou-o com uma força que achou não possuía.          Sem olhar para ela, aproveitou-se daquela chance que não se lembrava de ter acontecido antes e fechou os olhos ficando os dois enlaçados por um longo tempo. Ainda hoje o cheiro da mãe, misturado ao dos medicamentos que usava, o acompanham. Sorri quando o sente, porque aquele momento raro foi sua despedida. Só entre os dois.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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