Olhar perdido
candida 06/01/2011 23:01
Olhar perdido                        Cândida Albernaz             - E então, como está meu tio? - Vai ficar bem apesar da idade. Setenta e dois anos, não é? Ele me parece forte. A garota que veio com vocês precisa ser operada. O caso dela é delicado. - Coitada da Alzira. Estava no carona e foi o lado em que o carro bateu. A vida não tem sido fácil para ela. - Preciso de alguns dados. Você, o que é da garota? - Dela, nada. - Sabe pelo menos o nome completo e a idade? - Alzira da Silva. Dezoito anos. - Vocês estavam indo... - Para a casa do meu tio. Eu ia passar a noite lá. Fomos a Casemiro comprar uns bois. Eu trabalho com ele, na fazenda. O tio tem umas terras para o lado de São Fidélis. Não tá mal de vida, não. - E a menina, é sobrinha também? - Não senhora. Que sobrinha, que nada. É mulher dele. - Sei... - Eles vivem juntos há quatro anos. - ... - Acha que é muito jovem, né?  Que nada. Já está ficando velha para o gosto do tio. Ele nunca fica com elas depois que fazem vinte. Mania, sei lá. - Mas como se conheceram? - Como todas as outras. Ele já foi casado umas dez vezes, mais ou menos. A primeira, que era a irmã do meu pai, casou com ele quando tinha quinze anos. Morreu aos vinte e cinco no parto. Desde aquela época, não vejo meu tio sozinho. Mas os casamentos dele não duram muito. - Quantos filhos ele tem? - Só dois, que foi com minha tia. As outras ele não deixa engravidar. Diz que não gosta de mulher buchuda, fica feia. - Mas a Alzira estava grávida. - Então ela escondeu... Porque se o tio descobre, a criança não vinga. - Perdeu o bebê. Estava com quatro meses. - Bem que hoje vi quando ele reclamou que ela estava comendo muito e ficando gorda. - Ele ia mandar tirar? - Claro. Tem um lugar aí onde o tio leva as meninas. Diz que se elas têm filhos, além da trabalheira, param de ter tempo para cuidar dele. Fala também que o corpo deixa de ser o mesmo. - Onde moram os pais de Alzira? - Numa roça perto daqui. São pobres por demais. O pai tá desempregado faz tempo. Só a mãe dela é quem trabalha. Cinco filhos, doutora. - Então seu tio se ofereceu para cuidar deles... - Isso mesmo. A senhora já conhece a história, né? Botou os olhos na menina e disse que queria para ele. Tava casado com outra na época. Mandou a garota de volta para casa, que nisso ele faz questão: não fica com duas ao mesmo tempo. Depois disso saiu atrás de convencer os pais de Alzira. - E a que estava com ele, não reclamou? Vai embora e pronto? - Não é bem assim. Ele continua cuidando dela. Manda dinheiro todo mês. Não é muito, mas também não passa fome. Sempre faz desse jeito. A família das meninas acaba ficando amiga dele, porque o tio não é de cuspir no prato que comeu. - Você não está sentindo nada, não é mesmo? Todos os exames feitos deram bons resultados. É só ficar em observação por algumas horas. Amanhã recebe alta. - Doutora? - Sim? - Se meu tio sabe que a Alzira mentiu, não fica mais com ela. Tenho pena. De todas as meninas com quem ele amigou, a Alzira é a mais triste. Vive pelos cantos com o olhar bem longe. - Não posso esconder. - Se ele a manda de volta com raiva, não vai querer ajudar. E o tempo que ela levou casada para garantir o futuro da família? - Vou ver o que posso fazer. - Faltam só dois anos para ele dispensar a Alzira. - Vamos ver. - Doutora? - ... - O meu tio não pode ter mais filho faz um ano. Um probleminha que teve. - Mas a Alzira estava grávida. Tem certeza? - Meu, doutora. O bebê devia ser meu. A bobona não contou nada. - Você e ela... - Pois é, se meu tio descobre, bota nós dois para correr ou coisa pior. Já mandou matar um que se engraçou com uma das meninas dele. - ... - Ela tem um olhar tão perdido, a gente vivia conversando, daí... Doutora, ele vai desgraçar com nossa vida.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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