Olhar perdido
Olhar perdido
Cândida Albernaz
- E então, como está meu tio?
- Vai ficar bem apesar da idade. Setenta e dois
anos, não é? Ele me parece forte.
A garota que veio com vocês precisa ser operada. O caso dela é delicado.
- Coitada da Alzira. Estava no carona e foi o lado em que o carro bateu. A vida não tem sido fácil para ela.
- Preciso de alguns dados. Você, o que é da garota?
- Dela, nada.
- Sabe pelo menos o nome completo e a idade?
- Alzira da Silva. Dezoito anos.
- Vocês estavam indo...
- Para a casa do meu tio. Eu ia passar a noite lá. Fomos a Casemiro comprar uns bois. Eu trabalho com ele, na fazenda. O tio tem umas terras para o lado de São Fidélis. Não tá mal de vida, não.
- E a menina, é sobrinha também?
- Não senhora. Que sobrinha, que nada. É mulher dele.
- Sei...
- Eles vivem juntos há quatro anos.
- ...
- Acha que é muito jovem, né? Que nada. Já está ficando velha para o gosto do tio. Ele nunca fica com elas depois que fazem vinte. Mania, sei lá.
- Mas como se conheceram?
- Como todas as outras. Ele já foi casado umas dez vezes, mais ou menos.
A primeira, que era a irmã do meu pai, casou com ele quando tinha quinze anos. Morreu aos vinte e cinco no parto. Desde aquela época, não vejo meu tio sozinho.
Mas os casamentos dele não duram muito.
- Quantos filhos ele tem?
- Só dois, que foi com minha tia. As outras ele não deixa engravidar. Diz que não gosta de mulher buchuda, fica feia.
- Mas a Alzira estava grávida.
- Então ela escondeu... Porque se o tio descobre, a criança não vinga.
- Perdeu o bebê. Estava com quatro meses.
- Bem que hoje vi quando ele reclamou que ela estava comendo muito e ficando gorda.
- Ele ia mandar tirar?
- Claro. Tem um lugar aí onde o tio leva as meninas. Diz que se elas têm filhos, além da trabalheira, param de ter tempo para cuidar dele. Fala também que o corpo deixa de ser o mesmo.
- Onde moram os pais de Alzira?
- Numa roça perto daqui. São pobres por demais. O pai tá desempregado faz tempo. Só a mãe dela é quem trabalha. Cinco filhos, doutora.
- Então seu tio se ofereceu para cuidar deles...
- Isso mesmo. A senhora já conhece a história, né?
Botou os olhos na menina e disse que queria para ele. Tava casado com outra na época. Mandou a garota de volta para casa, que nisso ele faz questão: não fica com duas ao mesmo tempo. Depois disso saiu atrás de convencer os pais de Alzira.
- E a que estava com ele, não reclamou? Vai embora e pronto?
- Não é bem assim. Ele continua cuidando dela. Manda dinheiro todo mês. Não é muito, mas também não passa fome. Sempre faz desse jeito.
A família das meninas acaba ficando amiga dele, porque o tio não é de cuspir no prato que comeu.
- Você não está sentindo nada, não é mesmo? Todos os exames feitos deram bons resultados. É só ficar em observação por algumas horas. Amanhã recebe alta.
- Doutora?
- Sim?
- Se meu tio sabe que a Alzira mentiu, não fica mais com ela. Tenho pena. De todas as meninas com quem ele amigou, a Alzira é a mais triste. Vive pelos cantos com o olhar bem longe.
- Não posso esconder.
- Se ele a manda de volta com raiva, não vai querer ajudar. E o tempo que ela levou casada para garantir o futuro da família?
- Vou ver o que posso fazer.
- Faltam só dois anos para ele dispensar a Alzira.
- Vamos ver.
- Doutora?
- ...
- O meu tio não pode ter mais filho faz um ano. Um probleminha que teve.
- Mas a Alzira estava grávida. Tem certeza?
- Meu, doutora. O bebê devia ser meu. A bobona não contou nada.
- Você e ela...
- Pois é, se meu tio descobre, bota nós dois para correr ou coisa pior. Já mandou matar um que se engraçou com uma das meninas dele.
- ...
- Ela tem um olhar tão perdido, a gente vivia conversando, daí...
Doutora, ele vai desgraçar com nossa vida.