Desculpe
Desculpe
Cândida Albernaz
A sala de poucos móveis estava escura. Apenas um pequeno abajur iluminava o local. Sentado na poltrona predileta, decidia se deveria ou não acender um charuto. Marta não gosta de vê-lo fumando. Sempre implica e o faz desistir.
Trouxera uma caixa da última viagem que fizeram à Paris. Ainda se lembrava da mulher e ele entrando na pequena lojinha no Marais. Saíram dali e enquanto ela tomava um sorvete, ele saboreava seu charuto. Era um dia de sol, bem diferente de hoje, quando precisava manter as janelas fechadas para que a chuva não molhasse tudo.
Marta acabou de entrar jogando-se no sofá. Parece cansada. Ultimamente percebera que estava mais impaciente, talvez estivesse exigindo muito dela.
- As crianças foram para a escola?
Ela apenas olhava-o sem responder.
- Estou preocupado com o Marcos, não gosto desse novo amigo com quem tem saído. Não me parece muito honesto. Deve ter puxado ao pai que todos sabem é um caloteiro. Outro dia vi nosso filho dando dinheiro a ele. Perguntei o porquê de estar fazendo isso e desconversou. Acredito que tenha emprestado e aposto que nunca mais vai ver a cor do mesmo.
Parecia que o rosto dela se fechava como se uma sombra passasse. Virou-se para não olhar para ele. Não queria conversa. Isso o entristecia. Sempre gostara de saber o que tinha para dizer. Era sensata e lhe dava bons conselhos. Até sobre os negócios costumava ouvir sua opinião. Isso agora faz tempo, no momento não queria falar com ele, só escutar. Achava que nunca se acostumaria quando ela resolvia agir assim.
Levantou e dirigindo-se até sua mulher, passou as mãos em seus cabelos. Usava-os curtos acima do ombro. Dizia sentir muito calor, por isso preferia cortá-los desta forma.
Ela mal o olhou enquanto a tocava, sabia que estava magoada com algo que fizera. Não imaginava o quê. Também não adiantava perguntar por que não queria responder.
Sentou outra vez, resolvendo lembrar-se de coisas boas vividas por eles. Quem sabe assim ela voltaria a ser como antes?
Falou sobre outras viagens, festas que realizaram juntos, o nascimento dos filhos, isto sempre a emocionava, e do quanto a amava.
- Já sei o que faremos. Voltaremos a Paris ainda este ano e levaremos nossos filhos. Sei o quanto sente saudades deles quando viajamos. Não serei egoísta querendo você só para mim. Vamos, me dê um sorriso. Preciso que me perdoe seja lá do que for.
Ele agora andava de um lado para o outro impaciente. Não continha mais sua irritação por ela não emitir nenhum tipo de reação a toda aproximação que tentava.
Gesticulava em frente a Marta, que não se dignava a olhá-lo. Já não pedia mais seu perdão. Exigia.
Atrás dele, segurando-o pelo braço, Augusto pedia para que se acalmasse.
-Tome seu remédio. O senhor hoje está muito agitado.
Com a ajuda de outro enfermeiro, conseguiu medicá-lo e fazer com que se deitasse.
Ainda tentou avisá-los que iam machucar Marta, colocando-o em cima dela daquele jeito.
-Falando sozinho de novo. Talvez o doutor tenha que aumentar a dose. A cada dia ele parece mais nervoso.
O medicamento estava fazendo efeito. Antes de fechar os olhos, viu que Marta o olhava e sentiu que ela tentava tranqüilizá-lo. Aceitou suas desculpas. Quando acordasse conversariam.