A vida que a gente não escolhe
candida 17/03/2011 10:49
A vida que a gente não escolhe         Cândida Albernaz  A barriga ocultava parte da bermuda preta. O chão estava coberto de lama a sua volta, mas isso não parecia incomodar.  Segurando a mangueira verde, direcionava o jato no menino que corria fingindo fugir da água fria. Riam pai e filho naquele domingo em que o sol tentava fazer derreter tudo o que estivesse abaixo dele.  Gostava dos dias em que o pai tinha o riso arreganhado no rosto e costumava observar como a barriga dele subia e descia nesses momentos.  Ele era um homem alto, gordo, com mãos que considerava imensas e um bom humor que só se abalava quando discutia com a mãe. Nunca vira o pai batendo boca com qualquer outra pessoa. Amável e educado, apesar de sua aparência mostrar o contrário.  A mãe, o oposto. Vivia zangada, reclamava de tudo, dizia que não havia sonhado com essa vida para ela. Queria ter saído daquela cidadezinha pobre e principalmente daquele bairro imundo. Tinha o hábito de culpar o marido por não conseguir nada melhor do que ser mecânico. Que mulher sonha em ter um marido sujo de graxa? E ainda por cima que não podia levá-la a nenhum lugar decente? Não nascera para aquela vida. Vivia resmungando.  Tinha pena e raiva da mãe. Perdia todo o seu tempo querendo o que jamais poderia ter. Quer dizer, parte do tempo, porque no resto dele, bebia.  Quando os dois brigavam, quase sempre era porque ela havia enchido a cara. O pai então vasculhava a casa e encontrava garrafas escondidas em todo canto. Ultimamente desenterrara algumas no quintal.  Apesar do problema ser sério, ria quando o pai bancava o cão farejador procurando as bebidas. Cachaça, a maioria, ela não tinha dinheiro para comprar coisa melhor.  Quando encontrava, retirava a tampa da garrafa e despejava o líquido no vaso sanitário. A mãe enlouquecia e gritava todos os palavrões que conhecia. O marido nem ligava e continuava jogando tudo fora.  Numa das vezes ela deu um tapa nele. Para nunca mais. Quando viu os olhos do pai, teve medo. E ela também.  Segurou a mão da mulher e aproximou-a do rosto, fazendo com que batesse em si mesma com força. Em seguida, soltou e ela saiu correndo até o quarto. Da sala dava para ouvir seus soluços. Não se recordava da mãe ter agredido o pai de novo.  Os períodos em que ela desistia de beber eram quase perfeitos. Servia o almoço e o jantar sempre na hora, acompanhava as festas e reuniões da escola. Afirmava que o marido era o melhor homem do mundo e que não havia menino que pudesse dar mais orgulho a sua mãe do que ele. Essa abstinência durava no máximo dois ou três meses.  Houve uma vez em que ficou um ano sem colocar álcool na boca. Foi logo depois do tal tapa. Tiveram paz e achou que seria para sempre.  Então um dia ela demorava mais do que normal. Ele já havia feito o dever da escola, o pai colocou a comida para os dois e então sentou na cadeira da sala e ficou olhando para-o-relógio-para-a-porta-para-o-relógio-para-a-porta-para-o-relógio-para-a-porta e nada da mulher chegar.  Sabiam o que provavelmente acontecera e ele rezava baixinho para que ela tivesse se machucado no caminho, ou quem sabe poderia estar num hospital sem poder avisar, ou fora assaltada...  Não foi o que aconteceu. Às dez horas da noite, ela irrompeu pela porta, cambaleando e rindo da cara dos “dois otários”. O marido foi para fora, abriu o portão e saiu. Ele continuou parado, com medo de se mexer e ela se virar contra ele. Quando estava assim, qualquer ação poderia ser interpretada do jeito dela. E na maioria esse jeito era agressivo para o lado do filho.  Mas não encostou nele. Foi direto para o quarto, deitou na cama com a roupa que estava e apagou.  Ouviu quando ela e o pai conversaram no dia seguinte. Jurou que não repetiria e que fraquejara porque a patroa reclamou com ela sobre uma jarra que quebrara sem querer e avisou que descontaria o valor de seu salário.  Claro que ela bebeu no outro dia, e no outro e no outro.  Durante o banho de mangueira eles pareciam ser únicos no mundo. Almoçariam mais tarde, a comida que a mãe deixou pronta antes de sair. Avisou que ia visitar a mãe dela.  Eles sabiam que a casa da avó ficava do lado oposto para o qual ela se dirigiu.  Sabiam também que quando ela retornasse, ficaria olhando para eles com aquele olhar embaçado e um sorriso demente na boca. Não xingava mais ou gritava, o que era um alivio.  Na manhã seguinte, ficaria trancada no quarto por muito tempo e ao entrar na sala notariam que a cara estava inchada de chorar.  Tinha pena do pai, pena dele mesmo. Da mãe, sentia uma raiva triste que apertava o peito e fazia com que baixasse os olhos quando ela estava por perto.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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