Para nunca mais
candida 24/02/2011 01:26
Para nunca mais          Cândida Albernaz    Ainda ama seus dentes brancos na boca larga que quando sorri, parece iluminar o mundo.  Sente falta dos dedos longos e do corpo magro que quando a abraça faz com que se sinta menina outra vez.  Adora o jeito de passar as mãos no cabelo farto e preto e principalmente de sua voz quando fala tentando entender os por quês do que acontece e não tem como explicar. Tão diferentes no tempo e na vida vivida.  Não sabia para que relembrar isso agora.  Claro que a foto que reviu hoje, onde ele com a pele morena do sol a que se expôs, porque gosta do mar, contrastando com a bata branca aberta no peito foi o motivo. O rosto demonstrando mais idade do que realmente tinha. E a boca, sempre fora sua boca o que a seduziu.  Não devia ter satisfeito a vontade de abrir páginas do passado. Agora os pensamentos antes tão controlados não obedeciam ao que tentava exigir deles. Voavam livres por sua cabeça, sem comando algum.  Não sabia quantas vezes estiveram juntos ou quantas se falaram. Ele com o jeito de não aceitar recusas, não se importando em implorar atenção, fez com que se entregasse sem perceber.   *    *    *  A cozinheira perguntou o que fazer para o almoço. Comer? Nossa, a cabeça estava longe. Decidiu que preparasse um peixe no forno com uma salada e o que mais imaginasse. Pensasse em algo por ela.  Dormiu demais. Ou de menos. É tarde e só agora resolveu sair do quarto. Uma noite mal sonhada. O peito parecia que não ia desacelerar nunca.  O comprimido para relaxar e um livro fez com que voltasse a dormir.    *    *    *  Naquela noite em que, segundo ele, fizera uma proposta irrecusável para ela de pegar a estrada para estarem sozinhos e estiveram sentados na cozinha de sua casa, conversando por horas, ela ficou pensando em tudo o que podia ter feito ou dito e não teve coragem.  Por duas vezes ao beber a água que colocou no copo, deixou que escorresse pelo queixo, respingando no decote do vestido. Absorvia o que ele falava e isso a distraiu. Queria ter só mais uma chance de estar lá e fazer o que imaginou.      *    *    *  Precisava achar a chave do carro. Certeza de que havia deixado sobre a mesa antes de deitar. Chegaria mais atrasada ainda no consultório. A secretária ligou avisando que duas pacientes a esperavam.  Claro que só podia estar dentro da bolsa. Onde mais?  Avisou que almoçaria tarde. Deixasse a comida pronta e se demorasse, esquentaria quando voltasse.      *    *    *  E o beijo impaciente antes de abrir a porta da sala? Não queriam demonstrar a falta que fizeram um para o outro, todos aqueles dias que ficaram sem se ver, mas a respiração ofegante não deixava esconder.  O vício de estar junto, do toque, da boca entre os cabelos, cravando os dentes na nuca... Bendito e maldito vício! Ficou entranhado na pele. Da alma ela tirou ou achou que sim. Que falta fazia no vazio das noites aqueles olhos negros que buscavam conhecer corpo e mente.   *    *    *  A secretária a seguiu com a agenda lotada de horários marcados pelas pacientes. Na sala de espera, quatro mulheres responderam seu cumprimento de bom dia com impaciência. Pediria desculpas a cada uma delas e se concentraria em seu trabalho.  Abençoada agenda que não a deixaria pensar. Até boa parte do dia esqueceria o cheiro e o jeito de andar que a perseguia.   *    *    *  Foi embora da mesma forma que entrou em sua vida. Numa noite qualquer. Ou teria sido num dia qualquer?  Combinaram que seria assim. Em algum momento deixariam de se falar ou se ver. Sem explicações, sem pedidos de volta, sem aviso. Esqueceram que não bastava, necessitavam também deixar de se querer. Precisava não querer mais. De qualquer forma, não importava. Ficou na boca o gosto. Na cama vazia a vontade. Nos olhos o desejo. Mas seria assim por enquanto. Confiava no tempo que levaria para longe o que agora parecia sentir para sempre.  Bendito tempo. Maldito tempo. Abençoado tempo.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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