A casa de praia
21/01/2017 | 18h45
A casa de praia
Cândida Albernaz
A ventania faz com que as cortinas se movimentem de forma desordenada. Lá fora o som da água de encontro às pedras provoca uma sensação de medo.
A cor do mar nessa época do ano me agrada, sempre gostei do inverno na praia.
Você e eu costumávamos vir para cá e à noite, enquanto tudo era silêncio, nadávamos até a exaustão. Competir. Não havia notado antes, mas competíamos em quase tudo. Até mesmo na escolha da cor de nossa casa. Você queria branca, e eu tangerina. Depois de pintada, em toda a redondeza podia ser vista mesmo de longe, a casa de tom forte contrastando com a claridade do dia.
Quando me disse que ia embora, apostei que voltaria logo e então seria eu quem não ia querer que ficasse.
Não voltou e esperei por muito tempo não perder a aposta.
Mudei, não sou mais a mesma. Se antes provocava discussões em qualquer situação, hoje me aquietei e quase não falo. Penso, penso o tempo todo. Dizem que quando perdemos algo, aquilo se torna quase perfeito em nossas lembranças. Talvez seja assim, mas gosto, porque me traz saudades boas.
Você passou a não ter defeitos. Eu também. Hoje acho que nos amamos menos do que queríamos. Desejávamos muito mais o amor do que a nós mesmos.
Quando sugeriu que morássemos aqui, aleguei que era urbana e não conseguiria viver longe do movimento da cidade. Você precisava de tranquilidade para escrever e eu de vida noturna para respirar.
Veio e ficou por dois meses sem que eu o procurasse. Pedi arrego e numa noite quando não suportava mais sua falta, cheguei sem avisar. Você não estava e esperei. Acabei dormindo e já era dia quando abri os olhos e vi que me olhava. Pediu desculpas e eu não quis ouvir mais nada. Não nos separamos em todo o fim de semana.
Passei a vir todas as quintas e voltar na segunda. Tentou me falar sobre alguma coisa, mas não permiti. Ficávamos grudados um no outro e com o tempo achei que não tinha mais porque ter medo.
Um dia foi à cidade sem avisar e antes que pudesse abraçá-lo pela surpresa, despejou em cima de mim que apesar de gostar de estar comigo, não me amava como antes. Queria o meu bem e isso era muito pouco.
No dia seguinte viajou para outra cidade com um novo romance que fugiu do papel. Precisava se sentir assim para que continuasse escrevendo. Respirar amor, expectativas e uma ponta de sofrimento para que tivesse inspiração. Era uma necessidade, me afirmou.
Fiquei com o sofrimento inteiro e continuei a respirar amor.
Mesmo quando me recordo desse dia, não o sinto ruim.
Estou lendo seu segundo romance, e me reconheço em alguns trechos. Agradeço o carinho com que me descreveu. Quando recebi seu livro e a carta em que falava sobre ele, não tive sobressaltos ou aperto no peito. Passou.
A solidão que busco diante do escuro do mar me causa prazer. Fico muito mais tempo aqui do que jamais imaginei gostar.
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O filho de Olavo
21/01/2017 | 18h45
O filho de Olavo
Cândida Albernaz
Estava cismado com as reticências de Maria Regina
Fazia pouco tempo ela vinha se chegando como quem não quer nada. Soltava uma frase aqui ”Não sei o que há com a Terezinha...”, outra ali “Terezinha não tem aparecido na rua...”.
Ele que já a conhecia bem, não costumava dar ouvidos às fofocas que fazia, mas ela estava insistindo “coitado do Antônio, tem parecido tão triste...”.
À tarde, enquanto limpava o balcão e retirava os últimos copos que estavam sobre ele, Maria Regina entrou:
- Ué, vai fechar mais cedo?
- O movimento está fraco.
Jogou o pano que usava sobre o ombro e virou-se para a pia onde abriu a torneira e lavou pratos e copos.
- Viu a Terezinha?
- Faz uns dias que não a vejo. O Antônio foi quem esteve aqui no bar outro dia.
- Eu sei porquê ela não tem aparecido. Aliás, nem aqui nem em lugar algum.
Ele agora arrumava as prateleiras de bebida e verificava a temperatura do freezer.
- Você conhece a viúva do Olavo, não?
- Claro. Todo mundo conhece todo mundo nessa cidade imensa em que moramos.
Estava sem paciência com aquela conversa. Queria sossego. O dia foi difícil e principalmente não rendeu muito.
Ela fingiu não perceber a ironia em sua voz e continuou:
- Então. A viúva andou espalhando que o segundo filho da Terezinha era do Olavo, que antes de morrer contou a ela e pediu perdão.
Ele parou o que estava fazendo. Não sabia se acreditava ou não. Antônio era seu amigo e afilhado de casamento.
- De onde você tirou esta história, Maria Regina?
- Não tirei de lugar nenhum, não senhor. É o que estão dizendo.
- Quem estão?
- Ah! Nem lembro quem contou, mas parece que é verdade. A viúva até deu uma coça nela chamando de sem-vergonha e mulher safada. Terezinha está trancada em casa com a cara inchada de apanhar. E de chorar também.
- Maria Regina, isto é sério!
- Eu sei e não sou mulher de ficar inventando coisa. Já reparou que o segundo filho deles é moreninho? Todo mundo é louro naquela casa. Na época disseram que parecia com avô de Antônio. Sei! Se você reparar bem, é a cara do Olavo. Até a pinta do lado do nariz o garoto tem igual.
Ele ficou pensando em Antônio. Era doido pela mulher.
- Disseram que trancou a Terezinha dentro do quarto. Não sai nem para comer. Você acha que ele a coloca para fora? Ou faz coisa pior?
- Chega, preciso fechar. É melhor você ir para casa.
Ela saiu andando e resmungando que não contaria mais nada a ele. Só estava querendo ouvir uma opinião.
Pensou que se tudo o que ela falou for verdade, o casal precisava de ajuda. Como ia fazer? Antônio, homem fechado que não costumava se abrir com ninguém. Os dois eram amigos desde criança e mesmo sem falar muito, um conhecia bem o outro. Sabia também que por maior que fosse o coração de Antônio, quando a raiva explodia, ele podia assustar quem estivesse por perto.
Precisava encontrar o amigo. Resolveu primeiro passar em casa para tomar um banho e jantar enquanto decidia como faria. Mais tarde foi bater na porta de Antônio.
Demorou para que abrissem. O menino à sua frente tinha o rosto assustado. Olhou bem e reparou na pinta e no cabelo bem preto e liso. Como o de Olavo.
- Seu pai, onde está?
Não respondeu. Fitou-o como se pedisse ajuda. Afastou a porta e segurando a mão do garoto de cinco anos, pediu que o levasse até o pai.
Foram andando pelo corredor estreito e em frente ao que imaginava ser o quarto do casal, que estava fechado, pararam.
- Antônio está aí dentro?
Ele acenou com a cabeça afirmando.
- E sua mãe?
Os olhos do menino encheram-se de água.
- Está dormindo. Papai brigou com ela, gritou muito e então ela fechou os olhos.
- Como assim? Sua mãe foi dormir a que horas?
- Não sei, acho que foi ontem de manhã. Quando acordei, eles brigavam e mamãe chorava muito. Depois eles ficaram quietos e eu abri a porta. Vi papai colocando minha mãe na cama. Já estava dormindo e ele não me deixou falar com ela. Pediu para não fazer barulho e sair dali.
- Você não falou mais com Terezinha?
- Não.
- E seu pai, o que ele disse depois a você?
- Nada. Sentou na cadeira do lado da cama e está lá até agora.
Abriu a porta do quarto. Havia uma mancha escura no peito de Terezinha que continuava em volta dela. Antônio, sentado na cadeira pareceu não perceber que havia mais alguém ali.
Aproximou-se dele que sem se virar disse:
- Tire-a daqui e me leve junto. Acabou.
Ainda estava escuro
21/01/2017 | 18h44
Ainda estava escuro
Cândida Albernaz
Acordava exausta todas as vezes em que o sonho se repetia. E isto vinha acontecendo com maior frequência.
Sentia o peito acelerar e os olhos abriam de uma só vez, arregalados, como num susto.
Sempre a mesma coisa, um homem cujo rosto não identificava, caminhava atrás dela. Era uma rua clara, com sol a pino, e sentia-se quase alegre. Então ouvia passos e virava o pescoço para olhar. Quando retornava a posição inicial, notava que a rua à sua frente estreitava-se como um funil. Através daquele espaço mínimo para onde se dirigia, e tinha a sensação de não caber, observava uma escuridão. Quanto mais se aproximava do único lugar por onde poderia escapar, mais sombrio ficava.
Nunca conseguiu transpor aquele trecho, porque assim que tentava fazer seus olhos acostumarem, o homem a tocava e ela gritava apavorada.
Pensava e não conseguia entender o porquê do mesmo sonho.
Melhor levantar e tomar um banho, de qualquer forma não voltaria a dormir. O dia seria longo e cansativo, principalmente por não haver descansado o suficiente.
A irmã por parte da mãe, que morava com ela, devia continuar deitada. Sempre saía do quarto depois do meio dia.
Amavam-se, conviviam bem, mas eram completamente diferentes uma da outra.
Ana costumava ter algo de muito divertido, segundo ela, para fazer. Saía quase todas as noites. Vivia de uma pensão deixada pelo pai, que morrera logo depois da mãe das duas.
Seu pai, que ainda vivia, não possuía uma condição financeira da mais favorável. Nunca fora ambicioso, e como repetia sua mãe, foi o que mais a atraiu “um homem que pensa no hoje, e que me faz feliz dia após dia”. Agora ele mora num pequeno apartamento e é ela quem o ajuda com as despesas. Aprendera a respeitar aquele homem sonhador.
Divertia-se com as histórias que Ana contava. Até mesmo sobre cada novo namorado que trazia para casa. Esse era o único senão na paz das duas. Tiveram alguns problemas com aquele entra e sai de homens estranhos onde residiam.
Ela era diferente. Tinha dedicação ao trabalho nas faculdades em que dava aulas. Com poucos amigos, sua maior distração era estar em uma sala de cinema.
Vivia cada personagem apresentado na tela como se fosse ela mesma. Colocava-se no lugar deles, e por diversas vezes, ao contar um filme para a irmã, esta ria, dizendo que a vida real podia ser muito, mas muito mais interessante. Imaginava que talvez fosse, mas não a dela. Tinha um medo enorme do ser humano e revestia-se de um escudo por onde quase nada transpassava.
Saindo do banheiro encontrou Ana deitada em sua cama com o rosto inchado de chorar. Não houve tempo de perguntar qualquer coisa, porque a irmã foi contando que o cara com quem estava há três meses, “aquele, que parecia ser tão legal” por conta de um ciúme ridículo, bateu em seu rosto e ainda chutou sua barriga. O choro voltou com força e os soluços faziam com que o corpo tremesse. Abraçou a irmã e esperou que acalmasse. Colocou nela uma camisola e aguardou que dormisse antes de sair. Conversariam mais tarde.
Deu aulas o dia inteiro e ligou algumas vezes para saber se estava tudo bem. A garota que trabalhava para elas dava as informações.
A noite, voltando para casa, parou numa delicatessen para comprar um vinho e alguma comidinha gostosa para as duas.
Quando entrava no carro, reconheceu o namorado da irmã que se aproximou dizendo que precisava falar com ela. Afirmou que Ana não queria atender as ligações. Pediu que caminhasse um pouco com ele e diante de uma recusa, segurou com firmeza seu braço. Achou melhor não reagir e o seguiu.
Arrependeu-se logo adiante. Na rua em frente, fez com que parasse e sem que tivesse tempo para qualquer reação, ganhou um soco no nariz. Caiu no chão recebendo mais um. Ainda tonta percebeu que ele retirava parte de sua roupa, e em seguida penetrou-a com força. Gemia em seu ouvido deixando recados para a irmã. “Ela não vai me fazer de imbecil. Pensou que poderia me enrolar saindo comigo e com outro cara. Agora tenho a irmãzinha também. Avise que ainda não acabei. Quanto a você, sei que gostou. Conheço mulher do seu tipo. Banca a difícil para a gente forçar. É um joguinho, não é? Não se preocupe porque dou conta das duas”.
Fechou o zíper da calça e saiu andando.
Estava muito escuro. Olhou para o final da rua e teve a sensação que esta se fechava. Imaginou se conseguiria sair dali. Como passar por um fio tão estreito? Sentiu o corpo mole e os olhos fechando.
Talvez acordasse exausta quando o abrisse.
18/09/2011
São só as horas que precisam passar
21/01/2017 | 18h44
São só as horas que precisam passar
Cândida Albernaz
São as horas. Elas me consomem, correm atrás de mim enquanto tento buscá-las.
Hoje durmo mais apesar dos ruídos noturnos. Não me acostumei a eles, ainda os temo, mas como não param, durmo apesar deles. Não tenho sonhos: pesadelos. Me disseram que com o tempo volto a sonhar, o que me parece impossível. Sonhos têm a ver com o que fazemos ou gostaríamos de fazer, muitas vezes com a esperança.
Não há ontem ou amanhã, espero que o hoje passe. Mentira, o ontem existe e é por ele que estou aqui. Apenas tento não pensar.
Tenho regulamentos e o relógio exige que obedeça horas com as quais meu corpo não concorda. Onde estou, os horários são rígidos, mas as regras, estas são implacáveis: nunca antes obedeci a alguma.
Daquele dia em especial, só me arrependo de uma coisa: você meu irmão, confiou no que prometi. Hoje, quando olho em seus olhos quase infantis, abaixo os meus e você os mantêm firmes e opacos. Jamais havia se envolvido com atitudes erradas, gostava do correto, seguindo-o com prazer: aqui dentro não há o prazer, menos ainda o correto.
Pensei em tudo, foi o que imaginei, e pedi que apenas me esperasse com o carro ligado: como insisti para que participasse! Tive que garantir que não tiraria nada de ninguém que necessitava. Os bancos, que “sugam o povo”, têm seguro e o que levássemos, só eles perderiam. Ninguém seria ferido ou morto: foram quatro, inclusive a menina morena que dava a mão à mãe, confiante que assim estaria protegida.
Depois de dias programando tudo com os rapazes, resolvi chamá-lo. Disse de cara que preferia não saber do que se tratava, mas o convenci do contrário: irmãos unidos, irmão que precisa do outro, irmão que leva o caçula para aquele inferno.
Soube do que fizeram com você e ainda fazem. As malditas horas que não passam e arrastam meus pensamentos com elas.
Não tenho como defendê-lo, porque neste lugar miserável a lei é outra.Tenho medo que enlouqueça: você e sua bondade na forma de ver as pessoas. Não conversamos, mas acredito que não veja mais nada desse jeito.
Quando os homens chegaram eu estava lá dentro e enquanto as pessoas se esgueiravam pelos cantos, os tiros fizeram com que dois dos nossos, fossem alvos certeiros.
Eu não sabia ainda, mas você já estava na mão deles do lado de fora.
No banco um rapaz que tentou proteger o irmão menor com um abraço, acabava de levar um tiro. Soube depois: também não resistiu.
Não pude protegê-lo e você tem dezoito anos e você acreditou em mim e você queria continuar estudando para “vou ser alguém na vida” e você cuidou de nossa mãe até que ela se foi. Eu tirei você de suas crenças, com o poder do irmão mais velho e admirado que o convenceu a entrar neste mundo do qual só ouvíamos falar.
Vai cumprir menos tempo do que eu, e peço que aguente firme. O pesadelo que vive acordado vai acabar. São só as horas que precisam passar.
Imaginação
21/01/2017 | 18h44
Imaginação
Cândida Albernaz
Nos olhos inquietos percebe-se a lucidez indo embora. A dúvida o corrói e não se controla mais.
Tenta fugir de sua direção, mas a persegue como animal, as narinas abertas sentindo o cheiro do que apenas sua imaginação consegue enxergar.
* * *
Não casaram porque ela sempre achou que um pedaço de papel diante de um juiz era mera burocracia. Queria se sentir livre mesmo vivendo com ele, que dizia ser o ar de garota selvagem, que escapa entre os dedos, sua maior sedução.
Veio o primeiro filho e a mulher independente que se tornaria, nunca existiu.
Não foi o papel que a prendeu, ela se deixou encarcerar como numa teia tecida dia após dia entre diálogos ríspidos e carinhos no meio da noite.
Quando o segundo filho nasceu, fechou o consultório por pouco tempo, mas nunca mais voltou.
O marido costumava reclamar por ficar sozinha com seus pacientes durante a consulta. Afinal de contas, “você é linda e não há outra igual”.
Explicou que a secretária estava sempre presente e nunca houvera qualquer problema. Não o convenceu.
Quando surgiu a oportunidade de abrir uma clínica com colegas, ele foi contra, já que “o safado do Carlinhos só finge ser médico, porque o que ele quer mesmo é dar cantada nas pacientes. Pensa que não reparei o jeito que olha para você também? Qualquer dia quebro a cara dele”.
Tentou mostrar que isso era impossível, Carlos era um cara bem mais velho do que ela e costumava ser reservado e respeitar as pessoas. Insistiu tanto no que faria caso ele se aproximasse dela, que achou melhor desistir do projeto.
A clínica está funcionando e outra dermatologista ocupa a sala que seria sua.
Na época em que havia planejado voltar ao trabalho, o marido sofreu um acidente e exigiu sua presença. “Só você sabe cuidar de mim”. Mais um mês sem se decidir. Estavam chegando as férias e ele planejou a viagem de seus sonhos com as crianças. Ficariam por trinta dias na Europa. O irmão dele morava na Itália e os hospedaria.
Deixou-se levar como algo sem peso no meio de uma ventania. Sem que percebesse as forças foram fugindo e achou que sendo guiada por ele, as discussões diminuiriam e o ciúme doentio também.
Só havia um problema: ele passou a exigir cada vez mais. Nada o satisfazia e se não tinha mais como reclamar do trabalho era na rua, entre uma compra e outra, entre levar um filho ao médico, entre a saída da escola das crianças, era nas horas mais corriqueiras que as supostas traições aconteciam.
Sentiu-se sufocada e perdeu o brilho. Envelhecia antes da hora. A mulher que gostaria de ter sido, só conseguia vê-la quando estava sozinha diante do espelho e imaginava ter forças para se libertar.
* * *
Não fez as malas, não retirou nada seu. Pegaria depois. Os filhos, quando saíssem do colégio, deixaria com sua mãe por algum tempo.
Os olhos dele de tiranos foram ficando débeis enquanto falava. Pedia que ficasse e desse mais uma chance para os dois.
Cuspiu tudo de uma só vez e enquanto ele absorvia o que dizia e implorava mudanças, saiu pela porta, entrou em seu carro e sentindo o vento pelos vidros abertos, sorriu com segurança. Ia recuperar sua vida.
A garota que fora, ardia dentro dela com tal intensidade que se sentia queimar
Só um bate papo
21/01/2017 | 18h44
Só um bate papo.
Cândida Albernaz
- Olha só que bonitinho!
- ...
- Vem cá, meu bichinho. Notou a carinha que ele fez para mim?
- Hum!
- Eu sei que quer falar alguma coisa. Mas não pode, não é? Querido, viu como ele entendeu?
- Estou lendo o jornal.
- E não pode parar só um pouquinho para me dar atenção?
- Posso sim. Sobre o que quer falar?
- Falar nada. Estou mostrando a você como o Al Capone é inteligente. Não parece que tenta falar com a gente?
- Falar?
- É sim. Ficou zangado com você porque duvidou da capacidade dele. Viu só? Virou a cara para o outro lado.
- Olha querida. Disse que queria minha atenção. Mas o que quer mesmo é bater papo com o cachorro.
- Você não quer interagir com a gente...
- Interagir?
- Não vê que eu e o Al estamos carentes? Precisando de você?
- M-E-U-A-M-O-R! Eu estava lendo o jornal. Sabe que meu tempo é curto e daqui a pouco volto para o trabalho.
- Você não gosta de mim nem do Al Capone.
- Não gosto? Quem teve a idéia de comprar um cachorro?
- Você, mas...
- Quem o leva para passear e fazer as necessidades todos os dias?
- Porque você quer.
- Pois é. Porque eu quero e gosto. Até brinco com ele de vez em quando.
- Eu sei...
- Mas conversar como se pudesse me responder não dá.
- Mas ele gosta que fale com ele.
- Então continue, mas não me peça para escutar os rosnados de um cão como se fosse a nossa língua.
- Você está de mal humor.
- Não estava. Fiquei.
- Então quer dizer que a culpada sou eu?
- Quer dizer que a hora passou, não pude ler o jornal e preciso voltar para o escritório.
- Não esqueça que temos um aniversário hoje à noite.
- Não me lembro de convite algum.
- Porque não tem convite. Vai ser aqui em casa.
- Desculpe querida, mas não é nosso aniversário de casamento?!
- Você esqueceu.
- Eu sou de maio e você de outubro...
- Está vendo só? Faz um ano que Al chegou aqui em casa.
- Ah! Aniversário do Al...
- Vou sair para comprar um bolo.
- Agora enlouqueceu de vez. Animais não devem comer bolo, porque não faz bem para eles.
- E quem disse que ele vai comer? Para ele vou comprar uma ração especial. E um osso. O bolo nós comemos.
- Você não estava fazendo dieta?
- Me chamou de gorda.
- Não falei isso. Hoje durante o almoço, me obrigou a comer um monte de folhas com um pedaço de carne. Não quis fazer nenhum prato diferente porque não resistiria e engordaria mais.
- Não gosto quando fica falando de comida e gordura. Fico magoada.
- Mas foram suas essas palavras. Só repeti.
- Acha então que não posso comer nem um pedacinho de bolo?
- Acho que você pode comer ele inteiro. Detesto doce.
- Está me ofendendo.
- Preciso realmente ir. Estou atrasado e tenho uma reunião daqui a cinco minutos.
- Amor? Não vou ganhar um beijo?
- Claro que vai. Alguma vez saí de casa sem te dar um beijo, querida?
- Amor?
- O que foi agora?
- Olha só a cara do Alzinho. Também quer um beijinho. Hoje é aniversario dele e você nem deu os parabéns.
- Não acredito!
30/08/2011
É a vida, doutor
21/01/2017 | 18h44
É a vida, doutor
Cândida Albernaz
Obrigado pela carona, doutor. Estou em pé no sol há horas. O movimento nessa estrada é fraco, e os carros que passam, não querem parar.
Poderia ter andado até a principal, mas achei que seria muito distante. Aqui dentro tá fresco. Nada como ar condicionado, né doutor?
Reparei que o senhor é um homem de poucas palavras. Ao contrário, falo demais. Minha mulher é caladona e reclama por eu ser agitado.
Tenho três filhos pequenos, uma casa caindo aos pedaços e uma mulher que nem tem mais todos os dentes. Era bonita, a danada. Agora parece um trapo, como eu. O senhor já deve ter percebido que também perdi alguns dentes. Vida difícil, tempo que não sobra, trabalho demais, dinheiro curto e falta de vontade. Sabe a tal da vontade que faz a gente querer coisas? Nem lembrava mais como era. O que eu gostaria mesmo é poder dar conforto para meus filhos, estudo melhor, comida decente e remédio. Ah, doutor, para os meus pequenos irem para a escola, temos que andar uns dois quilômetros a pé, até o ponto de ônibus. O senhor não pode entender. Carro bom, os filhos devem ser todos bonitos, gordos e cheios de saúde.
Estava pensando que mereço um pouco mais para dar aos meus. Com o trabalho que faço, não consigo. Não sei ler direito, e não tenho nenhum outro lugar para ir. Meu negócio é aqui na lavoura.
O senhor parece boa pessoa e eu nunca fiz isso antes, mas o caçula está mal. A mulher me xingou de vagabundo e ela nem deve saber o que é, porque se tem uma coisa que eu não sou é malandro ou vagabundo. Trabalho de sol a sol.
Bati nela, doutor. Foi a segunda vez. Fiquei nervoso porque gritou comigo.
Está com medo de mim? Fica não. Se fizer direitinho o que eu falar, não faço nada contra o senhor. Só preciso de algum dinheiro. Vamos até um caixa e retira a grana. Não me olhe desse jeito. Se for preciso, descarrego a arma sem pensar muito.
Sabe o que me assusta? A cara dos filhos quando estão com fome. Os olhos compridos para cima de mim quando entro em casa com as mãos vazias. Imaginou um filho seu chorando com dor na barriga porque tem fome?
Já saiu para trabalhar deixando alguém da família precisando de remédio, e a gente que é pai, responsável, não poder comprar? E quando leva para o hospital e eles respondem na maior cara de pau, que não tem vaga? O desejo é matar o desgraçado.
Reconheço que não tem nada com isso, mas hoje decidi que vou voltar para casa com a mão cheia. Vou comprar carne, doutor. Carne! E feijão também, porque eles adoram. Nós criamos galinhas magras para vender e uma vez ou outra tiramos uma para nossa refeição. Mas a carne vermelha, com aquele cheiro quando está no fogo, essa não comemos há muito tempo.
Consegue ver a cara da minha mulher quando eu aparecer com um vestido novo?
Sem ninguém ter usado antes? Vai até esquecer o tabefe que dei nela.
Aproveito entro na farmácia e compro os remédios para meu filho. Lá no hospital eles deram, mas nunca é o suficiente.
Pronto, doutor. Tirou tudo o que tinha na conta?
Vou deixar o senhor no meio do mato que é para criar dificuldade. Sabe que estou com seus documentos e este recibo aqui tem o endereço. Se me pegarem, doutor, não fico preso para sempre, e aí já viu, né? Vou atrás da sua família e pego um filho seu.
Não pense que não sou capaz. Essa cara de homem bom que tenho fica muito diferente quando comparo a vida que meus filhos levam com a dos filhos dos outros. Sinto uma dor no peito que só acaba quando boto a raiva para fora.
Fica aí quietinho. Aprendi a dirigir. Não sou muito bom porque não tenho prática, como teria né? mas dá para levar o carro para bem longe daqui.
Quero o seu mal não, mas me deixe em paz. Venho de longe e a volta vai ser demorada.
Sabe o que me anima? Ter certeza de que quando eu chegar, até o sorriso banguela da minha mulher vou achar bonito.
Porque eu sei que ela vai rir para mim.
21-8-2011
Vamos tomar um sorvete
21/01/2017 | 18h44
Vamos tomar um sorvete
Cândida Albernaz
Não adianta pensar muito, o melhor é ir levando a vida.
São seis horas de uma manhã escura. Choveu a noite toda. Ainda bem que retirei a roupa da corda a tempo. Dentro de casa não tem mais goteira porque semana passada pedi ao China que olhasse os buracos na telha. Setembro sempre chove. Eu e as crianças, na última tempestade, mal tínhamos onde ficar para nos proteger. Descia água nos três cômodos da casa. Dalva pegou uma gripe tão forte que fiquei dias sem dormir cuidando dela. Agora está boa e o telhado perfeito.
Gosto de chamar de casa, mas é um barraco construído no terreno da mãe de meu marido. Não parece muito resistente para quem olha, mas vivemos ali há seis anos.
Mês passado conseguimos forrar o chão com cimento, ficou bem melhor do que a terra batida onde pisávamos. Muita umidade.
Estava pensando que a hora mais tranquila é essa, quando estou no ônibus indo para a casa de dona Sílvia, onde trabalho. São os únicos minutos do dia, quarenta ao todo, em que sento - quando tem lugar - e não faço nada.
Desde criança chamam meu marido de China. Ele é negro como eu, mas os olhos são puxados, quase fechados como os de um chinês. Este ano conseguiu um emprego fixo, com carteira e ficou mais fácil para a gente. Não é que ganhe muito, mas pelo menos ajuda na despesa. Ele não é malandro como alguns gostam de falar, não tem é sorte mesmo.
Hoje combinamos de voltar juntos para casa. Costumo sair mais cedo, mas dona Sílvia vai fazer um lanche para as amigas e só posso ir embora quando acabar. Ela combinou comigo que às sete horas no máximo estaria terminado.
Faz anos China não me pega na saída do serviço. Desde que casamos. Antes não, ele sempre arrumava um jeito de me acompanhar para namorarmos, escondido dos meus pais. Papai não gostava dele, dizia que não parava em emprego nenhum. Nada adiantou, casamos logo.
* * *
O dia foi cansativo, as amigas de dona Sílvia vivem dizendo que estão fazendo dieta, mas comem sem parar. Deram um trabalhão. Era um tal de “mais um pouquinho disso”, “mais um pouquinho daquilo”, que não tinha fim.
China deve estar chegando. Tô me sentindo a namorada dele de novo. Mulher boba, eu sou. Mas é bom quando estamos empregados. Não falta comida em casa e nosso humor melhora. Até as crianças sorriem mais.
Dona Sílvia veio mexer comigo, dizendo que estou com os olhos brilhando. É que falei para ela que no caminho vou parar e tomar um sorvete. Nunca temos esse luxo.
Ela me deu um dinheirinho extra. Gosto dela, sempre me ajuda nas fases mais difíceis. Estou nesse serviço há cinco anos.
Quando chego ao portão, meu marido está me esperando. Falo sobre o sorvete e ele me observa engraçado. Acho que gostou da idéia. Passou o braço no meu ombro e eu na cintura dele. Olho para o chão, tenho vergonha de que ele veja como estou feliz. Parece pouco, mas faz tanto tempo não ficamos sozinhos, andando abraçados na rua.
Paramos na porta da lanchonete.
A rua está deserta. Nem vou pensar que nossas filhas estão sozinhas em casa a essa hora. Apesar de morar no mesmo terreno da avó, não gosto que elas fiquem incomodando. A mãe dele está velha e doente, mal se aguenta em pé.
Uma moto vinha no fim da rua bem devagar, quando de repente ela acelerou e subiu na calçada. China me puxou tentando fazer com que eu saísse dali. Não houve tempo. Um deles descarregou a arma para dentro da lanchonete. China protegeu meu corpo com o dele. Senti meu marido pesando e me levando junto ao chão. Foi muito rápido. Pessoas se aproximaram e o tiraram de cima de mim.
- Que azarados, esses dois. Os caras queriam o dono da lanchonete. Estava jurado há tempo.
- Olhe só, ela está viva. Está sentindo alguma coisa?
Como assim, sentindo alguma coisa? Eu quero meu marido.
Estávamos tomando um sorvete... Andamos abraçados até aqui... A vida ficando um pouco mais fácil... Agora que arrumou um emprego... Nossas filhas mais sorridentes... Ele me olhava como no tempo de namoro...
Tão frágil
21/01/2017 | 18h44
Tão frágil
Cândida Albernaz
O quarto permanecia escuro. Desejou que fosse noite ainda. Continuaria deitado, de olhos fechados e adiaria um pouco mais a decisão que precisava tomar.
Estava abafado ali dentro, acabou esquecendo de ligar o ar condicionado quando se deitou. Tomou dois comprimidos em vez de um como sempre fazia para dormir, e agora sentia o corpo mole. Os pensamentos também pareciam chegar de forma lenta, demorando a fazer sentido.
Pegou o celular, que mantivera no silencioso durante a noite. No visor, vinte chamadas não atendidas e outras tantas mensagens. Não se interessou em ler ou ouvir. Sabia o que cada uma delas dizia como também quem as havia mandado.
Na última vez em que estiveram juntos, há apenas dois dias, após mais uma tentativa de conversa, voltou para casa molhado de vinho. Durante a discussão, Kátia levantou a taça que estava à sua frente e jogou em seu rosto. Prometera a si mesmo que se ela fizesse isso uma próxima vez, faria igual. Não houve tempo. Arremessando o líquido, saiu rapidamente do restaurante, deixando a conta e os olhares em volta, todos para ele.
Desde que se conheceram demonstrou ter temperamento forte, o que o atraiu ainda mais. Era também alegre e expansiva. Podia dizer até que carinhosa. Nem sempre, claro. Costumava afirmar que ela ia do oito ao oitenta.
Ele era um homem alto, acima do peso e quando estavam ao lado um do outro, essa diferença parecia sobressair. Do tipo pequena e magra, transmitia uma fragilidade que não possuía.
Numa das primeiras vezes em que demonstrou raiva descontrolada, haviam saído da boate porque tivera ciúmes de uma mulher que dançava perto. Dentro do carro, enquanto gritava, deu dois tapas na cara dele. Foi pego de surpresa, mas segurou seu pulso com força e fez com que ficasse quieta. Não pensou em revidar, já que com sua força poderia machucá-la muito.
Algum tempo depois, porque o viu conversando com uma garota, tirou o relógio que usava e lançou em cima dele, ferindo sua boca. Chorou quando viu sangue, pediu desculpas e prometeu não repetir. Como realmente estivera conversando e ficado com a tal garota, achou melhor deixar para lá.
Mas o que era esporádico tornou-se habitual. Sempre temendo que com sua força pudesse tomar qualquer atitude de que se arrependeria, não reagia, apenas tentava defender-se.
Sabia que precisava levantar daquela cama e falar com Kátia. Quando tentou terminar o relacionamento, ameaçou colocar fogo em si mesma. Não tinha certeza se faria ou não. Preocupava.
Saiu da cama e resolveu tomar banho. A água fria do chuveiro parecia trazer ânimo. Trocaria a fechadura da porta do apartamento e não atenderia aos telefonemas. Talvez fosse boa a idéia de viajar por alguns dias, quem sabe na volta, pudessem conversar normalmente. Naquele momento entendia que seria impossível.
Pegou a toalha e enrolou na cintura. Estava ficando velho. Alguns cabelos brancos começavam a aparecer.
Ouviu barulho e viu Kátia parada na porta do banheiro olhando firme para ele.
Tinha um isqueiro na mão e um vidro de álcool na outra.
9- 8-2011
Não tenho medo de nada. Ou quase.
21/01/2017 | 18h44
Não tenho medo de nada. Ou quase.
Cândida Albernaz
- Você vem ou não vem?
- Estou indo. Pare de apressar.
- Vai me atrasar.
- Atrasar como, se não tem hora marcada?
- Não pedi para que fosse comigo.
- Eu sei que não pediu. Mas sei também que quer que eu vá.
- Está enganada. Posso muito bem fazer isso sozinho.
- Pode sim, mas eu vou junto.
- Você é quem sabe. Por favor, anda logo!
- Vou tomar um café.
- O quê? Agora já está se tornando falta de respeito.
- Só rindo com você.
- Rindo? Estou tenso, não percebeu?
- Percebi, desculpe. Toda vez é a mesma coisa.
- Vai comer também???
- Um pedacinho de pão...
- Não espero nem mais um segundo.
- Deixa de história e senta aí. Estou terminando.
- Entrou no banho, lavou o cabelo, o que leva horas, e ainda resolveu tomar um café completo...
- Nem demorei tanto assim.
- ...e eu aqui esperando.
- Acabei, pronto.
- Estou ligando o carro.
- Ué, você vai dirigindo?
- Claro que não. Disse que vou ligar o carro. Colocar a chave na ignição e girar.
- Não gosto nada dessa sua impaciência.
- E eu não gosto nada quando dependo de você.
- Meu querido...
- Aonde você está indo agora?
- Pegar minha bolsa. Quer que eu saia sem documentos?
- Você não leva a sério minhas necessidades.
- Levo sim. Pronto, estou com ela e você não entrou no carro até agora.
- Estou nervoso.
- Parece uma criança. Pegou o pedido?
- Como assim? Achei que estivesse com você.
- Fique quieto aí. Estava na mesinha do quarto. Eu mesma vou buscar.
- ...
- Como pode um homem do seu tamanho ter tanto pavor?
- Trauma de infância, acho.
- Já doeu DE VERDADE! alguma vez?
- Todas!
- Não consigo deixar de rir. Você sempre fica nesse estado.
- Você reparou no tamanho do pedido?
- Eu li.
- Já imaginou de quantos tubinhos vai ser preciso?
- Não perco meu tempo.
- Aquela borrachinha prende os pelos do meu braço e me machuca...
- Não seja ridículo!
- E quando eles não acertam a veia na primeira vez?
- Pare de pensar nisso. Você é pior que nosso filho.
- Não deixe que ele saiba do meu medo.
- Claro que não! E se ele resolve imitar o pai? Mais um trabalhão para mim.
- Você dá risada...
- Desculpe amor. Não consigo me controlar.
- Você sabe que não posso ver sangue.
- Então não olhe.
- Só mais uma coisa...
- Faço sim.
- Como sabe o que vou pedir?
- Como??? Todas as outras vezes você pediu.
- ...
- Não fique mal. Eu seguro sua mão.
- E nunca, mas nunca mesmo vai contar isso para alguém.
- Nunca, meu querido.
- Chamaram meu nome.
- Vamos lá, meu homem. Prometo que na hora fico bem quietinha.
- Espero que sim, porque se você se mexer, sua mão também vai mexer e meu braço vai tremer e a agulha pode sair e eu...
- Meu Deus, chega. Estende o braço que a enfermeira está esperando...
2-8-2011
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Candida Albernaz
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