Tão frágil
Tão frágil
Cândida Albernaz
O quarto permanecia escuro. Desejou que fosse noite ainda. Continuaria deitado, de olhos fechados e adiaria um pouco mais a decisão que precisava tomar.
Estava abafado ali dentro, acabou esquecendo de ligar o ar condicionado quando se deitou. Tomou dois comprimidos em vez de um como sempre fazia para dormir, e agora sentia o corpo mole. Os pensamentos também pareciam chegar de forma lenta, demorando a fazer sentido.
Pegou o celular, que mantivera no silencioso durante a noite. No visor, vinte chamadas não atendidas e outras tantas mensagens. Não se interessou em ler ou ouvir. Sabia o que cada uma delas dizia como também quem as havia mandado.
Na última vez em que estiveram juntos, há apenas dois dias, após mais uma tentativa de conversa, voltou para casa molhado de vinho. Durante a discussão, Kátia levantou a taça que estava à sua frente e jogou em seu rosto. Prometera a si mesmo que se ela fizesse isso uma próxima vez, faria igual. Não houve tempo. Arremessando o líquido, saiu rapidamente do restaurante, deixando a conta e os olhares em volta, todos para ele.
Desde que se conheceram demonstrou ter temperamento forte, o que o atraiu ainda mais. Era também alegre e expansiva. Podia dizer até que carinhosa. Nem sempre, claro. Costumava afirmar que ela ia do oito ao oitenta.
Ele era um homem alto, acima do peso e quando estavam ao lado um do outro, essa diferença parecia sobressair. Do tipo pequena e magra, transmitia uma fragilidade que não possuía.
Numa das primeiras vezes em que demonstrou raiva descontrolada, haviam saído da boate porque tivera ciúmes de uma mulher que dançava perto. Dentro do carro, enquanto gritava, deu dois tapas na cara dele. Foi pego de surpresa, mas segurou seu pulso com força e fez com que ficasse quieta. Não pensou em revidar, já que com sua força poderia machucá-la muito.
Algum tempo depois, porque o viu conversando com uma garota, tirou o relógio que usava e lançou em cima dele, ferindo sua boca. Chorou quando viu sangue, pediu desculpas e prometeu não repetir. Como realmente estivera conversando e ficado com a tal garota, achou melhor deixar para lá.
Mas o que era esporádico tornou-se habitual. Sempre temendo que com sua força pudesse tomar qualquer atitude de que se arrependeria, não reagia, apenas tentava defender-se.
Sabia que precisava levantar daquela cama e falar com Kátia. Quando tentou terminar o relacionamento, ameaçou colocar fogo em si mesma. Não tinha certeza se faria ou não. Preocupava.
Saiu da cama e resolveu tomar banho. A água fria do chuveiro parecia trazer ânimo. Trocaria a fechadura da porta do apartamento e não atenderia aos telefonemas. Talvez fosse boa a idéia de viajar por alguns dias, quem sabe na volta, pudessem conversar normalmente. Naquele momento entendia que seria impossível.
Pegou a toalha e enrolou na cintura. Estava ficando velho. Alguns cabelos brancos começavam a aparecer.
Ouviu barulho e viu Kátia parada na porta do banheiro olhando firme para ele.
Tinha um isqueiro na mão e um vidro de álcool na outra.
9- 8-2011