Não tenho medo de nada. Ou quase.
candida 04/08/2011 02:35
                                    Não tenho medo de nada. Ou quase.                                                                                                          Cândida Albernaz   - Você vem ou não vem?             - Estou indo. Pare de apressar.             - Vai me atrasar.             - Atrasar como, se não tem hora marcada?             - Não pedi para que fosse comigo.             - Eu sei que não pediu. Mas sei também que quer que eu vá.             - Está enganada. Posso muito bem fazer isso sozinho.             - Pode sim, mas eu vou junto.             - Você é quem sabe. Por favor, anda logo!             - Vou tomar um café.             - O quê? Agora já está se tornando falta de respeito.             - Só rindo com você.             - Rindo? Estou tenso, não percebeu?             - Percebi, desculpe. Toda vez é a mesma coisa.             - Vai comer também???             - Um pedacinho de pão...             - Não espero nem mais um segundo.             - Deixa de história e senta aí. Estou terminando.             - Entrou no banho, lavou o cabelo, o que leva horas, e ainda resolveu tomar um café completo...             - Nem demorei tanto assim.             - ...e eu aqui esperando.             - Acabei, pronto.             - Estou ligando o carro.             - Ué, você vai dirigindo?             - Claro que não. Disse que vou ligar o carro. Colocar a chave na ignição e girar.             - Não gosto nada dessa sua impaciência.             - E eu não gosto nada quando dependo de você.             - Meu querido...             - Aonde você está indo agora?             - Pegar minha bolsa. Quer que eu saia sem documentos?             - Você não leva a sério minhas necessidades.             - Levo sim. Pronto, estou com ela e você não entrou no carro até agora.             - Estou nervoso.             - Parece uma criança. Pegou o pedido?             - Como assim? Achei que estivesse com você.             - Fique quieto aí. Estava na mesinha do quarto. Eu mesma vou buscar.             - ...             - Como pode um homem do seu tamanho ter tanto pavor?             - Trauma de infância, acho.             - Já doeu DE VERDADE! alguma vez?             - Todas!             - Não consigo deixar de rir. Você sempre fica nesse estado.             - Você reparou no tamanho do pedido?             - Eu li.             - Já imaginou de quantos tubinhos vai ser preciso?             - Não perco meu tempo.             - Aquela borrachinha prende os pelos do meu braço e me machuca...             - Não seja ridículo!             - E quando eles não acertam a veia na primeira vez?             - Pare de pensar nisso. Você é pior que nosso filho.             - Não deixe que ele saiba do meu medo.             - Claro que não! E se ele resolve imitar o pai?  Mais um trabalhão para mim.             - Você dá risada...             - Desculpe amor. Não consigo me controlar.             - Você sabe que não posso ver sangue.             - Então não olhe.             - Só mais uma coisa...             - Faço sim.             - Como sabe o que vou pedir?             - Como??? Todas as outras vezes você pediu.             - ...             - Não fique mal. Eu seguro sua mão.             - E nunca, mas nunca mesmo vai contar isso para alguém.             - Nunca, meu querido.             - Chamaram meu nome.             - Vamos lá, meu homem. Prometo que na hora fico bem quietinha.             - Espero que sim, porque se você se mexer, sua mão também vai mexer e meu braço vai tremer e a agulha pode sair e eu...             - Meu Deus, chega. Estende o braço que a enfermeira está esperando...                                                                                              2-8-2011

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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