Não tenho medo de nada. Ou quase.
Não tenho medo de nada. Ou quase.
Cândida Albernaz
- Você vem ou não vem?
- Estou indo. Pare de apressar.
- Vai me atrasar.
- Atrasar como, se não tem hora marcada?
- Não pedi para que fosse comigo.
- Eu sei que não pediu. Mas sei também que quer que eu vá.
- Está enganada. Posso muito bem fazer isso sozinho.
- Pode sim, mas eu vou junto.
- Você é quem sabe. Por favor, anda logo!
- Vou tomar um café.
- O quê? Agora já está se tornando falta de respeito.
- Só rindo com você.
- Rindo? Estou tenso, não percebeu?
- Percebi, desculpe. Toda vez é a mesma coisa.
- Vai comer também???
- Um pedacinho de pão...
- Não espero nem mais um segundo.
- Deixa de história e senta aí. Estou terminando.
- Entrou no banho, lavou o cabelo, o que leva horas, e ainda resolveu tomar um café completo...
- Nem demorei tanto assim.
- ...e eu aqui esperando.
- Acabei, pronto.
- Estou ligando o carro.
- Ué, você vai dirigindo?
- Claro que não. Disse que vou ligar o carro. Colocar a chave na ignição e girar.
- Não gosto nada dessa sua impaciência.
- E eu não gosto nada quando dependo de você.
- Meu querido...
- Aonde você está indo agora?
- Pegar minha bolsa. Quer que eu saia sem documentos?
- Você não leva a sério minhas necessidades.
- Levo sim. Pronto, estou com ela e você não entrou no carro até agora.
- Estou nervoso.
- Parece uma criança. Pegou o pedido?
- Como assim? Achei que estivesse com você.
- Fique quieto aí. Estava na mesinha do quarto. Eu mesma vou buscar.
- ...
- Como pode um homem do seu tamanho ter tanto pavor?
- Trauma de infância, acho.
- Já doeu DE VERDADE! alguma vez?
- Todas!
- Não consigo deixar de rir. Você sempre fica nesse estado.
- Você reparou no tamanho do pedido?
- Eu li.
- Já imaginou de quantos tubinhos vai ser preciso?
- Não perco meu tempo.
- Aquela borrachinha prende os pelos do meu braço e me machuca...
- Não seja ridículo!
- E quando eles não acertam a veia na primeira vez?
- Pare de pensar nisso. Você é pior que nosso filho.
- Não deixe que ele saiba do meu medo.
- Claro que não! E se ele resolve imitar o pai? Mais um trabalhão para mim.
- Você dá risada...
- Desculpe amor. Não consigo me controlar.
- Você sabe que não posso ver sangue.
- Então não olhe.
- Só mais uma coisa...
- Faço sim.
- Como sabe o que vou pedir?
- Como??? Todas as outras vezes você pediu.
- ...
- Não fique mal. Eu seguro sua mão.
- E nunca, mas nunca mesmo vai contar isso para alguém.
- Nunca, meu querido.
- Chamaram meu nome.
- Vamos lá, meu homem. Prometo que na hora fico bem quietinha.
- Espero que sim, porque se você se mexer, sua mão também vai mexer e meu braço vai tremer e a agulha pode sair e eu...
- Meu Deus, chega. Estende o braço que a enfermeira está esperando...
2-8-2011