Ainda estava escuro
Ainda estava escuro
Cândida Albernaz
Acordava exausta todas as vezes em que o sonho se repetia. E isto vinha acontecendo com maior frequência.
Sentia o peito acelerar e os olhos abriam de uma só vez, arregalados, como num susto.
Sempre a mesma coisa, um homem cujo rosto não identificava, caminhava atrás dela. Era uma rua clara, com sol a pino, e sentia-se quase alegre. Então ouvia passos e virava o pescoço para olhar. Quando retornava a posição inicial, notava que a rua à sua frente estreitava-se como um funil. Através daquele espaço mínimo para onde se dirigia, e tinha a sensação de não caber, observava uma escuridão. Quanto mais se aproximava do único lugar por onde poderia escapar, mais sombrio ficava.
Nunca conseguiu transpor aquele trecho, porque assim que tentava fazer seus olhos acostumarem, o homem a tocava e ela gritava apavorada.
Pensava e não conseguia entender o porquê do mesmo sonho.
Melhor levantar e tomar um banho, de qualquer forma não voltaria a dormir. O dia seria longo e cansativo, principalmente por não haver descansado o suficiente.
A irmã por parte da mãe, que morava com ela, devia continuar deitada. Sempre saía do quarto depois do meio dia.
Amavam-se, conviviam bem, mas eram completamente diferentes uma da outra.
Ana costumava ter algo de muito divertido, segundo ela, para fazer. Saía quase todas as noites. Vivia de uma pensão deixada pelo pai, que morrera logo depois da mãe das duas.
Seu pai, que ainda vivia, não possuía uma condição financeira da mais favorável. Nunca fora ambicioso, e como repetia sua mãe, foi o que mais a atraiu “um homem que pensa no hoje, e que me faz feliz dia após dia”. Agora ele mora num pequeno apartamento e é ela quem o ajuda com as despesas. Aprendera a respeitar aquele homem sonhador.
Divertia-se com as histórias que Ana contava. Até mesmo sobre cada novo namorado que trazia para casa. Esse era o único senão na paz das duas. Tiveram alguns problemas com aquele entra e sai de homens estranhos onde residiam.
Ela era diferente. Tinha dedicação ao trabalho nas faculdades em que dava aulas. Com poucos amigos, sua maior distração era estar em uma sala de cinema.
Vivia cada personagem apresentado na tela como se fosse ela mesma. Colocava-se no lugar deles, e por diversas vezes, ao contar um filme para a irmã, esta ria, dizendo que a vida real podia ser muito, mas muito mais interessante. Imaginava que talvez fosse, mas não a dela. Tinha um medo enorme do ser humano e revestia-se de um escudo por onde quase nada transpassava.
Saindo do banheiro encontrou Ana deitada em sua cama com o rosto inchado de chorar. Não houve tempo de perguntar qualquer coisa, porque a irmã foi contando que o cara com quem estava há três meses, “aquele, que parecia ser tão legal” por conta de um ciúme ridículo, bateu em seu rosto e ainda chutou sua barriga. O choro voltou com força e os soluços faziam com que o corpo tremesse. Abraçou a irmã e esperou que acalmasse. Colocou nela uma camisola e aguardou que dormisse antes de sair. Conversariam mais tarde.
Deu aulas o dia inteiro e ligou algumas vezes para saber se estava tudo bem. A garota que trabalhava para elas dava as informações.
A noite, voltando para casa, parou numa delicatessen para comprar um vinho e alguma comidinha gostosa para as duas.
Quando entrava no carro, reconheceu o namorado da irmã que se aproximou dizendo que precisava falar com ela. Afirmou que Ana não queria atender as ligações. Pediu que caminhasse um pouco com ele e diante de uma recusa, segurou com firmeza seu braço. Achou melhor não reagir e o seguiu.
Arrependeu-se logo adiante. Na rua em frente, fez com que parasse e sem que tivesse tempo para qualquer reação, ganhou um soco no nariz. Caiu no chão recebendo mais um. Ainda tonta percebeu que ele retirava parte de sua roupa, e em seguida penetrou-a com força. Gemia em seu ouvido deixando recados para a irmã. “Ela não vai me fazer de imbecil. Pensou que poderia me enrolar saindo comigo e com outro cara. Agora tenho a irmãzinha também. Avise que ainda não acabei. Quanto a você, sei que gostou. Conheço mulher do seu tipo. Banca a difícil para a gente forçar. É um joguinho, não é? Não se preocupe porque dou conta das duas”.
Fechou o zíper da calça e saiu andando.
Estava muito escuro. Olhou para o final da rua e teve a sensação que esta se fechava. Imaginou se conseguiria sair dali. Como passar por um fio tão estreito? Sentiu o corpo mole e os olhos fechando.
Talvez acordasse exausta quando o abrisse.
18/09/2011