A casa de praia
A casa de praia
Cândida Albernaz
A ventania faz com que as cortinas se movimentem de forma desordenada. Lá fora o som da água de encontro às pedras provoca uma sensação de medo.
A cor do mar nessa época do ano me agrada, sempre gostei do inverno na praia.
Você e eu costumávamos vir para cá e à noite, enquanto tudo era silêncio, nadávamos até a exaustão. Competir. Não havia notado antes, mas competíamos em quase tudo. Até mesmo na escolha da cor de nossa casa. Você queria branca, e eu tangerina. Depois de pintada, em toda a redondeza podia ser vista mesmo de longe, a casa de tom forte contrastando com a claridade do dia.
Quando me disse que ia embora, apostei que voltaria logo e então seria eu quem não ia querer que ficasse.
Não voltou e esperei por muito tempo não perder a aposta.
Mudei, não sou mais a mesma. Se antes provocava discussões em qualquer situação, hoje me aquietei e quase não falo. Penso, penso o tempo todo. Dizem que quando perdemos algo, aquilo se torna quase perfeito em nossas lembranças. Talvez seja assim, mas gosto, porque me traz saudades boas.
Você passou a não ter defeitos. Eu também. Hoje acho que nos amamos menos do que queríamos. Desejávamos muito mais o amor do que a nós mesmos.
Quando sugeriu que morássemos aqui, aleguei que era urbana e não conseguiria viver longe do movimento da cidade. Você precisava de tranquilidade para escrever e eu de vida noturna para respirar.
Veio e ficou por dois meses sem que eu o procurasse. Pedi arrego e numa noite quando não suportava mais sua falta, cheguei sem avisar. Você não estava e esperei. Acabei dormindo e já era dia quando abri os olhos e vi que me olhava. Pediu desculpas e eu não quis ouvir mais nada. Não nos separamos em todo o fim de semana.
Passei a vir todas as quintas e voltar na segunda. Tentou me falar sobre alguma coisa, mas não permiti. Ficávamos grudados um no outro e com o tempo achei que não tinha mais porque ter medo.
Um dia foi à cidade sem avisar e antes que pudesse abraçá-lo pela surpresa, despejou em cima de mim que apesar de gostar de estar comigo, não me amava como antes. Queria o meu bem e isso era muito pouco.
No dia seguinte viajou para outra cidade com um novo romance que fugiu do papel. Precisava se sentir assim para que continuasse escrevendo. Respirar amor, expectativas e uma ponta de sofrimento para que tivesse inspiração. Era uma necessidade, me afirmou.
Fiquei com o sofrimento inteiro e continuei a respirar amor.
Mesmo quando me recordo desse dia, não o sinto ruim.
Estou lendo seu segundo romance, e me reconheço em alguns trechos. Agradeço o carinho com que me descreveu. Quando recebi seu livro e a carta em que falava sobre ele, não tive sobressaltos ou aperto no peito. Passou.
A solidão que busco diante do escuro do mar me causa prazer. Fico muito mais tempo aqui do que jamais imaginei gostar.