A casa de praia
candida 06/10/2011 14:20
      A casa de praia                                                                            Cândida Albernaz            A ventania faz com que as cortinas se movimentem de forma desordenada. Lá fora o som da água de encontro às pedras provoca uma sensação de medo.          A cor do mar nessa época do ano me agrada, sempre gostei do inverno na praia.          Você e eu costumávamos vir para cá e à noite, enquanto tudo era silêncio, nadávamos até a exaustão. Competir. Não havia notado antes, mas competíamos em quase tudo. Até mesmo na escolha da cor de nossa casa. Você queria branca, e eu tangerina. Depois de pintada, em toda a redondeza podia ser vista mesmo de longe, a casa de tom forte contrastando com a claridade do dia.          Quando me disse que ia embora, apostei que voltaria logo e então seria eu quem não ia querer que ficasse.          Não voltou e esperei por muito tempo não perder a aposta.          Mudei, não sou mais a mesma. Se antes provocava discussões em qualquer situação, hoje me aquietei e quase não falo. Penso, penso o tempo todo. Dizem que quando perdemos algo, aquilo se torna quase perfeito em nossas lembranças. Talvez seja assim, mas gosto, porque me traz saudades boas.          Você passou a não ter defeitos. Eu também. Hoje acho que nos amamos menos do que queríamos. Desejávamos muito mais o amor do que a nós mesmos.          Quando sugeriu que morássemos aqui, aleguei que era urbana e não conseguiria viver longe do movimento da cidade. Você precisava de tranquilidade para escrever e eu de vida noturna para respirar.          Veio e ficou por dois meses sem que eu o procurasse. Pedi arrego e numa noite quando não suportava mais sua falta, cheguei sem avisar. Você não estava e esperei. Acabei dormindo e já era dia quando abri os olhos e vi que me olhava. Pediu desculpas e eu não quis ouvir mais nada. Não nos separamos em todo o fim de semana.          Passei a vir todas as quintas e voltar na segunda. Tentou me falar sobre alguma coisa, mas não permiti. Ficávamos grudados um no outro e com o tempo achei que não tinha mais porque ter medo.          Um dia foi à cidade sem avisar e antes que pudesse abraçá-lo pela surpresa, despejou em cima de mim que apesar de gostar de estar comigo, não me amava como antes. Queria o meu bem e isso era muito pouco.          No dia seguinte viajou para outra cidade com um novo romance que fugiu do papel. Precisava se sentir assim para que continuasse escrevendo. Respirar amor, expectativas e uma ponta de sofrimento para que tivesse inspiração. Era uma necessidade, me afirmou.          Fiquei com o sofrimento inteiro e continuei a respirar amor.          Mesmo quando me recordo desse dia, não o sinto ruim.          Estou lendo seu segundo romance, e me reconheço em alguns trechos. Agradeço o carinho com que me descreveu. Quando recebi seu livro e a carta em que falava sobre ele, não tive sobressaltos ou aperto no peito. Passou.          A solidão que busco diante do escuro do mar me causa prazer. Fico muito mais tempo aqui do que jamais imaginei gostar.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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