São só as horas que precisam passar
candida 15/09/2011 00:22
                     São só as horas que precisam passar                                                                            Cândida Albernaz            São as horas. Elas me consomem, correm atrás de mim enquanto tento buscá-las.          Hoje durmo mais apesar dos ruídos noturnos. Não me acostumei a eles, ainda os temo, mas como não param, durmo apesar deles. Não tenho sonhos: pesadelos. Me disseram que com o tempo volto a sonhar, o que me parece impossível. Sonhos têm a ver com o que fazemos ou gostaríamos de fazer, muitas vezes com a esperança.          Não há ontem ou amanhã, espero que o hoje passe. Mentira, o ontem existe e é por ele que estou aqui. Apenas tento não pensar.          Tenho regulamentos e o relógio exige que obedeça horas com as quais meu corpo não concorda. Onde estou, os horários são rígidos, mas as regras, estas são implacáveis: nunca antes obedeci a alguma.          Daquele dia em especial, só me arrependo de uma coisa: você meu irmão, confiou no que prometi. Hoje, quando olho em seus olhos quase infantis, abaixo os meus e você os mantêm firmes e opacos. Jamais havia se envolvido com atitudes erradas, gostava do correto, seguindo-o com prazer: aqui dentro não há o prazer, menos ainda o correto.          Pensei em tudo, foi o que imaginei, e pedi que apenas me esperasse com o carro ligado: como insisti para que participasse! Tive que garantir que não tiraria nada de ninguém que necessitava. Os bancos, que “sugam o povo”, têm seguro e o que levássemos, só eles perderiam. Ninguém seria ferido ou morto: foram quatro, inclusive a menina morena que dava a mão à mãe, confiante que assim estaria protegida.          Depois de dias programando tudo com os rapazes, resolvi chamá-lo. Disse de cara que preferia não saber do que se tratava, mas o convenci do contrário: irmãos unidos, irmão que precisa do outro, irmão que leva o caçula para aquele inferno.          Soube do que fizeram com você e ainda fazem. As malditas horas que não passam e arrastam meus pensamentos com elas.          Não tenho como defendê-lo, porque neste lugar miserável a lei é outra.Tenho medo que enlouqueça: você e sua bondade na forma de ver as pessoas. Não conversamos, mas acredito que não veja mais nada desse jeito.          Quando os homens chegaram eu estava lá dentro e enquanto as pessoas se esgueiravam pelos cantos, os tiros fizeram com que dois dos nossos, fossem alvos certeiros.          Eu não sabia ainda, mas você já estava na mão deles do lado de fora.          No banco um rapaz que tentou proteger o irmão menor com um abraço, acabava de levar um tiro. Soube depois: também não resistiu. Não pude protegê-lo e você tem dezoito anos e você acreditou em mim e você queria continuar estudando para “vou ser alguém na vida” e você cuidou de nossa mãe até que ela se foi. Eu tirei você de suas crenças, com o poder do irmão mais velho e admirado que o convenceu a entrar neste mundo do qual só ouvíamos falar.          Vai cumprir menos tempo do que eu, e peço que aguente firme. O pesadelo que vive acordado vai acabar. São só as horas que precisam passar.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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