Só um bate papo
Só um bate papo.
Cândida Albernaz
- Olha só que bonitinho!
- ...
- Vem cá, meu bichinho. Notou a carinha que ele fez para mim?
- Hum!
- Eu sei que quer falar alguma coisa. Mas não pode, não é? Querido, viu como ele entendeu?
- Estou lendo o jornal.
- E não pode parar só um pouquinho para me dar atenção?
- Posso sim. Sobre o que quer falar?
- Falar nada. Estou mostrando a você como o Al Capone é inteligente. Não parece que tenta falar com a gente?
- Falar?
- É sim. Ficou zangado com você porque duvidou da capacidade dele. Viu só? Virou a cara para o outro lado.
- Olha querida. Disse que queria minha atenção. Mas o que quer mesmo é bater papo com o cachorro.
- Você não quer interagir com a gente...
- Interagir?
- Não vê que eu e o Al estamos carentes? Precisando de você?
- M-E-U-A-M-O-R! Eu estava lendo o jornal. Sabe que meu tempo é curto e daqui a pouco volto para o trabalho.
- Você não gosta de mim nem do Al Capone.
- Não gosto? Quem teve a idéia de comprar um cachorro?
- Você, mas...
- Quem o leva para passear e fazer as necessidades todos os dias?
- Porque você quer.
- Pois é. Porque eu quero e gosto. Até brinco com ele de vez em quando.
- Eu sei...
- Mas conversar como se pudesse me responder não dá.
- Mas ele gosta que fale com ele.
- Então continue, mas não me peça para escutar os rosnados de um cão como se fosse a nossa língua.
- Você está de mal humor.
- Não estava. Fiquei.
- Então quer dizer que a culpada sou eu?
- Quer dizer que a hora passou, não pude ler o jornal e preciso voltar para o escritório.
- Não esqueça que temos um aniversário hoje à noite.
- Não me lembro de convite algum.
- Porque não tem convite. Vai ser aqui em casa.
- Desculpe querida, mas não é nosso aniversário de casamento?!
- Você esqueceu.
- Eu sou de maio e você de outubro...
- Está vendo só? Faz um ano que Al chegou aqui em casa.
- Ah! Aniversário do Al...
- Vou sair para comprar um bolo.
- Agora enlouqueceu de vez. Animais não devem comer bolo, porque não faz bem para eles.
- E quem disse que ele vai comer? Para ele vou comprar uma ração especial. E um osso. O bolo nós comemos.
- Você não estava fazendo dieta?
- Me chamou de gorda.
- Não falei isso. Hoje durante o almoço, me obrigou a comer um monte de folhas com um pedaço de carne. Não quis fazer nenhum prato diferente porque não resistiria e engordaria mais.
- Não gosto quando fica falando de comida e gordura. Fico magoada.
- Mas foram suas essas palavras. Só repeti.
- Acha então que não posso comer nem um pedacinho de bolo?
- Acho que você pode comer ele inteiro. Detesto doce.
- Está me ofendendo.
- Preciso realmente ir. Estou atrasado e tenho uma reunião daqui a cinco minutos.
- Amor? Não vou ganhar um beijo?
- Claro que vai. Alguma vez saí de casa sem te dar um beijo, querida?
- Amor?
- O que foi agora?
- Olha só a cara do Alzinho. Também quer um beijinho. Hoje é aniversario dele e você nem deu os parabéns.
- Não acredito!
30/08/2011