Vamos tomar um sorvete
candida 18/08/2011 02:06
                        Vamos tomar um sorvete                                                                                                             Cândida Albernaz             Não adianta pensar muito, o melhor é ir levando a vida.             São seis horas de uma manhã escura. Choveu a noite toda. Ainda bem que retirei a roupa da corda a tempo. Dentro de casa não tem mais goteira porque semana passada pedi ao China que olhasse os buracos na telha. Setembro sempre chove. Eu e as crianças, na última tempestade, mal tínhamos onde ficar para nos proteger. Descia água nos três cômodos da casa. Dalva pegou uma gripe tão forte que fiquei dias sem dormir cuidando dela. Agora está boa e o telhado perfeito.             Gosto de chamar de casa, mas é um barraco construído no terreno da mãe de meu marido. Não parece muito resistente para quem olha, mas vivemos ali há seis anos.             Mês passado conseguimos forrar o chão com cimento, ficou bem melhor do que a terra batida onde pisávamos. Muita umidade.             Estava pensando que a hora mais tranquila é essa, quando estou no ônibus indo para a casa de dona Sílvia, onde trabalho. São os únicos minutos do dia, quarenta ao todo, em que sento - quando tem lugar - e não faço nada.             Desde criança chamam meu marido de China. Ele é negro como eu, mas os olhos são puxados, quase fechados como os de um chinês. Este ano conseguiu um emprego fixo, com carteira e ficou mais fácil para a gente. Não é que ganhe muito, mas pelo menos ajuda na despesa. Ele não é malandro como alguns gostam de falar, não tem é sorte mesmo.             Hoje combinamos de voltar juntos para casa. Costumo sair mais cedo, mas dona Sílvia vai fazer um lanche para as amigas e só posso ir embora quando acabar. Ela combinou comigo que às sete horas no máximo estaria terminado.             Faz anos China não me pega na saída do serviço. Desde que casamos. Antes não, ele sempre arrumava um jeito de me acompanhar para namorarmos, escondido dos meus pais. Papai não gostava dele, dizia que não parava em emprego nenhum. Nada adiantou, casamos logo.                                    *                                 *                                 *             O dia foi cansativo, as amigas de dona Sílvia vivem dizendo que estão fazendo dieta, mas comem sem parar. Deram um trabalhão. Era um tal de “mais um pouquinho disso”, “mais um pouquinho daquilo”, que não tinha fim.             China deve estar chegando. Tô me sentindo a namorada dele de novo. Mulher boba, eu sou. Mas é bom quando estamos empregados. Não falta comida em casa e nosso humor melhora. Até as crianças sorriem mais.             Dona Sílvia veio mexer comigo, dizendo que estou com os olhos brilhando. É que falei para ela que no caminho vou parar e tomar um sorvete. Nunca temos esse luxo. Ela me deu um dinheirinho extra. Gosto dela, sempre me ajuda nas fases mais difíceis. Estou nesse serviço há cinco anos.             Quando chego ao portão, meu marido está me esperando. Falo sobre o sorvete e ele me observa engraçado. Acho que gostou da idéia. Passou o braço no meu ombro e eu na cintura dele. Olho para o chão, tenho vergonha de que ele veja como estou feliz. Parece pouco, mas faz tanto tempo não ficamos sozinhos, andando abraçados na rua.             Paramos na porta da lanchonete.             A rua está deserta. Nem vou pensar que nossas filhas estão sozinhas em casa a essa hora. Apesar de morar no mesmo terreno da avó, não gosto que elas fiquem incomodando. A mãe dele está velha e doente, mal se aguenta em pé.             Uma moto vinha no fim da rua bem devagar, quando de repente ela acelerou e subiu na calçada. China me puxou tentando fazer com que eu saísse dali. Não houve tempo. Um deles descarregou a arma para dentro da lanchonete. China protegeu meu corpo com o dele. Senti meu marido pesando e me levando junto ao chão. Foi muito rápido. Pessoas se aproximaram e o tiraram de cima de mim.             - Que azarados, esses dois. Os caras queriam o dono da lanchonete. Estava jurado há tempo.             - Olhe só, ela está viva. Está sentindo alguma coisa?             Como assim, sentindo alguma coisa? Eu quero meu marido.             Estávamos tomando um sorvete... Andamos abraçados até aqui... A vida ficando um pouco mais fácil... Agora que arrumou um emprego... Nossas filhas mais sorridentes... Ele me olhava como no tempo de namoro...

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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