É a vida, doutor
É a vida, doutor
Cândida Albernaz
Obrigado pela carona, doutor. Estou em pé no sol há horas. O movimento nessa estrada é fraco, e os carros que passam, não querem parar.
Poderia ter andado até a principal, mas achei que seria muito distante. Aqui dentro tá fresco. Nada como ar condicionado, né doutor?
Reparei que o senhor é um homem de poucas palavras. Ao contrário, falo demais. Minha mulher é caladona e reclama por eu ser agitado.
Tenho três filhos pequenos, uma casa caindo aos pedaços e uma mulher que nem tem mais todos os dentes. Era bonita, a danada. Agora parece um trapo, como eu. O senhor já deve ter percebido que também perdi alguns dentes. Vida difícil, tempo que não sobra, trabalho demais, dinheiro curto e falta de vontade. Sabe a tal da vontade que faz a gente querer coisas? Nem lembrava mais como era. O que eu gostaria mesmo é poder dar conforto para meus filhos, estudo melhor, comida decente e remédio. Ah, doutor, para os meus pequenos irem para a escola, temos que andar uns dois quilômetros a pé, até o ponto de ônibus. O senhor não pode entender. Carro bom, os filhos devem ser todos bonitos, gordos e cheios de saúde.
Estava pensando que mereço um pouco mais para dar aos meus. Com o trabalho que faço, não consigo. Não sei ler direito, e não tenho nenhum outro lugar para ir. Meu negócio é aqui na lavoura.
O senhor parece boa pessoa e eu nunca fiz isso antes, mas o caçula está mal. A mulher me xingou de vagabundo e ela nem deve saber o que é, porque se tem uma coisa que eu não sou é malandro ou vagabundo. Trabalho de sol a sol.
Bati nela, doutor. Foi a segunda vez. Fiquei nervoso porque gritou comigo.
Está com medo de mim? Fica não. Se fizer direitinho o que eu falar, não faço nada contra o senhor. Só preciso de algum dinheiro. Vamos até um caixa e retira a grana. Não me olhe desse jeito. Se for preciso, descarrego a arma sem pensar muito.
Sabe o que me assusta? A cara dos filhos quando estão com fome. Os olhos compridos para cima de mim quando entro em casa com as mãos vazias. Imaginou um filho seu chorando com dor na barriga porque tem fome?
Já saiu para trabalhar deixando alguém da família precisando de remédio, e a gente que é pai, responsável, não poder comprar? E quando leva para o hospital e eles respondem na maior cara de pau, que não tem vaga? O desejo é matar o desgraçado.
Reconheço que não tem nada com isso, mas hoje decidi que vou voltar para casa com a mão cheia. Vou comprar carne, doutor. Carne! E feijão também, porque eles adoram. Nós criamos galinhas magras para vender e uma vez ou outra tiramos uma para nossa refeição. Mas a carne vermelha, com aquele cheiro quando está no fogo, essa não comemos há muito tempo.
Consegue ver a cara da minha mulher quando eu aparecer com um vestido novo?
Sem ninguém ter usado antes? Vai até esquecer o tabefe que dei nela.
Aproveito entro na farmácia e compro os remédios para meu filho. Lá no hospital eles deram, mas nunca é o suficiente.
Pronto, doutor. Tirou tudo o que tinha na conta?
Vou deixar o senhor no meio do mato que é para criar dificuldade. Sabe que estou com seus documentos e este recibo aqui tem o endereço. Se me pegarem, doutor, não fico preso para sempre, e aí já viu, né? Vou atrás da sua família e pego um filho seu.
Não pense que não sou capaz. Essa cara de homem bom que tenho fica muito diferente quando comparo a vida que meus filhos levam com a dos filhos dos outros. Sinto uma dor no peito que só acaba quando boto a raiva para fora.
Fica aí quietinho. Aprendi a dirigir. Não sou muito bom porque não tenho prática, como teria né? mas dá para levar o carro para bem longe daqui.
Quero o seu mal não, mas me deixe em paz. Venho de longe e a volta vai ser demorada.
Sabe o que me anima? Ter certeza de que quando eu chegar, até o sorriso banguela da minha mulher vou achar bonito.
Porque eu sei que ela vai rir para mim.
21-8-2011