Decisão
21/01/2017 | 18h47
                Decisão                                                                                               Cândida Albernaz                 Era possível ler na parede amarela e suja, ”Bar do Castelo”. Ao lado, a imagem de uma torre mal desenhada, tentava dar significado ao nome escolhido.                 No banco de madeira, sem encosto, ele permanecia sentado, com a cabeça baixa bem próxima aos joelhos. Olhava o chão como se dele fosse retirar respostas. Estava fora de casa desde o dia anterior. Não bebera. Não dessa vez. A mulher e a mãe deviam estar à sua procura. Não era seu hábito não voltar. Precisava pensar e as duas não deixariam. A mãe e os conselhos para que fosse como o pai. Pobre, mas orgulhoso de jamais ter cometido algum ato de que pudesse se envergonhar. De que adiantou?                 Ouvira durante a infância e adolescência como o trabalho é importante e faz o homem crescer e ser respeitado. Aprendera.                 Não era velho, casara há pouco e ainda não tinham filhos. Sempre seguiu a imagem desse pai que admirava. Grandalhão, sem ser gordo e com uma força física enorme. Incapaz de falar mais alto ou levantar a mão para alguém. Só uma vez, recordava-se, de vê-lo numa briga. Que não durou muito. Segurou o rapaz pelo braço e perna e jogou longe como se fosse uma cadeira leve. O cara bateu na parede e caiu no chão. Todos pararam o que faziam para observar. Ele ficou ali, olhando e esperando qualquer nova reação. Este, com as mãos no pescoço e rosto, pôs- se em pé, virou as costas e foi andando sem emitir som.                 Papai aproximou-se de onde eu estava e notando a cara de riso, deu um cascudo em minha cabeça.                 - Vamos embora. Não estou vendo graça nenhuma no que aconteceu aqui. Não quero saber de você em briga... Olhei para cima e vi que falava sério comigo. Continuou:                  -... A não ser que desrespeitem sua mulher ou família.                 Descobri mais tarde o que aquele homem havia falado de minha mãe.                 Meus pais se conheceram numa boate, numa cidade não muito perto dali. Ela era dançarina e segundo contaram, apenas isso. Ia todas as noites para lá e ficavam conversando, dançando e ele gastando um pouco do que ganhava.                 Naquela época, ainda trabalhava como ajudante em obras. Quando o serviço acabou e teve que voltar, trouxe mamãe junto com ele. Casaram um mês depois e nunca mais estiveram longe um do outro.                 Imaginava que as duas poderiam estar nervosas, mas decidira o que faria.                 Enterrara o pai no dia anterior. Era estranho ver aquele homem tão grande, dentro de uma caixa, imprensado em meio a flores, com olhos fechados e mãos cruzadas sobre o peito.                 Esperava que a qualquer momento ele saísse dali, reclamando do calor e do quanto necessitava de um banho. Não levantou. E quando fecharam o caixão, teve a certeza de que não deixaria as coisas como estavam.                 Passou em casa antes que a mulher e a mãe chegassem e foi andar. Quando entrou no bar, pôde ver a mancha escura, deixada pelo sangue do pai. Estava molhado da água que jogaram, mas ainda era possível notar. Ouviu toda a história mais uma vez. O pai sentara-se à mesa de sempre, bebendo a cachaça que fazia questão de cheirar a cada vez que virava o copo na boca. Eram cinco no total e então voltava para casa. Habituaram ir juntos, mas ontem a mulher pediu que consertasse algumas telhas que haviam quebrado. Combinou de encontrar com ele mais tarde. Culpava-se por isso.                 O homem entrou no bar com passos incertos. Era nítido que bebera muito. Em uma das mesas estava um casal idoso e a esposa ria de qualquer coisa que o marido contara. O bêbado olhou para os dois e mandou que ela guardasse os dentes na boca. Permaneceram quietos por um tempo, e voltaram a conversar. Do balcão, começou a encará-los novamente. Meu pai e mais algumas pessoas que estavam presentes, ficaram observando. Então o tal se aproximou do casal e puxou a mulher de encontro ao próprio corpo.                 - Quer rir de verdade, vovó? Vou mostrar como...                 O senhor tentou arrancá-la dos braços dele e recebeu um soco no rosto enrugado, que fez com que caísse por cima da mesa.                 Papai foi em sua direção e puxou a senhora pela cintura. Quando a afastou, viram que ele se agachou com a mão segurando a barriga. Não houve tempo para nada. Uma nova facada atingiu seu pescoço.                 O sujeito saiu correndo, se enfiando nas ruas estreitas e empoeiradas.                 Acabou de saber onde ele estava escondido. Vieram avisar. Um barraco abandonado perto da estrada.                 Ergueu o corpo, segurou com firmeza o facão que amolara dois dias atrás e estava sob a blusa.                 O dono do bar parou a seu lado.                 - Boa sorte.                                                                                                                                              6/03/2012
Compartilhe
Ai canseira...
21/01/2017 | 18h47
Cândida Albernaz     Ontem eu conversava mais uma vez com Suzana, a vizinha. Aliás, não sei se posso chamar aquilo de conversa, porque só ela falava.     Quando a vejo se aproximando, vou logo avisando que estou ocupada, mas não adianta. Responde que também está e "nem tenho tempo para nada" e a frase é a deixa para que explique o porquê da falta de tempo.     Minha filha diz que sou muito paciente. Mas não é isso. Tenho pena porque o marido de Suzana bebe o dia inteiro. Mal fala com ela e quando isso acontece, berra, xinga e fica repetindo que a pobre não serve para nada. Está desempregado porque patrão nenhum quer um funcionário que vive faltando ao serviço ou que chegue bêbado.     A mulher trabalha feito uma condenada. Ela e a filha mais velha. As duas sustentam a casa, que inclusive está precisando de uma reforma urgente. Avisei que qualquer dia despenca tudo em cima deles. É reboco caindo, é telha quebrada, é viga mal sustentando as paredes...     Fico enjoada de ouvir tantas reclamações da boca de Suzana, mas fazer o quê?     Todos fogem dela. Dizem que só fala em desgraça. E é verdade. Quando não está sentindo dor nas costas, é na cabeça, ou nos braços e pernas, ou... Eu, que tenho muita saúde, graças a Deus, fico ali escutando e penso que qualquer dia, ela vai acabar adoecendo mesmo.     Tem dois meninos que nasceram bem depois da irmã. Crianças ainda, não ajudam. Mas ela não percebe que tem muita sorte com a filha. Garota boa, ao contrário da mãe, não exige nada. Sai pela manhã para o trabalho e de lá vai para a escola. Quer fazer faculdade e tenho certeza de que vai conseguir. Inteligente a mocinha.     Às vezes estou na varanda e a vejo chegando. Deixa as coisas em casa e sai. Antes de completar quinze minutos, volta segurando o pai pela cintura e leva para dentro. Estive reparando que ele nunca grita com ela. É a única que respeita. E obedece. Quando ele parte para cima de Suzana, e em algum momento o olhar do pai e da filha se cruza, ele abaixa a cabeça e sai gemendo: desculpa, desculpa, desculpa...     Essa garota foi responsável desde criança quando ajudava a cuidar dos irmãos. Nunca a ouvi falando com grosseria ou num tom mais elevado. Lembra uma flor que nasce no meio do mato.     Suzana devia levantar as mãos por ter uma filha como ela. Em vez disso, resmunga.     Reconheço que eu, com minha vida tranquila, onde quase nada falta, tenho mais sorte. Mas meu temperamento é outro, de qualquer forma. Também tenho aborrecimentos, que não são poucos. Meu marido nunca deixou faltar nada em casa, mesmo assim trabalho, porque não sou mulher de ficar parada vendo o tempo passar. E dessa forma não penso demais. Não costumo falar sobre mim com ninguém, apesar de que, aqui na vizinhança todo mundo sabe que Carlos tem outra família. Arranjou mulher logo depois que nos casamos e três filhos também. Chorei muito por isso, mas com o tempo, resolvi fingir que não era comigo. Nem sei como consegui. Vou levando porque ele é carinhoso e bom pai. Se ficasse sozinha, não sei se suportaria. E para ser franca, tenho preguiça de começar tudo de novo. Minha história está pronta e é ao lado de Carlos e dos meus filhos. Não vou sair por aí, lutando igual a uma louca, enfrentando o que sei que não vou aguentar.     Quando minha irmã me contou toda a história, disse que eu deveria me separar. Pensei e chorei um bocado. Mas quando decidi o que ia fazer, acabou o choro. O sofrimento não. Esse entranhou de tal jeito que não sai mais.     Da minha boca ninguém nunca ouviu nada. E quando tentaram entrar no assunto comigo, me fiz de burra, que isso sei fazer direitinho. Acho que desistiram.     Lá vem Suzana. O que será dessa vez? A gente é mulher, se entende, mas às vezes dá uma canseira...     Já que não vai dar tempo de entrar em casa, só me resta escutar mais um pouco.     - Oi, Suzana. Tudo bem?     - Tudo bem, nada. Não imagina o que minha...                                                     27-02-2012
Compartilhe
Rosas vermelhas porque sou um eterno apaixonado
21/01/2017 | 18h47
  Rosas vermelhas porque sou um eterno apaixonado CândidaAlbernaz   Viu como as rosas estão bonitas? Sei que não gosta que tire as flores, mas vou fazer um arranjo para colocar no nosso quarto. Rosas vermelhas porque sou um eterno apaixonado. Não ria de mim. Sempre que falo desse jeito, você ri, mas no fundo sente o mesmo. Ou não me aguentaria até hoje. Tenho pavio curto e por muitas vezes a faço chorar. Lembro-me quando veio dizer que resolveu trabalhar com uma amiga e abririam um comércio para vender os produtos que faziam. Olhei para você e ri alto, debochado, dizendo que ninguém compraria seus bolos ou geléias porque por mais que elogiasse quando os fazia, não eram tão bons assim. Ainda voltou ao assunto outras vezes, até que por fim, fui claro dizendo que não ajudaria em nada, e sozinha, não tinha dinheiro para começar. Ficou um mês sem falar comigo, porque é tinhosa também. Não disse nada, mas fiquei louco com aquilo. Se há uma coisa que gosto em você, é sua voz macia e calma. Ficar sem ouvi-la por tanto tempo foi o pior: respondia com monossílabos ou atos. Quase voltei atrás. Mais uma semana e eu faria qualquer coisa que quisesse. Ainda bem, me perdoe por pensar assim, que nosso filho adoeceu e precisamos sair durante a madrugada para um hospital. Ficou internado por três dias: pneumonia. Aproveitei-me e sentindo sua fragilidade, abracei-a e a retive nesse abraço por muito tempo. Voltamos a nos falar. Não pedi desculpas e nem retornamos ao assunto. Estou pedindo agora. Estou velho e me arrependo de várias coisas que falei e fiz, mas nunca de ter impedido que trabalhasse. Sempre a quis só para mim e não abro mão disso até hoje. Você não tentou de novo e poderia me dizer agora o quanto a decepcionei. Não, não diga, sabe que não suporto ser magoado. Não quero saber o que sentiu ou a frustração que carrega. Desculpe continuar tão egoísta. Dia desses, ouvi nossas filhas conversando com você sobre casos mal resolvidos. Falavam que quase toda mulher e alguns homens também, carregam pela vida um amor que não se completou. Comigo não é assim, o único amor que tenho e tive foi você e nunca senti falta de nada. Preciso confessar que enquanto as meninas falavam e você calada, ouvia, fiquei observando-a e percebi, para agonia minha, que seus olhos brilharam diferentes por segundos. Mesmo agora depois de tanto tempo, tocar nesse assunto é difícil para mim.        Não pode imaginar o desespero que senti. Em todas as vezes que tive oportunidade, mexia em suas coisas. Desculpe, mas no meio de suas cartas guardadas, achei a foto de um rapaz de quem nunca ouvi falar: “Para sempre Alberto”. O brilho que vi nos seus olhos naquele dia agora tinha nome e rosto. Se você nunca conseguiu esquecê-lo, ele passou a fazer parte também de meus pesadelos. Nem sei por que resolvi recordar isso. Prometi a mim mesmo não fazê-lo. Se ele existe em seu pensamento, de sua boca não quero ouvir nada. Está ficando frio aqui fora. É melhor entrarmos. Não temos mais idade para facilitar com a temperatura quando cai. O enfermeiro está na porta nos olhando com o eterno ar de recriminação. Proibi que viesse aqui no jardim enquanto estivermos conversando. Conhece toda a minha intimidade, já que dependo dele para tomar banho, comer... Mas, na nossa, minha e sua, ele não entra. A cadeira de rodas parece mais pesada hoje. Não, querida, não precisa me ajudar. Sei que não tem forças. - E então senhor Miguel, falando com dona Marina de novo? Não respondo. A porta agora está fechada e ele me empurra até o quarto. Pena não poder ficar mais com você. Sei que não entra aqui, porque ele está presente. Qualquer dia desses estaremos junto o tempo todo. Não vai demorar. - Está chorando outra vez, seu Miguel? Idiota! Então não sabe que não choro nunca?
Compartilhe
Desculpe por querer mais
21/01/2017 | 18h47
  Desculpe por querer mais                                                                  Cândida Albernaz                                                         Foi naquele dia em que eu não estava aqui. Esse o dia que você escolheu ir para todo o sempre.          Não consigo aceitar e por muitas vezes tenho raiva de seu egoísmo. E uma culpa enorme por não ter percebido que não bastava amar de forma incondicional. Era necessário que eu estivesse presente o tempo todo, para que os minutos não fossem desperdiçados e cada lembrança viesse ainda mais rica de detalhes.          Eu podia ter desistido de mim se soubesse antes o quão pouco ainda estaria comigo.          Fui à praia, como em quase todos os feriados e você não quis ir. Não era a primeira vez que desistia e não me incomodei. “Talvez seja bom ficar sozinha, terei mais tempo para não fazer nada”, porque apesar de não parecer a olhos alheios, você exigia minha presença todo instante.          Quantas vezes fiquei chateada por estar pronta para sair e você entrando no quarto reclamava da “única camiseta que gosto” estar amarrotada. O armário abarrotado delas, mas era aquela que queria. Não falava mais nada, mas achava ler em seus olhos um pedido de ajuda. Armava a mesa e impaciente passava a camiseta, a calça, a bermuda ou qualquer outra peça que quisesse usar no momento em que estava atrasada para um compromisso. Às vezes nem um obrigado escutava.  Quando o vi pela primeira vez, os olhos bem abertos me impressionaram, porque percebi que exigiria de mim o máximo de tudo que eu faria questão de dar.          E foi exatamente assim. A cada pedido, a ordem era obedecida e na grande maioria com prazer. Nunca quis dar menos a você do que dei, ao contrário, se conseguisse iria além.          Não haviam muitos “obrigados”, mas de quantos “eu te amo” me alimentei? Você não media seus carinhos, vinham na mesma proporção de suas exigências. Como sinto falta das duas coisas!          Nesse dia em questão, saiu tarde de casa com os amigos. Não estava ali para dizer mais uma vez sobre os perigos de qualquer dia ou noite em que eu não pudesse estar por perto. Disseram-me que se divertiu muito contando todas as histórias engraçadas que sabia, fazendo com que eles rissem. Dançaram, beberam e só quando voltava para casa com a garota que o escolheu para “ficar” , como vocês costumam dizer, é que tudo deu errado.          Estavam em frente a casa dela, dentro do carro que ganhou de seu pai havia poucos meses. Quanto alertei sobre ficar namorando na rua! Sei que era uma chata, mas a gente tem que falar e repetir todas as vezes porque na maioria delas, vocês não costumam levar em consideração.          Os caras chegaram e armados conseguiram que você levasse o carro para aquele lugar deserto. Parece que estou vendo sua garota daquela noite pedindo ajuda, e mesmo sob a mira de uma arma não conseguiu ficar apenas olhando. Reagiu tentando tirar um deles de cima dela, enquanto o outro atirou. Não adiantou nada não querer engolir seco e apenas olhar enquanto tudo se desenrolava. Perdeu a vida e não evitou que ela fosse machucada pelos dois.          Desculpe menina, por eu pensar que se estivesse ali teria pedido a ele que ficasse quieto em vez de defendê-la.          Desculpe por achar que mesmo se fosse eu no seu lugar teria preferido que ele não se metesse. Dessa forma eu ainda o teria, humilhado, machucado também, mas estaria aqui e eu cuidaria para que esquecesse de tudo.          Soube do que havia acontecido quando me entregaram o corpo sem vida. Ainda queria falar tanta coisa! Explicar mais uma vez que viver normalmente, como a maioria das pessoas vive, pode ser perigoso. Queria poder ser chata e repetitiva e nem precisaria me agradecer por nada que fizesse. O que queria mesmo era ver seus olhos bem abertos me observando exigentes, sem falar nada.
Compartilhe
É só dar um jeito
21/01/2017 | 18h47
É só dar um jeito                                                                               Cândida Albernaz          -Droga de vida!          Eu resmungava enquanto andava em direção a casa.          Seu Donato resolveu implicar comigo, logo agora que estava me saindo bem no trabalho.          Fazia algum tempo queria ficar no lugar de Edmundo, que era balconista da loja de ferragens onde eu trabalhava como entregador. Tinha uma bicicleta onde cabia tudo. Havia encomenda para entregar do outro lado da cidade? Eu ia. Estava chovendo muito? Eu também ia. Precisavam de qualquer peça na hora do almoço? Sem problemas, completava a entrega e almoçava depois.          Quando Edmundo pediu demissão, conversei com seu Donato, o gerente da loja, e ele me colocou na venda. Era mais tranquilo e com a comissão ganharia melhor.          O problema era que o homem de uma hora para a outra resolveu não gostar do meu serviço. Já estava no balcão há três meses e da última vez fiquei em segundo lugar na venda.          Há quatro semanas, a mulher de seu Donato deu para aparecer na loja todo dia. A gente via os dois cochichando e discutindo. Numa dessas vezes, ela saiu resmungando e quando passei, roçou o corpo no meu e sorriu. Ri para ela também que não sou de ferro. A Selma é gostosa, com o corpo cheio e o cabelo preto e liso que cai até a bunda. O marido, um ancião perto dela. Daí para frente ele não me deu sossego. Tudo o que faço está errado.          Hoje em particular, me atazanou mais que de costume: reclamou da forma que falei com o cliente, disse que não arrumei a prateleira direito e que a seção pela qual sou responsável estava imunda.          O patrão gosta do meu trabalho, mas o gerente é quem manda e fala o que quer.          Ele não entendeu que não quero nada com a Selma, que ela pode se esfregar em mim ou me olhar com insistência, como tem feito ultimamente que eu não gosto de confusão. Mas se esse velho me fizer perder o emprego, a primeira coisa que faço é pegar a mulher dele.          No caminho para casa encontrei com Edmundo.          -E ai? Soube que ficou no meu lugar.          -É. Queria muito uma oportunidade e estou me saindo bem.          -Não me parece muito animado.          -Cansado, só isso.          -Seu Donato já começou a “pegar no seu pé”?          -Por que pergunta? Fez isso com você também?          -Claro, por isso caí fora. A danada da mulher dele vivia me cantando. Saí com ela algumas vezes. Ele descobriu e me ameaçou com um facão.          -Descobriu?          -Ele parece velho, mas tem força e com raiva então...          -Você também foi se engraçar com a mulher dele!          -Posso garantir: vale a pena.          -Deixa dessa conversa que quero manter meu emprego. Tenho mulher e dois filhos para sustentar.          -Está bem, está bem. Depois a gente se fala. *                          *                          *          Estava difícil aguentar. Foram seis meses trabalhando sob perseguição cerrada. De seu Donato e da mulher dele. Ela nem disfarçava. Parecia que a qualquer momento ele ia ter um troço dentro da loja.          O homem pode ser forte como falou Edmundo, mas com a mulher é um idiota. Por mais que briguem, ela não deixa de fazer o que quer.          Há duas semanas não aparece. O ambiente ficou mais calmo e ele me deu sossego.          O Edmundo tinha razão. Deixei de lutar. Selma vale a pena mesmo. Que mulher! Só proibi que fosse à loja. Preciso de tranquilidade para trabalhar.
Compartilhe
Exibida!
21/01/2017 | 18h47
                                                                                       Exibida!                                                                                                                                        Cândida Albernaz Olha para a frente! Nunca presta atenção por onde anda. Estou cansada sabia? Cansada de tentar fazer com que seja mais atenta, responsável e direita. Faz tudo para me irritar. Pensa que não percebo? Só porque não consegue ninguém, enquanto eu nunca deixei de ter um homem ao meu lado. Homem mesmo.Acredita que não vejo como olha para ele? Vamos voltar a morar juntos, não adianta dar xiliques. Agora encontrei alguém que me ama de verdade. Você fica criando historinhas para atormentar minha vida. Entendo qual o problema,  quer que eu esteja à sua disposição e de  sua irmã, Cássia. Está com treze anos, esqueceu? Passou da hora de ajudar em casa. Estou enjoada. Quando seu pai soube que eu estava grávida, foi embora. Não te queria. Avisou que você seria um problema na vida dele. Sua a culpa. E não faz essa cara de quem vai chorar. Toda vez que toco nesse assunto, vem com manha. Quer começar cedo, não é? Assanhada!Sempre foi assim, desde novinha. E esse peito que não para de crescer? Puxou a quem? A mim é que não foi.. Os meus são pequenos e durinhos apesar da gravidez. Exibida! Botou corpo cedo só para chamar a atenção dos meus namorados. Ficou de olho no Nelson que eu vi. Quando ele chega perto, abaixa a cabeça como se fosse tímida. Que nada. Notei quando olhava para ele com raiva no outro dia. E não adianta inventar que ele tentou te agarrar de novo. Não caio nessa. Fica expondo esse corpo exagerado, só para se mostrar. Sei muito bem o que passa na sua cabeça. Já tive essa idade. Também gostava de me insinuar para os caras. Mas nunca fui fingida. Assumia o que queria e pronto. Falavam de mim, e daí? Todos com inveja, porque os mais lindos estiveram na minha mão. E você é igualzinha a eles, morre de vontade de ser como eu e não assume. Já avisei. Se der em cima do Nelson de novo, te coloco para fora de casa. E ganha uma surra como brinde, porque eu não sou mulher de aceitar que filha minha roube meu homem. Teve coragem de inventar que tentou te agarrar. Se ele, tendo uma mulher como eu, precisaria de uma franga igual a você. E ainda envolveu a irmã. Obrigou a bobinha a confirmar sua história. Por sinal, muito mal contada. Nelson ia entrar no banheiro enquanto você tomava banho... Não fechou a porta porque estava com defeito... Até imagino a cena. Em vez de encostar, escancarou de propósito. Queria que ele visse a princesinha nua. Ele nunca entraria ali se você não deixasse. E Cássia, que obedece tudo o que a senhorita manda, disse que o tio tentava abraçar você embaixo do chuveiro. Se ele te pegasse, o que sei que não aconteceu, você ia gemer e não gritar sua sem vergonha. Briguei com meu amor. Arrumou a mala e foi embora. Mas estou avisando que ele vai voltar e quero você muito comportada. Quer alguém? Vai procurar na rua. Deixa o que é meu sossegado. E a saia que está usando, pode jogar no lixo. Acabou a farra de ficar vestindo roupa curta e apertada no corpo. Vou dar tudo! Fecha bem esse botão. Para que tanto peito, meu Deus? Parece que vai explodir dentro dessa blusa. De agora em diante, além de cuidar de sua irmã, vai cozinhar também. Com menos tempo sobrando para pensar bobagem, será melhor para todo mundo. Vai chamar Cássia para tomar banho. Quando acabar, dá comida a ela, que pela hora, já deve estar com fome. Vou fazer minha unha e dar um jeito no cabelo. Quando Nelson chegar, quero estar linda. E que olho cheio de água é esse? Enxuga a cara, que não engana mais ninguém. Minha mãe dizia que eu era disfarçada...Isso porque ela não conheceu a neta. E sai da frente!  23-01-2012
Compartilhe
Pedaços
21/01/2017 | 18h47
Pedaços Cândida Albernaz   Não queria dizer mais nada. Nos olhos verdes à sua frente via refletido um rosto contraído pela dor. Seu rosto. Não era algo que qualquer medicamento pudesse curar. Necessário o tempo e este às vezes se arrastava. Sabia que viveria dias lentos onde segundos significariam eternidade. Não seria  a primeira vez. Nem mesmo a segunda. Por isso tinha a certeza de que em algum momento aquele aperto que a sufocava acabaria. Falara além do indispensável. Semana de monólogo onde tentava afirmar que haveria solução. Notava no outro a impaciência para que a história entre os dois se finalizasse. Ele foi retirando seus objetos do apartamento aos poucos. Declarou que estava ajeitando tudo. Enfim conseguiu um lugar para ficar. Um amigo cedeu um quarto na casa dele. A algumas ruas daqui. Estarei por perto se precisar de mim. Perto? Não queria que ele fosse embora. Mesmo depois de ter visto a mensagem no celular. Ou quando encontrou os dois no restaurante sentados lado a lado. E ainda na noite em que passou horas do lado de fora de um bar, no outro lado da rua esperando que saíssem. Braço na cintura, beijo na boca, na nuca, nos olhos. Só entendeu que a noite estava muito fria no dia seguinte, quando a febre alta e a garganta inflamada fizeram com que ficasse na cama. Quando se recuperou, pediu que conversassem. Ele discursou sobre ser um alívio poder contar a ela. Não pensava em esconder. Aconteceu. Ninguém domina o que sente. Só carecia de um tempo para organizar tudo. Não se preocupasse, porque deixaria o apartamento para ela. Não possuíam mais nada mesmo. Foi melhor terem decidido esperar para ter filhos, sofreriam menos dessa forma. Queria gritar e gritou que ele era um safado. Há quanto tempo a enganava? Como pôde fingir amor? Uma mulherzinha. Apostava que tinha conhecido na rua, num lugar qualquer. Não, fez questão de explicar. Não havia sido assim. Era sobrinha de um amigo. Um pouco mais jovem do que ele, talvez vinte anos. E engravidara. Sem querer. Pensou em tirar, mas ele não podia permitir. Estava preparado para ser pai. Queria esse filho e queria aquela garota. Recordou que cinco anos atrás, abortara. Combinaram que não era hora. Ele deveria se ausentar do país por dois anos a trabalho, e ela cuidaria de uma criança sozinha? Esperar um pouco mais seria ideal. Não viajou. Agora seria pai. De um bebê que não era seu, com uma mulher que não era ela. Aquele homem de olhos verdes que não a fitaria com desejo. Nunca mais. Observou que odiava essa palavra tão longa em seu significado. Foi uma semana permitindo que ele tirasse pedaços de si mesmo do lugar onde viviam. Rogou que ficasse.  Não teve pudor em insistir. Aceitava a criança. Poderia trazê-la ali o quanto quisesse. A mulher não. Esta, depois que tivesse o filho teria que sair de sua vida. Não era isso o que queria? O que era? Concordaria que ficasse com a tal até que cansasse, porque ia cansar. Não vai acontecer? Como não? Estava agora mesmo provando que enjoara dela. Não devia usar essa palavra? Talvez deixado de gostar. Soava melhor? Claro, como não percebeu antes? Por que fizeram amor há três dias? O que significava para ele? Estiveram na cama tantas vezes e não a amava? Não havia explicação para tudo, ele falou. Tinha um enorme carinho por ela e não queria magoá-la. Então estava resolvido, se não queria que ficasse ferida, bastava voltar atrás. Largar a mulher com o que ela tinha dentro da barriga. Prometia esquecer. Fingiria que nunca aconteceu. Ficariam bem de novo. Ele precisava ir. A hora passou e ainda tinha que retirar dinheiro do banco. Miudezas do dia a dia. E ela ali se rasgando por dentro. Só uma coisa. Os olhos verdes se voltaram. Conseguiu fixá-los. Repetiu: só uma coisa... - Quando você sair, deixe a chave na mesa e bata a porta. Preciso ter certeza de que não ficará entreaberta, onde frestas deixem romper pedaços de passado que não me interessarão mais. Não conseguiu enxergar a cor dos olhos com quem falava. 9/1/2012  
Compartilhe
Uma realidade só sua
21/01/2017 | 18h47
    Uma realidade só sua                                                                                   Cândida Albernaz          No bar, em volta das mesas, ela dançava como se jovem fosse. Nos olhos a falta de brilho era compensada por movimentos sensuais, buscando no tempo perdido e em devaneios, momentos passados de uma juventude onde soubera ser notada. Os cabelos com tons dourados e brancos pela tintura mal feita, estavam presos em um coque de onde alguns fios se soltavam.  Michele se sentia importante, não se preocupando com os risos e deboche a sua volta. Naquele momento ela era a atração principal e recebia de bom grado os aplausos e assovios. Agradecendo com as mãos para o alto e soltando beijos esquecia do quarto imundo e escuro onde sobrevivia. Dos filhos que um dia deve ter tido, nunca mais ouviu falar. Dos netos que talvez tenham sido concebidos jamais tomou conhecimento.             Sua alegria era real, tirada do imaginário, do sonho que escolhera viver. Não importava. Ela não precisava da realidade, fazia a sua.             Sentia-se repleta de sedução no corpo enrugado e encurvado pelo tempo.             Não havia problema não a conhecerem ou reconhecerem pelo passado, onde fora alguém em que o tido como normal era o mais importante. Não se enganassem quanto a ser feliz ou insatisfeita. Sua loucura era escolhida e a completava. Ela hoje era tudo o que precisava.             Satisfazia-se e na sua mente reinava absoluta por onde passava, isso era o maior bem que possuía.             Talvez não tivesse sido sempre assim. De vez em quando vinham imagens que não sabia distinguir entre fatos que um dia aconteceram ou apenas um exercício de criatividade.             Como quando pensa recordar da noite em que o pai entrou no quarto e pediu que o abraçasse. As mãos dele sempre foram afáveis, mas nesse dia exigiu que as apertasse entre suas coxas. Não entendeu muito bem. Talvez ele estivesse com frio, mas aquelas mãos subiram um pouco mais e fizeram com que ela sentisse um arrepio pelo corpo. Tal qual sentia agora. Sua imaginação às vezes ia longe demais.             Teria sido casada mesmo? Em alguns momentos tinha certeza que sim, quando deitada na cama de uma clínica lhe entregaram um bebê, muito feio e murchinho. De cara, gostou dele. Principalmente quando sugou seu peito com força. Pensou lembrar a emoção que sentia a cada vez que o colocava no colo com o corpo quente contra o seu.             Onde estaria aquele bebê agora? Será que um dia fora seu realmente? Quem seria aquele jovem que costumava visitá-la e a olhava com compaixão? Talvez o menino que crescera.             O hospital onde passou boa parte da vida tinha paredes encardidas, que um dia talvez tivessem sido brancas. Esse mesmo rapaz sempre estava por lá. Parece estar vendo agora o dia em que ele chegou com uma caixa de bombons. Adorava bombons. Ficou sentado na sua frente sem falar nada, vendo-a comer todo o chocolate de uma só vez.             Algumas vezes tinha certeza de que era a mesma criança que amamentara. Seu filho com Amaro. Por que esse nome agora? Não gostava de nomes. Eles davam certeza de existência e preferia não conhecer a sua. Muito menos quando o que sobrara era solidão.             Quando recebeu alta, esse filho instalou-a em um quarto com banheiro e depois de duas ou três visitas nunca mais o viu.             Ainda parece ouvir a conversa onde ele disse que se mudaria para outra cidade. Teria sido estado? País?             Recebeu uma carta... ou quem sabe alguém veio pessoalmente contar sobre o acidente onde o rapaz perdera a vida? Falou não saber de quem se tratava. Afinal nunca tivera família. Sempre fora sozinha nesse mundo tão pequeno que cabia naquele cômodo.             Desistiram de tentar convencê-la sobre uma possível criança que nascera dela.             Não conhecia ninguém e queria continuar do mesmo jeito.             Enrolou o xale bordado nos ombros e recomeçou a dançar. As pessoas a olhavam, riam e faziam comentários.             Sorriu para eles.
Compartilhe
Amor paterno
21/01/2017 | 18h47
    Amor Paterno                                                                                   Cândida Albernaz               Desde muito cedo aprendi com meu pai lições para o resto da vida. Trago até hoje, avô de dois meninos, marcas de um aprendizado que me foi imposto.             Costumávamos ir à praia todos os anos durante as férias de verão. O carro cheio de bolsas, as quais papai arrumava cuidadosamente no porta-malas para que nenhum espaço deixasse de ser aproveitado. Depois de pronto, nada o faria mexer ali. Se esquecêssemos de colocar algo ou precisássemos de alguma coisa que já estava lá dentro, era melhor não tocar no assunto, caso contrário, uma tempestade de insultos cairia sobre nós. Já acomodados, mamãe, eu e duas irmãs só parávamos uma vez para o banheiro. E que não inventássemos nenhuma dor de barriga, porque o tempo era cronometrado.             Penso que meu pai deveria ter seguido uma carreira no exército onde, tenho certeza, chegaria ao posto máximo.             Mamãe mal abria a boca quando ele estava por perto. Ela era miúda, com cabelos pretos, lisos, brilhantes e chegavam até a cintura. O marido gostava que eles fossem longos e por isso quase nunca os cortava. Tinha a saúde fraca, o que a fazia ficar de cama por muitos dias.             Às vezes entrava em seu quarto e ficava espiando enquanto dormia.  Era uma boa mãe quando a saúde permitia. Se estávamos só eu, ela e minhas irmãs, costumava nos contar histórias de uma infância com os irmãos, na fazenda onde moravam. Seus olhos verdes ficavam mais claros quando se sentia alegre e era sempre nesse tom que eles permaneciam quando estávamos com ela brincando.             Durante as férias, a presença do meu pai era mais marcante, já que estava conosco todo o tempo.             Na praia, por algumas vezes, cavava um buraco bem fundo e ali me colocava em pé cobrindo todo o corpo com areia, deixando que só a cabeça permanecesse para fora. O pavor me dominava com a pressão no peito, fazendo com que tivesse dificuldade para respirar. E ele ria orgulhoso do seu feito. Eu chorava e ele continuava a rir, não deixando que mamãe com olhar de dor me tirasse dali.             Outras vezes, íamos ao clube e ficávamos na piscina. Ele me segurava pela cintura, levava até o mais fundo e jogava meu corpo para o alto. Na volta, sempre caía de barriga na água. Mas quando emergia, o sorriso estava no rosto apesar da dor e falta de ar. Este mergulho forçado se repetia muitas vezes. Sabia que tinha medo da água, mas dizia que faria de mim um homem. Tinha quatro anos, então.             Não costumava se envolver muito com as meninas, afirmava que era obrigação da mãe cuidar e educá-las. Tiveram mais sorte que eu.             Até mesmo das surras que costumava levar sem que ao menos soubesse o motivo, elas eram poupadas.             Já mais velho, eu e os amigos tínhamos o cabelo longo. O meu era preto e liso e costumava usá-lo na altura do ombro. Uma tarde chegando a casa depois do trabalho me encontrou assistindo a um programa na televisão. Sem falar nada foi para o quarto. Quando voltou, tinha uma tesoura na mão. Mandou que levantasse e se colocando atrás de mim, antes que pudesse ter qualquer reação, puxou meu cabelo e cortou-o. Tentei virar, mas sua mão segurou com força outra mecha fazendo com que minha cabeça se deslocasse para trás. Ao tentar desprender, senti a ferida no pescoço com um corte até a orelha. Consegui soltar e caminhando para o quarto ouvi a voz: “Você é homem. Deixe esse cabelo ridículo para suas irmãs”. Não pude controlar o choro quando olhei no espelho. Nada mais podia fazer senão procurar alguém que ajeitasse o estrago feito. Teria que usar rente ao couro cabeludo.             Para ele sempre fui o menos esperto de todos. Durante toda a infância e adolescência costumava ouvir o quanto era incapaz. “Você é um moleirão, não presta para nada”.             Quando morreu, eu tinha vinte e cinco anos e nunca havia conseguido levar uma garota até em casa. Não toleraria sua desaprovação.             Durante o velório e enterro, não fui capaz de sentir qualquer tipo de emoção. Ou melhor, senti alívio e uma euforia que era difícil disfarçar. Não teria sido bom que os outros percebessem. Não deixou que eu sentisse falta ou medo pela perda de uma pessoa que deveria ter significado algo de bom na minha vida.             Hoje, quando minhas irmãs e eu reunimos nossas famílias não costumamos falar do passado. Nossa mãe ainda vive e costuma rir muito com os netos. É bom olhar para ela e ver paz em seu rosto.
Compartilhe
Amanhã volto a pensar nisso
21/01/2017 | 18h47
Amanhã volto a pensar nisso                                                       Cândida Albernaz             Ando meio louca, me disseram. Bati com o carro na semana passada, coloquei sal no meu café duas vezes e ainda chutei o cachorro que latia sem parar. Coitado, ficou ganindo e me olhando. Não adianta, estou angustiada e enquanto não resolver o que me deixa assim, saio atropelando meio mundo.             Droga! Não me procura há dias. Fico de olho no telefone, na porta de casa que não se abre, só a espera.             Já sei que homens não gostam de enfrentar este tipo de situação, preferem desaparecer. E daí? Quero uma resposta. Não esta simples, que também já conheço: “não te mereço. Quero a outra, a resposta longa: quando começou a se afastar de mim? Quando percebeu que não me amava? Tem outra garota, não tem? É isto o que quero: de-ta-lhes.             Ficamos juntos por um ano. Não foi uma semana ou um mês, foi vida em comum.             Lembro de quando o conheci. Estava com umas amigas num desses bares que vivem cheios de gente à procura de outra gente. Você falava alguma coisa e todos em sua mesa riam. Fiquei imaginando o que poderia ser tão engraçado. Sorri sozinha e você me olhou neste momento. Acenou com a cabeça e levantou seu copo de uisque me fazendo um brinde. Ergui o meu também.             Nesse dia, a Martinha estava triste porque o marido havia saído de casa. Descobriu que ele a traía com uma funcionária. Não pensou duas vezes e pediu que fosse embora. Ia sofrer como uma condenada, mas traição não suportava. Estávamos eu e mais duas amigas consolando-a.             Meus olhos voltaram-se para sua mesa ao ouvir novas gargalhadas. Você me encarava. Levantou-se e veio até onde eu estava e perguntou se poderia ficar um pouco. Sem pensar muito, cheguei para o lado e você puxou uma cadeira sentando-se. Era tão confiante, contou histórias e até mesmo a Martinha riu com vontade.             Depois daquela noite, passamos a nos ver sempre que podíamos.             Liguei de novo para o escritório onde trabalha. Desta vez disseram que saiu de férias. Só retornaria em um mês. Sabe para onde ele foi?” “Não tenho idéia”.             Celular desligado, o porteiro do prédio me disse ter visto quando saiu com uma bolsa. “Parecia que ia viajar, mas não tenho certeza”.             No mês passado, passei por um bar e o vi sentado lá dentro, conversando com uma mulher. Aproximei-me e fiquei olhando-o. Levantou-se e calmamente me apresentou: “minha amiga”. De uma hora para outra virei sua amiga e a outra ali na frente, uma nova colega do escritório. Amiga? Saí dali arrasada. Desde quando deixara de ser sua namorada? Ou garota? Ou caso? Meu Deus o que eu era afinal? Pensando bem, nunca falamos sobre isso ou fizemos projetos para o futuro. Mas precisava falar?             Nesta noite, liguei para você sem parar. A secretária eletrônica a princípio gravou recados malcriados, mas depois, lamentos e pedidos de me procure ou me ligue, por favor.             Onde foi parar aquele cara que me atraiu com suas risadas e histórias divertidas?  Há algum tempo, só percebo olhares sérios, impaciência e reclamação.             E agora você some de repente.             Hoje percebo que li em seus olhos o que você não tinha coragem de dizer com palavras, mas em todas às vezes, desviei os meus. Não me basta ter entendido, queria ouvir de sua boca.             Onde eu fui parar? E a garota decidida que sou?             Acho que vou ligar para a Martinha e as outras. Quero colo das amigas. Preciso ouvir que sou especial, que a fila tem que andar, “já viu aquele cara lindo te olhando?”. Agora é disso que preciso. Amanhã ligo o som do carro, ouço músicas que me lembrem você, choro e me desespero. Hoje, vou cuidar só de mim.            
Compartilhe
Sobre o autor

Candida Albernaz

[email protected]

Arquivos