Decisão
candida 08/03/2012 01:50
                Decisão                                                                                               Cândida Albernaz                 Era possível ler na parede amarela e suja, ”Bar do Castelo”. Ao lado, a imagem de uma torre mal desenhada, tentava dar significado ao nome escolhido.                 No banco de madeira, sem encosto, ele permanecia sentado, com a cabeça baixa bem próxima aos joelhos. Olhava o chão como se dele fosse retirar respostas. Estava fora de casa desde o dia anterior. Não bebera. Não dessa vez. A mulher e a mãe deviam estar à sua procura. Não era seu hábito não voltar. Precisava pensar e as duas não deixariam. A mãe e os conselhos para que fosse como o pai. Pobre, mas orgulhoso de jamais ter cometido algum ato de que pudesse se envergonhar. De que adiantou?                 Ouvira durante a infância e adolescência como o trabalho é importante e faz o homem crescer e ser respeitado. Aprendera.                 Não era velho, casara há pouco e ainda não tinham filhos. Sempre seguiu a imagem desse pai que admirava. Grandalhão, sem ser gordo e com uma força física enorme. Incapaz de falar mais alto ou levantar a mão para alguém. Só uma vez, recordava-se, de vê-lo numa briga. Que não durou muito. Segurou o rapaz pelo braço e perna e jogou longe como se fosse uma cadeira leve. O cara bateu na parede e caiu no chão. Todos pararam o que faziam para observar. Ele ficou ali, olhando e esperando qualquer nova reação. Este, com as mãos no pescoço e rosto, pôs- se em pé, virou as costas e foi andando sem emitir som.                 Papai aproximou-se de onde eu estava e notando a cara de riso, deu um cascudo em minha cabeça.                 - Vamos embora. Não estou vendo graça nenhuma no que aconteceu aqui. Não quero saber de você em briga... Olhei para cima e vi que falava sério comigo. Continuou:                  -... A não ser que desrespeitem sua mulher ou família.                 Descobri mais tarde o que aquele homem havia falado de minha mãe.                 Meus pais se conheceram numa boate, numa cidade não muito perto dali. Ela era dançarina e segundo contaram, apenas isso. Ia todas as noites para lá e ficavam conversando, dançando e ele gastando um pouco do que ganhava.                 Naquela época, ainda trabalhava como ajudante em obras. Quando o serviço acabou e teve que voltar, trouxe mamãe junto com ele. Casaram um mês depois e nunca mais estiveram longe um do outro.                 Imaginava que as duas poderiam estar nervosas, mas decidira o que faria.                 Enterrara o pai no dia anterior. Era estranho ver aquele homem tão grande, dentro de uma caixa, imprensado em meio a flores, com olhos fechados e mãos cruzadas sobre o peito.                 Esperava que a qualquer momento ele saísse dali, reclamando do calor e do quanto necessitava de um banho. Não levantou. E quando fecharam o caixão, teve a certeza de que não deixaria as coisas como estavam.                 Passou em casa antes que a mulher e a mãe chegassem e foi andar. Quando entrou no bar, pôde ver a mancha escura, deixada pelo sangue do pai. Estava molhado da água que jogaram, mas ainda era possível notar. Ouviu toda a história mais uma vez. O pai sentara-se à mesa de sempre, bebendo a cachaça que fazia questão de cheirar a cada vez que virava o copo na boca. Eram cinco no total e então voltava para casa. Habituaram ir juntos, mas ontem a mulher pediu que consertasse algumas telhas que haviam quebrado. Combinou de encontrar com ele mais tarde. Culpava-se por isso.                 O homem entrou no bar com passos incertos. Era nítido que bebera muito. Em uma das mesas estava um casal idoso e a esposa ria de qualquer coisa que o marido contara. O bêbado olhou para os dois e mandou que ela guardasse os dentes na boca. Permaneceram quietos por um tempo, e voltaram a conversar. Do balcão, começou a encará-los novamente. Meu pai e mais algumas pessoas que estavam presentes, ficaram observando. Então o tal se aproximou do casal e puxou a mulher de encontro ao próprio corpo.                 - Quer rir de verdade, vovó? Vou mostrar como...                 O senhor tentou arrancá-la dos braços dele e recebeu um soco no rosto enrugado, que fez com que caísse por cima da mesa.                 Papai foi em sua direção e puxou a senhora pela cintura. Quando a afastou, viram que ele se agachou com a mão segurando a barriga. Não houve tempo para nada. Uma nova facada atingiu seu pescoço.                 O sujeito saiu correndo, se enfiando nas ruas estreitas e empoeiradas.                 Acabou de saber onde ele estava escondido. Vieram avisar. Um barraco abandonado perto da estrada.                 Ergueu o corpo, segurou com firmeza o facão que amolara dois dias atrás e estava sob a blusa.                 O dono do bar parou a seu lado.                 - Boa sorte.                                                                                                                                              6/03/2012

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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