Decisão
Decisão
Cândida Albernaz
Era possível ler na parede amarela e suja, ”Bar do Castelo”. Ao lado, a imagem de uma torre mal desenhada, tentava dar significado ao nome escolhido.
No banco de madeira, sem encosto, ele permanecia sentado, com a cabeça baixa bem próxima aos joelhos. Olhava o chão como se dele fosse retirar respostas.
Estava fora de casa desde o dia anterior. Não bebera. Não dessa vez. A mulher e a mãe deviam estar à sua procura. Não era seu hábito não voltar. Precisava pensar e as duas não deixariam. A mãe e os conselhos para que fosse como o pai. Pobre, mas orgulhoso de jamais ter cometido algum ato de que pudesse se envergonhar. De que adiantou?
Ouvira durante a infância e adolescência como o trabalho é importante e faz o homem crescer e ser respeitado. Aprendera.
Não era velho, casara há pouco e ainda não tinham filhos. Sempre seguiu a imagem desse pai que admirava. Grandalhão, sem ser gordo e com uma força física enorme. Incapaz de falar mais alto ou levantar a mão para alguém. Só uma vez, recordava-se, de vê-lo numa briga. Que não durou muito. Segurou o rapaz pelo braço e perna e jogou longe como se fosse uma cadeira leve. O cara bateu na parede e caiu no chão. Todos pararam o que faziam para observar. Ele ficou ali, olhando e esperando qualquer nova reação. Este, com as mãos no pescoço e rosto, pôs- se em pé, virou as costas e foi andando sem emitir som.
Papai aproximou-se de onde eu estava e notando a cara de riso, deu um cascudo em minha cabeça.
- Vamos embora. Não estou vendo graça nenhuma no que aconteceu aqui. Não quero saber de você em briga...
Olhei para cima e vi que falava sério comigo. Continuou:
-... A não ser que desrespeitem sua mulher ou família.
Descobri mais tarde o que aquele homem havia falado de minha mãe.
Meus pais se conheceram numa boate, numa cidade não muito perto dali. Ela era dançarina e segundo contaram, apenas isso. Ia todas as noites para lá e ficavam conversando, dançando e ele gastando um pouco do que ganhava.
Naquela época, ainda trabalhava como ajudante em obras. Quando o serviço acabou e teve que voltar, trouxe mamãe junto com ele. Casaram um mês depois e nunca mais estiveram longe um do outro.
Imaginava que as duas poderiam estar nervosas, mas decidira o que faria.
Enterrara o pai no dia anterior. Era estranho ver aquele homem tão grande, dentro de uma caixa, imprensado em meio a flores, com olhos fechados e mãos cruzadas sobre o peito.
Esperava que a qualquer momento ele saísse dali, reclamando do calor e do quanto necessitava de um banho. Não levantou. E quando fecharam o caixão, teve a certeza de que não deixaria as coisas como estavam.
Passou em casa antes que a mulher e a mãe chegassem e foi andar. Quando entrou no bar, pôde ver a mancha escura, deixada pelo sangue do pai. Estava molhado da água que jogaram, mas ainda era possível notar. Ouviu toda a história mais uma vez. O pai sentara-se à mesa de sempre, bebendo a cachaça que fazia questão de cheirar a cada vez que virava o copo na boca. Eram cinco no total e então voltava para casa. Habituaram ir juntos, mas ontem a mulher pediu que consertasse algumas telhas que haviam quebrado. Combinou de encontrar com ele mais tarde. Culpava-se por isso.
O homem entrou no bar com passos incertos. Era nítido que bebera muito. Em uma das mesas estava um casal idoso e a esposa ria de qualquer coisa que o marido contara. O bêbado olhou para os dois e mandou que ela guardasse os dentes na boca. Permaneceram quietos por um tempo, e voltaram a conversar. Do balcão, começou a encará-los novamente. Meu pai e mais algumas pessoas que estavam presentes, ficaram observando. Então o tal se aproximou do casal e puxou a mulher de encontro ao próprio corpo.
- Quer rir de verdade, vovó? Vou mostrar como...
O senhor tentou arrancá-la dos braços dele e recebeu um soco no rosto enrugado, que fez com que caísse por cima da mesa.
Papai foi em sua direção e puxou a senhora pela cintura. Quando a afastou, viram que ele se agachou com a mão segurando a barriga. Não houve tempo para nada. Uma nova facada atingiu seu pescoço.
O sujeito saiu correndo, se enfiando nas ruas estreitas e empoeiradas.
Acabou de saber onde ele estava escondido. Vieram avisar. Um barraco abandonado perto da estrada.
Ergueu o corpo, segurou com firmeza o facão que amolara dois dias atrás e estava sob a blusa.
O dono do bar parou a seu lado.
- Boa sorte.
6/03/2012