Amor paterno
Amor Paterno
Cândida Albernaz
Desde muito cedo aprendi com meu pai lições para o resto da vida. Trago até hoje, avô de dois meninos, marcas de um aprendizado que me foi imposto.
Costumávamos ir à praia todos os anos durante as férias de verão. O carro cheio de bolsas, as quais papai arrumava cuidadosamente no porta-malas para que nenhum espaço deixasse de ser aproveitado. Depois de pronto, nada o faria mexer ali. Se esquecêssemos de colocar algo ou precisássemos de alguma coisa que já estava lá dentro, era melhor não tocar no assunto, caso contrário, uma tempestade de insultos cairia sobre nós. Já acomodados, mamãe, eu e duas irmãs só parávamos uma vez para o banheiro. E que não inventássemos nenhuma dor de barriga, porque o tempo era cronometrado.
Penso que meu pai deveria ter seguido uma carreira no exército onde, tenho certeza, chegaria ao posto máximo.
Mamãe mal abria a boca quando ele estava por perto. Ela era miúda, com cabelos pretos, lisos, brilhantes e chegavam até a cintura. O marido gostava que eles fossem longos e por isso quase nunca os cortava. Tinha a saúde fraca, o que a fazia ficar de cama por muitos dias.
Às vezes entrava em seu quarto e ficava espiando enquanto dormia. Era uma boa mãe quando a saúde permitia. Se estávamos só eu, ela e minhas irmãs, costumava nos contar histórias de uma infância com os irmãos, na fazenda onde moravam. Seus olhos verdes ficavam mais claros quando se sentia alegre e era sempre nesse tom que eles permaneciam quando estávamos com ela brincando.
Durante as férias, a presença do meu pai era mais marcante, já que estava conosco todo o tempo.
Na praia, por algumas vezes, cavava um buraco bem fundo e ali me colocava em pé cobrindo todo o corpo com areia, deixando que só a cabeça permanecesse para fora. O pavor me dominava com a pressão no peito, fazendo com que tivesse dificuldade para respirar. E ele ria orgulhoso do seu feito. Eu chorava e ele continuava a rir, não deixando que mamãe com olhar de dor me tirasse dali.
Outras vezes, íamos ao clube e ficávamos na piscina. Ele me segurava pela cintura, levava até o mais fundo e jogava meu corpo para o alto. Na volta, sempre caía de barriga na água. Mas quando emergia, o sorriso estava no rosto apesar da dor e falta de ar. Este mergulho forçado se repetia muitas vezes. Sabia que tinha medo da água, mas dizia que faria de mim um homem. Tinha quatro anos, então.
Não costumava se envolver muito com as meninas, afirmava que era obrigação da mãe cuidar e educá-las. Tiveram mais sorte que eu.
Até mesmo das surras que costumava levar sem que ao menos soubesse o motivo, elas eram poupadas.
Já mais velho, eu e os amigos tínhamos o cabelo longo. O meu era preto e liso e costumava usá-lo na altura do ombro. Uma tarde chegando a casa depois do trabalho me encontrou assistindo a um programa na televisão. Sem falar nada foi para o quarto. Quando voltou, tinha uma tesoura na mão. Mandou que levantasse e se colocando atrás de mim, antes que pudesse ter qualquer reação, puxou meu cabelo e cortou-o. Tentei virar, mas sua mão segurou com força outra mecha fazendo com que minha cabeça se deslocasse para trás. Ao tentar desprender, senti a ferida no pescoço com um corte até a orelha. Consegui soltar e caminhando para o quarto ouvi a voz: “Você é homem. Deixe esse cabelo ridículo para suas irmãs”. Não pude controlar o choro quando olhei no espelho. Nada mais podia fazer senão procurar alguém que ajeitasse o estrago feito. Teria que usar rente ao couro cabeludo.
Para ele sempre fui o menos esperto de todos. Durante toda a infância e adolescência costumava ouvir o quanto era incapaz. “Você é um moleirão, não presta para nada”.
Quando morreu, eu tinha vinte e cinco anos e nunca havia conseguido levar uma garota até em casa. Não toleraria sua desaprovação.
Durante o velório e enterro, não fui capaz de sentir qualquer tipo de emoção. Ou melhor, senti alívio e uma euforia que era difícil disfarçar. Não teria sido bom que os outros percebessem. Não deixou que eu sentisse falta ou medo pela perda de uma pessoa que deveria ter significado algo de bom na minha vida.
Hoje, quando minhas irmãs e eu reunimos nossas famílias não costumamos falar do passado. Nossa mãe ainda vive e costuma rir muito com os netos. É bom olhar para ela e ver paz em seu rosto.