É só dar um jeito
candida 02/02/2012 00:12
É só dar um jeito                                                                               Cândida Albernaz          -Droga de vida!          Eu resmungava enquanto andava em direção a casa.          Seu Donato resolveu implicar comigo, logo agora que estava me saindo bem no trabalho.          Fazia algum tempo queria ficar no lugar de Edmundo, que era balconista da loja de ferragens onde eu trabalhava como entregador. Tinha uma bicicleta onde cabia tudo. Havia encomenda para entregar do outro lado da cidade? Eu ia. Estava chovendo muito? Eu também ia. Precisavam de qualquer peça na hora do almoço? Sem problemas, completava a entrega e almoçava depois.          Quando Edmundo pediu demissão, conversei com seu Donato, o gerente da loja, e ele me colocou na venda. Era mais tranquilo e com a comissão ganharia melhor.          O problema era que o homem de uma hora para a outra resolveu não gostar do meu serviço. Já estava no balcão há três meses e da última vez fiquei em segundo lugar na venda.          Há quatro semanas, a mulher de seu Donato deu para aparecer na loja todo dia. A gente via os dois cochichando e discutindo. Numa dessas vezes, ela saiu resmungando e quando passei, roçou o corpo no meu e sorriu. Ri para ela também que não sou de ferro. A Selma é gostosa, com o corpo cheio e o cabelo preto e liso que cai até a bunda. O marido, um ancião perto dela. Daí para frente ele não me deu sossego. Tudo o que faço está errado.          Hoje em particular, me atazanou mais que de costume: reclamou da forma que falei com o cliente, disse que não arrumei a prateleira direito e que a seção pela qual sou responsável estava imunda.          O patrão gosta do meu trabalho, mas o gerente é quem manda e fala o que quer.          Ele não entendeu que não quero nada com a Selma, que ela pode se esfregar em mim ou me olhar com insistência, como tem feito ultimamente que eu não gosto de confusão. Mas se esse velho me fizer perder o emprego, a primeira coisa que faço é pegar a mulher dele.          No caminho para casa encontrei com Edmundo.          -E ai? Soube que ficou no meu lugar.          -É. Queria muito uma oportunidade e estou me saindo bem.          -Não me parece muito animado.          -Cansado, só isso.          -Seu Donato já começou a “pegar no seu pé”?          -Por que pergunta? Fez isso com você também?          -Claro, por isso caí fora. A danada da mulher dele vivia me cantando. Saí com ela algumas vezes. Ele descobriu e me ameaçou com um facão.          -Descobriu?          -Ele parece velho, mas tem força e com raiva então...          -Você também foi se engraçar com a mulher dele!          -Posso garantir: vale a pena.          -Deixa dessa conversa que quero manter meu emprego. Tenho mulher e dois filhos para sustentar.          -Está bem, está bem. Depois a gente se fala. *                          *                          *          Estava difícil aguentar. Foram seis meses trabalhando sob perseguição cerrada. De seu Donato e da mulher dele. Ela nem disfarçava. Parecia que a qualquer momento ele ia ter um troço dentro da loja.          O homem pode ser forte como falou Edmundo, mas com a mulher é um idiota. Por mais que briguem, ela não deixa de fazer o que quer.          Há duas semanas não aparece. O ambiente ficou mais calmo e ele me deu sossego.          O Edmundo tinha razão. Deixei de lutar. Selma vale a pena mesmo. Que mulher! Só proibi que fosse à loja. Preciso de tranquilidade para trabalhar.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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