Ai canseira...
candida 01/03/2012 02:16
Cândida Albernaz     Ontem eu conversava mais uma vez com Suzana, a vizinha. Aliás, não sei se posso chamar aquilo de conversa, porque só ela falava.     Quando a vejo se aproximando, vou logo avisando que estou ocupada, mas não adianta. Responde que também está e "nem tenho tempo para nada" e a frase é a deixa para que explique o porquê da falta de tempo.     Minha filha diz que sou muito paciente. Mas não é isso. Tenho pena porque o marido de Suzana bebe o dia inteiro. Mal fala com ela e quando isso acontece, berra, xinga e fica repetindo que a pobre não serve para nada. Está desempregado porque patrão nenhum quer um funcionário que vive faltando ao serviço ou que chegue bêbado.     A mulher trabalha feito uma condenada. Ela e a filha mais velha. As duas sustentam a casa, que inclusive está precisando de uma reforma urgente. Avisei que qualquer dia despenca tudo em cima deles. É reboco caindo, é telha quebrada, é viga mal sustentando as paredes...     Fico enjoada de ouvir tantas reclamações da boca de Suzana, mas fazer o quê?     Todos fogem dela. Dizem que só fala em desgraça. E é verdade. Quando não está sentindo dor nas costas, é na cabeça, ou nos braços e pernas, ou... Eu, que tenho muita saúde, graças a Deus, fico ali escutando e penso que qualquer dia, ela vai acabar adoecendo mesmo.     Tem dois meninos que nasceram bem depois da irmã. Crianças ainda, não ajudam. Mas ela não percebe que tem muita sorte com a filha. Garota boa, ao contrário da mãe, não exige nada. Sai pela manhã para o trabalho e de lá vai para a escola. Quer fazer faculdade e tenho certeza de que vai conseguir. Inteligente a mocinha.     Às vezes estou na varanda e a vejo chegando. Deixa as coisas em casa e sai. Antes de completar quinze minutos, volta segurando o pai pela cintura e leva para dentro. Estive reparando que ele nunca grita com ela. É a única que respeita. E obedece. Quando ele parte para cima de Suzana, e em algum momento o olhar do pai e da filha se cruza, ele abaixa a cabeça e sai gemendo: desculpa, desculpa, desculpa...     Essa garota foi responsável desde criança quando ajudava a cuidar dos irmãos. Nunca a ouvi falando com grosseria ou num tom mais elevado. Lembra uma flor que nasce no meio do mato.     Suzana devia levantar as mãos por ter uma filha como ela. Em vez disso, resmunga.     Reconheço que eu, com minha vida tranquila, onde quase nada falta, tenho mais sorte. Mas meu temperamento é outro, de qualquer forma. Também tenho aborrecimentos, que não são poucos. Meu marido nunca deixou faltar nada em casa, mesmo assim trabalho, porque não sou mulher de ficar parada vendo o tempo passar. E dessa forma não penso demais. Não costumo falar sobre mim com ninguém, apesar de que, aqui na vizinhança todo mundo sabe que Carlos tem outra família. Arranjou mulher logo depois que nos casamos e três filhos também. Chorei muito por isso, mas com o tempo, resolvi fingir que não era comigo. Nem sei como consegui. Vou levando porque ele é carinhoso e bom pai. Se ficasse sozinha, não sei se suportaria. E para ser franca, tenho preguiça de começar tudo de novo. Minha história está pronta e é ao lado de Carlos e dos meus filhos. Não vou sair por aí, lutando igual a uma louca, enfrentando o que sei que não vou aguentar.     Quando minha irmã me contou toda a história, disse que eu deveria me separar. Pensei e chorei um bocado. Mas quando decidi o que ia fazer, acabou o choro. O sofrimento não. Esse entranhou de tal jeito que não sai mais.     Da minha boca ninguém nunca ouviu nada. E quando tentaram entrar no assunto comigo, me fiz de burra, que isso sei fazer direitinho. Acho que desistiram.     Lá vem Suzana. O que será dessa vez? A gente é mulher, se entende, mas às vezes dá uma canseira...     Já que não vai dar tempo de entrar em casa, só me resta escutar mais um pouco.     - Oi, Suzana. Tudo bem?     - Tudo bem, nada. Não imagina o que minha...                                                     27-02-2012

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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