Pedaços
Pedaços
Cândida Albernaz
Não queria dizer mais nada. Nos olhos verdes à sua frente via refletido um rosto contraído pela dor. Seu rosto. Não era algo que qualquer medicamento pudesse curar. Necessário o tempo e este às vezes se arrastava.
Sabia que viveria dias lentos onde segundos significariam eternidade. Não seria a primeira vez. Nem mesmo a segunda. Por isso tinha a certeza de que em algum momento aquele aperto que a sufocava acabaria.
Falara além do indispensável. Semana de monólogo onde tentava afirmar que haveria solução.
Notava no outro a impaciência para que a história entre os dois se finalizasse.
Ele foi retirando seus objetos do apartamento aos poucos. Declarou que estava ajeitando tudo. Enfim conseguiu um lugar para ficar. Um amigo cedeu um quarto na casa dele. A algumas ruas daqui. Estarei por perto se precisar de mim.
Perto? Não queria que ele fosse embora. Mesmo depois de ter visto a mensagem no celular. Ou quando encontrou os dois no restaurante sentados lado a lado. E ainda na noite em que passou horas do lado de fora de um bar, no outro lado da rua esperando que saíssem. Braço na cintura, beijo na boca, na nuca, nos olhos. Só entendeu que a noite estava muito fria no dia seguinte, quando a febre alta e a garganta inflamada fizeram com que ficasse na cama.
Quando se recuperou, pediu que conversassem. Ele discursou sobre ser um alívio poder contar a ela. Não pensava em esconder. Aconteceu. Ninguém domina o que sente. Só carecia de um tempo para organizar tudo. Não se preocupasse, porque deixaria o apartamento para ela. Não possuíam mais nada mesmo. Foi melhor terem decidido esperar para ter filhos, sofreriam menos dessa forma.
Queria gritar e gritou que ele era um safado. Há quanto tempo a enganava? Como pôde fingir amor? Uma mulherzinha. Apostava que tinha conhecido na rua, num lugar qualquer.
Não, fez questão de explicar. Não havia sido assim. Era sobrinha de um amigo. Um pouco mais jovem do que ele, talvez vinte anos. E engravidara. Sem querer. Pensou em tirar, mas ele não podia permitir. Estava preparado para ser pai. Queria esse filho e queria aquela garota.
Recordou que cinco anos atrás, abortara. Combinaram que não era hora. Ele deveria se ausentar do país por dois anos a trabalho, e ela cuidaria de uma criança sozinha? Esperar um pouco mais seria ideal. Não viajou.
Agora seria pai. De um bebê que não era seu, com uma mulher que não era ela. Aquele homem de olhos verdes que não a fitaria com desejo. Nunca mais. Observou que odiava essa palavra tão longa em seu significado.
Foi uma semana permitindo que ele tirasse pedaços de si mesmo do lugar onde viviam.
Rogou que ficasse. Não teve pudor em insistir. Aceitava a criança. Poderia trazê-la ali o quanto quisesse. A mulher não. Esta, depois que tivesse o filho teria que sair de sua vida. Não era isso o que queria? O que era? Concordaria que ficasse com a tal até que cansasse, porque ia cansar. Não vai acontecer? Como não? Estava agora mesmo provando que enjoara dela. Não devia usar essa palavra? Talvez deixado de gostar. Soava melhor? Claro, como não percebeu antes? Por que fizeram amor há três dias? O que significava para ele? Estiveram na cama tantas vezes e não a amava?
Não havia explicação para tudo, ele falou. Tinha um enorme carinho por ela e não queria magoá-la. Então estava resolvido, se não queria que ficasse ferida, bastava voltar atrás. Largar a mulher com o que ela tinha dentro da barriga. Prometia esquecer. Fingiria que nunca aconteceu. Ficariam bem de novo.
Ele precisava ir. A hora passou e ainda tinha que retirar dinheiro do banco. Miudezas do dia a dia.
E ela ali se rasgando por dentro.
Só uma coisa. Os olhos verdes se voltaram. Conseguiu fixá-los. Repetiu: só uma coisa...
- Quando você sair, deixe a chave na mesa e bata a porta. Preciso ter certeza de que não ficará entreaberta, onde frestas deixem romper pedaços de passado que não me interessarão mais.
Não conseguiu enxergar a cor dos olhos com quem falava.
9/1/2012