Desculpe por querer mais
Desculpe por querer mais
Cândida Albernaz
Foi naquele dia em que eu não estava aqui. Esse o dia que você escolheu ir para todo o sempre.
Não consigo aceitar e por muitas vezes tenho raiva de seu egoísmo. E uma culpa enorme por não ter percebido que não bastava amar de forma incondicional. Era necessário que eu estivesse presente o tempo todo, para que os minutos não fossem desperdiçados e cada lembrança viesse ainda mais rica de detalhes.
Eu podia ter desistido de mim se soubesse antes o quão pouco ainda estaria comigo.
Fui à praia, como em quase todos os feriados e você não quis ir. Não era a primeira vez que desistia e não me incomodei. “Talvez seja bom ficar sozinha, terei mais tempo para não fazer nada”, porque apesar de não parecer a olhos alheios, você exigia minha presença todo instante.
Quantas vezes fiquei chateada por estar pronta para sair e você entrando no quarto reclamava da “única camiseta que gosto” estar amarrotada. O armário abarrotado delas, mas era aquela que queria. Não falava mais nada, mas achava ler em seus olhos um pedido de ajuda. Armava a mesa e impaciente passava a camiseta, a calça, a bermuda ou qualquer outra peça que quisesse usar no momento em que estava atrasada para um compromisso. Às vezes nem um obrigado escutava.
Quando o vi pela primeira vez, os olhos bem abertos me impressionaram, porque percebi que exigiria de mim o máximo de tudo que eu faria questão de dar.
E foi exatamente assim. A cada pedido, a ordem era obedecida e na grande maioria com prazer. Nunca quis dar menos a você do que dei, ao contrário, se conseguisse iria além.
Não haviam muitos “obrigados”, mas de quantos “eu te amo” me alimentei? Você não media seus carinhos, vinham na mesma proporção de suas exigências. Como sinto falta das duas coisas!
Nesse dia em questão, saiu tarde de casa com os amigos. Não estava ali para dizer mais uma vez sobre os perigos de qualquer dia ou noite em que eu não pudesse estar por perto. Disseram-me que se divertiu muito contando todas as histórias engraçadas que sabia, fazendo com que eles rissem. Dançaram, beberam e só quando voltava para casa com a garota que o escolheu para “ficar” , como vocês costumam dizer, é que tudo deu errado.
Estavam em frente a casa dela, dentro do carro que ganhou de seu pai havia poucos meses. Quanto alertei sobre ficar namorando na rua! Sei que era uma chata, mas a gente tem que falar e repetir todas as vezes porque na maioria delas, vocês não costumam levar em consideração.
Os caras chegaram e armados conseguiram que você levasse o carro para aquele lugar deserto. Parece que estou vendo sua garota daquela noite pedindo ajuda, e mesmo sob a mira de uma arma não conseguiu ficar apenas olhando. Reagiu tentando tirar um deles de cima dela, enquanto o outro atirou. Não adiantou nada não querer engolir seco e apenas olhar enquanto tudo se desenrolava. Perdeu a vida e não evitou que ela fosse machucada pelos dois.
Desculpe menina, por eu pensar que se estivesse ali teria pedido a ele que ficasse quieto em vez de defendê-la.
Desculpe por achar que mesmo se fosse eu no seu lugar teria preferido que ele não se metesse. Dessa forma eu ainda o teria, humilhado, machucado também, mas estaria aqui e eu cuidaria para que esquecesse de tudo.
Soube do que havia acontecido quando me entregaram o corpo sem vida. Ainda queria falar tanta coisa! Explicar mais uma vez que viver normalmente, como a maioria das pessoas vive, pode ser perigoso. Queria poder ser chata e repetitiva e nem precisaria me agradecer por nada que fizesse. O que queria mesmo era ver seus olhos bem abertos me observando exigentes, sem falar nada.