Amanhã volto a pensar nisso
candida 22/12/2011 03:59
Amanhã volto a pensar nisso                                                       Cândida Albernaz             Ando meio louca, me disseram. Bati com o carro na semana passada, coloquei sal no meu café duas vezes e ainda chutei o cachorro que latia sem parar. Coitado, ficou ganindo e me olhando. Não adianta, estou angustiada e enquanto não resolver o que me deixa assim, saio atropelando meio mundo.             Droga! Não me procura há dias. Fico de olho no telefone, na porta de casa que não se abre, só a espera.             Já sei que homens não gostam de enfrentar este tipo de situação, preferem desaparecer. E daí? Quero uma resposta. Não esta simples, que também já conheço: “não te mereço. Quero a outra, a resposta longa: quando começou a se afastar de mim? Quando percebeu que não me amava? Tem outra garota, não tem? É isto o que quero: de-ta-lhes.             Ficamos juntos por um ano. Não foi uma semana ou um mês, foi vida em comum.             Lembro de quando o conheci. Estava com umas amigas num desses bares que vivem cheios de gente à procura de outra gente. Você falava alguma coisa e todos em sua mesa riam. Fiquei imaginando o que poderia ser tão engraçado. Sorri sozinha e você me olhou neste momento. Acenou com a cabeça e levantou seu copo de uisque me fazendo um brinde. Ergui o meu também.             Nesse dia, a Martinha estava triste porque o marido havia saído de casa. Descobriu que ele a traía com uma funcionária. Não pensou duas vezes e pediu que fosse embora. Ia sofrer como uma condenada, mas traição não suportava. Estávamos eu e mais duas amigas consolando-a.             Meus olhos voltaram-se para sua mesa ao ouvir novas gargalhadas. Você me encarava. Levantou-se e veio até onde eu estava e perguntou se poderia ficar um pouco. Sem pensar muito, cheguei para o lado e você puxou uma cadeira sentando-se. Era tão confiante, contou histórias e até mesmo a Martinha riu com vontade.             Depois daquela noite, passamos a nos ver sempre que podíamos.             Liguei de novo para o escritório onde trabalha. Desta vez disseram que saiu de férias. Só retornaria em um mês. Sabe para onde ele foi?” “Não tenho idéia”.             Celular desligado, o porteiro do prédio me disse ter visto quando saiu com uma bolsa. “Parecia que ia viajar, mas não tenho certeza”.             No mês passado, passei por um bar e o vi sentado lá dentro, conversando com uma mulher. Aproximei-me e fiquei olhando-o. Levantou-se e calmamente me apresentou: “minha amiga”. De uma hora para outra virei sua amiga e a outra ali na frente, uma nova colega do escritório. Amiga? Saí dali arrasada. Desde quando deixara de ser sua namorada? Ou garota? Ou caso? Meu Deus o que eu era afinal? Pensando bem, nunca falamos sobre isso ou fizemos projetos para o futuro. Mas precisava falar?             Nesta noite, liguei para você sem parar. A secretária eletrônica a princípio gravou recados malcriados, mas depois, lamentos e pedidos de me procure ou me ligue, por favor.             Onde foi parar aquele cara que me atraiu com suas risadas e histórias divertidas?  Há algum tempo, só percebo olhares sérios, impaciência e reclamação.             E agora você some de repente.             Hoje percebo que li em seus olhos o que você não tinha coragem de dizer com palavras, mas em todas às vezes, desviei os meus. Não me basta ter entendido, queria ouvir de sua boca.             Onde eu fui parar? E a garota decidida que sou?             Acho que vou ligar para a Martinha e as outras. Quero colo das amigas. Preciso ouvir que sou especial, que a fila tem que andar, “já viu aquele cara lindo te olhando?”. Agora é disso que preciso. Amanhã ligo o som do carro, ouço músicas que me lembrem você, choro e me desespero. Hoje, vou cuidar só de mim.            

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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