Acreditar
21/01/2017 | 18h48
Acreditar
Cândida Albernaz
Ele olhou para um lado, para o outro e indeciso parou. Na verdade não importava para onde iria. Não naquele momento. Tomara decisões demais e agora resolveu caminhar. Parou numa esquina sem saber o que fazer. Pensou em como se sentia ridículo estacionado feito um poste na rua. Passou a mão no cabelo e recomeçou a andar.
À sua frente havia uma igreja e sem saber o porquê, teve vontade de entrar. Foi o que fez. Se a mulher o visse agora, não esconderia a cara de espanto. Ele não tinha religião e se impacientava quando ela insistia para que fosse à missa. Não sabia exatamente em que acreditava, mas não dava conversa para crenças, orações ou vida após a morte. Para ele tudo tinha fim. Vive-se, morre e pronto. Por isso mesmo costumava aproveitar cada minuto do tempo que possuía.
Ali dentro o silêncio era absoluto. Observou as imagens que mostravam uma expressão de serenidade. Sentou num dos bancos e analisou detalhes. Os vitrais coloridos por onde o sol passava desenhando estranhas sombras no chão, o altar com toalhas brancas e flores na mesma cor, e o principal para ele, a quietude. Precisava disso.
Cuidara de tudo de forma prática, talvez rápido demais. Não havia como ser diferente. Nunca vira antes sua mulher tão abatida. Chorava sem parar. Tentou que tomasse um comprimido para acalmar, mas virou-se para ele com tal horror, que imaginou estivesse oferecendo veneno. Nada a tranquilizava.
Então, depois de finalizado, precisou sair um pouco para que ele próprio pudesse respirar. Não houve tempo de entender o que sentia.
Assistiam a um filme na sala, ele e a mulher, quando o telefone tocou. Levantou para atender e do outro lado ouviu desculpas pela notícia que era obrigado a transmitir, mas precisava ir depressa ao hospital. O filho sofrera um acidente.
Pediu à mulher que trocasse de roupa, pois sairiam. Ela perguntou para onde. Otávio está no hospital. Precisamos ir até lá. Notou que os olhos dela encheram de água e pelo que recorda não os viu secos até a hora em que saiu de casa, há pouco.
Levaram os dois para o leito onde Otávio estava. Não era hábito, mas um amigo, médico do centro de tratamento intensivo, fez com que entrassem. Virando-se para ele, ouviu um novo pedido de desculpas e um balançar de cabeça em sinal negativo.
O rapaz tinha os olhos abertos. A cabeça enfaixada, e pernas, braços, sem qualquer movimento. Tubos e fios pareciam extensão de seu corpo magro.
Vinte minutos, o tempo que ficaram ao seu lado. Em seguida, foram retirados dali, porque ele apresentou uma convulsão e outra e outra. No final da noite, já não estava entre eles.
Agiu o que foi necessário, caixão, local para que o corpo - seu filho transformara-se em um corpo - fosse enterrado, delegacia, liberação do que sobrara do carro e não se lembrava mais do quê.
Não dormia desde o dia anterior. A sogra e a cunhada estavam em sua casa. Ele então saiu.
Estava ali dentro há algum tempo e não entrara ninguém. Foi abaixando até que ficou deitado no banco de madeira. De lado, o corpo encolhido, colocou as duas mãos sob o rosto. Sentiu certo torpor. Não haveria problema se dormisse um pouco.
Sonhou com o filho, que deitado às suas costas, abraçou-o enquanto sussurrava: pai, estarei sempre onde me procurar.
Uma lágrima escorreu caindo na palma de sua mão.
13/08/12
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Ainda presa num retrato
21/01/2017 | 18h48
Ainda presa num retrato
Cândida Albernaz
Estou presa naquele retrato em preto e branco já amarelado pelo tempo.
Dali vejo você e o mundo acontecendo. Não me lembro mais como foi que me aprisionei. Essa pessoa que não emite som ou demonstra sentimento.
Talvez tenha sido por você que vim parar aqui. Talvez tenha sido você quem me escravizou.
O tempo esfarela enquanto eu prisioneira de uma vontade, naquela foto, não envelheço, mas também não vivo.
Ainda lembro o dia em que foi tirada e também de quando a colocou numa gaveta para não mais me olhar.
Até entendo o motivo por não querer me ver, mas através de um retrato não posso te fazer mal. Ou são as recordações que ainda o afetam?
A vida quis assim, poderia dizer, mas não seria verdade. Foi minha opção o que aconteceu.
Quando tivemos o Carlinhos, achei que o mundo era nosso e que nada poderia estragar o que vivíamos. Sempre foi um ótimo pai e por várias vezes mais completo do que eu como mãe.
Nos pesadelos de nosso filho, antes que pensasse em me levantar, você estava ao lado dele, acalentando e fazendo com que dormisse outra vez.
Na vacinas ou doenças infantis era você quem o acompanhava e mesmo que insistisse em estar junto, me sentia excluída e desnecessária. No fundo, penso hoje, me acomodei deixando que fosse mãe e pai ao mesmo tempo, enquanto eu mera espectadora.
Paguei pela minha imaturidade. Quando nos separamos, ele não titubeou: quis ficar com você. Também não briguei pelo contrário, achava justo que fosse assim. Injusto só para mim.
Nunca perdoou quando avisei que ia embora e pensei que com isso, você fosse me perceber: ao inverso, olhou-me com sua frieza habitual e disse que estaria no escritório. Só exigiu que fosse sem ele: Carlinhos fica! Obedeci, é claro.
Não saí de casa para viver sozinha. Em pouco tempo eu e Marcos morávamos juntos. Quando soube, tenho a impressão de que não sentiu nada, não é de seu feitio.
Jamais me proibiu de ver nosso filho a hora em que quisesse, mas foram poucas as vezes em que esteve por perto.
Até hoje, não sei realmente se sentiu minha perda ou se teve ódio por eu estar com um de seus amigos. Sem demonstrações do que sente.
Poderia dizer que sofri com a decisão tomada, que jamais quis ir embora de verdade, que esperei muito tempo que me chamasse de volta, que não amei outro.
Depois de alguns anos, refez sua vida com outra mulher que não conhecia. Não sei se foi feliz com ela, porque não sei se é capaz de ter esse sentimento por qualquer pessoa que não seja Carlinhos.
Nosso filho se tornou homem.
Marcos morreu em um acidente de carro, quando vinha me trazer um presente e um cartão com flores, como sempre fez durante todos os anos em que comemorávamos estar juntos.
Fui feliz, só não consegui amá-lo porque nunca esqueci você.
Quando adoeceu, Carlinhos me avisou e disse a ele ter vontade de vê-lo mais uma vez.
Numa hora em que sua mulher não estava e você ficou entregue aos cuidados dele, ligou e fui até sua casa.
Dormia. Da porta do quarto fiquei olhando-o. Carlinhos saiu e me deixou sozinha. Aproximei e abaixando ao lado da cama, segurei sua mão. Com os olhos abertos, encontrou os meus. Fechou-os rapidamente.
Abri a gaveta da mesinha ao lado da cama e vi a foto antiga debaixo de alguns papéis. Observei-a por um tempo e coloquei no mesmo lugar.
Você apertava os olhos com força para que não abrissem. Beijei seu rosto e a palma de sua mão.
Espero que não se vá sem me perdoar. Eu já o perdoei.
Saio do quarto e me volto apenas uma vez. Permanece com os olhos fechados.
Não mudou nada. Nem eu mudei.
Segunda chance?
21/01/2017 | 18h48
Segunda chance?
- Tem visto a Dalvinha?
- Tenho não. A última vez em que ouvi falar dela soube que estava na rua do mercado. Sabe como é, agora não vai durar muito.
- Mas o que houve? O Damião não cuida mais dela?
- Brigaram.
- Mas isso não é novidade. Sempre brigaram e ela nunca deixou de voltar para casa e dar o dinheiro a ele
- Desta vez foi diferente. Quando ele bateu, ela revidou.
– Ela? Tão em paz...
- Tinha uma chaleira de água fervendo para o café, jogou toda nele.
- Coitado!
- Coitado nada. Há três meses ela foi parar no hospital com o braço quebrado e a cara toda arrebentada.
- Não sei como aguenta.
- Aguentava. Jogou a água e enquanto ele gritava, arrumou o pouco que tinha e fugiu.
- Se fica, acabava mal.
- Já procurou por ela em tudo que é canto. Acho que agora desistiu. Lembra da Telma?
- E como... Uma vez essa aí tentou me passar a perna com um cliente. Dei tanto na cara dela que duvido faça de novo.
- Pois é, o Damião já colocou a Telma no lugar da Dalvinha. Está toda metida achando que vai ser diferente com ela. Espera só mais uma semana ou duas.
- Esse cara não é flor que se cheire.
- Hum! Se a gente não chegar ao fim da noite com a quantia que ele acha que é o suficiente, já viu.
- Mas essa merece. Sempre foi falsa e traiçoeira. Nossa amiga não. Aquela é gente boa. Recorda quando adoeci e não pude trabalhar? Trazia comida para mim todos os dias, até que fiquei curada.
- Ela não se perdeu por gosto. Foi obrigada depois que o padrasto abusou dela algumas vezes e a mãe quando descobriu a colocou na rua.
- Eu sei. Nunca mais viu nem mesmo os irmãos. Vivia chorando pelos cantos. Quando conheceu o Damião pensou que era amor.
- Aquele sempre faz assim. Finge amar e em pouco tempo bota a garota para trabalhar para ele.
- Estava toda boba, a infeliz. Depois que tomou a primeira coça, foi que entendeu o que ele queria.
- E olha que agora está “caidaço”. Já conseguiu levar no bico três ou quatro garotas ao mesmo tempo.
A fama dele se espalhou e só pega as desavisadas vindas de outras bandas. Você sabe, o Damião gosta de sadismo. É mau, o cara.
Qualquer dia uma enfia a faca nele. Se ele só pegasse o dinheiro... Mas não, elas ainda têm que satisfazer suas maluquices.
- Já ouvi falar. A Dalva até que suportou muito.
- De vez em quando os vizinhos ouviam uns gritos de pavor. Esse aí merecia morrer. Mas dizem que vaso ruim não quebra.
- Telma agora vai pagar por tudo o que fez.
- Sei não, dizem que ela gosta. É meio biruta. Estou preocupada é com a Dalvinha lá no mercado.
- Não sabia que ela tinha ido parar lá. Agora não vai levar muito tempo. A vida no mercado é dura.
- Sem ninguém para proteger, vai acabar aparecendo morta. Nesses lugares não dá para sobreviver sem proteção.
- Talvez fosse melhor ter ficado com o Damião.
- Cruz credo! Ia acabar morrendo do mesmo jeito. Aquilo tem parte com o demo. E você, está mais sossegada?
- Entreguei a Vanda para minha mãe cuidar. É melhor com ela do que comigo nesta vida. Estou juntando dinheiro para comprar um lugar onde eu possa ficar com ela.
- Vai ser bom para vocês.
- Mas demora. Ela já está ficando crescida e eu queria sair dessa vida antes que ela começasse a entender. Tenho vergonha.
- Vergonha por quê? É dinheiro igual a qualquer outro ganho com seu trabalho.
- Você não tem filho, não entende. Queria que se orgulhasse de mim. Tenho medo que acabe nessa vida também
- Você é boba. A menina está com sua mãe, não é? Então. Ela não vai deixar acontecer de novo.
- Preciso ir, senão não consigo juntar é nada. Esse falatório todo é bom, mas não rende. Se encontrar a Dalvinha, manda me procurar. Posso tentar ajudar.
- Tudo bem, mas essa eu acho que a gente nunca mais vê.
Cândida Albernaz
O filósofo
21/01/2017 | 18h48
O filósofo
Cândida Albernaz
O posto de gasolina estava com movimento. Véspera de feriado, e muitos se encontravam na estrada.
Resolveu sentar no pequeno banco de madeira e esperar. Não sabia bem o que, mas tinha certeza de que algo aconteceria. O boné verde cobria parte da cabeça e deixava o rosto mais fino ainda. Perna cruzada e o cotovelo no joelho. A mão segurava o queixo sem necessidade.
A mãe de vez em quando implicava com ele, dizendo que tinha um filho pensador. Sempre quis saber o que tanto pensava. Na maioria das vezes, nada importante.
No momento, observava os caminhões transitando.
Desde menino era assim. Parado em frente a qualquer lugar, olhava, olhava, e no fim fazia um comentário que ninguém entendia. A mãe ria e dizia que esse garoto é muito inteligente, vai ser alguém na vida.
O pai dava um muxoxo e respondia: dá serviço a esse moleque, que ele para de falar bobagem. Não dava confiança nem para um, nem para o outro. Continuava onde estava até cansar. Cansar de pensar.
Às vezes a mãe e se reunia com as tias para um lanche e ele passava por elas: vocês deviam olhar mais ao redor. Poderiam ver o que ninguém enxerga.
- Viu só? - dizia a mãe. Ele tem uma mente privilegiada. Consegue perceber muito mais do que nós.
- Acho que esse garoto vê coisas, isso sim. Leva no centro, que Pai Antônio dá jeito nisso.
- Que centro que nada! Ele vai ser um filósofo, escrever livros, alguma coisa muito importante.
Viravam-se para ele, olhavam aquele menino magrelo e imaginavam a celebridade que se tornaria.
Aluno medíocre. Quase não tinha amigos e de vez em quando os pais eram chamados à escola por conta de notas baixas ou porque os professores estavam preocupados com a falta de comunicação dele com o resto do mundo. Avisaram que seria melhor procurar ajuda especializada.
Nessas ocasiões, chegando à casa, o pai trancava-se no quarto com ele e falava. Os olhos permaneciam fixos nos dele e quando perguntava o que tinha a dizer, respondia:
- Obrigado meu pai. Vocês não entendem como o mundo é pequeno para o tanto que há na mente.
Então o pai começava a gritar e ameaçava que no dia seguinte o matricularia numa escola de futebol. Fez isso algumas vezes e depois de quatro ou cinco aulas, o técnico praticamente desistia dele.
Na última vez chegou com um hematoma no olho.
- O que aconteceu?
- Não sei, mas isso dói.
- Claro que dói. Quero saber o que você fez.
Como não houve resposta, foi até o professor.
- Ele simplesmente no meio do jogo, segurou a bola com as duas mãos e entregou ao adversário.
- Como é que é?
- E falou que sabia o quanto o outro queria aquele objeto. E para finalizar, acrescentou: É seu! Colegas do time ficaram irritados e partiram para cima dele. Não pude evitar.
Voltando para casa, o pai avisou que não gastaria mais dinheiro com ele. Estava fora do futebol. E fora também de qualquer coisa que houvesse planejado para ele um dia.
O tempo foi escorrendo e alguns fios brancos escapavam do boné. A mãe ainda era a dona da lanchonete do posto na estrada.
Os clientes já não o provocavam para que dissesse suas frases. Com o tempo, notaram que elas se repetiam.
O pai não estava mais entre eles, portanto, não era possível ver o desgosto escancarado em seu rosto quando olhava aquele único filho que tivera.
Não percebeu que a mãe se aproximava. Puxando-o pela mão, falou que era hora do almoço. Estivera por toda a manhã naquele banco.
- Mãe?
- Sim, meu filho.
- Quando minha visão alcança o infinito, sei que ainda não acabou.
- Está bem, meu filho. Está bem. Vamos almoçar porque preciso voltar para o trabalho.
Passou a mão muito branca naquele rosto com barba por fazer.
Nos olhos que o fitavam havia melancolia e aceitação.
09/07/12
Um abraço forte
21/01/2017 | 18h48
Um abraço forte
Cândida Albernaz
Entrou no salão às oito horas. O dia prometia ser cansativo. Precisava chegar mais cedo em casa, deixou a filha com febre e a avó cuidando dela. Ainda bem que moravam perto, ela e a mãe.
Teve um sonho estranho, aliás, como a maioria deles. Costumava analisar estes sonhos quando conseguia lembrar. “Havia uma mesa redonda e nela estava o pai, que já morava com os anjos, ela, uma tia que não via há anos e seu marido, Raul. Comiam e riam muito, até que sentiu um toque em suas pernas e viu a mãe, que debruçando em seus joelhos chorava e agradecia”. O danado do sonho acabava ali, pelo menos o que recordava dele.
Não havia tempo para desvendar imagem nenhuma, portanto, ficaria para mais tarde. Uma coisa era certa, se a mãe agradeceu no final, foi bom.
Agora, o que precisava mesmo era se concentrar na unha da cliente, que naquele momento, dera um pequeno pulo na cadeira. Beliscou seu dedo com o alicate. Não machucou, foi o susto, mas não gosta quando isso acontece. Considera-se muito boa no que faz e detesta cometer falhas. Pediu desculpas e continuou.
Na hora do almoço, ligou e Raul estava com a filha. Avisou que a febre aumentara e não queria ceder. Aconselhou que a colocassem embaixo do chuveiro e fizessem compressas. O marido avisou que ia desligar e depois se falariam.
Tentou comer. Não conseguiu. A comida parecia brigar com a garganta, e esta tirava qualquer possibilidade de engolir. Deixou o pote de lado. Até a noite, sabia que ficaria em jejum. Sempre assim, nervosa, não se alimentava. Impossível.
Recordou que quando jovem, o pai adoeceu e em poucos meses se foi. Sentiu saudade tão intensa, que ficou dias sem conseguir colocar algum tipo de alimento na boca. Só parou com aquela dieta forçada, porque a mãe ameaçou interná-la. Então se obrigou a ingerir coisas líquidas ou ácidas. Era o máximo que se permitia. Até que a dor foi se acomodando em algum ponto de sua mente, deixando espaço para voltar a querer.
Outra cliente chegou e voltou para seu lugar. Fez uma, duas, cinco mãos e então olhou o relógio: dezenove horas. Fechou a maleta como estava, deixando para o dia seguinte a arrumação da mesma.
Despediu dos colegas e saiu. Começava uma chuva fina e ainda teria que andar um pouco até o ponto de ônibus. Pensou em ligar, mas o celular parecia não dar sinal.
No trajeto de volta, lembrou de quando a filha nasceu. Sentiu dores e a bolsa rompeu ainda em casa. O marido, como sempre, estava bebendo em algum bar e não havia como ser avisado. Raul saía duas vezes na semana, só voltava de madrugada e bêbado. Havia conversado, ou tentado, e ele não admitia mudar. Dizia ser homem e precisar estar com os amigos. Alem disso, mulher não tinha muito que opinar. Machista por comodidade própria. Como a maioria.
Ela teve que ser socorrida pelo vizinho que conseguiu, e pagou um táxi para levá-la ao hospital. Começara uma hemorragia e necessitou ser operada às pressas, caso contrário, colocaria em risco o bebê.
Quando Raul chegou, era uma hora da tarde do dia seguinte.
Olhou firme para ela e murmurou um desculpe. Nunca falaram sobre aquela noite, mas desde então, quando sai, cedo está de volta.
Enfim chegou. No quarto, a pequena dormia com uma máscara de oxigênio no rosto. - Precisou ficar no soro por algumas horas. Mas não te avisei porque podia resolver
sozinho. Está medicada e a febre cedeu.
Ela abaixou para beijar a filha e quando se levantou o marido a abraçou com força. Encostou a cabeça em seu ombro e ele a apertou um pouco mais.
Eram esse os momentos onde sabia ter valido a pena confiar que a vida daria certo.
03-07-2012
Alôôô...
21/01/2017 | 18h48
Alôôô...
Cândida Albernaz
- Alô.
- Oi.
- Carminha?
- Eu.
- É a Jussara. Liguei porque preciso muito falar com você.
- Oi, Ju. Nossa! Há quanto tempo não nos falamos.
- Pois é, estou ligando porque preciso...
- Menina, soube da Raquel? Separou. Está andando para cima e para baixo com um garotão. Vai acabar ganhando outro chifre, igual ao que o marido colocou nela.
- Poxa!
- Pelo menos está aproveitando. Falaram que é um gato. Mas me conta sobre você, o que anda fazendo?
- Eu...
- Soube que seu irmão esteve doente. Pneumonia, não foi? Mas graças a Deus ele já está bom, não é? Contaram que ficou internado por mais de dez dias. Desculpe não ter feito uma visita, mas você sabe como é. Os dias correm e quando espantamos não se passaram apenas dez, mas trinta dias. Tem visto a Sônia?
- Ontem ela esteve aqui em casa. Eu queria...
- Menina, ela está ótima. Fez lipo, colocou silicone, abdômen e nem sei mais o que. Viu os peitos dela? Per-fei-tos. Quero igual. Brincadeirinha, não tenho dinheiro para pagar. Porque se tivesse... Ia ficar com tudo em cima.
- Carminha?
- Fala garota. Estou com saudade de você, do nosso grupo. Afastei-me demais. Trabalho! Trabalho como uma louca e nem assim sobra um dinheirinho. Sou consumista, reconheço. Lembra daquela bolsa carésima que vimos na última vez em que saímos? Tive que comprar!. Fiquei sem dormir pensando nela. Acredita? Claro que acredita. Você me conhece mais que as outras. E sempre teve paciência comigo. Por isso é a melhor e mais querida das minhas amigas.
- Obrigada, mas quero...
- Sei que às vezes falo demais. É um defeitinho de fábrica. Quando começo, é difícil parar. Você está com o Duda ainda, ou já mandou passear? Desculpe a franqueza, mas que cara folgado você foi arrumar. Não sei como aguentou esse sujeito por tanto tempo. Fiquei sabendo que terminaram. Sofreu amiga? Não, aposto que não. Porque ele não merecia nada de você. Deu em cima da Gabi naquela festa, lembra? Eu mostrei a você. Ainda bem que ela é sua amiga e não quis conversa com ele.
- Carminha?
- Desembucha mulher. Fica repetindo meu nome, mas não diz nada. Só mais uma coisa. O Duda foi demitido realmente? Disseram-me que ele perdeu uma conta de publicidade importante e que a firma não perdoou. Colocou na rua. Também pudera. O cara é fraco mesmo, mas até que é bonitinho, não? Quer dizer, muito lindo. Usou enquanto pôde heim amiga? Só por aquele peito e aquela barriga sarada... Acho que nem eu resistiria. Mas quando um homem desses ia me dar alguma chance? Deixa para lá que tenho meus arranjos e não posso reclamar. De barriga vazia não fico. Mas você até agora não disse por que me ligou. Sempre a mesma, falando pouco, sendo paciente com todos e prestativa. Sabia que o som da sua voz me acalma? Sempre foi assim.
- Carminha? Pela última vez...
- Fala mulher.
- Vou me casar e liguei para convidar você para ser minha madrinha...
- Poxa, amiga. Nem conheço seu noivo. Faz tempo mesmo que não nos vemos.
- Duda, Carminha. O meu noivo é o Duda.
- Mas...
- E não me importa sua opinião sobre ele. Só não sei se vai aceitar, já que não gosta dele...
- Como assim, Ju? Sempre adorei o Duda. As pessoas é que falam demais. Estava apenas repetindo.
- Sei.
- Não se zangue amiga. O Duda é tudo de bom e você vai ser muito feliz. Eu aceito. Sabe há quanto tempo não sou madrinha de casamento?
-...
- Nunca fui. É, acho que nunca. Obrigada amiga. Amo você, amo o Duda e vou amar cada um dos quatro filhos que tiverem.
- Quatro?
- Brincadeira, é claro. Só uma pergunta. Ju, você não esta grávida, está? Pode confiar em mim.
Uma questão de tempo
21/01/2017 | 18h48
Uma questão de tempo
Cândida Albernaz
Chegara a noite mais uma vez. Concordava que devia desistir, mas a mente ainda não obedecia.
Aguardava que mudasse de idéia e ligasse, ou quem sabe aparecesse ali.
Era certo que não aconteceria, mas esse certo vinha acompanhado de restos de esperança e então, ainda esperava.
Olhou o celular mais uma vez, e não, não havia qualquer mensagem ou chamada perdida. Seria impossível que houvesse, já que mesmo durante o banho não tirava os olhos do aparelho.
Colocou um pouco de água para ferver. Faria um café. Não sabia se era uma boa idéia, mas havia o vício do líquido quente e preto.
Também aquela relação se transformara em vício, porque não havia outra explicação para que tivesse sobrevivido por tanto tempo. Mal se falavam e quando acontecia, discutiam. Duvidavam de traições possíveis e reais. O desejo se perdera, sobrando as quase-obrigações. E os beijos, estes se tornaram melosos e raros.
Por que então ainda insistia? Talvez por imaginar que poderia ser diferente o que um dia fora diferente. Talvez por ter se acostumado com um sofrer que já era um conhecido seu. Medo de se soltar de grilhões que lhe prendiam e com os quais se habituara.
Sentou no sofá onde agora sobrava espaço. Mentira! Já não se sentavam juntos na mesma cadeira havia muito. Cada um com sua televisão, com o controle nas mãos, com vontades diferentes. Cansados enfim de olhar para o lado em vez de um para o outro. Então procuravam lugares próprios onde não necessitavam se esforçar para demonstrar o que não existia mais.
Sabia que devia sentir alívio com a decisão tomada, mas sem entender porque, não conseguia. Ainda não.
Colocou um pouco de uísque no copo e virou num só gole. O gosto forte provocou uma careta e um sorriso. Sempre acontecia isso no primeiro gole. Quase como uma mania: careta e sorriso.
Lembrou que não sorria muito ultimamente. Lembrou também que havia um programa na televisão àquele horário que gostava de assistir. E rir com ele. E riu de novo. Colocou os pés sobre a mesinha e ainda rindo deixou-se esquecer.
O telefone tocou e não se recordou que esperava uma ligação. Atendeu e conversou por instantes combinando fazer alguma coisa no dia seguinte.
No relógio viu que era tarde. Teria que chegar cedo ao trabalho. Melhor dormir.
Percebeu que o sono não demoraria. Uma sensação de bem estar dominou seu corpo.
Pensou que talvez doesse por um tempo. Pouco tempo.
Nunca suportou vícios mesmo.
Teve a certeza de que poderia viver sem.
18/06/2012
Só quero poder desistir
21/01/2017 | 18h48
Só quero poder desistir
Cândida Albernaz
Com a arma na mão só me faz perguntar o por quê. Os olhos mal se fixam em mim quando fala. Não quero entender o que sua boca diz, porque não parece ser você falando.
Tivemos momentos de ternura apesar de tudo e mesmo agora, em alguns deles, me olha do mesmo jeito. Tenta me tocar e retraio. Sinto o corpo tenso diante dessa aproximação e isso o irrita. Não posso agir diferente. Estou assustada.
Quando nos vimos pela primeira vez, o que mais chamou a atenção foi seu jeito quieto e meio tímido. Estava com amigos e enquanto todos riam por algum comentário que fizeram, você não tirava os olhos de mim. Logo pude perceber que a impressão que tive sobre uma possível timidez não era real.
Na primeira semana mandou flores, quis conhecer meus pais e falou que vinha me observando há algum tempo: eu era a garota de sua vida.
Mamãe gostou do jeito educado e reservado como se comportava. Papai, ao contrário, detestou a idéia de ver sua menina com um cara mais velho e “entrão”. Tem vinte e seis anos e eu dezesseis. Estava feliz da vida com a atenção que me dava.
Namoramos por alguns meses onde tudo parecia perfeito. Nas férias, quando decidimos ir para a praia, o que fazíamos todos os anos, você não gostou. Não podia nos acompanhar, a não ser nos finais de semana, porque trabalhava numa agência de automóveis e não tinha os dias livres. Conversamos a respeito e quando falei que não poderia ficar, proibiu que eu fosse. Argumentei que não era bem assim e tinha que segui-los. Não quis ouvir.
Em casa arrumei a maior confusão, mas não adiantou: não cederam.
Durante o sábado e domingo brigamos e quando confirmei que continuaria ali, recebi um tapa no rosto, para em seguida se mostrar arrependido. Não comentei sobre isso com ninguém.
Quando terminou o verão, com discussões constantes e outros tapas, eu não tinha mais certeza de seu amor.
Ficamos juntos por mais três meses, até que um dia papai entrando na sala, viu quando me empurrou fazendo com que caísse no chão. O rosto ainda conservava a marca de sua mão. Ele avançou enquanto você pedia desculpas e chorava, e o colocou para fora de casa.
Mandou flores, escreveu cartas, tentou falar comigo na escola, onde meu pai estava sempre presente, na entrada e na saída, mas eu não queria mais. Precisava que alguém me ajudasse a decidir e foi o que eles fizeram.
Depois de cinco meses voltei à vida normal. Você parecia ter desistido: engano, claro.
Dentro do carro, onde fui obrigada a entrar, choro e peço que me esqueça. Mas a cada vez que falo, a raiva parece aumentar. De vez em quando toca meu rosto com carinho e fala sobre o amor que sente. Quase implora para que eu sinta o mesmo. A cada toque seu, o medo aumenta e o ódio que demonstra também.
Você chora, ri, xinga e ameaça ao mesmo tempo.
Tento dizer que está tudo bem, vamos ficar juntos, casar e ter filhos como você quer. Agora diz que não acredita, que estou mentindo, que sou mentirosa e safada e que não ficaria comigo nem mesmo se fosse a última das mulheres: filho dele não ia nascer da barriga de uma qualquer.
Choro enquanto encosta a arma na minha cabeça.
Ouço um barulho e o tiro me acerta o braço. Não consigo entender o que está acontecendo, mas você é puxado para fora do carro e o revólver dispara por mais duas vezes.
Vejo o rosto de papai, que desconfiado por estar demorando, saiu a minha procura.
No chão você foi imobilizado. Pessoas se aproximam e a polícia chega.
Enquanto se afasta volta à cabeça e olha. Consigo ler o que seus olhos falam.
Não vai ficar lá por muito tempo e não desistirá.
De volta para casa
21/01/2017 | 18h48
De volta para casa
A viagem ia ser longa. O caminhão pequeno que conseguiu emprestado com o dono da quitanda estava abarrotado de coisas.
Os poucos móveis e utensílios da casa foram arrumados na carroceria de modo que ainda coubessem os dois garotos. Silas na ponta do colchonete e Serginho, sentado dentro da bacia de alumínio.
Nilo dirigia sem falar, a testa enrugada demonstrava preocupação. Ao lado Teresa ia quieta, olhando-o e de vez em quando, secando o canto dos olhos onde lágrimas teimavam em surgir.
Ontem quando chegou à casa depois de ter procurado por emprego o dia todo, encontrou a mulher na calçada, em meio aos poucos móveis que possuíam. Estava sentada na cadeira e os dois filhos, em pé atrás da mãe como a protegê-la.
Já haviam recebido o aviso de despejo, mas achava que conseguiria alguma coisa antes que este dia chegasse.
Aproximou-se deles e avisou que passaria na quitanda para falar com seu Francisco.
Quando voltou, dirigia um caminhão e começou a colocar o que estava na rua dentro dele.
Viviam na vizinhança há pouco e só fizeram amizade com o quitandeiro e a mulher, que era religiosa como a sua. Nos últimos tempos não tinham muito o que comer e ela aparecia trazendo comida quentinha, repetindo que errara a mão outra vez fazendo uma quantidade maior do que precisavam, ... e para não desperdiçar, trouxe para vocês.
Minha mulher agradecia e vez ou outra a ajudava na limpeza da casa.
Teresa era uma guerreira. Nunca falei isso para ela, não sou de muitos afagos, mas já sofreu nessa vida. Era professora quando a conheci. Depois que nos casamos não permiti que ela trabalhasse: “Mulher minha não trabalha”.
Tirei-a da casa dos pais aos dezoito anos. Quando tivemos nosso primeiro filho, o Silas, a mãe havia morrido há pouco e não teve quem a ajudasse. Eu trabalhava o dia inteiro e ela ali, cuidando da casa e do filho sozinha. Silas não foi um bebê com muita saúde e por muitas vezes, ficou dias e noites seguidas sem dormir.
Alguns anos depois, saímos da cidade em que nascemos e viemos para o Rio. No início foi bom. Empregado, ganhava direitinho e nossa casa era ajeitada. Quando perdi esse trabalho, e colocaram um parente deles no meu lugar, é que as coisas foram piorando.
Nesta época nasceu o Serginho, que agora está com dez anos. Foi um período ruim, até que consegui trabalho de novo. Fiquei quatro anos na firma. Diziam gostar do meu serviço mas me demitiram assim mesmo. Fui perguntar o porquê. Contenção de despesas, responderam. Já tinha visto vários colegas irem para a rua pelo mesmo motivo.
Depois fiquei pulando de emprego em emprego. Sempre a mesma história de contenção. Acho que é a palavra que mais odeio.
Agora estamos aqui neste caminhão, voltando para nossa cidade.
Tem uma casinha no mesmo terreno do meu sogro e estamos de mudança para lá.
Ele disse que a casa não está em muito bom estado, mas a gente dá um jeito.
Teresa ainda não sabe, mas quando for entregar o caminhão de seu Francisco, não volto. Como vou poder viver do favor do pai dela? Quando saiu dali novinha, era cheia de esperança. Agora trago a filha dele de volta, sofrida e com aquele olhar sem brilho como uma velha, apesar de ainda não ter feito trinta e um anos.
Vou ajeitar o que puder em dois dias e volto. Seu Francisco ficou de me arranjar qualquer coisa até conseguir algo melhor.
O sogro vai cuidar deles, não vai deixar a filha e os netos passarem fome.
Pronto, chegamos! O velho estava no portão. Abraçou Teresa, as crianças e mal me fitou. Sabia bem o que ele pensava. Eu era um incompetente que não tinha capacidade de criar os meus. Também não falei nada. Nem tinha o que falar.
Entrando em casa, vi minha mulher sorrir como há muito tempo não fazia. Recordações, acredito. Foi direto para a cozinha enquanto descarregávamos a mudança e quando terminamos, tinha comida quentinha colocada na mesa.
Depois de lavarmos as mãos, sentamos e o pai dela evitando me encarar, começou:
- Sabe de uma coisa Nilo, estive pensando nesses anos todos em que vivi aqui sozinho, cuidando do armarinho e da casa, sem minha única filha e sem a mulher, que se foi muito cedo. Sempre quis netos por perto e mal os vi crescer. Estou velho, cansado e preciso que alguém ajude na loja. Achei que talvez você pudesse...
A mão de Teresa sobre a minha fez uma pequena pressão. Levantei o rosto e vi em seus olhos um brilho que a tornava mais jovem e me trazia o rosto antigo, da época em que a conheci.
Não sabia o que dizer. Tinha orgulho e não queria depender dele. Falei que pensaria.
Dois dias depois, já no caminhão, ainda não havia dado nenhuma resposta.
Despedi dos meninos e de minha mulher. Eles não imaginavam que talvez demorássemos a nos ver de novo.
Fazia a manobra para virar a esquina, quando o pai de Teresa surgiu na frente. Veio até a janela do carro:
- Sei o que está planejando. Sou um velho chucro que só viveu no interior, mas também sou homem. Conheço nosso orgulho e até onde ele pode nos levar. Não estou lhe oferecendo ajuda. Eu preciso que me auxilie, pois estou cansado. Não faça o que está imaginando. Coloquei no bolso de sua calça, esta noite, o dinheiro da passagem de volta. Não seja tonto. Sua mulher e seus filhos precisam de você.
Em seguida deu-me as costas, dirigindo-se para casa.
Durante o caminho de volta, coloquei a mão no bolso da calça e senti o pequeno volume. Veio-me um sorriso. Talvez não precisasse realmente ficar longe da Teresa e dos garotos...
Cândida Albernaz
Nem todas as palavras
21/01/2017 | 18h47
Nem todas as palavras.
Cândida Albernaz
No silêncio que ela mesma provoca, sente a dor que a machucou e vê a impossibilidade de pedir socorro. Nunca soube fazê-lo. Não quer dar respostas ou fazer perguntas. Não mais.
Sua mente discute sem parar, mal pode ouvir o que se passa em volta. Chora por dentro o que não consegue externar. Este, o choro, a deixa exposta.
Necessita estar quieta com os medos que absorve.
Nem todas as palavras precisam ser pronunciadas. Nem tudo o que querem dizer deve ser escutado. Elas podem ferir e feridas provocam cicatrizes e estas muitas vezes são lentas para fechar. Por isso se encolhe como uma concha e se esconde (dela mesma?) do olhar que busca entender. Só não tem a casca dura como proteção. Sensível a toques, à respiração quente, à vontades, permite que seja seduzida por instantes. É bom se deixar ir com leveza. A cabeça respondendo apenas ao que o corpo pede e ele exige e ele quer tudo. O instante se prolonga e naquele período imenso, consegue somente querer mais.
Infelizmente volta ao chão. Pés presos novamente.
Esquecer poderia ser fácil. Nunca o é.
Se escuta o que o que foi dito, não há como fingir que não.
O tempo é seu amigo. Leva para bem longe a angústia. Que vem e vai e vem e vai... Leva a esperança também. Para tão distante que algumas vezes não é possível voltar a acreditar.
Não ficará assim, porque sempre quis mais. Sempre não. Houve uma época em que querer era inútil, então simplesmente deixava para lá.
Hoje é diferente. Sabe o que deseja. Rir. Rir muito. De tudo ou quase. Com os dentes, com a boca, com os olhos, com o corpo. Quando consegue sorrir inteira é porque está em paz. Procura com força esse sentimento de serenidade.
Jogar-se de uma janela e sem peso algum, flutuar. Olhar de cima e enxergar como o dia a dia pode ser minúsculo. Voando com asas que agora possui. No meio das nuvens atrapalha-se, mas são tão poucas que logo as atravessa. E o dia e o sol e o céu estão claros.
Não julgou que fosse possível. Voar.
Sempre julgou que fosse possível. Voar.
E bem do alto, percebe que está segura novamente e as frases que a assustavam, não a provocam mais.
Então se enrosca no meio de lençóis, num quarto na penumbra e fecha os olhos.
Quando estiverem abertos pela manhã, o dia teimoso romperá a cortina e estará pronta.
Seguirá em frente. Mesmo que novas palavras sejam ditas.
22-05-2012
Sobre o autor
Candida Albernaz
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