Uma questão de tempo
candida 21/06/2012 11:05
Uma questão de tempo Cândida Albernaz Chegara a noite mais uma vez. Concordava que devia desistir, mas a mente ainda não obedecia. Aguardava que mudasse de idéia e ligasse, ou quem sabe aparecesse ali. Era certo que não aconteceria, mas esse certo vinha acompanhado de restos de esperança e então, ainda esperava. Olhou o celular mais uma vez, e não, não havia qualquer mensagem ou chamada perdida. Seria impossível que houvesse, já que mesmo durante o banho não tirava os olhos do aparelho. Colocou um pouco de água para ferver. Faria um café. Não sabia se era uma boa idéia, mas havia o vício do líquido quente e preto. Também aquela relação se transformara em vício, porque não havia outra explicação para que tivesse sobrevivido por tanto tempo. Mal se falavam e quando acontecia, discutiam. Duvidavam de traições possíveis e reais. O desejo se perdera, sobrando as quase-obrigações.  E os beijos, estes se tornaram melosos e raros. Por que então ainda insistia? Talvez por imaginar que poderia ser diferente o que um dia fora diferente. Talvez por ter se acostumado com um sofrer que já era um conhecido seu. Medo de se soltar de grilhões que lhe prendiam e com os quais se habituara. Sentou no sofá onde agora sobrava espaço. Mentira! Já não se sentavam juntos na mesma cadeira havia muito. Cada um com sua televisão, com o controle nas mãos, com vontades diferentes. Cansados enfim de olhar para o lado em vez de um para o outro. Então procuravam lugares próprios onde não necessitavam se esforçar para demonstrar o que não existia mais. Sabia que devia sentir alívio com a decisão tomada, mas sem entender porque, não conseguia. Ainda não. Colocou um pouco de uísque no copo e virou num só gole. O gosto forte provocou uma careta e um sorriso. Sempre acontecia isso no primeiro gole. Quase como uma mania: careta e sorriso. Lembrou que não sorria muito ultimamente. Lembrou também que havia um programa na televisão àquele horário que gostava de assistir. E rir com ele. E riu de novo. Colocou os pés sobre a mesinha e ainda rindo deixou-se esquecer. O telefone tocou e não se recordou que esperava uma ligação. Atendeu e conversou por instantes combinando fazer alguma coisa no dia seguinte. No relógio viu que era tarde. Teria que chegar cedo ao trabalho. Melhor dormir. Percebeu que o sono não demoraria. Uma sensação de bem estar dominou seu corpo. Pensou que talvez doesse por um tempo. Pouco tempo. Nunca suportou vícios mesmo. Teve a certeza de que poderia viver sem. 18/06/2012

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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