Uma questão de tempo
Uma questão de tempo
Cândida Albernaz
Chegara a noite mais uma vez. Concordava que devia desistir, mas a mente ainda não obedecia.
Aguardava que mudasse de idéia e ligasse, ou quem sabe aparecesse ali.
Era certo que não aconteceria, mas esse certo vinha acompanhado de restos de esperança e então, ainda esperava.
Olhou o celular mais uma vez, e não, não havia qualquer mensagem ou chamada perdida. Seria impossível que houvesse, já que mesmo durante o banho não tirava os olhos do aparelho.
Colocou um pouco de água para ferver. Faria um café. Não sabia se era uma boa idéia, mas havia o vício do líquido quente e preto.
Também aquela relação se transformara em vício, porque não havia outra explicação para que tivesse sobrevivido por tanto tempo. Mal se falavam e quando acontecia, discutiam. Duvidavam de traições possíveis e reais. O desejo se perdera, sobrando as quase-obrigações. E os beijos, estes se tornaram melosos e raros.
Por que então ainda insistia? Talvez por imaginar que poderia ser diferente o que um dia fora diferente. Talvez por ter se acostumado com um sofrer que já era um conhecido seu. Medo de se soltar de grilhões que lhe prendiam e com os quais se habituara.
Sentou no sofá onde agora sobrava espaço. Mentira! Já não se sentavam juntos na mesma cadeira havia muito. Cada um com sua televisão, com o controle nas mãos, com vontades diferentes. Cansados enfim de olhar para o lado em vez de um para o outro. Então procuravam lugares próprios onde não necessitavam se esforçar para demonstrar o que não existia mais.
Sabia que devia sentir alívio com a decisão tomada, mas sem entender porque, não conseguia. Ainda não.
Colocou um pouco de uísque no copo e virou num só gole. O gosto forte provocou uma careta e um sorriso. Sempre acontecia isso no primeiro gole. Quase como uma mania: careta e sorriso.
Lembrou que não sorria muito ultimamente. Lembrou também que havia um programa na televisão àquele horário que gostava de assistir. E rir com ele. E riu de novo. Colocou os pés sobre a mesinha e ainda rindo deixou-se esquecer.
O telefone tocou e não se recordou que esperava uma ligação. Atendeu e conversou por instantes combinando fazer alguma coisa no dia seguinte.
No relógio viu que era tarde. Teria que chegar cedo ao trabalho. Melhor dormir.
Percebeu que o sono não demoraria. Uma sensação de bem estar dominou seu corpo.
Pensou que talvez doesse por um tempo. Pouco tempo.
Nunca suportou vícios mesmo.
Teve a certeza de que poderia viver sem.
18/06/2012