Acreditar
candida 15/08/2012 22:10
Acreditar Cândida Albernaz Ele olhou para um lado, para o outro e indeciso parou. Na verdade não importava para onde iria. Não naquele momento. Tomara decisões demais e agora resolveu caminhar. Parou numa esquina sem saber o que fazer. Pensou em como se sentia ridículo estacionado feito um poste na rua. Passou a mão no cabelo e recomeçou a andar. À sua frente havia uma igreja e sem saber o porquê, teve vontade de entrar. Foi o que fez. Se a mulher o visse agora, não esconderia a cara de espanto. Ele não tinha religião e se impacientava quando ela insistia para que fosse à missa. Não sabia exatamente em que acreditava, mas não dava conversa para crenças, orações ou vida após a morte. Para ele tudo tinha fim. Vive-se, morre e pronto. Por isso mesmo costumava aproveitar cada minuto do tempo que possuía. Ali dentro o silêncio era absoluto. Observou as imagens que mostravam uma expressão de serenidade. Sentou num dos bancos e analisou detalhes. Os vitrais coloridos por onde o sol passava desenhando estranhas sombras no chão, o altar com toalhas brancas e flores na mesma cor, e o principal para ele, a quietude. Precisava disso. Cuidara de tudo de forma prática, talvez rápido demais. Não havia como ser diferente. Nunca vira antes sua mulher tão abatida. Chorava sem parar. Tentou que tomasse um comprimido para acalmar, mas virou-se para ele com tal horror, que imaginou estivesse oferecendo veneno. Nada a tranquilizava. Então, depois de finalizado, precisou sair um pouco para que ele próprio pudesse respirar. Não houve tempo de entender o que sentia. Assistiam a um filme na sala, ele e a mulher, quando o telefone tocou. Levantou para atender e do outro lado ouviu desculpas pela notícia que era obrigado a transmitir, mas precisava ir depressa ao hospital. O filho sofrera um acidente. Pediu à mulher que trocasse de roupa, pois sairiam. Ela perguntou para onde. Otávio está no hospital. Precisamos ir até lá. Notou que os olhos dela encheram de água e pelo que recorda não os viu secos até a hora em que saiu de casa, há pouco. Levaram os dois para o leito onde Otávio estava. Não era hábito, mas um amigo, médico do centro de tratamento intensivo, fez com que entrassem. Virando-se para ele, ouviu um novo pedido de desculpas e um balançar de cabeça em sinal negativo. O rapaz tinha os olhos abertos. A cabeça enfaixada, e pernas, braços, sem qualquer movimento. Tubos e fios pareciam extensão de seu corpo magro. Vinte minutos, o tempo que ficaram ao seu lado. Em seguida, foram retirados dali, porque ele apresentou uma convulsão e outra e outra. No final da noite, já não estava entre eles. Agiu o que foi necessário, caixão, local para que o corpo - seu filho transformara-se em um corpo - fosse enterrado, delegacia, liberação do que sobrara do carro e não se lembrava mais do quê. Não dormia desde o dia anterior. A sogra e a cunhada estavam em sua casa. Ele então saiu. Estava ali dentro há algum tempo e não entrara ninguém. Foi abaixando até que ficou deitado no banco de madeira. De lado, o corpo encolhido, colocou as duas mãos sob o rosto. Sentiu certo torpor. Não haveria problema se dormisse um pouco. Sonhou com o filho, que deitado às suas costas, abraçou-o enquanto sussurrava: pai, estarei sempre onde me procurar. Uma lágrima escorreu caindo na palma de sua mão. 13/08/12  

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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