Segunda chance?
candida 27/07/2012 00:58
Segunda chance?   - Tem visto a Dalvinha? - Tenho não. A última vez em que ouvi falar dela soube que estava na rua do mercado. Sabe como é, agora não vai durar muito. - Mas o que houve? O Damião não cuida mais dela? - Brigaram. - Mas isso não é novidade. Sempre brigaram e ela nunca deixou de voltar para casa e dar o dinheiro a ele - Desta vez foi diferente. Quando ele bateu, ela revidou. – Ela? Tão em paz... - Tinha uma chaleira de água fervendo para o café, jogou toda nele. - Coitado! - Coitado nada. Há três meses ela foi parar no hospital com o braço quebrado e a cara toda arrebentada. - Não sei como aguenta. - Aguentava. Jogou a água e enquanto ele gritava, arrumou o pouco que tinha e fugiu. - Se fica, acabava mal. - Já procurou por ela em tudo que é canto. Acho que agora desistiu. Lembra da Telma? - E como... Uma vez essa aí tentou me passar a perna com um cliente. Dei tanto na cara dela que duvido faça de novo. - Pois é, o Damião já colocou a Telma no lugar da Dalvinha. Está toda metida achando que vai ser diferente com ela. Espera só mais uma semana ou duas. - Esse cara não é flor que se cheire. - Hum! Se a gente não chegar ao fim da noite com a quantia que ele acha que é o suficiente, já viu. - Mas essa merece. Sempre foi falsa e traiçoeira. Nossa amiga não. Aquela é gente boa. Recorda quando adoeci e não pude trabalhar? Trazia comida para mim todos os dias, até que fiquei curada. - Ela não se perdeu por gosto. Foi obrigada depois que o padrasto abusou dela algumas vezes e a mãe quando descobriu a colocou na rua. - Eu sei. Nunca mais viu nem mesmo os irmãos. Vivia chorando pelos cantos. Quando conheceu o Damião pensou que era amor. - Aquele sempre faz assim. Finge amar e em pouco tempo bota a garota para trabalhar para ele. - Estava toda boba, a infeliz. Depois que tomou a primeira coça, foi que entendeu o que ele queria. - E olha que agora está “caidaço”. Já conseguiu levar no bico três ou quatro garotas ao mesmo tempo. A fama dele se espalhou e só pega as desavisadas vindas de outras bandas. Você sabe, o Damião gosta de sadismo. É mau, o cara. Qualquer dia uma enfia a faca nele. Se ele só pegasse o dinheiro... Mas não, elas ainda têm que satisfazer suas maluquices. - Já ouvi falar. A Dalva até que suportou muito. - De vez em quando os vizinhos ouviam uns gritos de pavor. Esse aí merecia morrer. Mas dizem que vaso ruim não quebra. - Telma agora vai pagar por tudo o que fez. - Sei não, dizem que ela gosta. É meio biruta. Estou preocupada é com a Dalvinha lá no mercado. - Não sabia que ela tinha ido parar lá. Agora não vai levar muito tempo. A vida no mercado é dura. - Sem ninguém para proteger, vai acabar aparecendo morta. Nesses lugares não dá para sobreviver sem proteção. - Talvez fosse melhor ter ficado com o Damião. - Cruz credo! Ia acabar morrendo do mesmo jeito. Aquilo tem parte com o demo. E você, está mais sossegada? - Entreguei a Vanda para minha mãe cuidar. É melhor com ela do que comigo nesta vida. Estou juntando dinheiro para comprar um lugar onde eu possa ficar com ela. - Vai ser bom para vocês. - Mas demora. Ela já está ficando crescida e eu queria sair dessa vida antes que ela começasse a entender. Tenho vergonha. - Vergonha por quê? É dinheiro igual a qualquer outro ganho com seu trabalho. - Você não tem filho, não entende. Queria que se orgulhasse de mim. Tenho medo que acabe nessa vida também - Você é boba. A menina está com sua mãe, não é? Então. Ela não vai deixar acontecer de novo. - Preciso ir, senão não consigo juntar é nada. Esse falatório todo é bom, mas não rende. Se encontrar a Dalvinha, manda me procurar. Posso tentar ajudar. - Tudo bem, mas essa eu acho que a gente nunca mais vê.   Cândida Albernaz

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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