Segunda chance?
Segunda chance?
- Tem visto a Dalvinha?
- Tenho não. A última vez em que ouvi falar dela soube que estava na rua do mercado. Sabe como é, agora não vai durar muito.
- Mas o que houve? O Damião não cuida mais dela?
- Brigaram.
- Mas isso não é novidade. Sempre brigaram e ela nunca deixou de voltar para casa e dar o dinheiro a ele
- Desta vez foi diferente. Quando ele bateu, ela revidou.
– Ela? Tão em paz...
- Tinha uma chaleira de água fervendo para o café, jogou toda nele.
- Coitado!
- Coitado nada. Há três meses ela foi parar no hospital com o braço quebrado e a cara toda arrebentada.
- Não sei como aguenta.
- Aguentava. Jogou a água e enquanto ele gritava, arrumou o pouco que tinha e fugiu.
- Se fica, acabava mal.
- Já procurou por ela em tudo que é canto. Acho que agora desistiu. Lembra da Telma?
- E como... Uma vez essa aí tentou me passar a perna com um cliente. Dei tanto na cara dela que duvido faça de novo.
- Pois é, o Damião já colocou a Telma no lugar da Dalvinha. Está toda metida achando que vai ser diferente com ela. Espera só mais uma semana ou duas.
- Esse cara não é flor que se cheire.
- Hum! Se a gente não chegar ao fim da noite com a quantia que ele acha que é o suficiente, já viu.
- Mas essa merece. Sempre foi falsa e traiçoeira. Nossa amiga não. Aquela é gente boa. Recorda quando adoeci e não pude trabalhar? Trazia comida para mim todos os dias, até que fiquei curada.
- Ela não se perdeu por gosto. Foi obrigada depois que o padrasto abusou dela algumas vezes e a mãe quando descobriu a colocou na rua.
- Eu sei. Nunca mais viu nem mesmo os irmãos. Vivia chorando pelos cantos. Quando conheceu o Damião pensou que era amor.
- Aquele sempre faz assim. Finge amar e em pouco tempo bota a garota para trabalhar para ele.
- Estava toda boba, a infeliz. Depois que tomou a primeira coça, foi que entendeu o que ele queria.
- E olha que agora está “caidaço”. Já conseguiu levar no bico três ou quatro garotas ao mesmo tempo.
A fama dele se espalhou e só pega as desavisadas vindas de outras bandas. Você sabe, o Damião gosta de sadismo. É mau, o cara.
Qualquer dia uma enfia a faca nele. Se ele só pegasse o dinheiro... Mas não, elas ainda têm que satisfazer suas maluquices.
- Já ouvi falar. A Dalva até que suportou muito.
- De vez em quando os vizinhos ouviam uns gritos de pavor. Esse aí merecia morrer. Mas dizem que vaso ruim não quebra.
- Telma agora vai pagar por tudo o que fez.
- Sei não, dizem que ela gosta. É meio biruta. Estou preocupada é com a Dalvinha lá no mercado.
- Não sabia que ela tinha ido parar lá. Agora não vai levar muito tempo. A vida no mercado é dura.
- Sem ninguém para proteger, vai acabar aparecendo morta. Nesses lugares não dá para sobreviver sem proteção.
- Talvez fosse melhor ter ficado com o Damião.
- Cruz credo! Ia acabar morrendo do mesmo jeito. Aquilo tem parte com o demo. E você, está mais sossegada?
- Entreguei a Vanda para minha mãe cuidar. É melhor com ela do que comigo nesta vida. Estou juntando dinheiro para comprar um lugar onde eu possa ficar com ela.
- Vai ser bom para vocês.
- Mas demora. Ela já está ficando crescida e eu queria sair dessa vida antes que ela começasse a entender. Tenho vergonha.
- Vergonha por quê? É dinheiro igual a qualquer outro ganho com seu trabalho.
- Você não tem filho, não entende. Queria que se orgulhasse de mim. Tenho medo que acabe nessa vida também
- Você é boba. A menina está com sua mãe, não é? Então. Ela não vai deixar acontecer de novo.
- Preciso ir, senão não consigo juntar é nada. Esse falatório todo é bom, mas não rende. Se encontrar a Dalvinha, manda me procurar. Posso tentar ajudar.
- Tudo bem, mas essa eu acho que a gente nunca mais vê.
Cândida Albernaz